Month: Janeiro, 2010

Modernismo e imobilismo…

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A revolta contra o mundo moderno parece-nos totalmente legítima e necessária se por isso se entender a revolta contra aquela ideologia do progresso e da modernidade que acha que as suas posições são superiores pelo simples facto de serem contemporâneas. Essa ideologia tende a desclassificar tudo o que é de “antigamente” e a rotular negativamente todas as ideias que a história deixou para trás, como se isso dissesse alguma coisa sobre a validade das coisas de hoje ou das de ontem.

Para os cultores da modernidade os homens “têm de se adaptar e evoluir para se adequarem aos novos tempos e às novas realidades”. Porquê? Aparentemente pelo simples facto de que “hoje os tempos são outros”. O argumento é evidentemente tautológico. Não há nunca uma discussão sobre se essa evolução, nos diferentes casos concretos, é em si mesma boa ou má, apenas sabemos que as coisas evoluíram num determinado sentido e que os que não acompanham essa evolução são retrógrados (sendo o vocábulo sempre usado com má conotação).

Parece-nos evidente que muitos comportamentos e ideias evoluíram ou progrediram historicamente de forma degradante. Pelo facto de serem hoje situações normalizadas, ou socialmente aceites, não deixam por isso de serem decadentes. Há pois muito a recuperar do passado…mas não tudo.

É que existe um certo pensamento “anti-moderno” que cai no mesmo erro mas em sentido inverso. Para esses a modernidade não tem quaisquer méritos, limitou-se a colocar um ponto final numa época dourada que acabou algures no tempo e, desde então, tudo sem excepção é decadência. Da mesma forma como os primeiros argumentam que algo é mau por ser de épocas passadas, estes tendem a desclassificar as coisas por serem próprias da modernidade. São o espelho uns dos outros, com as mesmas reacções pavlovianas.

As ideias, comportamentos e formas não devem ser jogados e julgados num grande bolo epocal mas sim avaliados e pensados no concreto de cada caso e em função do caminho que queremos construir. A sua contemporaneidade ou antiguidade não são argumento para o seu valor. Até porque o lastro do passado também tem muito que a modernidade abandonou e que não nos interessa recuperar.

Na realidade combatem-te a ti…

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Unser Kampf

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George Mosse é um daqueles académicos judeus cuja obra foi em grande parte dedicada à análise do nacional-socialismo. Pese embora alguns equívocos, talvez próprios de quem estuda um objecto com uma antipatia preliminar, há obviamente alguns méritos no seu trabalho. Vem isto a propósito de uma releitura de um dos seus livros “The Crisis of German Ideology: Intellectual Origins of the Third Reich”. Nele o autor afirma que o hitlerismo não fez prova de particular originalidade mas foi antes o resultado de um conjunto de ideias que começaram a ser erguidas pelo romantismo alemão, a partir da segunda metade do século XVIII, com o seu culto da terra, do Volk, do sangue e do enraizamento, a sua rejeição dos gostos burgueses e o confronto das concepções abstractas do iluminismo. Essas ideias românticas espalharam-se primeiro pela sociedade alemã e penetraram os seus meios intelectuais e os seus movimentos de juventude, criando, portanto, uma aceitação prévia de um conjunto de princípios de que o regime de Hitler se viria a servir, dando-lhe uma interpretação e uma aplicação política/prática. Mas o essencial, a generalização, popularização e legitimação intelectual das ideias que viriam a servir de suporte ao regime nazi estava feito.

Naturalmente, e já o afirmei antes, o hitlerismo foi uma aplicação parcial dessas ideias, da mesma forma como qualquer regime é sempre uma aplicação parcial do Todo ideológico que reina num dado espaço e tempo. Mais do que isso, o regime de Hitler não foi, na minha opinião, a interpretação que necessitávamos de um conjunto de ideias, de um certo pensamento orgânico, enraizado e anti-economicista, que continua a ter todos os méritos que ainda fazem dele a grande base de uma verdadeira “revolução europeia”. Talvez nem pudesse ser, porque a história da Alemanha na altura, com todas as humilhações e baixarias a que fora sujeita, era propícia a um “egocentrismo” que impedia uma visão mais europeia e menos nacional, mais respeitadora das diferenças raciais do que supremacista e mais construtiva do que vingativa.

