Sobre o neo-realismo: ou a visão marxista do mundo

by RNPD

(Imagem retirada do filme Ladrões de Bicicletas de Vittorio de Sica)

Em poucas décadas, o neo-realismo tomou conta da vida cultural. Primeiro pelas chamadas artes plásticas, com os troca-tintas inspirados no muralismo mexicano e nas obras de Orozco, Rivera e Siqueiros. Depois, pelo cinema italiano do pós-guerra, dito progressista e de vanguarda, com Visconti, Rossellini, Zavattini, Vittorio De Seca — e a cara da Anna Magnani, séria e grave, o rosto vincado por padecimentos e lágrimas. E, finalmente, pela literatura. Sobretudo em Portugal, com a estética marxista vertida da «Vértice» em vertigem vertical. Plêiade de autores numerosa: Alves Redol e Mário Dionísio, José Gomes Ferreira e Fernando Namora, entre outros tansos das letras. (Ao Namora, zurziu-o de alto a baixo o Luiz Pacheco, que lhe catou do «Domingo à Tarde» os passos plagiados da «Aparição», de Vergílio Ferreira — e que, ao depois, publicou o resultado da pesquisa, com grande escândalo do PCP, no folheto «O Caso do Sonâmbulo Chupista».) O estilo é seco, despojado, jornalístico. Rompe com os temas do passado: o cinema neo-realista filma os bairros sociais, as vilas de pescadores, os meninos esfarrapados, as ruas buliçosas do centro das cidades; os escritores, esses, chafurdam na «luta de classes» — e pintam um painel engagé dos conflitos que opõem operários e patrões, camponeses e agrários.

E assim passaram décadas. No inferno, com o coiro a arder, o Münzenberg batia as palmas estrepitosamente. E por cá, ao fresco, a trupe do neo-realismo — ou neo-realejo, segundo o grande Tomás de Figueiredo — seguia minuciosamente as recomendações de Álvaro Cunhal, plasmadas nas páginas de «O Diabo» (o dos anos 30, não o actual): a ideia de que a Arte deve “exprimir actualmente uma tendência histórica progressista” e “exprimir a realidade viva e humana de uma época”.

O exame atento às últimas eleições autárquicas permite concluir que — depois da pintura, do cinema e da literatura — o neo-realismo abancou na política. É um neo-realismo mitigado e serôdio, mas ainda marxista nos fundamentos e no discurso. Está presente nos programas de todas as candidaturas, do CDS-PP ao PCP. Nuns e noutros, o “cidadão” ou “munícipe”, como eles lhe chamam, é considerado unicamente como um “ser social”. O Alves Redol não faria melhor. E depois a mesma lábia larga e impostora no raciocínio sobre os “desfavorecidos” e os “humildes”. Ao redigir o programa, cada candidato semelha um cozinheiro simpático e barrigudo que, usando de pouco sal (por causa do colesterol político), leva ao lume uma espécie de sopa dos pobres para todas as “classes”.

Estorce-se nos vários parágrafos o realismo socialista. Disfarçado embora, dá de si em todos os domínios: o demasiado planeamento urbano, o ardil da “habitação social”, a questão benquista das minorias étnicas, as “zonas verdes” ao quilo, a cultura de subúrbio, a influência distorcida do «new urbanism» norte-americano. A própria mania das ruas pedonais e o Dia Europeu sem Carros, a que adere ano após ano um número crescente de municípios, relevam menos da protecção ao ambiente que do neo-realismo político. O automobilista é o novo “explorador”. Há trinta anos, na lonjura da planície, impôs-se «a terra a quem a trabalha»; hoje, na agitação febril da cidade, reclama-se «a rua a quem a caminha».

Desquitada do proletariado periférico e dos campónios do interior, a nova esquerda «cultural» montou locanda de secos e molhados na grande cidade. Com águas correntes e luz eléctrica, abraça a causa dos homossexuais, imigrantes e outras minorias. Marcuse e a Escola de Frankfurt estabeleceram os princípios desta “neo”-realpolitik.

Bruno Oliveira Santos