Month: Janeiro, 2010

Sobre o discurso contra a islamização da Europa

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Primeiro vou deixar claro o seguinte: Há alguns países da Europa que estão, efectivamente, num processo acelerado de islamização. O combate contra a islamização dos países europeus é absolutamente fulcral para todos aqueles que estão interessados na defesa e preservação das nações europeias. Que sobre isto não fiquem dúvidas.

Contudo, se o discurso contra a islamização da Europa que, sobretudo nos últimos anos, se disseminou preferencialmente nalguns sectores da direita nacionalista, tem muitas razões, vive também de muitas manipulações, ilusões e alucinações.

O propósito deste texto não é amenizar as razões e a premência do combate contra a islamização da Europa mas expurgá-lo das falsas questões e das manipulações que frequentemente o permeiam.

O discurso contra a islamização da Europa pode ter três grandes grupos de aderentes, aqueles a quem a identidade colectiva europeia não interessa para além daquilo que possa interferir com os seus interesses e liberdades individuais: nesse caso o islão pode ser visto como uma ameaça a isso. Aqueles que acham que a Europa é uma comunidade colectiva de adesão a uma determinada doutrina com a qual o islão choca: neste grupo poderão estar, por exemplo, muitos cristãos que não têm mais qualquer interesse na defesa da Europa que vá para lá da esfera da sua fé religiosa. E, por fim, aqueles que se batem pela defesa integral da identidade europeia. E são estes que me interessam e é a estes que me dirijo.

Um discurso que tem de ser devidamente enquadrado

Antes de mais nada, o discurso contra a islamização da Europa é um discurso que faz muito mais sentido nalguns países do que noutros, porque, apesar de todo o Ocidente estar a ser, autenticamente, invadido por uma imigração massiva sem paralelismo na história da humanidade, só nalguns países é que uma parte substancial dessa imigração é islâmica. Assim, falar de islamização de Portugal ou da Irlanda, para dar alguns exemplos, é pouco menos que ridículo. Mas faz sentido falar desse risco em países como a França, a Bélgica ou a Holanda porque as populações vêem, sentem e sofrem com essa presença islâmica no seu quotidiano.

Não significa isto que a islamização de países europeus não constitua uma séria ameaça para aqueles que não estão a passar directamente por esse processo, porque pela sua vontade expansionista e totalitária, pela radicalidade de vários dos seus sectores, a islamização de alguns países europeus exporia, ou exporá, os outros a essa voragem.

Mas se é legítimo e até necessário alertar para esse perigo, a verdade é que os movimentos identitários e nacionalistas europeus têm primeiro que tudo de se dirigir ao seu povo, à sua realidade social específica, àquilo que faz sentido para a população de que fazem parte. A casa não se começa a construir pelo telhado. Em última análise o combate contra a islamização de certos países da Europa tem sempre de ser travado pelos povos que passam por isso e não adianta de muito haver outros a falarem do exterior contra o facto, porque se não houver vontade e capacidade de resistência nas nações que estão a ser alvo dessa transformação não haverá nada a fazer. Estarmos em Portugal a falar de islamização da Holanda é redundante porque os holandese é que podem resolver o problema e eles estão consciente do que está a suceder, e se não estiverem não o ficarão certamente por haver outros a dizerem-lhes o que está a acontecer na sua própria pátria.

É preciso por isso que, dentro de cada país, os movimentos de resistência saibam enquadrar-se naquilo que são os seus próprios problemas reais e locais antes de pretenderem pensar em cenários futuros ou hipotéticos que os possam vir a afectar. É uma questão de ter presentes as devidas prioridades.

O problema não é a islamização, é a imigração

Desviar o discurso da imigração para a islamização gera confusões doutrinárias graves, porque abre espaço a que a Europa deixe de ser entendida como um espaço com características étnicas e culturais específicas ameaçadas pela imigração não-europeia para passar a ser um espaço de adesão a determinados valores que o islão poderia ameaçar: por exemplo a cristandade ou a laicidade republicana. Ora eu não sou ou deixo de ser europeu por acreditar na mensagem de Cristo ou na tríade de valores celebrizados pela revolução francesa (igualdade-liberdade-fraternidade) e nos seus “direitos humanos”. Estas coisas excluiriam, aliás, alguns dos mais brilhantes pensadores europeus, desde Platão e Séneca a Nietzsche e Heidegger. Ora, o islão ameaça tanto a identidade europeia como a presença de povos africanos ou asiáticos com outras crenças. Todas essas realidades, se a sua presença for significativa, representam corpos estranhos à Europa. E quem não o entender não pode ambicionar mais do que uma Europa amputada, uma mixórdia que não é continuadora e respeitadora da sua essência e das suas origens.

É fundamental, por isso, perceber as hierarquias do problema e subalternizar a crítica da islamização europeia à crítica, mais ampla, da imigração desregrada. Se isso não for feito, o resultado não será apenas a confusão doutrinária no interior dos movimentos nacionalistas mas também a confusão – para o exterior – com determinadas forças que são contra a islamização da Europa mas que, ao mesmo tempo, são indiferentes à defesa da identidade integral europeia…isto quando não lhe são manifestamente adversas.

Os riscos que advêm daqui são múltiplos: erros de análise na distinção entre amigos e inimigos, desencaminhamento de militantes, atracção de outros pelas razões erradas, desacerto nas batalhas a travar e no objectivo a atingir, etc.

Se o combate à imigração e o combate ao islão não forem devidamente enquadrados e hierarquizados, caminhar-se-á progressivamente para uma “reductio ad islam” que resultará em achar que esse é o combate central e que, findo esse, os objectivos estão alcançados. Dessa forma, mesmo para aqueles que conseguissem entender que o problema do islão na Europa provém sobretudo do problema da imigração, a solução seria, quanto muito, a mera redução da imigração islâmica, sem mais considerações contra as outras proveniências dos movimentos migrantes.

As forças subversivas por detrás do discurso contra a islamização da Europa

Por detrás do discurso contra a islamização da Europa estão muitas forças que não têm relação com a concepção de Europa própria dos ideários nacionais e identitários.

Grupos cristãos: dentro da incontável variedade de famílias cristãs (todas elas convencidas de serem portadoras da Verdade e do único caminho que salva do Inferno) existe de tudo, desde os que têm colaborado, pelos mais variados motivos de índole bíblica, com a presença islâmica nas terras europeias aos que se lhe opõem vendo nisso uma ameaça, lógica, diga-se de passagem, à força do cristianismo. Mas mesmo estes últimos não são forçosamente parte da “resistência europeia”. Porque ser-se cristão não é condição necessária, e muito menos suficiente, do “ser europeu”. Para muitos deles o que lhes interessa defender é a força da sua fé religiosa e a sua comunidade é a de todos os homens – de todo o mundo – que partilham a sua espiritualidade. Podem não querer islâmicos na Europa mas apoiam frequentemente a imigração não-europeia cristã ou potencialmente convertível. A luta pela identidade europeia não é essa.

