A nossa tradição política e a economia (parte I)

A falta de uma doutrina económica?

Para quem observa de fora é comum ficar a impressão de que a nossa tradição política tem um ponto fraco em relação aos adversários: a inexistência de um pensamento económico mecanizado que permita propostas e análises imediatas e facilmente repetíveis no que à economia diz respeito. Mesmo naqueles que fazem parte da nossa mundividência surge muitas vezes uma incapacidade de contestar essa observação. Será verdadeira?

Não é. Mas é natural que na actual modernidade exista essa percepção. Para o explicarmos temos de recuar na História.

Contextualizar o problema

A segunda guerra mundial foi uma guerra de várias frentes e muitas batalhas diferentes, mas uma delas é fulcral para o tema que aqui abordamos. Essa guerra representou, entre outras coisas, o embate de três grandes mundividências distintas: a liberal, a marxista e uma outra que chamaremos, por conveniência, “nacionalista” (com todas as nuances que este conceito aqui acarreta).

Com o equilíbrio (ou desequilíbrio) de poderes que resultou do desfecho dessa guerra instalou-se no Ocidente a percepção de que as duas grandes alternativas económicas, os dois grandes sistemas antagónicos, eram, de um lado, saído da mundividência liberal, o capitalismo, do outro lado, saído da mundividência marxista, o socialismo. Mas essa oposição era na realidade um antagonismo secundário em relação àquele que, verdadeiramente, se deu durante a segunda guerra.

A verdadeira oposição

Esse antagonismo principal foi o que opôs uma concepção materialista (no sentido economicista do conceito) do homem, representada pelos campos liberais e marxistas, a uma concepção anti-materialista do homem, representada pelo campo “nacionalista”. Como a primeira concepção aniquilou a segunda durante a guerra, apenas as oposições que existiam no campo materialista passaram a ser tomadas em consideração.

Falsos inimigos

Mas o que definia em concreto esse antagonismo entre a concepção materialista e a concepção anti-materialista do homem? Como é que se pode juntar no mesmo campo o capitalismo e o socialismo, perguntarão…

Juntamo-los porque um e outro pensam a política e a organização da sociedade em função da produção, da economia, subjugando tudo o resto a esse imperativo que tudo explica e determina.

Porque as sociedades capitalistas/liberais quantificam o sucesso em função do que se possui, do que se consome, do que se pode comprar, da conta bancária. O “american-dream” é precisamente essa perspectiva de poder enriquecer através do mercado, a possibilidade de nada tendo adquirir muitos bens materiais, isso é o retrato do tão elogiado “self-made man”; não o homem que constrói gradualmente uma vida sem máculas éticas ou de carácter, mas antes o indivíduo que, se preciso através de procedimentos oportunistas e expedientes duvidosos, sai da pobreza para uma situação de abundância material.

Já o materialismo marxista está explicitamente assumido na sua doutrina teórica. Para além do pressuposto teórico de que as condições económicas determinam a história, o marxismo divide toda a sociedade em classes delimitadas pela economia. A desigualdade que o marxismo contesta é, antes de mais, uma desigualdade de dinheiro, do que se possui. O revolucionário marxista explora a inveja dos que querem ter o que outros têm e não conseguem, e se eles não conseguem então os outros também não deverão ter, essa é a raiz do igualitarismo marxista.

Enquanto que o liberal adora o livre jogo das forças económicas e do dinheiro porque mede por aí o sucesso, acredita que pode vir a possuir muito e define o seu bem-estar por essa posse quantitativa e material, o marxista odeia o livre jogo do capital e da economia porque acredita que daí surgem as desigualdades em seu desfavor que ele não suporta, ele avalia o seu próprio insucesso e a superioridade implícita do patrão e do rico em função do conforto material que o separa desta última classe.

Ora, como uns e outros avaliam o homem em função dos bens materiais e da economia as suas propostas de organização sócio-política derivam sempre de um pensamento económico, porque é a economia que lhes interessa primeiramente, é ela que determina a distribuição de bens e riqueza, e portanto define as hierarquias em que uns e outros pensam. Essa obsessão com o estudo das condições económicas faz com que ambos os lados tenham desenvolvido escolas de pensamento económico com soluções prontas a usar para todas as ocasiões, todos os tempos e todos os espaços.

A alternativa que não aceita a ditadura económica

Os “nacionalismos”, ao invés, fazem parte de um filão histórico totalmente diferente, um filão de correntes de pensamento que acreditam noutras hierarquias e prioridades que não as impostas pela economia. Correntes que não medem a capacidade ou a incapacidade dos homens pelo seu sucesso material nem, consequentemente, a grandeza das nações pela quantidade do PIB.

