O consumo como acção política

by RNPD

(Patrick McGrath Muñiz, Consumerist Gluttony)

Sucede por vezes nos movimentos de aspiração revolucionária (no sentido em que ambicionem alterações de paradigma político) haver uma vontade de apresentar grandes estratégias teóricas de transmutação da sociedade, uma espécie de grande plano com as diversas etapas que conduzirão à mudança e a chegar a um objectivo completamente claro e pré-fixado. Ora, a comum incapacidade de formular esse grande plano teórico, ou aplicá-lo, a aparente inexistência de resultados visíveis, ou a incapacidade de pré-determinar concretamente qual o estado de coisas a que se pretende chegar no final, conduzem muitas vezes à desmotivação e à sensação de que, na realidade, nada pode ser feito, nada mudará verdadeiramente…a isso segue-se a resignação…e é precisamente esse estado de resignação, de “rendição”, em que, não os podendo bater nos juntamos, mesmo se contrariados, a eles, que faz com que as grande mudanças fracassem e os resultados, efectivamente, não surjam.

No fundo é preciso perceber que as grandes mudanças são uma sequência de pequenas alterações muito pouco visíveis. Mas, a dado momento, a soma dessas pequenas alterações, que de início são quase invisíveis, acabará por originar uma mudança abrupta que raramente é antecipada. Parece que surge de repente mas nunca assim é…quem não percebe isto tende a achar que as revoluções são preparadas através de um guião que elenca passo a passo as diferentes fases de acção até chegar a um objectivo perfeitamente pré-delineado.

Assim, um dos grandes erros estratégicos frequentemente cometido por quem se dispõe a combater contra um dado sistema de valores dominante é “querer correr sem antes ter começado a andar”. O fundamental não é conseguir identificar tudo o que está mal e ter as soluções para todos os problemas delineando de uma ponta a outra todo um novo modelo de sociedade mas sim focar a acção nas pequenas alterações, combatendo aqueles pontos nocivos e concretos que conseguimos visualizar e com que nos deparamos no quotidiano e que podem ser mais ou menos atingidos pela nossa actuação, porque muitos a contribuírem para pequenas mudanças geram uma grande transformação no final.

Um exemplo concreto é aquilo que consumimos, ou como consumimos. Todos nós temos, dentro de um certo limite, a capacidade de decidir o que consumir. Esta decisão sobre o consumo tem o potencial de ser um enorme acto revolucionário, e um em que todos podem participar. A soma dessas pequenas decisões e participações pode levar a alterações profundas.

Todos os que combatem contra o modelo de sociedade dominado pelos interesses económicos e caracterizado pela destruição identitária e uniformização cultural do mundo devem ter presente que esse sistema societário actual tem no capitalismo globalizado das grandes marcas ou corporações a sua vanguarda ofensiva.

Assim, a estratégia passa por atacar os pilares da sociedade de consumo…

Uma grande parte do que as pessoas são levadas a consumir não lhes é necessário ou acaba por ser redundante:

– Consumir menos e ter sempre presente a influência da publicidade na incitação sub-reptícia ao consumo. Antes de consumir perguntarmo-nos se precisamos realmente do que vamos comprar. É preciso aprender a resistir à manipulação das mentes através da publicidade e propaganda!

Quando decididos a consumir fazer escolhas conscientes:

– Combater as grandes marcas. Evitar consumir nas grandes corporações multinacionais, almoçar um bife num café em vez de ir ao McDonald’s, beber água em vez de pagar Coca-Cola, não comprar uns ténis de corrida à Adidas ou à Nike, tentar comprar no pequeno comércio em vez de nas grandes superfícies, etc.

Se há algum produto de que gostamos particularmente que seja produzido por uma dessas empresas iconográficas da globalização, pois bem, há de certeza outras de cujos produtos conseguimos prescindir.

Preferir a produção nacional:

– Quando consumir tentar sempre optar por produtos produzidos em Portugal, isso não só reforça o emprego nacional como fere o modelo de produção globalizado. Na impossibilidade de comprar nacional consumir produtos de países que consumam o que produzimos.

Boicotes ideológicos:

– Ter presente que algumas empresas apoiam ou financiam ideias, campanhas e organizações que se opõem ao que defendemos. Boicotar os produtos dessas empresas. Ter presente que alguns Estados nacionais representam a antítese daquilo que defendemos e praticam actos que consideramos injustos. Boicotar o consumo da sua produção.

Temos, evidentemente consciência de que muitas vezes estas opções são limitadas pela capacidade financeira das pessoas e que, em muitos casos, o preço mais baixo que as grandes corporações praticam é um factor de decisão fulcral, ou mesmo o único. Mas nem sempre é assim, há quem, de facto, tenha rendimento que permite fazer escolhas, e há produtos em que a diferença de preço é inexistente ou insignificante. E depois basta ter consciência de que se não for possível fazer estas escolhas sempre, fazê-las de quando em vez, quando surge a oportunidade, significa contribuir para uma pequenina mudança, e se todos fizerem uma pequenina mudança…grandes mudanças surgirão.

Isto é também lutar pela nossa liberdade, a de hoje e de amanhã, porque à medida que mais e mais pessoas reforçam o consumo das grandes marcas maior é a capacidade dessas marcas estrangularem concorrencialmente os pequenos proprietários, e isso significa que também nós e os nossos descendentes veremos crescentemente negada a possibilidade de podermos ser pequenos proprietários, caminharemos progressivamente para um mundo em que todos seremos funcionários, serviçais de corporações megalómanas e minorias riquíssimas que mandarão sobre os povos e os seus Estados nacionais.

A questão é portanto ter presente que o consumo pode ser um acto tão ou mais político do que qualquer divagação teórica-doutrinária sobre grandes mudanças sociais. Consumir conscientemente e não instintivamente, como activistas políticos, eis o desafio que a Revolução nos lança…