Lobbies judaicos: Por detrás das grandes transformações políticas que minaram a coesão étnica e cultural das nações europeias encontrou-se frequentemente uma forte presença de lobbies judaicos. Durante séculos o judeu foi o elemento estranho no seio das nações europeias, e durante séculos sentiram as consequências dessa diferença. Ao fomentarem politicas de imigração não-europeia e ao combateram as manifestações sociais do tradicionalismo europeu os judeus conseguiram assim atenuar ou até eliminar aquilo que os tornava um elemento estranho, porque numa sociedade sem homogeneidade cultural e anti-tradicional, eles passaram a ser apenas mais um grupo no meio de tantos outros, a partir do momento em que o multiculturalismo e a diferença étnica se torna a norma a sua diferença extingue-se e cessam as barreiras à afirmação do seu poder. Mas se lhes interessou a imigração massiva para a Europa não lhes interessa a parte islâmica dessa imigração, porque o islão representa, por várias razões, uma ameaça aos seus interesses e ao seu estatuto na Europa bem como à segurança de Israel (e não nos esqueçamos que a Europa tem armas nucleares). Para os lobbies judaicos importa, por isso, travar a islamização da Europa mantendo, contudo, os factores (entre os quais a imigração massiva) que transformam a Europa, não numa realidade histórica etno-cultural, mas numa ideologia política assente numa visão universalista e aberta à diversidade cultural e religiosa, ou seja, a eles. Estes não são, obviamente aliados na luta pela identidade europeia.

Interesses norte-americanos: Tal como no caso dos lobbies judaicos (que aliás, hoje actuam, e por vezes se confundem, com a política externa norte-americana) também aos pensadores da hegemonia global norte-americana interessa uma Europa assente num modelo globalizado e multicultural, desde que não exista o risco de islamização. Isto porque o Islão é hoje uma das grandes forças de resistência à geopolítica global do Império norte-mericano. Aos EUA interessa uma Europa que se insira na lógica do que é o modelo societário dos EUA, em que o mercado global acaba por ser o único delineador de identidades, um mundo em que as pessoas são antes de tudo produtores e consumidores, de individualismo radical, em que a economia determina os valores. A islamização do continente europeu não representaria apenas uma ameaça à geopolítica global e ao poderio militar norte-americano, mas também uma ameaça à lógica mercantilista do seu modelo de sociedade. Conclusão: Também nalguns sectores políticos estado-unidenses existem os que lutam contra a islamização da Europa, mas também esses são ferozes inimigos da identidade europeia.

Existem depois outros grupos, feministas, homossexuais, ateus, libertários, etc., que, por razões que têm a ver com o seu posicionamento político histórico, sentem ainda relutância em aderir a um combate que, lá no fundo, interpretam como sendo contra o “outro-diferente-excluído”. Mas assim que o islão começar a “excluir” a “diferença” desses grupos, mais e mais entrarão nessa luta, em defesa dos seus interesses individuais, não das identidades históricas nacionais da Europa.

Como é que as forças subversivas actuam?

Uma parte da estratégia delineada pelas forças subversivas passa por influenciar ou infiltrar os movimentos nacionalistas, uma vez que sabem que são estes os mais receptivos e activos no combate contra os factores de destruição da Europa tradicional. E o islão é, sem margem para dúvidas, uma entidade estranha e perigosa. Esta tentativa de manipulação dos meios identitários faz-se de diversas maneiras, das quais destacamos:

A internet: Uma parte substancial desse trabalho de manipulação do discurso nacionalista faz-se através de sites e fóruns na internet que se focam, 24 horas sobre 24 horas, na colecção de notícias e textos que retratam o lado mais negro do islão. Algumas dessas notícias e alguns desses textos são verdadeiros outros são falsificações mais ou menos grosseiras (por exemplo, ainda me lembro, há uns tempos, da forma como vários sites divulgaram que no Irão os judeus eram obrigados a usar uma estrela amarela na roupa, notícia falsa que acabou por não ser desmentida pela maioria dos que inicialmente a divulgaram). Tudo vale. Estes sites funcionam como centrais de propaganda ininterrupta que para além de divulgarem fornecem material para ser divulgado por outros sites. Muitos dos que vão lá buscar material são nacionalistas que depois acabam por funcionar como um elo na cadeia de transmissão daquela propaganda, demasiadas vezes sem fazer a devida triagem ou confirmar a credibilidade das fontes.

Não é também por acaso que a maior parte desses sites são escritos em inglês e têm uma lógica bastante simplista ou até maniqueísta. Por um lado o inglês, pela sua universalidade, facilita a divulgação transversal por todos os países do material ali publicado, por outro lado, muitos dos contribuintes com comentários e textos para esses sites são, “estranhamente”, anglófonos. Isto apesar dos sites estarem sedeados nos mais diferentes países. Por fim, os nacionalistas que são mais permeáveis àquela publicidade são naturalmente os que, para além da sua língua, apenas lêem em Inglês. Privados do que se publica em francês, italiano, espanhol ou alemão, isto é, dos textos escritos com fidelidade à tradição continental europeia, com coerência e força doutrinal e cientes das reais ameaças à identidade da Europa, limitam-se a sorver o que se publica em inglês, onde, regra geral, encontramos um grande desconhecimento da realidade e da tradição política da Europa e um pensamento estruturado em função do que foram e são as tradições e problemas políticos anglo-saxónicas com as suas peculiaridades próprias e o seu discurso de inspiração liberal. Neste sentido, os sites nacionalistas que bebem naqueles acabam por funcionar, desadequados ao espaço político onde estão inseridos, como um elo de deformação da doutrina nacionalista europeia, e um factor de desencaminhamento e confusão para os que os lêem.

Organizações e partidos nacionalistas: Desde o final da segunda guerra mundial que as tentativas de manipular por dentro as organizações e partidos nacionalistas foram implementadas, com vários objectivos, controlá-las, desacreditá-las ou, simplesmente, usá-las em combates que servem outros interesses externos. Isto começou através da CIA com as chamadas redes “Gladio” e tem hoje alguma expressão no discurso anti-islamização. Em troca da possibilidade de apoios, acesso aos media ou respeitabilidade política, os partidos e organizações nacionalistas são incentivados a focarem-se no problema da islamização da Europa, relegando para plano secundário outros que são igualmente dramáticos para a sobrevivência do continente. As organizações e partidos nacionalistas, mesmo quando conscientes disso aceitam por vezes o trade-off, afinal, a islamização não deixa de ser um grave problema e, ao mesmo tempo, a sua crítica pode ser publicamente apresentada em defesa da “democracia ocidental” ou dos “judeus”, ou dos “direitos das mulheres e dos homossexuais” (tudo isso ameaçado pelo expansionismo islâmico), que são discursos e justificações mais fáceis.

Às forças subversivas interessa sobremaneira controlarem os movimentos nacionalistas, por um lado porque sabem que é dali que poderá vir o combate e a denúncia dos seus interesses, e assim interessa-lhes re-direccionar esses movimentos para outros sentidos e outras lutas, e por outro lado porque podem dar expressão a um discurso politicamente incorrecto sem se prejudicarem demasiado, servindo-se dos nacionalistas e identitários.

É preciso também saber distinguir, para evitar maiores equívocos, entre a utilização por parte de forças subversivas dos movimentos legitimamente interessados na defesa da Europa e a existência de personalidades, publicações e organizações que se focam quase exclusivamente no combate ao islão mas que não têm relação alguma com os movimentos nacionais e identitários da Europa.

Conclusão – como agir:

A denúncia da islamização da Europa é importante por parte dos movimentos de “resistência europeia” mas ela deve ser devidamente pensada e enquadrada.

Nos Estados onde esse problema não se sente localmente, o discurso tem de se centrar noutros problemas e a crítica à dita islamização deve ser inserida no risco que representaria para todos os países europeus a islamização de parte do continente. É fácil de perceber que constituiria um risco para a liberdade e a cultura dos países limítrofes a existência de uma potência ao serviço da fé islâmica no seio da Europa.

