A lição de Sarpédon

by RNPD

(O Sono e a Morte levando o corpo de Sarpédon da Lícia, Johann Heinrich Füssli, 1803)

“Glauco, por que razão nós dois somos os mais honrados
com lugar de honra, carnes e taças repletas até cima
na Lícia, e todos nos miram como se fossemos deuses?
Somos proprietários de um grande terreno nas margens do Xanto,
belo terreno de pomares e de searas dadoras de trigo.
Por isso é nossa obrigação colocarmo-nos entre os dianteiros
dos Lícios para enfrentarmos a batalha flamejante,
para que assim diga algum dos Lícios de robustas couraças:
‘Ignominiosos não são os nossos reis que governam
a Lícia, eles que comem as gordas ovelhas e bebem
vinho selecto, doce como mel; pois sua força é também
excelente, visto que combatem entre os dianteiros dos Lícios’.
Meu amigo, se tendo fugido desta guerra pudéssemos
viver para sempre isentos de velhice e imortais,
nem eu próprio combateria entre os dianteiros
nem te mandaria a ti para a refrega glorificadora de homens.
Mas agora, dado que presidem os incontáveis destinos
da morte de que nenhum homem pode fugir ou escapar,
avancemos, quer outorguemos glória a outro, ou ele a nós.”

Ilíada, XII, 310-325, Edições Cotovia, tradução de Frederico Lourenço

A Íliada e a Odisseia, os verdadeiros livros sagrados ou religiosos dos europeus, como os definiu Dominique Venner, estão permeadas, em todos os momentos, por uma metafísica aristocrática e trágica, anti-igualitária, com homens superiores que lideram as massas pelo exemplo da sua coragem nos momentos mais difíceis, que vivem pela palavra dada e pela lealdade aos camaradas, rejeitando concepções absolutistas do bem e do mal, e rejeitando uma salvação de tipo bíblico, apocalíptica, a ocorrer no final dos tempos para os humildes e fracos… antes pelo contrário, ali os homens “salvam-se”, ou melhor, imortalizam-se, pela grandeza na batalha, na das armas e nas da vida.

O trecho que citámos, que é o discurso de Sarpédon a Glauco, é um exemplo claro dessa ética que atravessa a poesia épica europeia, e nomeadamente a homérica.

“Glauco, filho de Hipóloco, era um dos melhores guerreiros dentre os lícios, e lutava sempre ao lado de Sarpédon, rei dos lícios e filho de Zeus. Depois da morte deste, passou a comandar as hostes lícias, até à derrota final de Tróia.” (Wikipedia)

O discurso de Sarpédon, que era rei, lembrará a Glauco que um verdadeiro espírito aristocrático não é questão de berço nem de título, mas de provas dadas nas frentes de combate que o destino impõe. E Glauco, depois da morte do seu rei e camarada, demonstrará estar à altura daquela lição.

Da elite não é o general ou o líder que está “estrategicamente” na retaguarda, é o que avança à frente dos demais e não recua quando os outros pensam fugir.

Na segunda parte deste excerto da Ilíada podemos verificar que ao contrário da moral bíblica, que determina as acções em função de uma lógica privada e pessoal de culpa, pecado, perdão e redenção, a ética homérica (ou europeia clássica) desconhece esses conceitos: é uma ética de vergonha e glória. O herói homérico age impulsionado, não pela culpa ou pela necessidade de perdão, mas pela vontade de manter a face, de andar de cabeça erguida e orgulhoso perante os seus, de não sentir vergonha dos seus actos, de não ser apontado como um cobarde, e a sua imortalidade, por essa mesma razão, é conquistada pela glória que alcança quando chamado a enfrentar o destino mais árduo. Interessa-lhe deixar como herança aos seus descendentes uma memória de bravura, um nome de que se orgulhem.

Enquanto a moral bíblica espera um deus que vem oferecer a salvação aos dóceis e humildes, que para tal devem viver a pedir perdão pelos seus supostos pecados, para aliviarem as suas culpas e mostrarem arrependimento, na ética clássica europeia são os duros e orgulhosos que se elevam eles próprios, pela grandeza das suas acções, à altura dos deuses.