Espécie de elegia heróica

by RNPD

«[O herói] vem em ajuda dos fracos e dos velhos mas não suporta os preguiçosos, nem os oportunistas e ladrões. Considera-os como “fardos da terra”, um peso para a Terra-mãe. Sabe ser corajoso face ao perigo e paciente perante as dificuldades da vida quotidiana sem, contudo, procurar a aflição e a adversidade. Sabe tirar proveito das alegrias da vida onde as encontra, ao escutar uma canção, depois de um beijo, face a uma paisagem idílica ou a hilaridade de uma criança porque ele sabe que cada instante é único e que talvez nunca mais se reproduza. Ademais, ele não é estúpido. Sabe utilizar a sua inteligência de cada vez que tem necessidade. Representa a superioridade do homem face ao animal. Sabe rir das suas próprias infelicidades, porque o riso é como o vento que afugenta as nuvens da miséria e do derrotismo. Tenta resolver sozinho os seus problemas respeitando a natureza, que considera viva e sagrada.(…)

E hoje quem poderia ser considerado como um herói? Citemos alguns exemplos: o empregado que recusa enriquecer à custa dos outros sabendo que arrisca perder o seu emprego, a mãe que educa sozinha o seu filho e enfrenta com orgulho os boatos da vizinhança, aquele que apaga a sua televisão para ler um livro ou ouvir música, a mulher que decide fazer os seus estudos numa escola que até então não admitia senão homens. O heroísmo reconhece-se em milhares de pequenas e grandes coisas da vida quotidiana.

Os modelos de referência dos nossos antepassados eram os seus próprios deuses. Os do Olimpo, os deuses dos celtas e os dos escandinavos eram eles mesmos heróis, isto é, seres que lutavam contra o seu próprio destino, batendo-se como homens, com os seus defeitos e qualidades, à procura do seu próprio despertar.(…)»

Thomas Mastakouri, L’exemple du héros