Nos Estados onde esse problema se faz sentir efectivamente o discurso contra a islamização da Europa é mais premente mas deve ser inserido no problema mais amplo da imigração e não poderá nunca sobrepor-se ao primeiro. A islamização não pode ser denunciada como um perigo para o modo de vida ocidental (o que leva a concluir que a imigração “não-islamica”, não sendo contrária às liberdades individuais do Ocidente, seria bem-vinda ou um “não-problema”) mas como uma ameaça à identidade histórica da Europa com a mesma gravidade que é colocada por qualquer tipo de imigração não-europeia, cada uma com os seus problemas específicos. É isto que, em geral, é feito nos países onde a doutrina nacionalista está mais consolidada e é mais madura, como França ou Itália, mas não me parece que seja isto que é feito, genericamente, na Holanda, por exemplo.

Saber distinguir os amigos dos inimigos e saber escolher os aliados é fundamental. É preciso separar o trigo do joio. Se fora da nossa área há interesses politico-económicos que falam contra a islamização da Europa, óptimo, mas saibamos servir-nos deles e não servi-los a eles. É preciso alertar os nossos para o facto de certas convergências que possam ocorrer a este nível serem meramente ocasionais e situadas num determinado contexto, muitos dos que falam contra a islamização da Europa pretendem a destruição do nosso continente por outras formas, os nossos objectivos não são os deles, a Europa dos movimentos nacionalistas e identitários não é a Europa dos interesses norte-americanos, de Israel e dos judeus, da Igreja Católica ou de alguns esquerdismos republicanos de “causas fracturantes”. Se os discursos se cruzarem não esqueçamos que fora dessa batalha a nossa causa não é a causa deles e muitas vezes a causa deles é a morte da nossa causa.

Ler e procurar informação fora do mundo anglo-saxónico. Não significa isto que em Inglaterra e nos EUA não existam homens dos nossos, a travarem a mesma guerra e com verdadeira formação doutrinária. Mas se devemos também estar abertos a esse espaço cultural, não podemos de forma alguma cingir-nos a ele porque a verdade é que a essência da nossa tradição política reside na Europa continental, foi aí que foram escritas as grandes obras da nossa área ideológica e é daí que continuam a vir os grandes textos de orientação política para compreender o nosso mundo.

Desconfiar daqueles que pretendem dividir e transformar a área nacionalista num combate entre simpatizantes de Israel e simpatizantes do mundo islâmico, desperdiçando as energias da área nessa luta. O confronto entre os judeus e os islâmicos não é uma preocupação nossa excepto na medida em que afecte o nosso continente. E nesse sentido, uns e outros têm sido, embora de formas diferentes, forças de subversão no interior da Europa.

Impedir que o combate à islamização conquiste e monopolize o discurso nacionalista. A islamização da Europa não invalida que o continente esteja ameaçado por outros factores igualmente perigosos: a hegemonia dos poderes económicos sobre o homem, a globalização, o modelo societário norte-americano, a imigração não-europeia de todos os tipos, a força parlamentar e empresarial de “sociedades secretas”, a decadência dos valores, a manipulação pelos meios audiovisuais, a perversão do Estado, entre outros.

Acabem com a ajuda externa!

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Passou uma semana desde que Porto Príncipe foi destruída por um terramoto. Nos próximos dias os haitianos irão passar por outro trauma à medida que as equipas de resgate lutarem, e falharem regularmente, para se manterem a par das novas urgências. Depois disso – e mais desastroso que tudo – será a chegada dos soldados do bem, cada qual com o seu brilhante plano para salvarem os haitianos de si mesmos.

“O Haiti precisa de uma nova versão do plano Marshall – agora”, escreve Andres Oppenheimer no Miami Herald, como forma de se queixar de que as centenas de milhões até agora gastas são miseráveis. O economista Jeffrey Sachs propõe gastar entre 10 e 15 biliões de dólares num programa de desenvolvimento a 5 anos. “ A forma óbvia para Washington cobrir este novo financiamento”, escreve, “é introduzindo impostos especiais sobre os bónus de Wall Street”. No New York Times, os antigos presidentes Bill Clinton e George W. Bush afirmam querer ajudar o Haiti a “atingir o seu melhor”. Que grande trabalho fizeram para isso quando estavam de facto no governo.

Tudo isto serve para apaziguar as consciências de pessoas cuja superficial intenção benigna é “fazer algo”. É uma bonança potencial para os profissionais da miséria das agencias humanitárias e ONG’s. E permite aos Jeffrey Sachs do mundo vestirem-se de santos.

Para os verdadeiros haitianos, contudo, praticamente todos os esquemas de ajuda concebíveis para além do auxílio humanitário imediato irão levar a mais pobreza, mais corrupção e menos capacidade institucional. Irão beneficiar os bem colocados à custa dos que verdadeiramente precisam, desviar recursos de onde são realmente necessários e provocar um crowding out das empresas locais. E vai fomentar, precisamente, o culto de dependência com o qual o país necessita desesperadamente de romper.

Como é que eu sei isto? Ajuda se lermos um relatório de 2006 da National Academy of Public Administration, apropriadamente intitulado “Por que falhou a ajuda externa ao Haiti”. O relatório sumariza um conjunto de documentos de diversas agências humanitárias descrevendo os seus longos registos de falhanços no país.

Veja-se, por exemplo, o que o Banco Mundial – que agora está prestes a jogar mais 100 milhões de USD no Haiti – alcançou no país entre 1996 e 2002: “O resultado dos programas de ajuda do Banco Mundial é insatisfatório (para não dizer muito), o impacto do desenvolvimento institucional é insignificante e a sustentabilidade dos poucos benefícios que foram conseguidos é improvável”.

E Porquê? O Banco notou que “o Haiti tem sistemas orçamentais, financeiros e de aprovisionamento disfuncionais que tornam impossível a gestão financeira e da ajuda humanitária”. Mais, observou que “o governo não tomou a iniciativa de formular e implementar o seu programa de ajuda”. De forma reveladora também reconheceu a “total desconexão entre os níveis de ajuda externa e a capacidade do governo para a absorver”, que é outra forma de dizer que quanto mais os dadores estrangeiros gastarem no Haiti, mais fundos serão perdidos.

Mas o verdadeiro problema da ajuda para o Haiti tem menos a ver com o Haiti do que com os efeitos da própria ajuda humanitária em si.” Os países que receberam mais ajudas ao desenvolvimento são também os que estão em piores condições”, diz James Shikwati, um economista queniano, ao Der Spiegel em 2005. “Pelo amor de Deus, parem, por favor!”

Tomemos o exemplo de algo tão aparentemente simples quanto a ajuda alimentar:” A dado ponto” explica Shikwati “este milho acaba no porto de Mombasa. Uma parte do milho vai directamente para as mãos de políticos sem escrúpulos que depois o passam para a sua própria tribo para servir a sua próxima campanha eleitoral. Outra parte do carregamento acaba no mercado negro onde o milho é largado a preços extremamente baixos. Os agricultores locais bem podem arrumar as suas enxadas; ninguém consegue competir com o programa de ajuda alimentar das Nações Unidas”

Sachs acusou estes argumentos de serem “chocantemente mal direccionados”. Mas na realidade, Shikwati e outros, como John Githongo do Quénia ou Dambisa Moyo da Zâmbia tiveram o privilégio de ver em primeira-mão como a “indústria da ajuda humanitária” destroçou os seus países. Que essa indústria o faça tipicamente em conivência com os memos governos locais que conduziram o seu povo à ruína apenas serve para manter essas elites no poder.

Uma abordagem melhor é reconhecer a real humanidade dos haitianos tratando-os – assim que as tarefas imediatas de resgate terminarem – como pessoas capazes de fazerem escolhas responsáveis. O Haiti tem algumas das mais fracas protecções à propriedade do mundo e algumas das mais pesadas regulamentações sobre os negócios. Em 2007 recebeu 10 vezes mais em ajuda (USD 701 milhões) do que em investimento externo.

