Sobre o discurso contra a islamização da Europa

by RNPD

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Primeiro vou deixar claro o seguinte: Há alguns países da Europa que estão, efectivamente, num processo acelerado de islamização. O combate contra a islamização dos países europeus é absolutamente fulcral para todos aqueles que estão interessados na defesa e preservação das nações europeias. Que sobre isto não fiquem dúvidas.

Contudo, se o discurso contra a islamização da Europa que, sobretudo nos últimos anos, se disseminou preferencialmente nalguns sectores da direita nacionalista, tem muitas razões, vive também de muitas manipulações, ilusões e alucinações.

O propósito deste texto não é amenizar as razões e a premência do combate contra a islamização da Europa mas expurgá-lo das falsas questões e das manipulações que frequentemente o permeiam.

O discurso contra a islamização da Europa pode ter três grandes grupos de aderentes, aqueles a quem a identidade colectiva europeia não interessa para além daquilo que possa interferir com os seus interesses e liberdades individuais: nesse caso o islão pode ser visto como uma ameaça a isso. Aqueles que acham que a Europa é uma comunidade colectiva de adesão a uma determinada doutrina com a qual o islão choca: neste grupo poderão estar, por exemplo, muitos cristãos que não têm mais qualquer interesse na defesa da Europa que vá para lá da esfera da sua fé religiosa. E, por fim, aqueles que se batem pela defesa integral da identidade europeia. E são estes que me interessam e é a estes que me dirijo.

Um discurso que tem de ser devidamente enquadrado

Antes de mais nada, o discurso contra a islamização da Europa é um discurso que faz muito mais sentido nalguns países do que noutros, porque, apesar de todo o Ocidente estar a ser, autenticamente, invadido por uma imigração massiva sem paralelismo na história da humanidade, só nalguns países é que uma parte substancial dessa imigração é islâmica. Assim, falar de islamização de Portugal ou da Irlanda, para dar alguns exemplos, é pouco menos que ridículo. Mas faz sentido falar desse risco em países como a França, a Bélgica ou a Holanda porque as populações vêem, sentem e sofrem com essa presença islâmica no seu quotidiano.

Não significa isto que a islamização de países europeus não constitua uma séria ameaça para aqueles que não estão a passar directamente por esse processo, porque pela sua vontade expansionista e totalitária, pela radicalidade de vários dos seus sectores, a islamização de alguns países europeus exporia, ou exporá, os outros a essa voragem.

Mas se é legítimo e até necessário alertar para esse perigo, a verdade é que os movimentos identitários e nacionalistas europeus têm primeiro que tudo de se dirigir ao seu povo, à sua realidade social específica, àquilo que faz sentido para a população de que fazem parte. A casa não se começa a construir pelo telhado. Em última análise o combate contra a islamização de certos países da Europa tem sempre de ser travado pelos povos que passam por isso e não adianta de muito haver outros a falarem do exterior contra o facto, porque se não houver vontade e capacidade de resistência nas nações que estão a ser alvo dessa transformação não haverá nada a fazer. Estarmos em Portugal a falar de islamização da Holanda é redundante porque os holandese é que podem resolver o problema e eles estão consciente do que está a suceder, e se não estiverem não o ficarão certamente por haver outros a dizerem-lhes o que está a acontecer na sua própria pátria.

É preciso por isso que, dentro de cada país, os movimentos de resistência saibam enquadrar-se naquilo que são os seus próprios problemas reais e locais antes de pretenderem pensar em cenários futuros ou hipotéticos que os possam vir a afectar. É uma questão de ter presentes as devidas prioridades.

O problema não é a islamização, é a imigração

Desviar o discurso da imigração para a islamização gera confusões doutrinárias graves, porque abre espaço a que a Europa deixe de ser entendida como um espaço com características étnicas e culturais específicas ameaçadas pela imigração não-europeia para passar a ser um espaço de adesão a determinados valores que o islão poderia ameaçar: por exemplo a cristandade ou a laicidade republicana. Ora eu não sou ou deixo de ser europeu por acreditar na mensagem de Cristo ou na tríade de valores celebrizados pela revolução francesa (igualdade-liberdade-fraternidade) e nos seus “direitos humanos”. Estas coisas excluiriam, aliás, alguns dos mais brilhantes pensadores europeus, desde Platão e Séneca a Nietzsche e Heidegger. Ora, o islão ameaça tanto a identidade europeia como a presença de povos africanos ou asiáticos com outras crenças. Todas essas realidades, se a sua presença for significativa, representam corpos estranhos à Europa. E quem não o entender não pode ambicionar mais do que uma Europa amputada, uma mixórdia que não é continuadora e respeitadora da sua essência e das suas origens.

