Da primazia da weltanschauung sobre a “cultura”

by RNPD

«Se desejamos ultrapassar a “cultura” burguesa, há um terceiro ponto de referência possível para além do intelectualismo e do anti-intelectualismo: uma mundividência (weltanschauung, em alemão). Uma mundividência não é baseada em livros mas numa forma e sensibilidade interior dotada de um carácter inato, em vez de adquirido. É, essencialmente, uma disposição e uma atitude, em vez de uma cultura ou uma teoria – uma disposição e uma atitude que não dizem apenas respeito ao domínio mental, mas também afectam o domínio dos sentimentos e da vontade, forjam o carácter de um homem e manifestam-se em reacções que têm a mesma certeza instintiva, fazendo prova de um sentido inabalável da vida. Usualmente, a mundividência, em vez de ser um assunto individual, provém de uma tradição e é o efeito orgânico de forças que moldaram um determinado tipo de civilização; ao mesmo tempo, a pane subiecti (da perspectiva do sujeito) a mundividência manifesta-se como uma espécie de “raça interior” e estrutura existencial. Em todas as civilizações com excepção da moderna, era uma mundividência e não uma cultura que permeava os diferentes estratos da sociedade; onde a cultura e o pensamento conceptual estavam presentes nunca gozaram de primazia, pois a sua função era de simples meios e órgãos de expressão ao serviço da mundividência. Ninguém acreditava que o “pensamento em estado puro” revelasse a verdade e desse significado à vida: o papel do pensamento consistia em clarificar o que já se possuía e o que já existia enquanto sentimento directo e evidência, antes que qualquer especulação fosse formulada. Os produtos do pensamento tinham apenas um valor simbólico, agindo como sinais – portanto, a expressão conceptual não tinha um carácter privilegiado sobre outras formas de expressão. Em civilizações prévias estas últimas consistiam em imagens evocativas, símbolos e mitos. Hoje as coisas podem ser diferentes, considerando a crescente, hipertrofiada racionalização do homem ocidental. Contudo, é importante não confundir o essencial pelo acessório, e que as relações acima mencionadas sejam reconhecidas e retidas, ou, por outra palavras, onde quer que a “cultura” e o “intelectualismo” estejam presentes podem desempenhar apenas um papel instrumental, na expressão de algo mais profundo e orgânico, uma mundividência. A mundividência pode encontrar melhor expressão num homem sem educação formal do que num escritor, tal como pode estar mais fortemente representada num soldado, num aristocrata ou num agricultor que permanece fiel à terra, do que no intelectual burguês, no “professor” típico, ou no jornalista.»

Julius Evola, Men among the Ruins, Inner Traditions, Vermont, pp.221-222