Reverter estes números é uma tarefa que cabe apenas aos haitianos, e o mundo pode ajudar desistindo de os matar com a sua bondade. Qualquer coisa diferente disso e o inferno que foi agora visitado neste infeliz país virá a parecer apenas o seu primeiro círculo.

Bret Stephans, The Wall Street Journal, 20-01-2010

O Fahrenheit de Truffaut

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“— O que faz nas horas livres, Montag?
— Muita coisa… corto a relva…
— E se fosse proibido?
— Ficaria a vê-la crescer, senhor.
— Você tem futuro.”

Diálogo do filme Fahrenheit 451, de François Truffaut

Fahrenheit 451 é um romance escrito por Ray Bradbury sobre uma distopia futura em que os livros são proibidos e queimados e a televisão se torna de tal forma central na vida das pessoas que passa a ser designada por «a família». Para perseguir as pessoas que detêm livros existe uma força de ordem, os “bombeiros”, que além de prender os que lêem está encarregue de queimar os seus livros. Montag é um desses bombeiros…mas, um dia, lê uma das obras que havia confiscado. A partir daí toda a sua vida muda…

Vem esta breve introdução a propósito de ter revisto recentemente a adaptação cinematográfica feita por François Truffaut.

Há nela um momento particularmente notável que vale bem o filme: dá-se quando os bombeiros são chamados de emergência a uma casa cuja proprietária é suspeita de ter livros. Começam a partir a mobília à procura dos livros e, a dada altura, descobrem uma pequena biblioteca escondida por detrás de uma parede falsa. O chefe dos bombeiros chama Montag e toda a cena que se desenrola é memorável:

«Ah, Montag! Eu sabia, eu sabia. Claro que tudo isto…a existência de um segredo…de uma biblioteca, era conhecida nas altas instâncias mas não havia maneira de chegar até ela. Apenas uma vez vi tantos livros reunidos num mesmo lugar.»

De seguida enquanto percorre a pequena biblioteca com Montag vai pegando nos livros que se encontram nas diferentes secções… romances, filosofia, biografias, enquanto tece os seus comentários sobre as obras…

«Ah, Robinson Crusoe. Os negros não gostam por causa do seu homem, o Sexta-Feira. E Nietzsche. Os judeus não gostavam de Nietzsche. Aqui está um livro sobre cancro do pulmão. Todos os fumadores entram em pânico, por isso, para assegurarmos a paz de espírito de todos, nós queimamo-lo. Ah, este deve ser muito profundo. A Ética de Aristóteles. Qualquer um que leia isto deve pensar que está acima dos que não leram. Vê Montag? Não é bom, temos todos de ser iguais. A única forma de atingir a felicidade é se todos forem tornados iguais. Por isso, temos de queimar os livros Montag.» E quando pronuncia esta última frase pega no Mein Kampf de Hitler e remata «Todos os livros!».

Se as referências literárias e políticas da cena juntamente com a corrosiva crítica do igualitarismo já eram merecedoras de elogio, o desenrolar da situação reforça brilhantemente a mensagem latente…

Montag e o seu chefe são então informados que existem ordens para queimar a casa juntamente com a biblioteca. A proprietária recusa-se a abandonar o seu lar e acaba por se imolar no meio dos seus livros. Montag regressa a casa perturbado pelo que acabara de presenciar e encontra a sua mulher reunida com as amigas a olharem para o ecrã de televisão (a omnipresença e importância das mensagens televisivas na vida quotidiana é um dos temas centrais da história, e a cena em que Linda, a mulher de Montag, lhe pergunta por que é que ele não concerta a «família da cozinha», remete-nos para as horas de jantar nas nossas sociedades em que as televisões estão ligadas e as pessoas mal olham ou falam umas com as outras, ou seja, em que a televisão substitui o momento familiar).

Enquanto Linda e as suas amigas fazem alguns comentários sobre a aparência da mulher que aparece no ecrã e falam sobre a irresponsabilidade de ter filhos ou apresentam as razões menos válidas para os ter, podemos ouvir o que é dito pela mulher que aparece na televisão:

«Lembrem-se de tolerar os amigos dos vossos amigos, por mais estranhos (a expressão usada é “alien”) e peculiares que vos possam parecer. Não desprezem as minorias. Sufoquem a violência. Suprimam o preconceito.»

Bravo Truffaut! Aquele encadeamento de cenas é uma denúncia implacável do totalitarismo politicamente correcto, com a sua apologia fanática das “igualdades, humanitarismos e tolerâncias”, de que se serve para cercear a expressão do pensamento dissidente. Uma ficção cinematográfica futurista cada vez mais próxima das realidades actuais.

Sim, África que vá para o inferno

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«A disfunção crónica de África não é o resultado da governação europeia no passado mas da governação dos negros africanos no presente – em vez de ser o resultado do colonialismo europeu e da indiferença pós-imperial, como afirma a esquerda, a disfunção crónica na região é o resultado do pós-colonalismo e dos programas de ajuda humanitária pós-imperiais.

(…) o Sr. Jackson ainda incorre na falácia – característica da esquerda – de julgar a África subsaariana por padrões europeus e parece assumir que África de desenvolveria para uma civilização de estilo europeu se os africanos parassem de fazer de vítimas e se endireitassem, de uma vez por todas. Esta última assumpção provém da crença, tida pela esquerda, de que os africanos são como europeus com pele negra. Essa crença está ligada a outra, a que valoriza o progresso e o mede em termos de convergência com a presente sociedade tecno-industrial europeia – um tipo de sociedade caracterizado por uma organização social complexa, alta tecnologia, produção industrial, descobertas cientificas, capitalismo, governo da lei, propriedade privada, direitos civis, modernidade e racionalismo secular. A anormalidade dessas crenças no que se refere a algumas sociedades não-europeias não é óbvia para nós porque tomamos isso por garantido. Mas ganhar consciência dessa anormalidade é importante, porque as consequências são catastróficas: aquelas crenças são a base de toda a empreitada de ajuda e auto-culpabilização do homem branco, que têm fomentado uma explosão populacional no continente negro com a consequente onda de imigrantes esfomeados e ressentidos para a Europa e a América do Norte.

Há algum tempo que argumento que para que possa haver estabilidade no continente negro devemos permitir aos negros africanos que divirjam da Europa e se reorganizem de uma forma que seja harmoniosa com o seu temperamento, predisposições e capacidades. Também argumentei que não devemos interferir, mesmo se o resultado final por perturbador para nós. O que África precisa não é de mais dinheiro e desenvolvimento, é de nenhum! Os negros africanos são diferentes dos europeus. Podemos não querer falar de culturas africanas, porque em comparação com as nossas parecem primitivas, mas devemos aceitar que cultura significa algo diferente para eles e, embora possamos ter uma opinião, ela é irrelevante se o que os africanos entendem por cultura for o que resulta para eles. O progresso, por importante que possa ser para nós hoje em dia, está fora do seu ambiente ali. África foi para o inferno porque tinha de ir.

Não quero com isto dizer que a presente situação na África subsaariana (e saliento subsaariana porque não podemos pintar Marrocos e o Egipto com as mesmas cores) é normal pelos padrões africanos. Não é normal. É o resultado de um período de transição – da sociedade branca para a sociedade negra – que os esquerdistas ocidentais têm vindo a obstruir desde o fim dos impérios com os seus bem-intencionados (mas ainda assim condenados) programas de ajuda e desenvolvimento.