Enquanto que as duas primeiras concepções fazem uma avaliação essencialmente quantitativa do homem e do mundo, o filão de que fazem partes os “nacionalismos” faz uma avaliação primeiramente qualitativa da existência e da vida em comunidade. Por essa razão inverte a ordem dos materialismos e, em vez de direccionar a sociedade para o cumprimento de um determinado conjunto de objectivos económicos, coloca antes a economia ao serviço do cumprimento de uma ideia política de comunidade. Ou pelo menos controla a dinâmica económica para que esta não prejudique esse projecto de comunidade…

Não é por acaso que alguns politólogos modernos quando decidiram analisar o sucesso eleitoral do partido identitário flamengo Vlaams Belang faziam notar, em tom de crítica, o que para eles era uma fragilidade do programa do partido: o pouco espaço e aprofundamento da questão económica. Alguns pretenderam mesmo descobrir um ziguezague do partido observando que no início este tinha um programa económico mais socializante (na verdade solidarista) e que, depois, as ideias económicas se liberalizaram.

Ora na verdade não há ali nenhuma fragilidade nem ziguezague. Simplesmente, o Vlaams Belang, como faz parte da tradição que expusemos atrás, dava no seu programa maior prioridade à apresentação das suas ideias sobre a identidade do povo, a autonomia da comunidade, a defesa da família, a liberdade do homem, ou seja, a valores e princípios não materiais, do que a saber se deveria ser privatizada ou “estatizada” a produção disto ou daquilo. Nem tampouco há qualquer ziguezague representado pela evolução das opções económicas do partido, porque, ao contrário das mundividências materialistas que têm uma escola de pensamento económica mecanizada com uma cassete em permanente “play” sempre com as mesmas soluções (nuns privatizar para criar riqueza, noutros dar ao Estado para distribuir riqueza) os nacionalismos, como dão à economia um mero papel administrativo e funcional, não se prendem a dogmas próprios de autênticas religiosidades económicas e adaptam por isso as sua soluções às circunstâncias concretas existentes, uma vez que, aquilo que é do domínio administrativo e funcional, não define a essência de uma tradição, não lhe altera a natureza e não lhe marca a agenda ou o ritmo… pode apenas servi-la melhor ou pior num dado momento.

A economia não manda, serve… mas deve servir bem

Mas dizer que a economia não dita as leis significa “pô-la no seu devido lugar”, não significa descurá-la, porque a subsistência digna das pessoas depende da gestão da economia da comunidade.

Assim, o que se procura é apresentar um conjunto de pressupostos que enquadrem de forma teórica o pensamento económico dessa tradição anti-materialista. Pressupostos dentro dos quais estarão confinadas as medidas práticas que, em cada momento e dadas as diferentes circunstâncias existentes, constituirão o programa de propostas económicas concretas.

[Continua…]

Em Esparta manda a coragem, não o dinheiro

(quadro de Jean-Jacques-Francois Le Barbier, “La Magnanimite de Lycurgue”)

1- Vejamos ainda outros usos opostos aos do resto da Grécia que Licurgo estabeleceu em Esparta. Nos outros Estados, todos se enriquecem tanto quanto podem: um cultiva a terra, outro arma um navio, um terceiro faz comércio, os outros vivem de diferentes ofícios.

2- Em Esparta, Licurgo proibiu os homens livres de tocar em quaisquer assuntos de dinheiro; assegurar a liberdade do Estado, essa é, segundo ele, a única ocupação que devem considerar como sua.

3- E de facto, porque se procuraria a riqueza ali, onde o legislador, ordenando distribuir a mesma porção à mesa comum e viver do mesmo regime, fez as coisas de modo a que não se deseje a riqueza para levar uma vida luxuosa. Também não é pelas roupas que se deseja enriquecer; o adorno de um espartano não está no luxo das vestimentas mas na boa constituição do seu corpo.

4- Também não é para ter o que despender em favor dos seus comensais que é preciso acumular dinheiro, porque Licurgo estabeleceu que é mais glorioso servir os seus amigos com o trabalho das suas mãos do que esbanjando dinheiro. Ele fez ver que uma coisa é obra do coração, a outra, é obra da riqueza.

5- Quanto a enriquecer por vias injustas, ele impediu-o por medidas como estas: Logo à partida estabeleceu uma moeda tal que mesmo uma soma de dez faces entrando numa casa não escaparia à atenção nem dos mestres nem dos servidores: ocuparia um espaço enorme e seria preciso um carro para a transportar.

6- E depois, investiga-se à procura de ouro e dinheiro, e se se o encontra em algum lado, o detentor é multado. Por que razão correr-se-ia atrás da riqueza ali, onde a possessão de dinheiro causa mais aborrecimentos do que o prazer que pode dar o seu uso?

Retirado de: Xenofonte, Constituição de Esparta, capítulo VII