Month: Dezembro, 2009

Eles comem tudo e não deixam nada…

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(Na fotografia o papá da prodigiosa assessora profissional)

«Um acontecimento de hoje que diz muito sobre o estado a que Portugal chegou.
Na Assembleia da República, PS e PSD concordaram em apresentar o nome de Catarina Sarmento e Castro para substituir Mário Torres no Tribunal Constitucional.
É o costume, os dois partidos escolhem sempre por acordo quem vão nomear para “juiz do Tribunal Constitucional” (e podemos estar certos que gostariam de proceder assim em relação a todos os tribunais, mas ainda não se chegou a tanto).
Todavia, posto o nome a votação, a Catarina Sarmento e Castro falhou por cinco votos a eleição para juíza do Tribunal Constitucional. Alguns deputados devem ter sentido que isto é demais, mesmo para os critérios mais elásticos.
A candidata proposta pelo PS e PSD reuniu 139 votos, mas teve 67 votos em branco e 10 nulos, num universo de 216 votantes. Como são precisos dois terços, a eleição falhou.
Não há problema: o PS e o PSD, através dos seus chefes dos grupos parlamentares, já anunciaram que vão repetir a proposta. E certamente à segunda vai dar certo, como acontece nos referendos que correm mal à primeira vez, porque lá terão que ir votar pela trela os deputados agora relapsos ou faltosos.
A jovem Catarina Teresa Rola Sarmento e Castro é filha de Osvaldo Castro, deputado socialista e presidente da comissão parlamentar de Assuntos Constitucionais, e é assistente de Direito na Universidade de Coimbra.
Como curriculum, temos que a candidata foi assessora do Ministério da Administração Interna, integrou a Comissão Nacional de Protecção de Dados, foi assessora do gabinete do Presidente do Tribunal Constitucional e assessora da secretaria de Estado da Modernização Administrativa. Como se pode ver, tudo cargos a que habitualmente se chega por mérito – ao menos o mérito de ser filho da pessoa certa e do partido certo para ser nomeado para eles.
É verdade que o Tribunal Constitucional não merece grande respeito, mas ninguém esperaria que os próprios políticos tivessem tão pouca consideração por esse albergue que construiram para os seus eleitos. Ao menos as aparências, caramba!»

Via Terra Portuguesa

A mesma música de sempre…

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«Sente-se primeiro. Esfregue bem os olhos. Agora leia: a banca de investimento está a ter os melhores lucros de sempre. Já se beliscou? Sim, não é um sonho. Mas pode ser o princípio de um pesadelo.

É difícil acreditar, mas vários dos maiores bancos de investimento do mundo estão a anunciar resultados recorde e já garantiram que 2009 vai mesmo ser o melhor ano de sempre. (…)

Várias razões explicam este desempenho, começando pela subida da Bolsa desde Março, que valorizou carteiras e disparou transacções e comissões daqueles que as intermedeiam. Mais: esta crise foi resolvida com dívida dos Estados, que foi colocada e aconselhada… pela banca de investimento. E são agora menos os actores para dividir o quinhão. A mesma banca tratará dos refinanciamentos e das colocações privadas, que já se reproduzem. Sobretudo: enquanto as taxas directoras a que os bancos centrais financiaram os bancos desceram para níveis recorde, os “spreads” que estes bancos cobram aos clientes dispararam. A diferença entre uma coisa e a outra foi lucro e tem servido de mata-borrão para absorver o lixo tóxico que cirandava nos balanços.

É o terceiro choque que recebemos da banca de investimento em três anos: há dois anos conhecemos-lhes as malvadezes da inovação financeira; há um ano vimo-los falir; este ano surpreendem-nos com os seus lucros. Não se lhes deseja outra sorte, mas as promessas de que a banca de investimento ia mudar para sempre eram dramas da mesma novela em que se aniquilam os “offshores”. Dois anos depois, mudou mesmo algo?(…)

…a banca de investimento, que arrastou o mundo para uma crise apocalíptica; que explicou que era grande de mais para falir, o que era verdade; que obrigou os contribuintes americanos, japoneses, europeus a endividarem os seus próprios filhos; essa banca continua no seu “halloween” de “doce ou travessura”. Ou recebe dinheiro ou rebenta com as economias.(…)»

Pedro Santos Guerreiro, no Jornal de Negócios, 9 de Novembro de 2009

Pistas para a desglobalização

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Pistas para a desglobalização

O modelo de desglobalização assenta em onze pontos-chave:

1– O centro de gravidade da economia deve ser a produção destinada ao mercado interno e não à exportação;

2- O princípio de subsidiariedade deve ser inscrito na via económica através de incitações a produzir os bens à escala local ou nacional na medida em que isso possa ser feito a custos razoáveis, afim de proteger a comunidade;

3- A política comercial (dito de outra forma, as quotas e barreiras aduaneiras) deve ter por finalidade proteger a economia local contra as importações de matérias-primas subvencionadas a preços artificialmente baixos;

4– A política industrial (que inclui subvenções, barreiras aduaneiras e trocas comerciais) deve ter por objectivo revitalizar e reforçar o sector manufacturado;

5- Sempre adiadas, as medidas de redistribuição equitável dos rendimentos e das terras (incluindo a reforma agrária em meio urbano) podem criar um mercado interno dinâmico que se tornará o pilar da economia e produzirá ao nível local recursos financeiros para o investimento;

6- Dar menos importância ao crescimento, colocar o ênfase sobre a melhoria da qualidade de vida e reforçar a equidade, é contribuir para reduzir os desequilíbrios ambientais;

7- O desenvolvimento e a difusão de tecnologias verdes devem ser encorajadas tanto na agricultura como na indústria;

8- As decisões económicas estratégicas não podem ser deixadas ao mercado nem aos tecnocratas. Todas as questões vitais (determinar que industrias desenvolver, as que é preciso abandonar progressivamente, que parte do orçamento de Estado consagrar à agricultura, etc.) devem, pelo contrário, ser objecto de debates e de escolhas democráticas;

9- A sociedade civil deve em permanência vigiar e supervisionar o sector privado e o Estado, num processo que deve ser institucionalizado;

10- O regime de propriedade deve evoluir para uma economia mista integrando cooperativas e empresas privadas e públicas mas excluindo os grupos multinacionais;

11- As instituições mundiais centralizadas, como o FMI ou o Banco Mundial, devem ceder lugar a instituições regionais assentes não sob a economia de mercado e a mobilidade de capitais mas sobre princípios de cooperação que, segundo a expressão utilizada por Hugo Chavez para descrever a sua Alternativa Bolivariana para as Américas (ALBA), “transcendam a lógica do capitalismo”.

O modelo de desglobalização tem por objectivo ir para além da estreita teoria económica da eficiência, para a qual o critério essencial é a redução do custo unitário, quais quer que sejam as consequências em termos de destabilização social ou ecológica. Trata-se de ultrapassar um sistema de cálculo económico que, segundo os termos do economista John Maynard Keynes, transformou” toda a existência numa paródia de um pesadelo de contabilista”

Walden Bello, Professor universitário e membro da Câmara dos Representantes Filipina, na Foreign Policy in Focus, Setembro de 2009 (Via Unité Populaire)

Por Portugal – e mais nada!

«É um CD para Portugueses admiradores e herdeiros e seguidores das formaturas de 1143, 1385, e 1640 , gente que não tem por hábito pôr-se em bicos dos pés, que só aparece quando é necessária. Gente anónima, modesta, desinteressada e corajosa. Gente que não discute nem põe em causa Portugal, gente que dá sem receber . É para todos esses que eu canto!»

José Campos e Sousa

A superclasse global e o novo mundo que está a criar

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«Não os elegemos. Não os podemos pôr fora. E eles estão a ficar mais fortes a cada dia.

Chamem-lhes a superclasse.

No momento, os americanos estão concentrados na campanha eleitoral. Entretanto, muitos não percebem uma realidade da era global que pode interessar muito mais do que a sua escolha presidencial: numa lista cada vez maior de temas, as grandes decisões estão a ser tomadas ou profundamente influenciadas por uma mal compreendida rede internacional de lideres empresariais, financeiros, governamentais, culturais e militares que estão para além do alcance dos cidadãos(…)

Duvidam? Olhem para a actual crise financeira. Á medida que os reguladores governamentais tentaram evitar mais perdas de mercado, chegaram à conclusão que talvez o instrumento mais eficaz à sua disposição fosse o que o presidente do New York Federal Reserve Bank descreveu como o seu “poder de convocação” – a capacidade de juntar os grandes agentes de Wall street e dos mercados de capitais numa sala ou numa conferência telefónica para colaborarem na resolução do problema. Isto tornou-se, de facto, uma parte central da gestão de crises, tanto porque os governos nacionais têm uma autoridade reguladora limitada sobre os mercados globais como porque os fluxos financeiros tornaram-se tão grandes que o poder real está com os maiores jogadores – como as 50 instituições financeiras que controlam quase $50 triliões em activos, quase um terço de todos os activos mundiais.