As sociedades tradicionais subsaarianas são tribais, a sua espiritualidade é animista, a sua medicina é feitiçaria, os seus cuidados sanitários pobres, a sua agricultura é de subsistência ou inexistente. J.R. Baker (Race,1974) pinta um quadro de in-civilização: os autóctones andavam nus ou semi-nús, praticavam a auto-mutilação, residiam em pequenos povoados, em abrigos simples e sem divisões, navegavam em canoas rudimentares cavadas a partir de troncos de árvores, não tinham ainda inventado a roda, raramente domesticavam animais ou os usavam para trabalhar ou transporte, não tinham registos ou história escrita, não tinham qualquer uso para o dinheiro, nenhum sistema de numeração, não tinham calendário, não tinham estradas, não tinham administração ou código de lei. Os chefes eram despóticos, caprichosos e cruéis, as chacinas eram frequentes, o canibalismo era por vezes praticado. Os dialectos eram simples, com vocabulários limitados no que toca à expressão de pensamento abstracto. O homem comum da tribo vivia para o momento e tinha ausência de visão de futuro. Quaisquer ideias inteligentes morriam geralmente com o seu inventor. Este quadro explica eficientemente a África do século 21.

Também explica por que razão os fundos de ajuda e desenvolvimento não tiveram quaisquer resultados excepto ampliar os horrores do continente: afinal, uma vez introduzido o dinheiro no contexto acima descrito, a lança cede lugar à AK47. Bono, Gedolf e os seus companheiros do Live 8, as velhas, moralistas, indulgentes, cosmeticamente trabalhadas estrelas de rock que conhecemos e desprezamos, têm sangue nas mãos. Tal como as organizações de caridade ocidentais e os media que os apoioam.

É por isso que penso que o Sr. Jackson tem razão em querer a “demolição de todas as estradas, universidades e hospitais que alguma vez construímos” na África negra. Isto deveria ter sido concomitante com a descolonização. Se os poderes europeus já não viam viabilidade na manutenção de um império, deveriam ter desmantelado as infra-estruturas coloniais e deixado a região como havia sido inicialmente encontrada pelos primeiros exploradores. Os forasteiros deveriam ter sido proibidos, por um tratado internacional similar ao da Antárctida de 1959, de perturbar o habitat subsaariano, declarando-se a região uma reserva natural. Claro que isto era politicamente impossível à data, e a consciência europeia, já afectada pela culpabilização pós-imperial, teria sido duplamente perturbada pelas fomes que sucederiam (sem quintas industrializadas não se pode alimentar milhões de pessoas). Mas as fomes visitaram, ainda assim, a região, e não só não pararam, mas multiplicaram-se e ampliaram-se devido aos esforços ocidentais para as parar.

As fomes iniciais do pó-imperialismo poderiam ter sido inevitáveis, mas o resultado final seria uma população mais pequena, re-tribalizada e pré-histórica, capaz de se alimentar a si própria através dos métodos tradicionais da agricultura de subsistência, caça e recolecção. Depois de uma quantas gerações, a África subsaariana já não olharia para o Ocidente com uma mistura de inveja, frustração e ódio, porque teria esquecido a sua existência, excepto através de fábulas e lendas transmitidas oralmente. O homem branco teria sido lembrado como um deus (ou um demónio) – como um ser estranho de outro mundo, que construiu cidades de ouro e tinha poderes mágicos para lá da imaginação. Depois de algumas gerações, a África subsaariana teria revertido para o seu modo pré-colonial e completado a sua transição de uma colecção de Estados falhados para ser um registo vivo do passado da humanidade.»

Alex Kurtagic, Taki’s Magazine, 20-01-2010

A geopolítica por detrás da falsa guerra norte-americana no Afeganistão

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Um dos mais notáveis aspectos na agenda presidencial de Obama é quão pouco foi questionado nos media o motivo pelo qual o Pentágono está empenhado na ocupação militar do Afeganistão. Há dois motivos básicos, nenhum dos quais pode ser admitido abertamente em público.

Por trás do enganador debate oficial sobre quantos soldados são necessários para “vencer” a guerra no Afeganistão, se mais 30 mil são suficientes ou se pelo menos 200 mil são necessárias, o objectivo real da presença militar estado-unidense naquele país da Ásia Central é obscurecido.

Mesmo durante a campanha presidencial de 2008 o candidato Obama argumentou que era no Afeganistão e não no Iraque que os EUA deviam travar guerra. Por que razão? Ele argumentava que era onde a organização Al Qaeda estava escondida e que essa era a ameaça “real” à segurança nacional dos EUA. Mas as razões por detrás do envolvimento estado-unidense no Afeganistão são muito diferentes.

Os militares dos EUA estão no Afeganistão por duas razões. Primeiro para restaurar e controlar o maior fornecedor de ópio do mundo para os mercados da heroína e para utilizar as drogas como uma arma geopolítica contra oponentes, especialmente a Rússia. Aquele controlo do mercado da droga afegão é essencial para a liquidez da corrupta e falida máfia financeira de Wall Street.

Até mesmo de acordo com um relatório oficial da ONU, a produção de ópio no Afeganistão aumentou dramaticamente desde a queda do regime Taliban em 2001. Os dados da UNODC [United Nations Office on Drugs and Crime] mostram mais cultivo de papoila de ópio em cada uma das últimas quatro estações de plantio (2004-2007) do que em qualquer ano durante o domínio Talibã. Agora é utilizada mais terra para o ópio no Afeganistão do que para o cultivo de coca na América Latina. Em 2007, 93% dos opiáceos no mercado mundial tinham origem no Afeganistão. Isto não é acidental.

Foi documentado que Washington escolheu a dedo o controverso Hamid Karzai, um senhor da guerra pashtun da tribo Popalzai, há muito ao serviço da CIA, trouxe-o de volta do exílio nos EUA e criou uma mitologia hollywoodiana em torno da “corajosa liderança do seu povo”. Segundo fontes afegãs, Karzai é o “Padrinho” do Ópio no Afeganistão de hoje. Aparentemente não é por acaso que ele foi, e hoje ainda é, o homem preferido de Washington em Cabul. Mas mesmo com compra maciça de votos, fraudes e intimidações, os dias de Karzai como presidente podem estar a acabar.

A segunda razão para os militares dos EUA permanecerem no Afeganistão muito depois de o mundo ter até esquecido quem é o misterioso Osama bin Laden e a sua alegada organização terrorista Al Qaeda, ou mesmo se eles existem, é para construírem uma força de ataque com uma série de bases permanentes por todo o Afeganistão. O objectivo destas bases não é erradicar quaisquer células da Al Qaeda que possam ter sobrevivido nas cavernas de Tora Bora, ou erradicar míticos “Talibã”, os quais, nesta altura, segundo relatos de testemunhas oculares, são esmagadoramente comuns afegãos locais a combaterem, mais uma vez, para livrar a sua terra de exércitos de ocupação, como o fizeram na década de 1980 contra os russos.

O objectivo das bases dos EUA no Afeganistão é visar e ser capaz de atacar os dois países que hoje representam a única ameaça combinada no mundo a um império global americano, ou à Dominação de Espectro Amplo (Full Spectrum Dominance), como a chama o Pentágono.

O problema para as elites do poder em torno da Wall Street e em Washington é o facto de que agora estão na mais profunda crise financeira da sua história. Esta crise é clara para o mundo todo e o mundo está a actuar em busca da auto-sobrevivência. As elites dos EUA perderam o que na história imperial chinesa é conhecido como o “Mandato do Céu”. Tal mandato é dado ao governante ou à elite dirigente desde que governem o seu povo com justiça e de modo razoável. Quando governam tiranicamente e como déspotas, oprimindo e abusando do seu povo, eles perdem esse Mandato do Céu.

