That was not sparta!

by RNPD

A perspectiva cinematográfica de Hollywood

Com extensa campanha publicitária (para isso capital não falta) o filme norte-americano “300” pretende retratar a luta heróica dos gregos nas Termópilas mas, fiel à tradição, não consegue mais que uma farsa, não só porque confundem o local do combate com um matadouro municipal, como pela sinopse que diz :
“(…) a sua coragem e o seu sacrifício encorajaram o povo grego a unir-se contra os exércitos persas e a fundar a democracia.”
Ora bem, a batalha do desfiladeiro das “Termópilas” tornou-se célebre pela heróica defesa proporcionada pelos espartanos e pelo seu rei Leónidas, massacrados pelos persas que não permitiram sobreviventes, mas (pergunta pertinente) … que tinham a ver os espartanos com a “democracia”?
Na verdade… absolutamente nada, ou seja, eram adversários resolutos da democracia, regime politico existente em Atenas (desde as reformas de Clistenes em 508 EP) e que aí vigorou até à sua abolição em 322 EP…
Como se pode afirmar que o comportamento heróico dos espartanos, em 480 EP, “encorajou o povo grego … a fundar a democracia”, se esta já existia em Atenas há cerca de 28 anos, para desaparecer no século seguinte?
A manipulação demagógica da História é já um dado adquirido pela cinematografia “made in USA” e é sabido que a demagogia é uma das principais características do regime democrático. Aliás, foi uma das principais causas da sua dissolução em Atenas, onde durou 186 anos! Quanto durará entre nós?
A batalha do desfiladeiro das Termópilas, um emblema da resistência do povo grego, traduz antes de mais o espírito de sacrifício dos espartanos, um exemplo para os democratas de Atenas. No ponto mais alto do desfiladeiro, no cume de Kolonós, onde se desenrolou o derradeiro episódio da resistência espartana, foi erigido um mausoléu onde se pode ler uma inscrição do poeta Simonide de Céos (556-467 EP):
“Vai, viajante, dizer a Esparta que aqui jazemos, fiéis às suas leis”!
Fiéis às leis de Esparta… não às de Atenas!
Afirmar que os espartanos morreram em defesa da democracia é um despropósito, um desatino e um disparate!
Aliás, o facto de se produzir um filme “histórico” (não, este não é do Spielberg) em que os iranianos (persas) atacam a Europa… nas actuais circunstâncias terá sido mera coincidência?
Felizmente, a mediocridade da realização, a indigência dos diálogos e o ridículo dos acessórios, retira credibilidade a semelhante manipulação da História!
O público, que corre entusiasmado a ver semelhante vacuidade, produz dois tipos de reacção: uns sentem-se burlados e recordam a mãezinha dos produtores da “coisa”, outros, mais intelectualizados, “até gostam” e interrogam-se sobre se a Grécia já existiria antes de que os “yankees” inventassem o “chewing gum”?

António Lugano