Afinal, era um vencedor

by RNPD

Há muitos anos atrás passei um período da minha vida a estudar livros e jogar partidas de xadrez. Costumava passar horas num clubezinho da vila a treinar. Por lá passavam regularmente mais uns quantos obcecados – todos nós a levar aquilo muito a sério e convencidos de que, num dia bom e com as peças brancas, poderíamos empatar com qualquer GM – e mais uns entusiastas, menos pretensiosos do que nós, que jogavam por puro prazer.

Um desses entusiastas era um tipo com quem todos, os que estávamos convencidos de sermos bons, detestávamos jogar. Por um lado porque ele era muito amador (lembro-me que, em dezenas de jogos, nunca me conseguiu bater, o que significava que nunca era um desafio que exigisse tanto de mim como eu queria), e depois ele tinha uma característica particularmente irritante: por mais irrecuperável que fosse a sua posição no tabuleiro ele nunca desistia, nunca fazia cair o próprio rei, mesmo se não tivesse mais que um peão a defrontar rainha e cavalo continuava sempre a jogar até sofrer efectivamente o xeque-mate. No xadrez este tipo de atitude era considerada falta de civismo desportivo. Fazia-nos perder tempo que poderia ser empregue numa outra partida, quiçá mais interessante. Mas ele não percebia isso e sucedia-me muitas vez ter de gastar meia hora ou mais até conseguir dar-lhe xeque-mate, com ele sempre a mover o rei para evitar durante o maior número de jogadas o fatídico momento.

Depois, quando sofria então o “mate”, levantava-se, e com um genuíno sorriso apertava-me a mão como se tivesse passado o melhor bocado de tempo, e dizia educadamente: “Parabéns, gostei muito, foste um justo vencedor mas viste o quanto aguentei? Estou a melhorar, hã?”…na realidade nunca melhorou grande coisa e continuou sempre a perder; mas também a obrigar-me a jogar sempre, sempre, até à última jogada possível. “Porque razão não fizeste cair o rei no vigésimo movimento? Tinhas o jogo perdido…é aborrecido forçares-me a fazer todos estes movimentos desnecessários quando a partida estava resolvida” – dizia-lhe. “Não, nunca devemos desistir, devemos lutar sempre até ao fim, se não querem dar xeque-mate mudem de jogo.”- Respondia-me invariavelmente.

Por causa disso tinha uma alcunha (que eu acho que ele desconhecia): o “empata”. Era assim que falávamos dele lá no clube.

Entretanto mudei de terra, de hábitos e interesses, mudaram os amigos, os livros passaram a ser outros, e a memória afastou da minha vida aqueles momentos e os rostos daquele clubezinho.

Os anos passaram e, há pouco tempo, um desgraçado infortúnio numa actividade desportiva mais radical fez-me ficar com um braço ao peito. Estava um dia de baixa em casa, com um tédio tremendo e sem nada que fazer quando tive de passar pela velha terra para resolver um assunto de família. Quando dei por mim estava a passar ao lado do velho prédio onde, no segundo andar, havia o clube de xadrez…Fiquei a olhar para aquela varanda, com a porta entreaberta, e invadiu-me um sentimento de melancolia (mais pelos anos passados e pelo afastar da adolescência do que pelos momentos em si, julgo)

Decidi subir as escadas, que continuavam a ranger muito, e abri a porta. Olhei em volta e não reconheci ninguém…estava lá um par de velhos a jogar damas, e um miúdo novo a jogar xadrez com o pai (pelo menos assumi que fosse). Olharam para mim por breves instantes e os olhos regressaram aos tabuleiros. Eu sentei-me numa mesa vaga que tinha as peças de xadrez já dispostas. Fiquei talvez 15 minutos ali sentado a olhar para as peças mas com a cabeça noutra época. De repente a porta abre-se e vejo entrar um gajo com uma muleta, a andar de forma algo desengonçada. Assim que me pôs a vista em cima grita entusiasmado o meu nome, como se de um velho conhecido se tratasse, enquanto se desloca na minha direcção sem que eu reconhecesse a personagem. “Não acredito, pá! Há tantos anos…nunca mais ninguém te viu.” Disse-me, e prosseguiu com aquele “bláblá” até que, por fim, lá reconheci o velho “empata” (não me recordava do nome dele, confesso, só da alcunha) …

O tipo senta-se na minha mesa e começamos a pôr a conversa de circunstância em dia, “o que tens feito”, “estás casado?”, “como vai a família?”, etc…até que me pergunta o que me aconteceu ao braço. Explico-lhe e retribuo a pergunta: “Então, e a perna, andas com muleta?”

Foi então que me disse que tinha tido um acidente e que ficara com aquele problema permanente na perna. Há coisa de uns três anos que anda com a muleta. Deve ter descortinado a minha expressão de pena e pesar porque logo de seguida disse-me com um tom descontraído e alegre: ” não faz mal, pá, já nem ligo, há coisas mais graves na vida e podia ter sido pior…olha, podia agora não estar cá para ver a minha filhota, queres ver?” E mostra-me na carteira a fotografia de uma bebé.

E eu que tinha passado as últimas semanas a queixar-me por ter de andar com o braço ao peito e ter de vir a fazer uma cirurgia para corrigir definitivamente o problema!

Aproxima-se a hora de jantar, digo-lhe o quanto gostei de o ver e que tenho de ir andando para apanhar o comboio. “Nem pensar, antes temos de jogar uma partidinha, em nome dos velhos tempos, sabes que continuo a vir cá de vez em quando, mas raramente vejo a velha malta, muitos saíram daqui e nunca mais disseram nada” (aquela também era para mim).

Ele esconde duas peças nas mãos, uma branca e uma preta, “Escolhe a mão”. Escolho a direita e tenho sorte, saem-me as brancas (é uma vantagem porque são as brancas que abrem e ganham um tempo). “Deixa, joga tu de brancas”. “Não, não”, responde-me, o que é justo é justo.

Abro com e4 e ele responde com C5, é uma defesa “siciliana”…à 13º jogada, com surpresa, noto que tenho uma posição bastante desvantajosa, tenho o centro do tabuleiro perdido e começo a ficar com sérios problemas de espaço, tenho, para além disso, um peão estupidamente isolado, e um bispo muito mal colocado, quase inutilizado. Lembro-me de, aí, ter pensado que se estivesse a jogar contra outro que não o velho “empata” teria o jogo praticamente perdido…à 20ª jogada tenho de facto a partida perdida e à 25º desisto e faço cair o meu rei. “Porra, não acredito que perdi com este gajo”, foi a primeira coisa que me veio à mente.

Levanto-me e estendo-lhe a mão, e ele fica por momentos a olhar para mim e a abanar a cabeça em sinal de reprovação “Por que desististe?”, “O jogo estava perdido, não havia mais nada a fazer”, respondo-lhe. “Nunca devemos desistir, mesmo se a derrota é inevitável, é preciso lutar sempre até à última”. Foi a única vez em que não se mostrou sorridente e entusiasmado por ter jogado comigo. Nem acreditei naquilo, depois de ter perdido dezenas de jogos contra mim ao longo do tempo foi o único jogo que ganhou que não apreciou. “Bom tenho de ir, vê lá se apareces de vez em quando, pá”, recobrou o sorriso voltou-me costas e lá saiu a arrastar a perna, em esforço com a muleta, em direcção à porta.

Fiquei ali parado alguns segundos, até perceber que o Manuel (é esse o nome do “empata”) tinha uma filosofia que aplicava a tudo na vida, fossem quais fossem as circunstâncias ou as situações, ele nunca, mas nunca, desistia, nem aceitava que outros o fizessem.