Se as poderosas elites privadas e ricas que têm controlado o essencial da política financeira e externa dos EUA durante a maior parte do século passado ou mais tinham um “mandato do céu”, elas perderam-no claramente. Os desenvolvimentos internos rumo à criação de um estado policial abusivo com privação de direitos constitucionais dos seus cidadãos, exercício arbitrário do poder por responsáveis não eleitos tais como os secretários do Tesouro Henry Paulson e agora Tim Geithner, a roubarem somas de biliões de dólares dos contribuintes sem o seu consentimento a fim de salvar da bancarrota os maiores bancos da Wall Street, bancos considerados “Demasiado grandes para falirem”, demonstram ao mundo que eles perderam o “mandato”.

Nesta situação, as elites do poder estado-unidense estão cada vez mais desesperadas por manter o controle de um império global parasita, chamado enganosamente pela máquina dos seus media, como “globalização”. Para manter o domínio é essencial que eles sejam capazes de romper qualquer cooperação que venha a emergir entre as duas maiores potências da Eurásia no âmbito económico, energético ou militar, a qual poderia apresentar um desafio aos EUA como super-potência única — a China em combinação com a Rússia.

Cada potência euro-asiática traz à mesa contribuições essenciais. A China tem a economia mais robusta do mundo, uma enforme força de trabalho jovem e dinâmica, uma classe média educada. A Rússia, cuja economia não está recuperada do fim destrutivo da era soviética e do saqueio primitivo durante a era Yeltsin, ainda possui activos essenciais para a combinação. A força de ataque nuclear russa e o seu poder militar representam a única ameaça no mundo de hoje à dominação militar dos EUA, ainda que em grande medida seja um resíduo da Guerra Fria. As elites militares russas nunca abandonaram aquele potencial.

A Rússia também possui o maior tesouro do mundo em gás natural e vastas reservas de petróleo de que a China necessita urgentemente. As duas potências estão a convergir cada vez mais através de uma nova organização que criaram em 2001, conhecida como a Organização de Cooperação de (SCO). Esta inclui também os maiores estados da Ásia Central: Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão.

O objectivo da alegada guerra estado-unidense contra os Talibã e a Al Qaeda é na realidade colocar a sua força militar de ataque directamente no meio do espaço geográfico desta emergente SCO na Ásia Central. O Irão é um desvio de atenção. O objectivo ou alvo principal é a Rússia e a China.

Oficialmente, é claro, Washington afirma que construiu a sua presença militar no interior do Afeganistão a partir de 2002 a fim de proteger uma “frágil” democracia afegã. É um argumento curioso dada a realidade da presença militar estado-unidense ali.

Em Dezembro de 2004, durante uma visita a Cabul, o secretário da Defesa Donald Rumsfeld finalizou planos para construir nove bases no Afeganistão nas províncias de Helmand, Herat, Nimrouz, Balkh, Khost e Paktia. As novas somam-se às três principais bases militares dos EUA já instaladas na sequência da sua ocupação do Afeganistão no Inverno de 2001-2002, ostensivamente para isolar e eliminar a ameaça de terror de Osama bin Laden.

O Pentágono construiu as suas primeiras três bases no Aeródromo de Bagram a Norte de Cabul, o principal centro logístico dos EUA; no Aeródromo de Kandahar, no Sul do Afeganistão; e no Aeródromo de Shindand na província ocidental de Herat. Shindand, a maior base dos EUA no Afeganistão, foi construído a meros 100 quilómetros da fronteira do Irão e a uma distância de ataque à Rússia e também à China.

Historicamente o Afeganistão tem sido o coração do Grande Jogo russo-britânico, a luta pelo controle da Ásia Central durante os séculos XIX e princípio do XX. A estratégia britânica era então impedir a todo o custo que a Rússia controlasse o Afeganistão e ameaçasse assim a jóia da coroa imperial britânica, a Índia.

Da mesma forma, o Afeganistão é encarado pelos planeadores do Pentágono, como sendo fundamental no plano estratégico. É uma plataforma a partir da qual o poder militar estado-unidense poderia ameaçar directamente a Rússia e a China, bem como o Irão e outras terras ricas em petróleo do Médio Oriente. Pouco mudou geopoliticamente ao longo de mais de um século de guerras.

O Afeganistão está situado num local extremamente vital, abarcando a Ásia do Sul, a Ásia Central e o Médio Oriente. O país também está situado ao longo de um proposto traçado de oleoduto dos campos petrolíferos do Mar Cáspio para o Oceano Índico, onde a companhia de petróleo americana Unocal, juntamente com a Enron e a Halliburton de Cheney, têm estado em negociações para obter o direito exclusivo de trazer gás natural do Turquemenistão através do Afeganistão e do Paquistão para a enorme central termoeléctrica a gás natural da Enron em Dabhol, próximo de Mumbai. Karzai, antes de se tornar o presidente fantoche dos EUA, foi um lobbista da Unocal.

A verdade sobre todo o logro quanto aos reais propósitos no Afeganistão torna-se clara com um olhar mais atento à alegada ameaça “Al Qaeda” no Afeganistão. Segundo o escritor Erik Margolis, antes dos ataques do 11 de Setembro de 2001, a inteligência dos EUA estava a dar ajuda e apoio tanto aos Talibã como à Al Qaeda. Margolis afirma que “A CIA estava a planear utilizar a Al Qaeda de Osama bin Laden para incitar uighurs muçulmanos contra a governação chinesa, e os Talibã contra aliados da Rússia na Ásia Central.

Os EUA evidentemente encontraram outros meios de jogar uighurs muçulmanos contra Pequim em Julho último através do seu apoio ao Congresso Mundial Uighur. Mas a “ameaça” Al Qaeda permanece a base da justificação de Obama para a sua escalada bélica no Afeganistão.

Agora, contudo, o Conselheiro de Segurança Nacional do presidente Obama, o antigo general dos Fuzileiros Navais James Jones, fez uma declaração, a qual foi convenientemente enterrada pelos media amigos dos EUA, acerca da importância estimada do perigo actual da Al Qaeda no Afeganistão. Jones disse ao Congresso que “A presença da al Qaeda está muito diminuída. A estimativa máxima é de menos de 100 operacionais no países, sem bases, sem capacidade para lançar ataques sobre nós ou nossos aliados”.

Isto significa que a Al Qaeda, para todos os propósitos práticos, não existe no Afeganistão. Au…

Mesmo no vizinho Paquistão, os remanescentes da Al Qaeda mal podem ser encontrados. O Wall Street Journal relata: “Caçados por drones [aviões sem piloto] dos EUA, aflitos por problemas de dinheiro e descobrindo ser mais difícil atrair jovens árabes para as negras montanhas do Paquistão, a Al Qaeda está a ver o seu papel reduzir-se ali e no Afeganistão, segundo relatórios de inteligência e responsáveis do Paquistão e dos EUA. Para jovens árabes, que são os recrutas primários da al Qaeda, “não é romântico estar no frio, com fome e escondido”, disse um responsável superior dos EUA no Sul da Ásia.

Se levarmos a declaração à sua consequência lógica devemos concluir então que a razão para soldados alemães estarem a morrer juntamente com outros jovens da NATO nas montanhas do Afeganistão nada tem a ver com “vencer uma guerra contra o terrorismo”. Convenientemente a maior parte dos media prefere esquecer o facto de que a Al Qaeda, na medida em que alguma vez existiu, foi uma criação da CIA na década de 1980, a qual recrutou e treinou radicais muçulmanos como parte de uma estratégia desenvolvida pelo chefe da CIA da administração Reagan, Bill Casey, e outros, a fim de criar “um novo Vietname” para a União Soviética que levaria a uma humilhante derrota do Exército Vermelho e ao colapso final da União Soviética.

