Conceito/Imagem

by RNPD

«A noção de Weltanschauung

A Revolução Conservadora, não sendo uma filosofia rigorosa de tipo universitário é uma vaga de Weltanschauungen (NdT: cosmovisão; visões do mundo). Enquanto a filosofia faz parte integrante do pensamento do velho Ocidente, a Weltanschauung surge no momento em que o edifício ocidental se afunda. Anteriormente as categorias estavam bem compartimentadas: o pensamento, os sentimentos, a vontade, não se misturavam em fluxos desordenados. Mas no nosso “interregno”, que sucede ao re-afundamento do cristianismo, as Weltanschauungen mesclam pensamentos, sentimentos e vontades no seio de uma tensão perpétua e dinamizadora. O pensamento, sustentado pelas Weltanschauungen, possui desde logo um carácter instrumental: solicitamos uma multitude de disciplinas para ilustrar ideias já previamente concebidas, aceites, escolhidas. E essas ideias servem para atingir objectivos na própria realidade. A natureza particular (e não universal) de todo o pensamento revela-nos um mundo multicolor, um caos dinâmico, em mutação perpétua. Segundo Armin Mohler, as Weltanschauungen já não são veiculadas por filósofos puros, ou poetas puros, mas por seres híbridos, meio-pensadores, meio-poetas, que sabem conjugar habilmente – e com uma dada coerência – conceitos e imagens. Os gestos da existência concreta jogam um papel primordial nestes pensadores-poetas: pensemos em T.E. Lawrence (da Arábia), Mlraux e Ernst Jünger. As suas existências comprometidas fizeram-nos tocar com os dedos os nervos da vida, transmitiram-lhes uma experiência das coisas bem mais viva e forte do que a dos filósofos e dos teólogos, mesmo os mais audaciosos.

A oposição conceito/imagem

Os vocábulos e os conceitos são portanto insuficientes para abarcar a realidade em toda a sua multiplicidade. A palavra do poeta, a imagem, são-lhe de longe superiores. A nova era reflecte-se desde logo nos trabalhos dos “intelectuais anti-intelectuais”, daqueles que podem, com génio, moldar as imagens. Uma passagem do jornal de Gerhard Nebel, datada de 19 de Novembro de 1943, ilustra perfeitamente as posições de Mohler quando este sublinha a importância da Weltanschauung em relação à filosofia clássica e sobretudo quando ele entoa o seu apelo à intensidade da existência contra o monocronismo das teorias, apelo que ele sintetizou no conceito de “nominalismo” e que teve a ressonância que bem sabemos na maturação intelectual da “Nouvelle Droite” francesa.

Escutemos portanto as palavras de Gerhard Nebel:

“A ligação entre os dois instrumentos metafísicos do homem, o conceito e a imagem, deixa àqueles que se querem exercitar na comparação uma matéria inesgotável. Podemos assim dizer que o conceito é improdutivo, na medida que não faz mais que ordenador aquilo que nos é evidente, o que já descobrimos, o que está à nossa disposição, enquanto a imagem gera a realidade espiritual e traz à superfície os elementos até então escondidos do Ser. O conceito opera prudentemente distinções e reagrupamentos no quadro estrito dos factos seguros, a imagem colhe as coisas, com a impetuosidade do aventureiro e a sua ausência de todo os escrúpulo, e lança-as em direcção ao vasto e infinito. O conceito vive de medos, a imagem vive do fausto triunfante da descoberta. O conceito deve matar a sua presa (se é que não a tomou já apenas um cadáver) enquanto a imagem faz aparecer uma vida fulgurante. O conceito, enquanto conceito, exclui todo o mistério, a imagem é uma unidade paradoxal de contrários, que nos esclarece ao mesmo tempo que honra o obscuro. O conceito é envelhecido, a imagem é sempre fresca e jovem. O conceito é a vítima do tempo e envelhece rápido, a imagem está sempre para além do tempo. O conceito está subordinado ao progresso, como as ciências, que elas também, pertencem à categoria do progresso, enquanto a imagem provém do instante. O conceito é economia, a imagem é prodigalidade. O conceito é o que é, a imagem é sempre mais do que parece ser. O conceito solicita o cérebro mas a imagem solicita o coração. O conceito não move mais do que uma periferia da existência, a imagem, essa, actua sobre a totalidade da existência, sobre o seu núcleo. O conceito é finito, a imagem é infinita. O conceito simplifica; a imagem honra a diversidade. O conceito toma partido, a imagem abstém-se de julgar. O conceito é geral, a imagem é antes de tudo individual e, mesmo onde podemos fazer da imagem uma imagem geral e onde lhe podemos subordinar fenómenos, esta acção de subordinação relembra as caçadas apaixonantes; o aborrecimento que suscita a inclusão, o encerramento de factos do mundo em conceitos, é estrangeiro à imagem…”

As ideias veiculadas pelas Weltanschauungen encarnam-se arbitrariamente no real, de modo imprevisível, intermitente. Com efeito, estas ideias já não são ideias puras, elas já não têm um lugar fixo e imutável num qualquer Empíreo, para lá da realidade. Elas estão, pelo contrário, imbricadas, prisioneiras das aleatoriedades do real, subordinadas às suas mutações, aos conflitos que formam a sua trama. Estudar o impacto das Weltanschauungen, entre as quais as da Revolução Conservadora, é apresentar uma topografia de correntes subterrâneas que não saltam directamente à vista do observador.»

Robert Steuckers, La “Révolution Conservatrice” en Allemagne