Duas medidas

by RNPD

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«Ao ouvi-los o Ocidente será o mal absoluto (colonialismo, imperialismo, etc.) e os outros seriam claramente melhores (bode expiatório invertido?). Para isso clamam-se pelas diferenças culturais que o Ocidente supostamente negaria. Mais, temos a impressão que como o Ocidente as negou (a dada época e ainda agora), tomamos geralmente o argumento relativista da “outra cultura” (acusação de etnocentrismo) como um critério para não julgar moralmente uma morte, um sacrifício ritual, ou massacres colectivos noutros países.

Ora, o colonialismo não saiu somente da nossa cultura, outras culturas fizeram-no também. É antes de tudo um facto humano, universal e não próprio a um país ou uma cultura. O nacionalismo, de um país ou outro, é ainda o nacionalismo, e o homem de todos os tempos quis conquistar outros países. A colonização dos países árabes pelo Ocidente, por exemplo, durou cerca de cento e trinta anos enquanto esses mesmos árabes foram reduzidos à escravatura e colonizados pelos turcos durante cinco séculos. Outra Cultura? Portanto toleramos? O mesmo a propósito do tráfico de negros. Apenas o Ocidente? Esquecemos que o tráfico e a escravatura dos negros foram introduzidas em África por mercadores árabes a partir dos séculos XI e XII com a cumplicidade dos reis e dos chefes tribais negros. Então, é uma outra cultura, portanto toleramos? Ao denunciarmos a nossa própria barbárie vemos bem um problema, mas porquê ser cego em relação à barbárie dos outros? Isso é fazer etnocentrismo invertido, tolerar os crimes de outras culturas sob o pretexto do costume local e fustigar somente os nossos. (…)

Se estas pessoas podem criticar o Ocidente e os seus inumeráveis erros é preciso não esquecer que foi também a nossa própria cultura que denunciou o colonialismo. Foi o próprio Ocidente que desenvolveu um projecto de liberdade, de autonomia individual e colectiva, de crítica e autocrítica. Porque se o Ocidente cometeu crimes (quem os nega agora para lá dos fanáticos?) o Ocidente também os denunciou. Raramente vejo o mesmo tipo de autocrítica noutros, nos hindus, nos chineses, etc., antes desta autocrítica ocidental. Quem primeiro denunciou a escravatura? Então denunciamos a nossa escravatura mas não a dos outros porque é uma “outra cultura”? Um olho aberto, outro fechado? Temos a impressão que mergulham estupidamente numa autoflagelação, num sadomasoquismo e numa vitimização muito mal vindas esquecendo que é a sua própria civilização ocidental que desenvolveu este espírito crítico do qual se servem para a voltarem contra si própria e esquecendo adicionalmente que os outros países ou civilizações não desenvolveram o mesmo pensamento crítico e não se penitenciam por explorar e oprimir o seu próximo.»

Yannick Rolandeau, René Girard ou Le mécanisme victimaire