Agora, o general Jones do Conselho de Segurança Nacional dos EUA admite que, no essencial, não há mais qualquer Al Qaeda no Afeganistão. Talvez seja tempo para um debate mais honesto dos nossos líderes políticos acerca do verdadeiro propósito de enviar mais jovens para a morte enquanto protegem as colheitas de ópio do Afeganistão.

F. William Engdahl

A geopolítica dos “direitos do homem”

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«O direito internacional saído dos tratados de Vestfália (1648) está hoje de tal forma adulterado pela ideologia dos “direitos do homem” que justifica o direito (ou o dever) de “ingerência humanitária”, isto é, a guerra preventiva, ao mesmo tempo regularmente associada à guerra de agressão. Este direito de ingerência humanitária que viola abertamente a carta das Nações Unidas, não tem qualquer precedente no direito das nações.Ele sugere que qualquer Estado, seja qual for, pode à sua vontade intervir nos assuntos internos de outro Estado, seja qual for, com o pretexto de impedir “atentados aos direitos humanos”.Justificando o intervencionismo político-militar com o qual a descolonização havia teoricamente acabado, permite a um conjunto de países ou de instâncias pretensamente ao serviço de uma nebulosa “comunidade internacional” impor por todo o lado o seu ponto de vista sem levar em conta nem as preferências culturais nem as práticas políticas e sociais aceites ou ratificadas democraticamente. Vemos automaticamente os ricos de deriva de uma tal doutrina que abre, muito simplesmente, a porta a guerras sem fim, o jus ad bellum substituindo-se ao jus in bello.

A ideia de uma justiça que se exerce para além das fronteiras pode seduzir. Mas é necessário ver entretanto que ela choca com obstáculos inultrapassáveis. O direito não pode efectivamente flutuar para além do político. Ele apenas pode ser exercido no interior de uma comunidade política ou resultar da decisão de diversas unidades políticas de se ligarem entre si da maneira que lhes convier.Isso significa que não existindo governo mundial, o direito de ingerência humanitária não pode passar de um simulacro do direito.

Toda a justiça necessita de uma potência política que lhe sirva, ao menos, de força de execução.Na ausência de um governo mundial, a potencia chamada a desempenhar o papel de polícia planetária não pode ser senão aquela cujas forças armadas são tão fortes que nada lhes possa resistir. Como os exércitos estão sempre ao serviço de Estados particulares, isso resulta em consagrar a hegemonia das superpotências, sendo ingénuo acreditar que elas não procurarão, primeiro que tudo, servir os seus próprios interesses, cobrindo as suas agressões com a manta da moral e do direito.Resulta disto que, entre os presumíveis culpados, só os fracos poderão ser castigados, enquanto os poderosos, que não se punirão a si mesmos, não serão inquietados. Ora, uma justiça que não é igual para todos não merece esse nome.

Lembrando as palavras de Proudhon: “Quem fala de humanidade quer iludir”. Carl Schmitt havia já feito notar que “o conceito de humanidade é um instrumento ideológico particularmente útil às expansões imperialistas e, sobre a sua aparência ética e humanitária, é um veículo especifico do imperialismo económico”.

Se qual for a hipótese colocada, a humanidade não é um conceito político. Uma “política mundial dos direitos humanos” é portanto, também ela, uma contradição em termos.»

Alain de Benoist, in Au-delà des droits de l’homme : politique, liberté, démocratie

A sociedade do vazio

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«Todos iguais, todos diferentes: Este slogan publicitário em voga é perfeitamente ilustrativo da nova ordem. O propósito da aspiração igualitária contemporânea é postular para qualquer um o direito a aceder ao reconhecimento daquilo que é, em tanto que tal, fora de toda a legitimidade extrínseca ao indivíduo. A subjectividade é, em si, um critério de verdade. A obra propriamente dita não é mais o princípio fundamental do acesso ao reconhecimento. O narcisismo contemporâneo tende a desvirtuar mesmo o princípio do acesso ao reconhecimento, tradicionalmente fundado sobre a expressão de um talento, em benefício do direito ao aparecimento. De certa maneira o extraordinário desenvolvimento da indústria do divertimento responde ao desejo de se aceder o mais rapidamente possível ao estatuto social de «gente», a partir de um modo de selecção tão impiedoso quanto arbitrário: aquilo que faz com que você agrade ou não, seja manhoso e malicioso ou não, sensual ou não, etc., em suma, que você irrompa no “ecrã” da sociedade do espectáculo ou não. Neste quadro, a democracia televisiva dá hoje a não importa quem, desde que reúna os requisitos, os meios de «existir» aos olhos dos outros. Porque a condição requerida para aparecer nos projectores da sociedade do espectáculo não é a singularidade mas antes o inverso: a semelhança ao protótipo procurado com o qual se identificarão os «adolescentes» e os «jovens», que são os consumidores privilegiados da indústria do divertimento. Interroguemos um adolescente e vejamos o que representa a seus olhos, hoje, um médico, um juiz ou um professor ao lado de um animador bilionário ou dum futebolista analfabeto.»

Paul-François Paoli, Les impostures de l’égalité, Max Milo Editions, p.23

Uma década de PNR. E agora?

10 anos de PNR: Balanço de uma década. E depois?

Não venci todas as vezes que lutei;
mas perdi todas as vezes que deixei de lutar!

A concretização de um sonho

O aparecimento do PNR constitui, na altura, a concretização de um sonho para muitos de nós que militáramos antes em diversos movimentos e associações da dita “área nacional”, ou apenas sem qualquer filiação. Costumávamos ser os observadores da ponta da Europa. Habituados a olhar lá para fora e ver a realidade de partidos que não só existiam, de facto, como conseguiam “criar poder”.
Finalmente a oportunidade foi criada com o esforço de alguns que até hoje recusam os louros, como verdadeiros militantes que são. Apesar de todas as divergências, entendemos que o nosso lugar era o mais difícil, isto é, dentro. E nunca o cómodo lugar de “treinador de bancada”, tão crítico como ausente.
Abria-se uma frente política para o nosso combate. E como desertar? Perante a descrença e o desânimo da maioria, avançámos com convicções. Não com as ilusões do partidarismo dos lugares e dos interesses, mas a força dos ideais – hoje tão esquecidos –, que marcam a nossa presença que se afirma pela diferença.

A dura lição do trabalho

Neste árduo percurso, desde logo se notou a falta de uma cultura associativa. A inexperiência e a desconfiança de um mundo ao qual não estávamos a habituados. Um mundo que, aliás, recusáramos durante tanto tempo.
Mas com todas as críticas possíveis, devemos entender os erros desse tempo como parte do processo de amadurecimento e crescimento. O facto de termos tudo contra nós, pode fortalecer-nos como aqueles que nos atacam nunca imaginariam.
Mas isto, claro, se entendermos o nosso combate como uma forma de vida e não como um hobby, uma forma de entretenimento. Ou pior, uma forma de afirmação de nós próprios perante algo ou alguém.

