As mensagens políticas de Avatar

by RNPD

Só há pouco tempo vi o filme Avatar. Antes disso tinha lido algumas críticas políticas à obra que se dividiam entre uma corrente que considerava o filme mais um capítulo na propaganda da culpa ocidental e outra que o via como um manifesto identitário.

Avatar é ambos. Do ponto de vista da sua mensagem, nada há de novo ou surpreendente. Essencialmente, Avatar é um manifesto de exaltação da identidade de um povo autóctone ameaçado de genocídio pela voragem gananciosa e destruidora de um invasor. O invasor é, na linguagem e aparência, o homem branco, enquanto os nativos (designados Navi) são inspirados numa mistura das tribos africanas e índias, facto bastante evidente nas feições, sotaque, vestes e até religiosidade desse povo. Trata-se portanto de transportar para o ecrã o mito do genocídio colonial dos povos primitivos por parte do “demónio branco”. Não falta sequer o lugar comum do branco que se apaixona por uma das nativas e ganha, progressivamente, consciência da maldade dos “seus” e da pureza generosa dos “outros”, juntando-se à luta de libertação dos autóctones.

A culpabilização do homem europeu salta das salas de aula, para os debates políticos, para a historiografia oficial e para o entretenimento, assumindo todas as formas e ocupando todos os espaços do nosso pensamento (mesmo quando o “pensamento sério” pretende dar lugar à “distracção”) gerando um leviatã de propaganda permanente ao qual só uma ínfima minoria mais preparada e inteligente consegue escapar.

Sim, avatar é um manifesto identitário, mas dos “outros”, é um filme que celebra a defesa da identidade dos povos nativos vítimas do colonialismo branco ao mesmo tempo que desenvolve, pela enésima vez, a narrativa da perfídia ocidental e a sua culpabilização. Só o homem branco não tem direito a representações de defesa da sua identidade…

Igualmente saliente no filme é a sua mensagem ecológica radical e pagã. Mais do que viverem em harmonia com a natureza os Navi deificam-na; e ainda que não haja nada de errado com a consciência ecológica ou o paganismo, no filme ambas as coisas são apresentadas de forma algo caricatural e com o propósito de estabelecer mais um contraste com uma certa civilização moderna ocidental marcada no imaginário popular pelo cristianismo e desrespeitadora da natureza.

Nada de novo em Hollycrapwood, portanto.