Month: Abril, 2010

A interminável culpa do homem branco

«Para um político europeu ou americano que aspire a um alto cargo o ritual do arrependimento tornou-se de rigueur. A excepção, claro, é o presidente Obama, que capitaliza a sua identidade negra para induzir culpa na sua audiência. Não há muito tempo os europeus tinham orgulho dos seus feitos coloniais. Não há muito tempo a exclusão do Outro (negros, judeus, árabes) era percepcionada como uma coisa natural – típica das sociedades humanas desde tempos imemoriais. Hoje a exclusão do Outro foi substituída pelo ódio a nós próprios. Incessantes sermões nacional-masoquistas sobre reais ou surreais crimes euro-americanos testemunham um quase patológico desejo de limpar um passado que invoca culpa em vez de orgulho.»

Tomislav Sunic, Communication: The Terror of the Hyperreal

Poema anti-yankee (à Bolsa de Nova Iorque)

Poema anti-yankee
À Bolsa de Nova Iorque,
without love.

Ó idólatras
dos dólares,
energúmenos
dos números:

— Guardai as vossas
esmolas,
para a Europa
dos chulos…

… E ficai-vos com
os trocos;
ou cambiai-os
em rublos!…

Rodrigo Emílio, Poemas de Braço ao Alto, 1982, p. 264.

Liberais: O inimigo dentro de portas

A guerra filosófica entre os conservadores e os liberais começou há duzentos anos quando a primeira cabeça de um aristocrata francês foi colocada numa estaca como declaração de guerra à sociedade prescritiva. Os liberais são discípulos do iluminismo e ferozes apoiantes da Revolução Francesa. São os filhos bastardos de Jean-Jacques Rousseau e Thomas Payne.

Os conservadores, por outro lado, são os discípulos do estadista britânico do século XVIII, Edmundo Burke. Foi a sua ardente diatribe contra a Revolução Francesa, na obra “Reflections on the Revolution in France”, que deu aos conservadores a sua substância filosófica para os próximos dois séculos. Burke falou contra as atrocidades dos revolucionários jacobinos bem como contra filósofos do iluminismo como Rousseau, que ele viu como responsáveis pela revolução.

Infelizmente a maioria dos conservadores e liberais de hoje ignoram esta querela de 200 anos. A maioria acredita que a aliança baseada em interesses comuns superficiais constitui uma prática política sólida. Mas o pacto dos conservadores com os liberais tem sido muito prejudicial para a causa do verdadeiro conservadorismo, tal como exposto por Burke. Demasiado frequentemente ouvimos pretensos conservadores a cantarem constantes loas ao livre-mercado e ao individualismo em vez de falarem de tradição e espírito comunitário. Os liberais poluíram de tal modo as águas intelectuais do verdadeiro conservadorismo com o seu lixo ideológico que muitos conservadores têm agora dificuldade em distinguirem entre as duas coisas. À luz disto, queria aproveitar esta oportunidade para lembrar aos conservadores como eu os extremos abismos filosóficos que sempre separaram o homem conservador da besta liberal.

A mais fundamental diferença entre o conservadorismo e o liberalismo é de ideologia. O liberalismo é uma ideologia baseada em ideias e doutrinas abstractas como o livre-mercado, liberdade absoluta, e individualismo radical. O liberal acredita tolamente que se os seus ingredientes abstractos forem apropriadamente misturados no caldeirão social, uma utopia terrestre brotará.

O conservadorismo, como H.Stuart Hughes declarou, é a negação da ideologia. A ideologia é fundada sobre ideias abstractas que não possuem qualquer relação com a realidade, enquanto o conservadorismo é fundado sobre a história, a tradição, o costume, a convenção e a prescrição. Como Russel Kirk afirmou:”o conservadorismo …é um estado de espírito, um tipo de carácter, uma maneira de olhar para a ordem social civil. A atitude a que chamamos conservadorismo é sustentada por um conjunto de sentimentos, em vez de um sistema de dogmas ideológicos.” O conservador põe a sua fé na sapiência dos seus antepassados e na virtude da experiência, em vez de no jargão abstracto dos “sofistas, calculadores e economistas”. Ele sabe que não existem fórmulas políticas simples aplicáveis a todos os problemas do mundo.