É fundamental, por isso, perceber as hierarquias do problema e subalternizar a crítica da islamização europeia à crítica, mais ampla, da imigração desregrada. Se isso não for feito, o resultado não será apenas a confusão doutrinária no interior dos movimentos nacionalistas mas também a confusão – para o exterior – com determinadas forças que são contra a islamização da Europa mas que, ao mesmo tempo, são indiferentes à defesa da identidade integral europeia…isto quando não lhe são manifestamente adversas.

Os riscos que advêm daqui são múltiplos: erros de análise na distinção entre amigos e inimigos, desencaminhamento de militantes, atracção de outros pelas razões erradas, desacerto nas batalhas a travar e no objectivo a atingir, etc.

Se o combate à imigração e o combate ao islão não forem devidamente enquadrados e hierarquizados, caminhar-se-á progressivamente para uma “reductio ad islam” que resultará em achar que esse é o combate central e que, findo esse, os objectivos estão alcançados. Dessa forma, mesmo para aqueles que conseguissem entender que o problema do islão na Europa provém sobretudo do problema da imigração, a solução seria, quanto muito, a mera redução da imigração islâmica, sem mais considerações contra as outras proveniências dos movimentos migrantes.

As forças subversivas por detrás do discurso contra a islamização da Europa

Por detrás do discurso contra a islamização da Europa estão muitas forças que não têm relação com a concepção de Europa própria dos ideários nacionais e identitários.

Grupos cristãos: dentro da incontável variedade de famílias cristãs (todas elas convencidas de serem portadoras da Verdade e do único caminho que salva do Inferno) existe de tudo, desde os que têm colaborado, pelos mais variados motivos de índole bíblica, com a presença islâmica nas terras europeias aos que se lhe opõem vendo nisso uma ameaça, lógica, diga-se de passagem, à força do cristianismo. Mas mesmo estes últimos não são forçosamente parte da “resistência europeia”. Porque ser-se cristão não é condição necessária, e muito menos suficiente, do “ser europeu”. Para muitos deles o que lhes interessa defender é a força da sua fé religiosa e a sua comunidade é a de todos os homens – de todo o mundo – que partilham a sua espiritualidade. Podem não querer islâmicos na Europa mas apoiam frequentemente a imigração não-europeia cristã ou potencialmente convertível. A luta pela identidade europeia não é essa.

Lobbies judaicos: Por detrás das grandes transformações políticas que minaram a coesão étnica e cultural das nações europeias encontrou-se frequentemente uma forte presença de lobbies judaicos. Durante séculos o judeu foi o elemento estranho no seio das nações europeias, e durante séculos sentiram as consequências dessa diferença. Ao fomentarem politicas de imigração não-europeia e ao combateram as manifestações sociais do tradicionalismo europeu os judeus conseguiram assim atenuar ou até eliminar aquilo que os tornava um elemento estranho, porque numa sociedade sem homogeneidade cultural e anti-tradicional, eles passaram a ser apenas mais um grupo no meio de tantos outros, a partir do momento em que o multiculturalismo e a diferença étnica se torna a norma a sua diferença extingue-se e cessam as barreiras à afirmação do seu poder. Mas se lhes interessou a imigração massiva para a Europa não lhes interessa a parte islâmica dessa imigração, porque o islão representa, por várias razões, uma ameaça aos seus interesses e ao seu estatuto na Europa bem como à segurança de Israel (e não nos esqueçamos que a Europa tem armas nucleares). Para os lobbies judaicos importa, por isso, travar a islamização da Europa mantendo, contudo, os factores (entre os quais a imigração massiva) que transformam a Europa, não numa realidade histórica etno-cultural, mas numa ideologia política assente numa visão universalista e aberta à diversidade cultural e religiosa, ou seja, a eles. Estes não são, obviamente aliados na luta pela identidade europeia.

Interesses norte-americanos: Tal como no caso dos lobbies judaicos (que aliás, hoje actuam, e por vezes se confundem, com a política externa norte-americana) também aos pensadores da hegemonia global norte-americana interessa uma Europa assente num modelo globalizado e multicultural, desde que não exista o risco de islamização. Isto porque o Islão é hoje uma das grandes forças de resistência à geopolítica global do Império norte-mericano. Aos EUA interessa uma Europa que se insira na lógica do que é o modelo societário dos EUA, em que o mercado global acaba por ser o único delineador de identidades, um mundo em que as pessoas são antes de tudo produtores e consumidores, de individualismo radical, em que a economia determina os valores. A islamização do continente europeu não representaria apenas uma ameaça à geopolítica global e ao poderio militar norte-americano, mas também uma ameaça à lógica mercantilista do seu modelo de sociedade. Conclusão: Também nalguns sectores políticos estado-unidenses existem os que lutam contra a islamização da Europa, mas também esses são ferozes inimigos da identidade europeia.

