Month: Abril, 2010

Da guerra justa…

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«A guerra é uma coisa feia, mas não é a mais feia das coisas: O decadente e degradado estado de sentimento moral e patriótico que acha que nada vale uma guerra é pior. Quando um povo é usado como mero instrumento humano para disparar canhões ou usar baionetas, ao serviço e para os propósitos egoístas de um dono, tal guerra degrada um povo. Uma guerra para proteger outros homens contra a injustiça tirânica, uma guerra para alcançar a vitória das suas próprias ideias de certo e bom, e que portanto é a sua própria guerra, travada de livre vontade por um propósito honesto, é frequentemente o meio de regeneração. Um homem que não tem nada pelo qual esteja disposto a lutar, nada que lhe importe mais do que o seu conforto pessoal é uma criatura miserável que não tem qualquer possibilidade de ser livre, a não ser pelos esforços de homens melhores do que ele.»

John Stuart Mill, The Contest in America, Dissertations and Discussions, vol. 1, p. 26

contrapontos

Há umas semanas atrás, na sequência de alguns episódios mais mediáticos de violência nas escolas, alguns com desfechos trágicos, a Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP) entregou ao governo uma proposta que previa a penalização dos pais dos alunos violentos, através de multas, obrigatoriedade de prestação de trabalho comunitário ou perdas de subsídios sociais.

Logo de seguida, em reacção a isso, outras associações de pais, com destaque para a CNIPE vieram a público opor-se a essa proposta argumentando que “muito mais do que penalizar as famílias deveremos perceber quais os fenómenos que se encontram a montante dos problemas surgidos nas escolas, implicando toda a comunidade educativa e fazendo funcionar plenamente todas as redes sociais”…

O que ali está em confronto são na realidade duas mundividências distintas, duas formas opostas de compreender a responsabilidade pessoal e a interacção social. Por detrás deste caso concreto escondem-se, na verdade, duas concepções antagónicas de entender o homem e a comunidade.

O blá-blá-blá da CNIPE é a herança de dois velhos pressupostos, por um lado do velho mito romântico do “bom selvagem”, a ideia de que os homens são naturalmente bons e que é a sociedade, grande culpada, que os desvirtua. Por outro lado do pensamento de Rousseau, que viria a afirmar, no seu discurso sobre a origem da desigualdade, que os homens só poderiam ser bons e iguais se o Estado tomasse para si o papel de os educar e moldar com as suas instituições. Estas ideias viriam depois a estar no centro do pensamento republicano jacobino e dos diferentes esquerdismos modernos. Consequência destes dois mitos: a boa ou a má sociedade tudo explicam e é à sociedade, sob a acção do Estado, que cabe a responsabilidade pelos males individuais e a sua resolução (com o dinheiro do trabalho de todos).

O desfecho destas ideias no Ocidente foi a desculpabilização de todo o tipo de comportamentos malignos e a desresponsabilização de quem os perpetra, sob o álibi da “exclusão social”, da “pobreza”, da “discriminação”, ou de quaisquer outros rótulos panfletários similares e costumeiros, transformando os ofensores em “vítimas da sociedade” que há que “recuperar e regenerar”.

Pelo contrário, o que a CONFAP propõe, insere-se numa tradição de assumpção das responsabilidades pessoais de cada um, na certeza de que os homens não são todos igualmente bons ou capazes e que a educação, no sentido mais nobre da palavra, é primeiramente uma responsabilidade da família e não do Estado (excepto, naturalmente, nos casos mais infelizes em que a primeira não existe). Aos homens cabe o crédito individual dos seus méritos e esforços e a culpa individual das suas próprias faltas e a sociedade justa é a que premeia os primeiros e pune as segundas. No caso dos menores que por vida da sua idade não sejam passíveis de serem responsabilizados, é às suas famílias que cabe esse ónus, e não à comunidade como um todo.