Mas independentemente da discussão sobre os erros e os méritos (que também os teve) do regime em causa, há uma lição muito importante a reter e relembrar, sobretudo para aqueles que têm consciência de que o combate pela identidade europeia é hoje de natureza metapolítica.

É que a metapolítica, sendo alteração dos valores dominantes numa sociedade, não é um combate que se faz em uma década, mas em um século ou mais, e nisso Mosse acertou; antes de Hitler chegar ao poder o conjunto de ideias que deram forma ao nacional-socialismo há muito que não eram estranhas à população alemã, não eram recentes de uma ou duas décadas, mas já haviam corrido gerações inteiras sem qualquer resultado estritamente político…

Numa altura em que se nota um certo desânimo nas hostes nacionais e identitárias, esta é uma lição a ter bem presente. Posso compreender alguma desilusão por parte de quem não vê resultados práticos imediatos para o seu esforço e tempo, mas não posso deixar de achar que essa desilusão é muito fruto de um mau entendimento da guerra em que quiseram participar.

Acresce que, se quiséssemos estabelecer uma comparação com o que antecedeu a revolução nacional-socialista, existem hoje uma série de obstáculos que tornam o combate ainda mais épico: nunca como agora vingou tanto o poder do dinheiro, nunca houve uma sociedade tão marcada pelo consumismo burguês, nunca os meios universitários tiveram uma tão grande falta de capacidade de incorrecção política, nunca a economia esteve tão globalizada, nunca como agora as terras da Europa estiveram sujeita a uma vaga tal de imigração a ponto de se tornar colonização e nunca como agora houve uma tal asfixia mediática como a que é imposta pela televisão.

É preciso ter plena consciência de que nós não veremos os braços erguerem-se ao alto ou as nossas bandeiras voarem ao vento… não, nós seremos o Início, nós seremos os primeiros, forneceremos a base e a fundamentação para os que vierem depois de nós, seremos inspiração mas não seremos nós a ser multidão, seremos aquela pequena pedra que começará a emperrar a máquina…e depois virão outros quando nós já apenas formos memória, memória da primeira rebelião rumo à vitória ou memória de uma Europa perdida de que falarão às crianças em fábulas e historietas. Não interessa, o que conta é que estivemos presentes!

É por isso que temos de ter o gosto pelo poético e pelo trágico, pelas missões que não têm qualquer recompensa para além de terem sido cumpridas, ou de as termos tentado até ao fim. É por isso que não podemos ser soturnos e zangados, não nos podemos levar demasiado a sério, temos de saber rir de nós próprios e perante os destroços da tempestade que nos atinge. Teremos de saber gozar nos tribunais da nossa inquisição. É uma guerra perdida? Estou sozinho? E o que me importa isso a mim? O que importa é que estou! Me ne frego!

A nossa Tradição mais antiga ensina-nos que os deuses reservam para os grandes homens os momentos mais difíceis, as batalhas mais árduas e aí, mais do que saber se foram ganhas interessa saber que foram travadas. “À sombra de Yggdrasil, a águia e a serpente proclamam sem fim esta verdade primordial do Norte: o que vive, é o que luta!”

O nosso lema não é “Viva a Vitória”, é “Viva a Luta”!

A esquerda das liberdades

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«“Nova Esquerda” é uma expressão informal. A par de um revolucionarismo essencialmente anedótico, que permitiu a um certo número de jovens solidarizar-se com uma “revolta da juventude” de dimensão internacional e de romper com o tédio dos anos cinquenta, um dos seus méritos foi ter feito emergir um novo tipo de reivindicações, que já não eram somente de natureza quantitativa, mas que assentavam sobre a qualidade da vida. Parece-me que o movimento de Maio de 68 viu exprimir-se simultaneamente duas tendências muito diferentes: de um lado um protesto, na minha opinião perfeitamente justificado, contra a sociedade de consumo e a sociedade do espectáculo (Guy Debord), do outro, uma aspiração de tipo mais hedonista e permissiva, muito bem resumida pelo slogan “jouir sans entraves” (gozar sem limites). Estas duas tendências eram totalmente contraditórias, como vimos nos anos que se seguiram, quando os representantes da segunda tendência começaram a perceber que era precisamente na sociedade de consumo que as suas aspirações individualistas melhor se podiam realizar.»