Existem depois outros grupos, feministas, homossexuais, ateus, libertários, etc., que, por razões que têm a ver com o seu posicionamento político histórico, sentem ainda relutância em aderir a um combate que, lá no fundo, interpretam como sendo contra o “outro-diferente-excluído”. Mas assim que o islão começar a “excluir” a “diferença” desses grupos, mais e mais entrarão nessa luta, em defesa dos seus interesses individuais, não das identidades históricas nacionais da Europa.

Como é que as forças subversivas actuam?

Uma parte da estratégia delineada pelas forças subversivas passa por influenciar ou infiltrar os movimentos nacionalistas, uma vez que sabem que são estes os mais receptivos e activos no combate contra os factores de destruição da Europa tradicional. E o islão é, sem margem para dúvidas, uma entidade estranha e perigosa. Esta tentativa de manipulação dos meios identitários faz-se de diversas maneiras, das quais destacamos:

A internet: Uma parte substancial desse trabalho de manipulação do discurso nacionalista faz-se através de sites e fóruns na internet que se focam, 24 horas sobre 24 horas, na colecção de notícias e textos que retratam o lado mais negro do islão. Algumas dessas notícias e alguns desses textos são verdadeiros outros são falsificações mais ou menos grosseiras (por exemplo, ainda me lembro, há uns tempos, da forma como vários sites divulgaram que no Irão os judeus eram obrigados a usar uma estrela amarela na roupa, notícia falsa que acabou por não ser desmentida pela maioria dos que inicialmente a divulgaram). Tudo vale. Estes sites funcionam como centrais de propaganda ininterrupta que para além de divulgarem fornecem material para ser divulgado por outros sites. Muitos dos que vão lá buscar material são nacionalistas que depois acabam por funcionar como um elo na cadeia de transmissão daquela propaganda, demasiadas vezes sem fazer a devida triagem ou confirmar a credibilidade das fontes.

Não é também por acaso que a maior parte desses sites são escritos em inglês e têm uma lógica bastante simplista ou até maniqueísta. Por um lado o inglês, pela sua universalidade, facilita a divulgação transversal por todos os países do material ali publicado, por outro lado, muitos dos contribuintes com comentários e textos para esses sites são, “estranhamente”, anglófonos. Isto apesar dos sites estarem sedeados nos mais diferentes países. Por fim, os nacionalistas que são mais permeáveis àquela publicidade são naturalmente os que, para além da sua língua, apenas lêem em Inglês. Privados do que se publica em francês, italiano, espanhol ou alemão, isto é, dos textos escritos com fidelidade à tradição continental europeia, com coerência e força doutrinal e cientes das reais ameaças à identidade da Europa, limitam-se a sorver o que se publica em inglês, onde, regra geral, encontramos um grande desconhecimento da realidade e da tradição política da Europa e um pensamento estruturado em função do que foram e são as tradições e problemas políticos anglo-saxónicas com as suas peculiaridades próprias e o seu discurso de inspiração liberal. Neste sentido, os sites nacionalistas que bebem naqueles acabam por funcionar, desadequados ao espaço político onde estão inseridos, como um elo de deformação da doutrina nacionalista europeia, e um factor de desencaminhamento e confusão para os que os lêem.

Organizações e partidos nacionalistas: Desde o final da segunda guerra mundial que as tentativas de manipular por dentro as organizações e partidos nacionalistas foram implementadas, com vários objectivos, controlá-las, desacreditá-las ou, simplesmente, usá-las em combates que servem outros interesses externos. Isto começou através da CIA com as chamadas redes “Gladio” e tem hoje alguma expressão no discurso anti-islamização. Em troca da possibilidade de apoios, acesso aos media ou respeitabilidade política, os partidos e organizações nacionalistas são incentivados a focarem-se no problema da islamização da Europa, relegando para plano secundário outros que são igualmente dramáticos para a sobrevivência do continente. As organizações e partidos nacionalistas, mesmo quando conscientes disso aceitam por vezes o trade-off, afinal, a islamização não deixa de ser um grave problema e, ao mesmo tempo, a sua crítica pode ser publicamente apresentada em defesa da “democracia ocidental” ou dos “judeus”, ou dos “direitos das mulheres e dos homossexuais” (tudo isso ameaçado pelo expansionismo islâmico), que são discursos e justificações mais fáceis.

