A superclasse global permanece imune ao alastrar da miséria

by RNPD

No meio da crise económica e financeira que afecta os povos da Europa e em particular os gregos, festas luxuosas desenrolam-se em Atenas com os grandes magnatas do transporte marítimo. No meio da miséria que vai alastrando entre o povo, uma superclasse global imune a tudo isso explica que o capital não tem pátria nem lealdades nacionais e que, se ameaçados nos seus lucros, transferirão os negócios em minutos para outras partes da utopia global. É o mundo sem fronteiras nem identidades, feito de deslocalizações e migrações, onde a economia dita os valores. Mas atenção, não se pense que a superclasse global é completamente destituída de sentido nacional, como explicam, muitos deles até preferem o clima da Grécia. Reportagem de Robert Wright no Finantial Times:

«Nas profícuas festas de Atenas desta semana teria sido fácil esquecer que a Grécia enfrenta uma calamitosa crise económica. Mas, de muitas maneiras, os eventos que marcaram a Posidonia – a grande reunião bi-anual dos armadores – tinham tão pouco a ver com o resto da Grécia como se tivessem acontecido em Marte.

Os grandes armadores da Grécia ( a mais importante nação do mundo da indústria) e dos outros países têm andado a festejar o afastamento de uma crise sectorial que há um ano tinha potencial para destruir muitos dos seus negócios.

Os grandes magnatas deram pancadinhas nas costas uns dos outros enquanto consumiam vastas quantidades de cocktails e sushi, marisco e carnes.

Os eventos mais concorridos tiveram lugar no Astir Palace, um resort numa península privada delimitada por pinheiros, bem afastada dos mendigos das ruas, protestantes anti-governo e professores a enfrentarem grandes cortes salariais que se tornaram emblema da crise fiscal grega.

“É um mundo paralelo” explicou John Liveris, presidente da Ocean Freight Inc., durante uma entrevista no Astir Palace.

A questão é saber se a crise grega vai levar à colisão dessas sociedades separadas e como reagiriam os donos de navios se acabassem a ter de suportar duras medidas anti-crise do governo.

As actividades principais dos armadores gregos – transportar matérias-primas e embarcar petróleo e os seus derivados – recuperaram da sua crise sobretudo graças à força da economia chinesa e não devido a factores domésticos.

A maioria destes magnatas faz os seus negócios bancários e de chartering em Londres, registam as suas empresas em Nova Iorque e conduzem outros negócios em qualquer outra parte do mundo que lhes convenha.

Poucos têm mais que um pequeno escritório na Grécia para se preocuparem se o governo decidisse agir sobre os impostos dos seus lucros internacionais.

Evangelos Marinakis, um magnata sedeado em Pireus, disse que as suas empresas tinham escritórios em Londres, Rússia, Singapura, Filipinas e Roménia. “Para nós, seria uma questão de minutos para mudarmos a nossa gestão para fora da Grécia”.

Michael Bodouroglou, o presidente da Paragon Shipping, justifica o sucesso dos armadores gregos pela independência do governo.” O sector público está realmente a sufocar o sector privado, com a sua burocracia, a sua ineficiência e, nalguns casos, até as suas práticas corruptas”, explicou.

Contudo, os magnatas gregos insistem que sentem simpatia pelos seus compatriotas e preferem viver na Grécia do que em Chipre, Malta, Mónaco ou Suíça..

A escolha é fácil de perceber, como George Economou, um proeminente proprietário grego, explicou defronte a uma linda baía solarenta.

“A maioria de nós está aqui porque gostamos do clima”, disse.” Criámos aqui um cluster no qual podemos operar – com as pessoas que dominam a indústria. Mas se necessário, podemos fazê-lo noutro lugar.”

O governo socialista aborreceu os armadores ao abolir o ministério da marinha mercante, que costumava coordenar a política em relação ao sector.

Contudo o governo grego não apresenta sinais de acreditar que impostos sobre os armadores ou apropriação dos seus activos alcançaria alguma coisa. O Senhor Economou explicou que a sua posição estava protegida pela constituição desde há mais de 40 anos. Assim, o mundo paralelo de festas e mendigos parece estar para continuar.»