O Fahrenheit de Truffaut

by RNPD

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“— O que faz nas horas livres, Montag?
— Muita coisa… corto a relva…
— E se fosse proibido?
— Ficaria a vê-la crescer, senhor.
— Você tem futuro.”

Diálogo do filme Fahrenheit 451, de François Truffaut

Fahrenheit 451 é um romance escrito por Ray Bradbury sobre uma distopia futura em que os livros são proibidos e queimados e a televisão se torna de tal forma central na vida das pessoas que passa a ser designada por «a família». Para perseguir as pessoas que detêm livros existe uma força de ordem, os “bombeiros”, que além de prender os que lêem está encarregue de queimar os seus livros. Montag é um desses bombeiros…mas, um dia, lê uma das obras que havia confiscado. A partir daí toda a sua vida muda…

Vem esta breve introdução a propósito de ter revisto recentemente a adaptação cinematográfica feita por François Truffaut.

Há nela um momento particularmente notável que vale bem o filme: dá-se quando os bombeiros são chamados de emergência a uma casa cuja proprietária é suspeita de ter livros. Começam a partir a mobília à procura dos livros e, a dada altura, descobrem uma pequena biblioteca escondida por detrás de uma parede falsa. O chefe dos bombeiros chama Montag e toda a cena que se desenrola é memorável:

«Ah, Montag! Eu sabia, eu sabia. Claro que tudo isto…a existência de um segredo…de uma biblioteca, era conhecida nas altas instâncias mas não havia maneira de chegar até ela. Apenas uma vez vi tantos livros reunidos num mesmo lugar.»

De seguida enquanto percorre a pequena biblioteca com Montag vai pegando nos livros que se encontram nas diferentes secções… romances, filosofia, biografias, enquanto tece os seus comentários sobre as obras…

«Ah, Robinson Crusoe. Os negros não gostam por causa do seu homem, o Sexta-Feira. E Nietzsche. Os judeus não gostavam de Nietzsche. Aqui está um livro sobre cancro do pulmão. Todos os fumadores entram em pânico, por isso, para assegurarmos a paz de espírito de todos, nós queimamo-lo. Ah, este deve ser muito profundo. A Ética de Aristóteles. Qualquer um que leia isto deve pensar que está acima dos que não leram. Vê Montag? Não é bom, temos todos de ser iguais. A única forma de atingir a felicidade é se todos forem tornados iguais. Por isso, temos de queimar os livros Montag.» E quando pronuncia esta última frase pega no Mein Kampf de Hitler e remata «Todos os livros!».

Se as referências literárias e políticas da cena juntamente com a corrosiva crítica do igualitarismo já eram merecedoras de elogio, o desenrolar da situação reforça brilhantemente a mensagem latente…

Montag e o seu chefe são então informados que existem ordens para queimar a casa juntamente com a biblioteca. A proprietária recusa-se a abandonar o seu lar e acaba por se imolar no meio dos seus livros. Montag regressa a casa perturbado pelo que acabara de presenciar e encontra a sua mulher reunida com as amigas a olharem para o ecrã de televisão (a omnipresença e importância das mensagens televisivas na vida quotidiana é um dos temas centrais da história, e a cena em que Linda, a mulher de Montag, lhe pergunta por que é que ele não concerta a «família da cozinha», remete-nos para as horas de jantar nas nossas sociedades em que as televisões estão ligadas e as pessoas mal olham ou falam umas com as outras, ou seja, em que a televisão substitui o momento familiar).

Enquanto Linda e as suas amigas fazem alguns comentários sobre a aparência da mulher que aparece no ecrã e falam sobre a irresponsabilidade de ter filhos ou apresentam as razões menos válidas para os ter, podemos ouvir o que é dito pela mulher que aparece na televisão:

«Lembrem-se de tolerar os amigos dos vossos amigos, por mais estranhos (a expressão usada é “alien”) e peculiares que vos possam parecer. Não desprezem as minorias. Sufoquem a violência. Suprimam o preconceito.»

Bravo Truffaut! Aquele encadeamento de cenas é uma denúncia implacável do totalitarismo politicamente correcto, com a sua apologia fanática das “igualdades, humanitarismos e tolerâncias”, de que se serve para cercear a expressão do pensamento dissidente. Uma ficção cinematográfica futurista cada vez mais próxima das realidades actuais.