A armadilha da ditadura mediática

Na sociedade do espectáculo em que vivemos hoje é difícil resistir à tentação dos “15 minutos de fama”. Num mundo do imediatismo e do presentismo é muito difícil transmitir uma mensagem de esforço continuado e de combate a longo prazo, depois do fast-food instalou-se o fast doing. Os resultados não aparecerão amanhã, mas o nosso trabalho deve garantir as gerações futuras – essa é a nobreza do nosso combate. A nossa satisfação é apenas o sentimento do dever cumprido e nunca o da recompensa imediata. Somos homens de pé, resistentes pensantes, não animais de circo no carrossel hedonista.
O aparente sucesso da exposição mediática, normalmente guiado pela máxima “fala mal, mas fala de mim” é não só perverso como demasiado prejudicial a longo termo. Numa fase inicial, é irresistível. Queremos que “nos conheçam”, mas na verdade permitimos a outros que nos dêem a “conhecer”. A imagem que passa – e não é mais que isso mesmo, uma imagem – nunca é, obviamente, a que queremos.
Depois de toda essa visibilidade, a queda. Pior, a banalidade, a anedota, a “coisa” estranha e distante, com a qual ninguém se identifica.
E como sair?

A chave: Seriedade

Uma das perguntas recorrentes na nossa área política, aqui e no estrangeiro, é: queremos verdadeiramente ganhar? Para os poucos que respondem que sim, não é preciso lembrar que tal apenas se faz com trabalho, disciplina, probidade e seriedade. Esta atitude é, aliás, a chave da nossa vitória. Devemos ser o exemplo e jamais alvo de opróbrio.
O primeiro passo no nosso caminho somos nós próprios. Se não encarnarmos o nosso ideal, estamos a tentar passar ideias ocas, sem sentido, como que a vender embalagens vazias. Tal pode não ser fácil nos tempos que correm, mas é exactamente nesse esforço e nessa fidelidade que nos tornaremos exemplo a seguir. Não devemos camuflar o que somos ou queremos. Se nos queremos representantes da Nação, não podemos viver num gueto, pois nunca chegaremos aos nossos compatriotas. A única forma de o conseguir é sendo sérios e responsáveis.Numa altura de inversão de valores, respeitaremos a Tradição. Como escreveu o historiador francês Dominique Venner: “Viver de acordo com a tradição é abraçar os ideais que ela encarna, é cultivar a excelência em relação à sua natureza, reencontrar as suas raízes, transmitir uma herança, ser solidário com os seus. Isto também significa expulsar de nós próprios o niilismo, mesmo que nos sacrifiquemos em aparência às normas práticas de uma sociedade que está escravizada pelo desejo”.

Da política espectáculo à influência política

Recusando a cegueira das luzes da fama aparente, podemos concentrar-nos no importante trabalho de “criação de poder”. Muito foi já feito nas duas últimas eleições a que o PNR concorreu. É disso exemplo a presença de militantes nas mesas de voto e as candidaturas a juntas de freguesia. Mas, como sempre, há muito mais a fazer. Norteados pelo princípio da implantação local, devemos ter como prioridade a real existência de núcleos operativos de militantes na maioria do território nacional, a influência em associações e organizações locais ou de causas transversais, apenas para referir as mais importantes.
Para levar a cabo todo este esforço temos que estar preparados. É necessário iniciar uma preparação interna de quadros, aptos aos desafios de amanhã. Começando dentro das medidas das nossas possibilidades, sem megalomanias, dando prioridade aos dirigentes do partido e militantes mais activos.
Em todo o nosso trabalho fundamentado, que nos levará por fim à desejada influência política, jamais deveremos deixar de ter sempre presentes os nossos objectivos.

O que queremos?

Queremos a vitória das nossas ideias – da nossa concepção do mundo. Não podemos confundir esta nossa vontade com um efémero sucesso eleitoral do partido, ou de uma sigla, embora a devamos igualmente perseguir enquanto partido com base num trabalho estruturado. A nossa via, porém, não é a do imediatismo. A nossa luta é um longo caminho no qual nunca podemos esquecer os pontos-chave: a defesa da nossa identidade étnica, cultural e civilizacional; o combate ao liberalismo e ao mundialismo; a defesa da justiça social e do Ambiente. Propomos ideias adequadas aos tempos modernos, mas ancoradas em valores eternos.

O nosso legado

Como militantes, interessa-nos mais o combate que a vitória. Acreditamos nela, mas não precisamos dela para continuar. Como os construtores de catedrais, o nosso mérito é a fidelidade à continuação da obra e a valorização do trabalho conjunto. Não esqueçamos nunca que a História é sempre inesperada e, quando a altura chegar, temos que estar preparados. Como um elo na corrente da perenidade da nossa Nação, aprendemos com os que nos antecederam e passaremos o testemunho aos que nos seguirem. Somos os portadores da chama.

Duarte Branquinho,
secretário da Mesa da Convenção Nacional

Humberto Nuno de Oliveira,
presidente do Conselho de Jurisdição Nacional

José Carlos Craveiro Lopes,
membro do Conselho Nacional

A liberdade é o limite

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O casamento civil homossexual foi aprovado no parlamento. A essência do argumento em defesa da possibilidade de duas pessoas do mesmo sexo casarem assentou na ideia de que o Estado não pode discriminar os seus cidadãos em função da sua orientação sexual e que as pessoas têm o direito de exercer a sua liberdade individual como entenderem.

Os parlamentares, servindo-se da sua “legitimidade democrática”, decidiram o assunto antes que a plataforma cívica Cidadania e Casamento Homossexual pudesse apresentar a sua petição para um referendo sobre o assunto. Isso não coibirá, pelo que percebi, a dita plataforma de continuar a sua luta e apresentar a petição. Saudamos os envolvidos por isso e desejamos-lhes persistência.

Mas a sua causa é pensada a partir da moralidade cristã…pela nossa parte auguramos encontrar entre os que vão entrar nesse combate um espírito nietzschiano, dos mais ousados, daqueles que sabem que o niilismo só poderá ser superado quando atingir o seu auge. Sim, ocorre-me que o que precisamos é de uma petição a exigir ao Estado a celebração de casamentos polígamos.

Afinal, que direito tem o Estado de negar a felicidade aos que querem viver nesse tipo de relacionamento e que acham, como os gays, que a sua felicidade depende de poderem casar? Se essa prática é escolhida no exercício da liberdade individual de adultos conscientes, sem obrigar partes externas ao que quer que seja, que legitimidade ética assiste ao Estado para a proibir e discriminar essas pessoas?

A diversidade do mundo exige o distanciamente físico entre os povos

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“A contribuição que o etnólogo pode dar à solução do problema racial revelar-se-ia irrisória e ele não está certo de que aquela que se iria pedir aos psicólogos e aos educadores se mostraria mais fecunda, já que, como nos mostra o exemplo dos povos primitivos, a tolerância recíproca pressupõe duas condições que as sociedades contemporâneas estão mais longe do que nunca de conhecer: Por um lado, uma igualdade relativa, por outro, uma distância física suficiente. (…) Sem dúvida que acalentamos o sonho de que a igualdade e a fraternidade venham a reinar um dia entre os homens sem que seja comprometida a sua diversidade. Mas se a humanidade não se quer resignar a tornar-se a consumidora estéril dos únicos valores que soube criar no passado (…), ela deverá reaprender que toda a criação verdadeira implica uma certa surdez ao apelo de outros valores, podendo ir até à sua recusa, ou mesmo à sua negação. Porque não podemos, ao mesmo tempo, submergir no gosto pelo outro, identificarmo-nos com ele e mantermo-nos diferentes. Quando plenamente alcançada, a comunicação integral com o outro condena, a mais ou menos breve prazo, a originalidade da sua e da minha criação. As grandes épocas criadoras são aquelas em que a comunicação se tornou suficiente para que parceiros afastados se estimulem, sem contudo ser tão frequente e rápida que os obstáculos indispensáveis entre os indivíduos e entre os grupos se amenizem ao ponto em que intercâmbios demasiado fáceis igualem e confundam a sua diversidade.”

Claude Lévi-Strauss – Race et culture, Race et histoire (Via Zentropa)