A violação da Europa pela especulação financeira internacional

by RNPD

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«O governador do FED, Ben Shalom Bernanke, foi recentemente obrigado a confirmar ao congresso norte-americano as manobras especulativas da Goldman Sachs, que já em 1992 havia lucrado com os mesmos métodos aquando da desvalorização da lira italiana. Transformando em derivados (SWAPS) o que era necessário à Grécia em 2001 para cumprir as normas da zona Euro, a Goldman Sachs, através dessa operação, ganhou cerca de 250 milhões de euros. Depois os juros multiplicaram-se. Agora a Grécia tem necessidade de 25 mil milhões apenas para “refinanciar” o seu endividamento.» (1)

No Senado norte-americano, em resposta a uma observação do senador Christopher Dodd de que estaremos perante uma situação em que grandes instituições financeiras de Wall Street estarão a ampliar a crise pública nalguns Estados europeus para lucros privados, Bernanke respondeu:

«Estamos a analisar uma série de questões relacionadas com a Goldman Sachs, outras instituições, e os seus contratos de derivados financeiros com a Grécia (…) usar esses produtos de uma forma que destabilize intencionalmente uma empresa ou um país é contra-produtivo.» (2)

Algumas instituições financeiras estão sob acusação de terem ajudado a Grécia a esconder o seu défice orçamental, para cumprir os critérios da Zona Euro, servindo-se de contratos de Credit Default Swaps e conseguindo grandes lucros com essas operações.

Vários analistas tinham vindo a alertar que a crise grega, bem como a sua ramificação a outros países europeus, nomeadamente a Espanha e Portugal, seriam o resultado da acção de fundos de especulação financeira contra os Estados europeus e a própria Zona Euro (hoje as suspeitas concretizam-se na Goldman Sachs e nos Hedge Funds de John Alfred Paulson).

Simplisticamente, o mecanismo funciona assim, e note-se que os mercados onde se negoceiam estes contratos de CDS (Credit Default Swaps) são essencialmente desregulamentados, ou seja, são um bom exemplo do mercado privado entregue a si mesmo:

Um determinado Estado (ou uma empresa) necessita de dinheiro. Há uma instituição financeira (um Fundo ou um Banco, por exemplo) que o empresta, contra o pagamento de uma taxa de juro.

A instituição financeira em causa decide então fazer uma espécie de seguro contra a possibilidade do Estado a quem emprestou o dinheiro não cumprir as suas obrigações. Para isso compra um produto financeiro chamado CDS (Credit Default Swap). O vendedor do CDS promete pagar o empréstimo no caso do tomador inicial não o conseguir fazer. Naturalmente o preço do CDS é tanto mais elevado quanto maior o risco de incumprimento por parte do Estado.

No fundo, o que sucedeu à Grécia é que, por causa do expediente que arranjou para fazer baixar o seu défice, ficou refém dos especuladores financeiros e encontra-se agora prisioneira numa tenaz que aperta por dois lados.

Por um lado, no mercado dos CDS associados à dívida do país, fazem-se apostas, como num casino, com o seu risco. Quanto maior for o risco do país, e portanto, quanto maior a instabilidade na Grécia, mais sobe o preço dos seus CDS. Temos assim que existem especuladores que jogam nesse mercado interessados na destabilização interna do Estado grego para lucrarem com as transacções desses CDS.

Por outro lado, os bancos que inicialmente emprestaram dinheiro de forma sub-reptícia à Grécia sabem também que, ao aumentar o risco do país, aumentam os juros que vão receber para pagamento desses empréstimos e têm por isso também interesse na instabilidade interna dessa nação. Acresce que esses próprios bancos são suspeitos de andarem também a especular sobre os CDS associados à dívida grega.

Resumindo, há uma série de especuladores financeiros interessados em fazer baixar o rating do país, ou dito de outra forma, em criar instabilidade para lhe aumentar o nível de risco associado.

Apesar de tudo a Grécia ainda se encontra de alguma forma escudada pela Zona Euro… agora imagine-se o que pode suceder a empresas e Estados mais desprotegidos quando são vítimas deste tipo de acções especulativas por parte dos poderes financeiros. Muitas empresas acabam na falência, muitos Estados acabam reféns da banca, com serviços de dívida cada vez mais elevados. Quem paga, em última análise, são sempre os trabalhadores, lançados no desemprego ou vítimas das crises económicas nacionais, enquanto os especuladores financeiros (quais modernos jogadores de casino que apostam com a vida das pessoas) enriquecem despudoradamente sem terem produzido qualquer riqueza.

Não deixa de ser sintomático que tenha sido o Senado norte-americano a abrir um inquérito a esta situação sem que a U.E., que foi vítima directa desta actuação, tenha feito o que quer que seja.

Por outro lado, é bem sabido que estes mercados de derivados financeiros estão na origem da criação de bolhas especulativas que, quando rebentam, arrastam para a pobreza milhares ou milhões de pessoas em todo o mundo, e aliás, ainda recentemente entrámos numa grande crise mundial que continua a afectar a economia de vários países ocidentais originada precisamente a partir das esferas financeiras.

Na sequência dessa crise ouvimos todos os responsáveis políticos falarem na necessidade de se reformular e regrar o funcionamento do sistema financeiro. Para além dos dinheiros públicos que foram dados a vários bancos para os salvar o que é que foi efectivamente feiro para alterar os mecanismos de especulação financeira que originaram a crise? Zero! Conversa e acções de mera cosmética para enganar o povo.

Tudo permanece genericamente como estava, e as economias reais, a esfera produtiva, continua hoje tão refém como estava da especulação financeira e da sua ganância.

É curioso… apesar dos países ocidentais estarem cada vez mais obrigados a uma disciplina orçamental que lhes retira margem de manobra política e obriga à contenção salarial dos trabalhadores, temos que:

Enquanto os Estados nacionais perdem autonomia na política monetária, os mecanismos de criação de moeda continuam tão perversos como eram e os câmbios flutuantes das moedas continuam a ser uma fonte de risco sistémico e ganhos especulativos com jogos de arbitragem cambial.

Não há qualquer medida tomada contra os offshore.

Não há qualquer medida séria tomada para regular os mercados de derivados financeiros, como os CDS, e limitar o que se pode fazer com este tipo de produtos!

E depois, Ângela Merkel tem o descaramento de afirmar, angelicalmente, que: «seria uma desgraça se acabasse por se verificar que os bancos que já nos haviam empurrado para a beira do abismo – referindo-se a esta ultima crise mundial – também estão envolvidos na falsificação das estatísticas da Grécia». (3)

Enfim, a festa está para durar.

(1)Editorial da Rinascita de 25-02-2010

(2)MarketWatch

(3)Financial Times