Depois, os conservadores e os liberais divergem sobre o que une a sociedade civil. Os liberais vêem a sociedade civil como algo artificial – um acordo dissolúvel feito para fomentar os interesses próprios individuais. Na sua visão repugnante, a sociedade é “uma parceria de coisas apenas subserviente à grosseira existência animal de natureza temporária e perecedoura”. A sociedade é apenas uma máquina com partes inter-permutáveis e separáveis, diz o liberal.

Em contraste, o conservador declara que a sociedade não é um mísero acordo económico ou um funcionamento mecânico, é uma entidade espiritual e orgânica. O conservador, imbuído com o espírito de Burke vê a sociedade como uma parceria entre os vivos, os mortos e os que estão ainda por nascer – uma comunidade de almas. Cada contrato social, em cada Estado particular “ não é senão uma cláusula no grande contrato primevo de eterna sociedade, ligando as baixas e altas naturezas…”.

Não é verdade que a legitimidade do Estado seja dependente apenas do consentimento tácito, como os liberais querem que acreditemos. A legitimidade do contrato social é fruto da história e das tradições que vão muito para além de qualquer simples geração. O presente não é livre, como os racionalistas nos dizem, de redesenhar a sociedade em função de doutrinas abstractas ou dogmas teóricos. Como Russel Kirk disse:” a sociedade é muito mais do que um mecanismo político…se a sociedade for tratada como um simples mecanismo para ser gerido com preceitos matemáticos, então o homem será degradado em algo muito mais baixo do que um parceiro no contrato imortal que une os mortos, os vivos e os ainda por nascer, o laço entre Deus e o homem”.

O próximo ponto filosófico em que os conservadores e os liberais cruzam espadas é no conceito de liberdade. Os liberais acreditam que a liberdade é a primeira prioridade de qualquer sociedade. Mas a liberdade que eles tanto valorizam é solitária, desligada, individual e egoísta. A sua é uma liberdade abstracta divorciada da ordem e da virtude. O liberal vê a liberdade como algo bom em si e de si e procura constantemente maximizá-la, seja qual for o custo.

O conservador acredita que a ordem é a primeira prioridade da sociedade, pois é apenas no quadro de uma ordem social duradoura que uma verdadeira e estável liberdade pode ser alcançada. Para o conservador, a única liberdade é “uma liberdade ligada à ordem: que existe não apenas a par da ordem e da virtude mas que não pode existir de todo sem elas”. Quando considera os efeitos da liberdade, o conservador ouve as palavras de Burke a ecoarem:” O efeito da liberdade para o indivíduo é que eles podem fazer o que quiserem: devíamos ver o que eles querem fazer, antes de arriscarmos congratulações, que podem rapidamente ser transformadas em lamentações.”

O individualismo é o próximo campo de batalha onde os conservadores e os liberais soltam os cães de guerra. Os liberais possuem uma ideologia de individualismo que nega que a vida tenha algum significado para além da gratificação do ego. Eles imaginam uma utopia de individualismo onde o homem existe para o seu próprio fim e os seres humanos são reduzidos a átomos sociais. O egoísmo é uma virtude, diz o liberal.

Os conservadores reconhecem que a unidade social básica não é o individuo mas o grupo – grupos autónomos como a família, a igreja, a comunidade local, a vizinhança, a escola, o sindicato, a guilda, etc. Estes grupos intermedeiam entre o indivíduo e o Estado e ajudam a preservar a ordem social. Como Robert Nisbet assinalou:” Libertem o homem do contexto da comunidade e não terão liberdade e direitos mas intolerável solidão e sujeição a demoníacos medos e paixões”. O conservador valoriza o espírito de comunidade e concorda com Marco Aurélio que dizia que “nós somos feitos para a cooperação, como as mãos, como os pés”.