A maior parte das grandes empresas são hoje maiores e mais globais, o que lhes permite escolher entre vários regimes reguladores ou programas de incentivo ao investimento dos diferentes governos. Jogam os dirigentes do país X contra os do país Y, ganhando uma vantagem que torna obsoletas as velhas regras do comércio. As maiores corporações do mundo, como a Exxon ou Wal-Mart, têm vendas anuais (e portanto recursos financeiros) que rivalizam com o PIB de todos os países com excepção dos cerca de 20 mais ricos. As maiores 250 empresas do mundo têm vendas que igualam cerca de 1/3 do PIB global (são medidas diferentes, mas dão uma ideia rudimentar de dimensão relativa).

As maiores organizações de comunicação social, como a News Corp de Robert Murdoch, que é efectivamente controlada por um único indivíduo, alcançam muito mais pessoas todos os dias do que qualquer governo nacional pode conseguir.(…)

As pessoas que dirigem estas grandes organizações internacionais podem ter muito mais poder sobre aspectos chave da nossa vida quotidiana e das tendências globais do que a maioria dos funcionários em Washington, excepto nas circunstâncias mais extremas (…)

Muitos reconhecem que têm cada vez mais em comum com os outros membros da elite global do que têm com o povo das suas próprias nações.(…)»

David Rothkopf, Washington Post, 4 de Maio de 2008

Pearl Harbor, 7-12-1941: TORA!TORA!TORA!

(Imagem ONG)

Brasugal

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Dunga, seleccionador brasileiro, comentando ao Globo Esporte o sorteio dos grupos no mundial de futebol da África do Sul, que determinou um jogo entre os dois países:

«É Brasil contra Brasil*. Brasil A contra Brasil B. Têm muitos brasileiros nessa seleção. Sem dúvida que será um jogo emocionante, que temos que estar preparados. O Brasil respeita Portugal. Respeitamos eles, assim como eles nos respeitam.»

Dunga tem razão…a sua razão envergonha os verdadeiros portugueses e enche de orgulho e esperança os “patrioteiros da bola” (ah! a taça…) e a classe política, responsável pela colonização de Portugal e a substituição progressiva do seu povo através da imigração.

No coração dos homens generosos…

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«Na alvorada do 12 de Abril de 1861 rebenta a primeira granada da guerra de Secessão. De uma parte e de outra acredita-se numa guerra curta, fresca e alegre. Este conflito durará quatro anos. Será o mais sangrento de toda a história americana. As perdas serão superiores em um terço àquelas dos americanos durante a segunda guerra mundial, 618.000 contra 407.000 para uma população sete vezes menos numerosa.

Destruído pela guerra e pela reconstrução, o velho Sul sobreviverá no seu mito, na imagem de um passado ideal projectado sobre o futuro. Essa mensagem, na sua condenação de uma sociedade dominada pelo lucro e pelos imperativos económicos, tem tonalidades estranhamente actuais. O Sul sobreviverá, igualmente, nos seus filhos perdidos, os grandes fora-da-lei do Oeste, Jesse James, Cole Younger, John W.Hardin, Bill Doolin e mesmo os Dalton. Denunciados no Norte como bandidos cruéis, estes antigos guerrilheiros confederados, obrigados a continuar a guerra por sua conta pessoal, serão cantados no Sul como Robins dos Bosques.

O seu ideal cavalheiresco perpetuar-se-á no Western. O cowboy é um sulista, tem o ardor, o amor da vida livre e dos grandes espaços, o sentido meticuloso da Honra, o desprezo pela hipocrisia puritana e o respeito pela mulher.

É talvez o filme de Griffith, «O nascimento de uma nação» (1914), um dos monumentos do cinema, que dará ao Sul a sua primeira vingança. Pela sua parte toda uma geração de romancistas transmitirá a lenda dourada do velho Sul, seja Thomas Nelson Page ou Joel Chandler Harris. O Sul tornar-se-á o lugar de inspiração da literatura americana. Caldwell, Faulkner, Melville, Adams, Henry James, Pen Warren encontrarão aí o alimento da sua obra.

