O passoscoelhismo ou o canto da direita que não o é

by RNPD

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Hurra! O último congresso do PSD, que supostamente serviu para definir a estratégia da nova liderança, proporcionou-nos mais alguns momentos engraçados, com destaque, talvez, para a peregrina ideia de criar um “Conselho Superior da República”, um órgão constituído por antigos chefes de Estado e presidentes de supremos tribunais, uma espécie de colégio de sábios, que avaliaria os méritos das nomeações para certos cargos públicos. Maravilha! Pelo visto, na opinião do novel presidente ainda não havia poisos suficientes para o ego, a publicidade, e a bolsa destes “pais tutelares da República”. Afinal, o país deve-lhes tanto, não é? (e sim, o tom é de ironia)

Mas, ao mesmo tempo que achou por bem inventar um novo órgão político, parece que Passos Coelho também quer reduzir o papel do Estado em Portugal. Bom, por causa disso ouvi uma série de comentadores políticos explicarem que o PSD tinha virado à direita, que Passos Coelho estava à direita de Manuela Ferreira Leite e outros antigos líderes do partido, ou que o CDS tinha de ter cuidado porque agora o PSD entraria no seu espaço político…

É de facto inacreditável. Não ouvi até hoje uma única coisa saída da boca de Passos Coelho que fizesse dele um homem de direita, não conheço nada no campo dos valores que o situe aí mas pelo facto de ter lançado uma ou duas atoardas contra o “peso do Estado” dizem-nos os nossos liberais e os especialistas dos Media que é de direita, ou muito de direita, ou lá o que é.

Esta ideia de que ser de direita é ser contra o Estado e ser de esquerda é querer o Estado por todo o lado é uma das maiores idiotices que se generalizaram na discussão política ocidental (e elas já vão sendo tantas que dizer isto não significa pouco).

Como terão reagido os nossos comentadores à entrevista que deu recentemente ao jornal “i”o vice-primeiro ministro grego, Theodoros Pangalos, um homem que se assume como socialista de escola marxista, onde dizia que o problema da Grécia estava no peso excessivo do sector público, e que ele, precisamente por ser marxista, sempre tinha lutado contra isso?:” Somos socialistas marxistas ocidentais, o Estado é o nosso inimigo. Nós queremos encolher o papel do Estado na sociedade e isso tem de ser feito”. Provavelmente não perceberam o enquadramento daquela declaração, ou então a dor que deve ter surgido naquelas cabeças…

Bastaria ler o básico de Marx ou Engels, autores do manifesto comunista, para saber que o objectivo final do comunismo era o desaparecimento do Estado, ou a “liberdade” do homem face ao Estado. Talvez também fossem de direita, estes…

A verdade é que a divisória entre esquerda e direita não tem nada a ver com querer mais ou menos Estado, mas com os valores que o Estado ou a sua ausência devem servir e permitir. E nesse campo não há nada que evidencie que Passos Coelho está à direita de anteriores líderes do seu partido, e muito menos que ele seja de direita.