Da estupidificação necessária para o Estado Universal

by RNPD

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«A decadência linguística a que o professor se referia recuava à era final das nações guerreiras, que anunciava grandes fusões. Mas antes, os deuses regionais tiveram de ser destituídos do poder, em todo o mundo (…)
Numa era de declínio em que se considerava glorioso ter participado no afundamento do seu próprio povo, não podia ser de admirar que também à linguagem se podassem as raízes, e isso em Eumeswil mais do que em qualquer outro local. A perda da História e a decadência da linguagem condicionam-se reciprocamente; os eumenistas encarregaram-se disso. Sentiam-se chamados, por um lado, a desfolhar a linguagem, por outro lado, a prestigiar o calão. Assim, com o pretexto de facilitar a fala, roubaram lá em baixo, na cidade, ao povo, a sua língua, e com ela a sua poesia, enquanto elevavam às alturas os seus carões. A agressão contra a linguagem amadurecida através dos tempos e a gramática, a escrita e os signos, constitui parte da simplificação que passou à história sob o nome de revolução cultural. O primeiro Estado Universal projectava a sua sombra adiante de si.»

Ernst Jünger, Eumeswill, P.78, Ulisseia