A metamorfose da esquerda depois da queda do muro de Berlim

by RNPD

(Entrevista ao conhecido escritor espanhol Juan Manuel de Prada sobre a queda do muro de Berlim, via La Maldición de Spengler)

Juan Pablo Colmenarejo: Acredita que esse dia (há 20 anos) determina o fim do século XX?

Juan Manuel de Prada: Bom, há quem associe essa data ao dia da queda do muro de Berlim, também há os que a situam no dia dos atentados do 11 de Setembro. Creio que a data de que falas é, de qualquer forma, digna de constituir um marco na evolução interna do Ocidente; uma evolução que, ao contrário das teses optimistas que proliferam nestes dias, é muito mais sombria do que geralmente se pensa.

JPC: Mas… não foi esse o dia do triunfo da liberdade?

Juan Manuel de Prada: Sim, sem dúvida que foi o triunfo da “liberdade”…o que sucede é que a “liberdade” é, em si mesma, um movimento, e o que conta num movimento é o “para onde”. Pode ser que o movimento tenha um norte ou que esteja desnorteado, pode ser que seja um movimento pequeno ou gigantesco, pode ser que a direcção que tome seja para “a frente” ou para “trás”…na liberdade não é tão relevante a questão de “ser livre” como a de “ser livre para quê”. Eu acredito que a “liberdade” que veio depois da queda do muro de Berlim, a destes últimos 20 anos, foi uma liberdade destrutiva. A minha opinião é que “os logros” dela podem ver-se hoje: liberdade para retirar crucifixos, liberdade para destruir todo o tipo de vínculos humanos (começando pela família), liberdade para abortar sem restrições, liberdade para acabar com a transmissão harmoniosa baseada na Tradição, liberdade para experimentar em embriões…, definitivamente liberdade para nos destruirmos. Creio que a obsessão pela liberdade que exteriorizam alguns não é mais do que a marca distintiva dos fracos.

JPC: Caiu o muro, mas caiu junto com ele o fascínio da esquerda ocidental pelos regimes do “socialismo real”?

Juan Manuel de Prada: Na realidade parece que a esquerda havia iniciado um processo de metamorfose 20 anos antes, especialmente visível no Maio de 68. Evidentemente há então um momento em que a esquerda se dá conta de que os regimes comunistas eram eminentemente repressores da natureza humana, pelo que provocava nas suas vítimas uma reacção que se traduzia num “apetite” de liberdade. Mas essa liberdade adquire em Maio de 1968 umas conotações muito concretas: rebelião contra o Sistema, “apoteose sexual”, em suma, um intento de romper e transvalorar as normas. É nesse clima que a esquerda realiza esse processo de mutação, por um lado inteligentíssimo, no qual toma consciência de que se quer levar a cabo o seu processo de “engenharia social” (pois a esquerda teve desde as suas origens um claro propósito de “transformar” a sociedade), o que deveria fazer não era reprimir a liberdade mas exaltá-la ao máximo até deificá-la. Assim, a liberdade converte-se num ídolo ao qual todos devemos adoração. E é nesse processo de “regeneração” que está a chave para compreender que, depois da queda do muro de Berlim, a esquerda está perfeitamente apetrechada e disposta a lançar a sua nova ofensiva, que é precisamente a de que estamos a padecer hoje em dia e à qual a direita não tardou em aderir. Dessa maneira, essa exaltação destrutiva da liberdade está a conduzir-nos a um novo modelo de tirania muito pior que as tiranias comunistas, e tudo por uma simples razão: debaixo dos regimes repressores, o homem está consciente de que lhe estão a retirar algo que lhe pertence por natureza, que é a sua liberdade. Em troca, nas novas tiranias essa bulimia de “liberdade” faz com que o homem fique “anestesiado” perante os abusos do poder.

JPC: Uns meses antes da queda do muro, o então presidente da RDA. Erich Honecker, foi tornado Doutor Honoris Causa pela Universidade Complutense de Madrid e foi quando declarou que “o muro permanecerá de pé cem anos mais”, sendo que caiu seis meses depois…é como se os “progressistas” espanhóis tivessem estado sempre muito atentos a este tipo de “homenagens”, não lhe parece?

Juan Manuel de Prada: Não devemos esquecer que há pouco tempo também se ofereceu esse galardão a Santiago Carrillo, que ainda simboliza a sobrevivência deste tipo de ideologias. Por outro lado, actualmente o “Matrix progressista” compraz-se em abraçar com alvoroço Hugo Chavez, outro personagem que representa o “pôr em dia” do socialismo real. Ao fim e ao cabo, toda a ideologia necessita de construir a sua própria mitologia. É certo que hoje a esquerda europeia renega estes regimes porque os considera obsoletos e anacrónicos, mas isso é assim porque, por sua vez, descobriu que a “, ordem liberal”, isto é, o sistema político baseado na economia capitalista, é infinitamente mais eficaz para realizar o seu projecto de “engenharia social”. Neste sentido, resulta muito fácil compatibilizar a veneração a essa mitologia passada com a construção de uma “sociedade nova” sustentada pelos regimes social-democratas actuais. Por isso creio que não devemos enganar-nos, a frase pronunciada pelo presidente da RDA cumpriu-se: ele sabia que “o muro” iria sobreviver cem anos mais, precisamente porque também sabia que a esquerda havia preparado esta metamorfose.