Às forças subversivas interessa sobremaneira controlarem os movimentos nacionalistas, por um lado porque sabem que é dali que poderá vir o combate e a denúncia dos seus interesses, e assim interessa-lhes re-direccionar esses movimentos para outros sentidos e outras lutas, e por outro lado porque podem dar expressão a um discurso politicamente incorrecto sem se prejudicarem demasiado, servindo-se dos nacionalistas e identitários.

É preciso também saber distinguir, para evitar maiores equívocos, entre a utilização por parte de forças subversivas dos movimentos legitimamente interessados na defesa da Europa e a existência de personalidades, publicações e organizações que se focam quase exclusivamente no combate ao islão mas que não têm relação alguma com os movimentos nacionais e identitários da Europa.

Conclusão – como agir:

A denúncia da islamização da Europa é importante por parte dos movimentos de “resistência europeia” mas ela deve ser devidamente pensada e enquadrada.

Nos Estados onde esse problema não se sente localmente, o discurso tem de se centrar noutros problemas e a crítica à dita islamização deve ser inserida no risco que representaria para todos os países europeus a islamização de parte do continente. É fácil de perceber que constituiria um risco para a liberdade e a cultura dos países limítrofes a existência de uma potência ao serviço da fé islâmica no seio da Europa.

Nos Estados onde esse problema se faz sentir efectivamente o discurso contra a islamização da Europa é mais premente mas deve ser inserido no problema mais amplo da imigração e não poderá nunca sobrepor-se ao primeiro. A islamização não pode ser denunciada como um perigo para o modo de vida ocidental (o que leva a concluir que a imigração “não-islamica”, não sendo contrária às liberdades individuais do Ocidente, seria bem-vinda ou um “não-problema”) mas como uma ameaça à identidade histórica da Europa com a mesma gravidade que é colocada por qualquer tipo de imigração não-europeia, cada uma com os seus problemas específicos. É isto que, em geral, é feito nos países onde a doutrina nacionalista está mais consolidada e é mais madura, como França ou Itália, mas não me parece que seja isto que é feito, genericamente, na Holanda, por exemplo.

Saber distinguir os amigos dos inimigos e saber escolher os aliados é fundamental. É preciso separar o trigo do joio. Se fora da nossa área há interesses politico-económicos que falam contra a islamização da Europa, óptimo, mas saibamos servir-nos deles e não servi-los a eles. É preciso alertar os nossos para o facto de certas convergências que possam ocorrer a este nível serem meramente ocasionais e situadas num determinado contexto, muitos dos que falam contra a islamização da Europa pretendem a destruição do nosso continente por outras formas, os nossos objectivos não são os deles, a Europa dos movimentos nacionalistas e identitários não é a Europa dos interesses norte-americanos, de Israel e dos judeus, da Igreja Católica ou de alguns esquerdismos republicanos de “causas fracturantes”. Se os discursos se cruzarem não esqueçamos que fora dessa batalha a nossa causa não é a causa deles e muitas vezes a causa deles é a morte da nossa causa.

Ler e procurar informação fora do mundo anglo-saxónico. Não significa isto que em Inglaterra e nos EUA não existam homens dos nossos, a travarem a mesma guerra e com verdadeira formação doutrinária. Mas se devemos também estar abertos a esse espaço cultural, não podemos de forma alguma cingir-nos a ele porque a verdade é que a essência da nossa tradição política reside na Europa continental, foi aí que foram escritas as grandes obras da nossa área ideológica e é daí que continuam a vir os grandes textos de orientação política para compreender o nosso mundo.

Desconfiar daqueles que pretendem dividir e transformar a área nacionalista num combate entre simpatizantes de Israel e simpatizantes do mundo islâmico, desperdiçando as energias da área nessa luta. O confronto entre os judeus e os islâmicos não é uma preocupação nossa excepto na medida em que afecte o nosso continente. E nesse sentido, uns e outros têm sido, embora de formas diferentes, forças de subversão no interior da Europa.

Impedir que o combate à islamização conquiste e monopolize o discurso nacionalista. A islamização da Europa não invalida que o continente esteja ameaçado por outros factores igualmente perigosos: a hegemonia dos poderes económicos sobre o homem, a globalização, o modelo societário norte-americano, a imigração não-europeia de todos os tipos, a força parlamentar e empresarial de “sociedades secretas”, a decadência dos valores, a manipulação pelos meios audiovisuais, a perversão do Estado, entre outros.