Tanto os liberais como os conservadores apoiam a economia de mercado, mas diferem no grau da sua devoção. Muitos liberais idolatram o mercado como se fosse uma religião – de facto muitos não têm qualquer problema em substituir a cruz pelo símbolo do dólar. Mas os liberais não confinam o seu zelo pelo mercado à arena económica. Eles acreditam que o mercado é uma doutrina abstracta aplicável a todas as facetas da vida e dos problemas sociais. Na verdade os liberais são apenas marxistas invertidos, que substituem o livre-mercado ao socialismo não só como o sistema económico dominante mas também como a influência social e politica determinante.

Os Conservadores sabem que a sociedade é demasiado complexa para ser reconstruída de acordo com doutrinas económicas abstractas. Têm o homem e a sociedade em demasiada consideração para rebaixar toda a existência à produção e consumo de bens materiais – o nexo dos fluxos de caixa é de facto um fraco elo social. As leis do comércio não são substitutas para as leis da convenção.

Em conclusão, o liberalismo é tanto um anátema para o verdadeiro conservadorismo burkeano quanto o marxismo e deve ser enfrentado com a mesma ferocidade. Como Russel Kirke uma vez disse:” A adversidade une por vezes estranhos amantes, mas os actuais feitos dos conservadores, desaconselham a que se deitem, quais carneiros, com os leões liberais”

C.J. Carnacchio, The Michigan Review, Volume 17, Number 9

Viva a beleza, abaixo a igualdade!

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«O homem de extrema-direita será, portanto, um revoltado, com os mesmos sentimentos de um homem de extrema-esquerda mas não pelas mesmas razões. A sua análise repousa sobre o espectáculo do mundo julgado inumano, com uma beleza sobre-humana…ele privilegiará o culto da beleza sobre o da igualdade, com tanta maior facilidade quanto a beleza é uma noção profundamente inigualitária e injusta, e portanto sobre-humana.

Para contrabalançar a crueldade do mundo, é à beleza que apela. Ela é o objectivo supremo do facho [sic]. Ele terá o culto de tudo o que é belo. A extrema-direita terá a maior veneração pela Virgem Maria que é bela, ou pelas fadas do Graal que são belas, pelas Valquírias que são igualmente belas e loiras e pelos cavaleiros que são belos. (…)

Falamos frequentemente, no mundo de esquerda, de beleza burguesa. A esquerda ou a extrema-esquerda não falará nunca, em troca, de beleza revolucionária. As pinturas de Picasso representam mulheres feias, porque Picasso era um homem de esquerda e que não era muito engraçado. Os mesmos métodos de desenho de Picasso, quando utilizados pelos egípcios da Antiguidade resultam em personagens de mulheres de grande beleza. Porque os faraós eram mais de direita do que de esquerda.

A religião, na extrema-direita, não será portanto vista pelo lado igualitário mas pelo lado estético…»

Análise de um autor de esquerda em La Revue de l’Histoire, Maio-Junho-Julho 2004

O comunismo é uma versão caricatural da modernidade liberal

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“Quando vi na Checoslováquia as primeiras habitações sociais, julguei estar a ver a própria manifestação do horror comunista. Só mais tarde compreendi que o comunismo me mostrava, numa versão hiperbolizada ou caricatural, os traços comuns do mundo moderno. A mesma burocratização omnipresente. A luta de classes substituída pela arrogância das instituições com os utentes. A degradação do saber artesanal. A imbecil juvenofilia do discurso oficial. As férias organizadas em manadas. A fealdade do campo donde desaparecem as marcas da mão camponesa. A uniformização. E, entre todos esses denominadores comuns, o pior de todos: a falta de respeito pelo indivíduo e pela sua vida privada…
A experiência do comunismo afigura-se-me uma excelente introdução ao mundo moderno em geral; tornou-me mais sensível aos fenómenos absurdos que estamos prontos a ver aqui como sendo de uma inocente banalidade ou como um atributo necessário da Santa Democracia.”