E depois virá, em 1936, «E tudo o vento levou» de Margaret Mitchell e o seu sucesso cintilante nos EUA e na Europa. Este livro fará renascer as brancas plantações no seu baú de magnólias e madressilvas, as jovens senhoras de crinolina, os fazendeiros galantes e os gentis-homens perseguidos pela angústia de um destino inexorável. Mas para lá da evocação fiel de uma época terrível, e da trama romântica cativante, o que atrai nesse livro é a nostalgia fremente que brota ao longo das páginas. Nostalgia de um mundo que deveria desaparecer, de um mundo irremediavelmente condenado, mas sobre o qual não se deixa de sonhar, como um paraíso perdido. Porque, se o Sul está morto, ele continua a viver no coração dos homens generosos.»

Dominique Venner, in Le Blanc Soleil des vaincus : l’épopée sudiste et la guerre de Sécession, 1607-1865, La Table ronde, 1975

Quando Sorel encontrou Nietzsche…

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Mas Sorel é a grande descoberta…Sorel com o seu «socialismo ético», a sua «metafísica sindicalista», o seu primado do mito sobre a utopia; é o marxismo heterodoxo, voluntarista, aristocrático. E toda uma filosofia e teoria da acção. «Para mim o essencial era agir. Mas repito que é a Sorel que devo mais. Foi este mestre do sindicalismo que, pelas suas rudes teorias sobre a táctica revolucionária, contribuiu mais para formar a disciplina, a energia e o poder das coortes fascistas» dirá, num jeito empolgado e romantizado, retrospectivamente, em 1922.

E depois de Sorel, Nietzsche. Nietzsche, o grande irracionalista, o grande niilista, o grande iconoclasta, o inimigo de Sócrates e da tradição racionalista europeia, da qual Marx é, pelo menos em certa direcção, um produto acabado. Nietzsche, que o «socialista fascista» Drieu de La Rochelle contraporá a Marx, serve de inspirador a Mussolini. «Nietzsche marca o centro de um próximo ideal. Mas de um ideal fundamentalmente diferente daqueles nos quais acreditaram as gerações passadas. Para o compreender ver-se-á surgir uma nova geração de espíritos livres, fortificados pela guerra, pela solidão, pelos perigos graves aos quais terão estado expostos, espíritos que hão-de conhecer os ventos, os glaciares, a neve das altas montanhas e saberão medir, com um olhar sereno, toda a profundidade dos abismos» – escreverá, depois, num texto cujo estilo deve bastante ao mestre descoberto.

Ao niilismo nietzschiano junta-se, nesta fase, um profundo anticlericalismo e anti-cristianismo com a repetição de uma cena clássica dos ateus militantes da época – há um episódio paralelo na biografia de Antero –, de relógio na mão, dando cinco minutos a Deus para o destruir. E, curiosamente, o socialista extremista utiliza argumentos nietzscheanos para atacar o cristianismo «culpado de ter feito cair o magnífico edifício do império romano, enfraquecendo, com ideologias, a sua resistência aos golpes dos bárbaros».

Jaime Nogueira Pinto, A Direita e as Direitas, pp.79-80, Difel

A quarta guerra mundial já começou…

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«(…)Nesta nova guerra, a política, enquanto motor do Estado-Nação, já não existe. Ela serve somente para gerir a economia, e os homens políticos não são mais que gestores de empresas. Os novos donos do mundo não têm necessidade de governar directamente. Os governos nacionais encarregam-se de administrar os seus negócios. A Nova Ordem Mundial, é a unificação do mundo num único mercado. Os Estados não passam de empresas com gestores a fazer de governantes e as novas alianças regionais assemelham-se mais a uma fusão comercial do que a uma federação política.(…) Esta mundialização propaga também um modelo geral de pensamento. É o american way of life, que havia seguido as tropas americanas na Europa a seguir à segunda guerra mundial, depois no Vietname, e mais recentemente no Golfo, e que se estende agora ao planeta por via dos computadores. Trata-se de uma destruição das bases materiais dos Estados-Nação, mas também de uma destruição histórica e cultural. Todas as culturas que as nações forjaram – o nobre passado indígena da América, a brilhante civilização europeia, a sábia história das nações asiáticas e a riqueza ancestral de África e Oceânia – são corroídas pelo modo de vida americano. O neoliberalismo impõe assim a destruição de nações e de grupos de nações para as fundir num único modelo. Trata-se de uma guerra planetária, a pior e mais cruel, que o neoliberalismo trava contra a humanidade.(…)»

Subcomandante Marcos, in La quatrième guerre mondiale a commencé, Le Monde Diplomatique, Agosto de 1997