Alain de Benoist, em entrevista à revista Zinnober

Sacanas sem lei…

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Li algures que o filme “Sacanas sem Lei” foi considerado um dos melhores de 2009. Vi esse filme não há muito tempo e o tédio foi tal que nem consegui chegar ao fim. Não sei exactamente o que é que Tarantino pretendia com aquilo, mas não é melhor do que os seus trabalhos habituais ( e não é um elogio), isto sem deixar de ter todas as suas marcas recorrentes. Basicamente trata-se de um encadeamento de cenas visuais sem a solidez de um argumento que as transforme em algo mais do que isso e do desfile de um conjunto de personagens que, para além de desprovidos da mínima profundidade psicológica, conseguem ser uns mais imorais e grotescos que os outros: sádicos, mentirosos, ignorantes, bufos… Espeta-se na misturadora as habituais referências culturais e “cinéfilas” de Tarantino, com as suas estafadas homenagens a cenas e actores do cinema menos comercial (que se sucedem a um ritmo tal que chega a ser enjoativo…) e está pronto a servir.

O pseudo-argumento é sobre um grupo de soldados americanos (judeus), comandados pelo Tenente Aldo Raine – Brad Pitt – (ena, a homenagem cinematográfica do Tarantino a Aldo Ray! Fantástico, pá!) conhecidos por chacinarem nazis e que acabarão por embarcar numa missão para matar as altas patentes do regime Nazi quando esses homens decidem ir todos a uma estreia de um pequeno filme num cinemazinho da França ocupada sem quaisquer medidas de segurança e onde toda a gente circulava mais ou menos à vontade.

O filme pretende situar-se “do lado certo da História” e espera que o espectador entre na sala de cinema com um dogma à priori omnipresente: os nazis são desumanos, são a imagem do mal, e, portanto, matar nazis, sejam quais forem as circunstâncias, é bom, e ponto final. Se o público tiver a maturidade intelectual de um “adolescente inconsciente” a coisa até pode resultar, mas para um público mais inteligente e com maior sentido crítico das coisas, o filme acaba por passar, ainda que inadvertidamente, uma mensagem inversa e esse é o seu grande feito não desejado. Esse tiro que acerta no alvo errado, é cómico pela sua dimensão irónica e involuntária.

Os soldados aliados têm, sem excepção, um comportamento grosseiro e são autênticos tarados sanguinários (por exemplo, tiram escalpes aos homens que matam) e a eles juntam-se alguns traidores e desertores alemães, cuja conduta não inspira propriamente simpatia.

Para além da judia Shosanna, cuja família fora morta pelos nazis e que decide, dada a oportunidade, vingá-la com o custo da sua vida, os únicos exemplos de elevação, heroísmo e honra que se encontram no filme são protagonizados por soldados alemães.

Sobretudo através do exemplo daquele militar cujo grupo fora emboscado e morto pelos “sacanas”. Capturado é levado e ajoelhado perante Aldo Raine que lhe coloca um mapa à frente e lhe dá a escolher entre indicar onde se localizam as tropas alemãs ou a morte. O alemão responde-lhe que “se recusa respeitosamente” a fazê-lo. Aldo chama então um dos seus homens dizendo-lhe que faça a vontade ao “alemão que quer morrer pela pátria”. Um judeu americano dirige-se para o soldado alemão com um bastão de baseball e aponta para a “cruz de ferro” que aquele tem na lapela:” Foi ganha por matar judeus?” ao que o alemão, que mantém durante toda a cena uma incrível calma e dignidade, responde as suas últimas palavras, segundos antes do seu selvático assassinato: “por bravura!”.