Milan Kundera, Les Testaments Trahis,Gallimard, Paris, 1993 (via Nonas)

O passoscoelhismo ou o canto da direita que não o é

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Hurra! O último congresso do PSD, que supostamente serviu para definir a estratégia da nova liderança, proporcionou-nos mais alguns momentos engraçados, com destaque, talvez, para a peregrina ideia de criar um “Conselho Superior da República”, um órgão constituído por antigos chefes de Estado e presidentes de supremos tribunais, uma espécie de colégio de sábios, que avaliaria os méritos das nomeações para certos cargos públicos. Maravilha! Pelo visto, na opinião do novel presidente ainda não havia poisos suficientes para o ego, a publicidade, e a bolsa destes “pais tutelares da República”. Afinal, o país deve-lhes tanto, não é? (e sim, o tom é de ironia)

Mas, ao mesmo tempo que achou por bem inventar um novo órgão político, parece que Passos Coelho também quer reduzir o papel do Estado em Portugal. Bom, por causa disso ouvi uma série de comentadores políticos explicarem que o PSD tinha virado à direita, que Passos Coelho estava à direita de Manuela Ferreira Leite e outros antigos líderes do partido, ou que o CDS tinha de ter cuidado porque agora o PSD entraria no seu espaço político…

É de facto inacreditável. Não ouvi até hoje uma única coisa saída da boca de Passos Coelho que fizesse dele um homem de direita, não conheço nada no campo dos valores que o situe aí mas pelo facto de ter lançado uma ou duas atoardas contra o “peso do Estado” dizem-nos os nossos liberais e os especialistas dos Media que é de direita, ou muito de direita, ou lá o que é.

Esta ideia de que ser de direita é ser contra o Estado e ser de esquerda é querer o Estado por todo o lado é uma das maiores idiotices que se generalizaram na discussão política ocidental (e elas já vão sendo tantas que dizer isto não significa pouco).

Como terão reagido os nossos comentadores à entrevista que deu recentemente ao jornal “i”o vice-primeiro ministro grego, Theodoros Pangalos, um homem que se assume como socialista de escola marxista, onde dizia que o problema da Grécia estava no peso excessivo do sector público, e que ele, precisamente por ser marxista, sempre tinha lutado contra isso?:” Somos socialistas marxistas ocidentais, o Estado é o nosso inimigo. Nós queremos encolher o papel do Estado na sociedade e isso tem de ser feito”. Provavelmente não perceberam o enquadramento daquela declaração, ou então a dor que deve ter surgido naquelas cabeças…

Bastaria ler o básico de Marx ou Engels, autores do manifesto comunista, para saber que o objectivo final do comunismo era o desaparecimento do Estado, ou a “liberdade” do homem face ao Estado. Talvez também fossem de direita, estes…

A verdade é que a divisória entre esquerda e direita não tem nada a ver com querer mais ou menos Estado, mas com os valores que o Estado ou a sua ausência devem servir e permitir. E nesse campo não há nada que evidencie que Passos Coelho está à direita de anteriores líderes do seu partido, e muito menos que ele seja de direita.

Revolta contra o mundo moderno

A subversão progressiva

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A nossa aventura começa em Março de 2004 quando um dos poucos jornais conservadores da Suécia,o Nya Dagen, referiu que um ramo local da juventude do partido social democrata no poder tinha abraçado a ideia de substituir o casamento tradicional por um sistema de casamento sem definição de género e número de parceiros. Por volta da mesma altura, a juventude do partido Verde [NdT: a extrema-esquerda local] apelou a um reconhecimento formal das relações polígamas. Em editoriais contra estes movimentos o Nya Dagen assinalou que os lideres destas juventudes partidárias estariam um dia sentados no parlmento. O Nya Dagen lembrou aos seus leitores que havia sido prometido ao povo que não haveria mais mudanças na família depois da legislação inicial de 1987 e o mesmo depois da alteração legislativa de 1994.”Não acreditem”, escreveu-se no Nya Dagen. A não ser que o país mude de rumo, a Suécia descerá certamente mais baixo. Esse editorial levou a uma carta zangada de Einar Westergaard, uma porta-voz da ala jovem do partido Verde:

«Estamos a tentar alcançar uma revolução sexual e contrariar a hierarquia que dá à homossexualidade privilégios e reprime outras formas de interacção social…o padrão das duas pessoas é também parte da norma heterossexual da sociedade…enquanto a nossa aspiração é tornar as leis tão livres de normas quanto possível…o Casamento não é a chave para a libertação homossexual, bissexual ou transexual. O que é essencial é a luta por uma legislação livre de normas e sexualmente neutra, uma sociedade sem normas heterossexuais».

National Review

Comentário:

Esta descrição é interessante para entender que por detrás de certas campanhas político-partidárias que parecem de pequeno âmbito se escondem movimentos ideológicos mais abrangentes que procuram uma inversão total dos valores de uma sociedade. Essa inversão é normalmente feita de forma progressiva, rompendo, pouco a pouco, os valores pré-existentes, com legislações sucessivas que se vão gradualmente radicalizando até ao objectivo final. No caso das lutas pelas “igualdades e liberdades sexuais”, esconde-se frequentemente uma guerra mais lata contra qualquer concepção de normalidade (a sociedade livre de normas) em favor de um relativismo completo em que todos os comportamentos são igualmente válidos e a sua validez provém exclusivamente de serem “exercícios de liberdade individual”. Em Portugal, depois do casamento gay seguem-se as adopções por homossexuais, e depois, quem sabe, ao que parece a imaginação é o limite…

Liberalmente destinado a consumir-se a si…

«A direita não é hoje mais do que a esquerda no culminar da sua fase senil. A guerra ao sagrado, nunca finalizada pela esquerda, é mais eficazmente conduzida pela direita ocidentalista, e não com a construção racional da ciência, mas com as bandeiras da liberdade e da democracia, duas ilusões que não têm sequer necessidade de alimentar utopias mas apenas de formal enunciação. Onde o materialismo científico falhou, o Pentágono triunfa, com o chapéu de ideias da direita liberal que impõe o modelo único do indivíduo constrangido a um único destino: o consumo. E a consumir-se a si.»

Pietrangelo Buttafuoco, Cabaret Voltaire- L’Islam, Il Sacro, L’Occidente,Ed. Bompiani, p. 36

A metamorfose da esquerda depois da queda do muro de Berlim

(Entrevista ao conhecido escritor espanhol Juan Manuel de Prada sobre a queda do muro de Berlim, via La Maldición de Spengler)

Juan Pablo Colmenarejo: Acredita que esse dia (há 20 anos) determina o fim do século XX?

Juan Manuel de Prada: Bom, há quem associe essa data ao dia da queda do muro de Berlim, também há os que a situam no dia dos atentados do 11 de Setembro. Creio que a data de que falas é, de qualquer forma, digna de constituir um marco na evolução interna do Ocidente; uma evolução que, ao contrário das teses optimistas que proliferam nestes dias, é muito mais sombria do que geralmente se pensa.

JPC: Mas… não foi esse o dia do triunfo da liberdade?

Juan Manuel de Prada: Sim, sem dúvida que foi o triunfo da “liberdade”…o que sucede é que a “liberdade” é, em si mesma, um movimento, e o que conta num movimento é o “para onde”. Pode ser que o movimento tenha um norte ou que esteja desnorteado, pode ser que seja um movimento pequeno ou gigantesco, pode ser que a direcção que tome seja para “a frente” ou para “trás”…na liberdade não é tão relevante a questão de “ser livre” como a de “ser livre para quê”. Eu acredito que a “liberdade” que veio depois da queda do muro de Berlim, a destes últimos 20 anos, foi uma liberdade destrutiva. A minha opinião é que “os logros” dela podem ver-se hoje: liberdade para retirar crucifixos, liberdade para destruir todo o tipo de vínculos humanos (começando pela família), liberdade para abortar sem restrições, liberdade para acabar com a transmissão harmoniosa baseada na Tradição, liberdade para experimentar em embriões…, definitivamente liberdade para nos destruirmos. Creio que a obsessão pela liberdade que exteriorizam alguns não é mais do que a marca distintiva dos fracos.

