Atenas ou Jerusalém?

by RNPD

« (…) No seu famoso ensaio: “Jerusalém e Atenas: algumas reflexões preliminares”, Leo Strauss refere-se à civilização ocidental como oscilando entre dois pólos de sabedoria: Atenas, a polis, o berço da democracia, onde, sob o reino da razão, a filosofia, a arte e a ciência foram veneradas; e Jerusalém – a cidade de Deus, onde é a Lei de Deus que fornece as verdades acima da razão. O homem ocidental, segundo Leo Strauss, é construído de forma complementar tanto pela fé bíblica como pelo pensamento grego. Eu defendo que estão condenadas ao fracasso todas as tentativas de reconciliar o imperativo judaico de “primeiro age e depois ouve” com o desejo grego de, acima de tudo, “compreender”. Não é Atenas e Jerusalém, mas, pelo contrário, ou Atenas ou Jerusalém. Para refutar a visão comum que traça o choque entre Atenas e Jerusalém à guerra macabeana, onde o monoteísmo judaico venceu a batalha contra o paganismo helénico, argumento que a disparidade entre Atenas e Jerusalém está gravada na divisão primordial entre o que cultiva o solo e o pastor que deambula. É a rivalidade bíblica entre Caim, o habitante, significando o desejo de enraizamento, contra Abel o deambulante.

O mito da autoctonia associa Atenas com o enraizamento (Bodenstandigkeit) oposta de Jerusalém, marcada pelo deambular e desenraizamento. O Velho Testamento (a voz de Jerusalém) diz-nos que Deus prefere o sacrifício de Abel à oferta de Caim. “Aconteceu que no fim de uns tempos trouxe Caim do fruto da terra uma oferta ao SENHOR. Abel, por sua vez, trouxe das primícias do seu rebanho e da gordura deste. Agradou-se o SENHOR de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou”. É evidente que a bíblia se inclina constantemente para o lado do deambulante. Por isso, até certo ponto, a bíblia deve ser vista como um subtexto para entender a história judaica, onde a narrativa de deambulação e exílio já está presente. Estranhamente, esta convergência implícita entre a repetitiva história judaica de deambulação e exílio tal como antecipada pela narração bíblica é enturvada e desconsiderada. Quando se pergunta aos estudiosos bíblicos: Por que é que não há um único indício que possa dar uma pista sobre a preferência arbitrária que Deus tem por Abel sobre Caim, insistem em apresentar esta história como um exemplo da conduta inexplicável de Deus. Não é preciso ser-se um estudioso da bíblia para descobrir que a história de Caim e Abel é meramente um sinistro prólogo para outras histórias bíblicas que se seguirão.

O mito da autoctonia (onde auto se refere ao que é nosso) e ctonia (denota a raiz da Terra) deve ser empregue como uma “Pedra de Roseta” para uma leitura alternativa da história de antagonismo entre o hebraísmo e o helenismo. O mito que edificou o povo de Atenas como os filhos da terra, opõe-se à narrativa principal da bíblia, onde, sob o comando de Deus, Abraão foi compelido a abandonar “a sua terra, as sua parentela, a casa de seu pai, para ir para Canaã”. O lamento de Abraão:” Estrangeiro e peregrino sou entre vós” carimba 3000 anos de história judaica. Com o reavivar do legado grego, as ideologias volkisch (mais tarde ofuscadas pelo nacionalismo) restauraram o conceito de autoctonia. Portanto, a batalha entre o judaísmo e o helenismo vai para além do paganismo contra o monoteísmo, até à percepção dos deuses da terra e do céu, que estão perto de nós, em nós e connosco – em contraste com o deus ausente transcendente judaico. (…)

É o deus judaico que diz a Adão: “maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida”. É assim que começa a odisseia da deambulação, do cosmopolitismo, do internacionalismo, do livre-mercado e da economia globalizada. As questões que devem ser colocadas são: Como é que aconteceu que o mundo intelectual seja totalmente dominado pelos filósofos de Jerusalém enquanto a voz de Atenas é silenciada? É o medo do fascismo que causa um esquecimento do “ser”? A cegueira do politicamente correcto está a conduzir-nos por um traiçoeiro caminho de escuridão? (…)»

Excerto de um brilhante ensaio da Dr.ª Ariella Atzmon, ela própria judia, sobre o verdadeiro espírito europeu, a oposição entre duas concepções do mundo, representadas por Atenas e Jerusalém respectivamente, a filosofia de Heidegger e a crítica dos desvios do nazismo em relação ao que poderia ter representado.