JPC: Caiu o muro, mas caiu junto com ele o fascínio da esquerda ocidental pelos regimes do “socialismo real”?

Juan Manuel de Prada: Na realidade parece que a esquerda havia iniciado um processo de metamorfose 20 anos antes, especialmente visível no Maio de 68. Evidentemente há então um momento em que a esquerda se dá conta de que os regimes comunistas eram eminentemente repressores da natureza humana, pelo que provocava nas suas vítimas uma reacção que se traduzia num “apetite” de liberdade. Mas essa liberdade adquire em Maio de 1968 umas conotações muito concretas: rebelião contra o Sistema, “apoteose sexual”, em suma, um intento de romper e transvalorar as normas. É nesse clima que a esquerda realiza esse processo de mutação, por um lado inteligentíssimo, no qual toma consciência de que se quer levar a cabo o seu processo de “engenharia social” (pois a esquerda teve desde as suas origens um claro propósito de “transformar” a sociedade), o que deveria fazer não era reprimir a liberdade mas exaltá-la ao máximo até deificá-la. Assim, a liberdade converte-se num ídolo ao qual todos devemos adoração. E é nesse processo de “regeneração” que está a chave para compreender que, depois da queda do muro de Berlim, a esquerda está perfeitamente apetrechada e disposta a lançar a sua nova ofensiva, que é precisamente a de que estamos a padecer hoje em dia e à qual a direita não tardou em aderir. Dessa maneira, essa exaltação destrutiva da liberdade está a conduzir-nos a um novo modelo de tirania muito pior que as tiranias comunistas, e tudo por uma simples razão: debaixo dos regimes repressores, o homem está consciente de que lhe estão a retirar algo que lhe pertence por natureza, que é a sua liberdade. Em troca, nas novas tiranias essa bulimia de “liberdade” faz com que o homem fique “anestesiado” perante os abusos do poder.

JPC: Uns meses antes da queda do muro, o então presidente da RDA. Erich Honecker, foi tornado Doutor Honoris Causa pela Universidade Complutense de Madrid e foi quando declarou que “o muro permanecerá de pé cem anos mais”, sendo que caiu seis meses depois…é como se os “progressistas” espanhóis tivessem estado sempre muito atentos a este tipo de “homenagens”, não lhe parece?

Juan Manuel de Prada: Não devemos esquecer que há pouco tempo também se ofereceu esse galardão a Santiago Carrillo, que ainda simboliza a sobrevivência deste tipo de ideologias. Por outro lado, actualmente o “Matrix progressista” compraz-se em abraçar com alvoroço Hugo Chavez, outro personagem que representa o “pôr em dia” do socialismo real. Ao fim e ao cabo, toda a ideologia necessita de construir a sua própria mitologia. É certo que hoje a esquerda europeia renega estes regimes porque os considera obsoletos e anacrónicos, mas isso é assim porque, por sua vez, descobriu que a “, ordem liberal”, isto é, o sistema político baseado na economia capitalista, é infinitamente mais eficaz para realizar o seu projecto de “engenharia social”. Neste sentido, resulta muito fácil compatibilizar a veneração a essa mitologia passada com a construção de uma “sociedade nova” sustentada pelos regimes social-democratas actuais. Por isso creio que não devemos enganar-nos, a frase pronunciada pelo presidente da RDA cumpriu-se: ele sabia que “o muro” iria sobreviver cem anos mais, precisamente porque também sabia que a esquerda havia preparado esta metamorfose.