Chegou a hora de pagar a factura…

by RNPD

Foi o crescimento permanente do volume de dívidas privadas e de dívidas públicas que permitiu o desenvolvimento do sistema mundialista. Mas a hora de pagar a factura chegou.

1-O liberalismo comercial e a desregulação financeira conduziram a uma concorrência fiscal entre os Estados. A deslocalização dos lucros e dos patrimónios desembocou na evaporação de uma parte das receitas fiscais dos Estados: Assim, o imposto sobre os benefícios ascende a 3% do volume de negócios das PME’s mas a apenas 0,3% para as multinacionais do CAC 40 ( ndT: é o índice bolsista das principais empresa em França). A mesma lógica aplica-se aos particulares: os gregos ricos passaram os seus activos para a Suíça e muitos franceses abastados tornaram-se exilados fiscais na Bélgica ou na Grã-Bretanha.

2-O liberalismo comercial global colocou em concorrência a mão-de-obra dos países desenvolvidos com aquela dos países do terceiro mundo: o que provocou a baixa dos salários e a subida do desemprego ligado às deslocalizações, nos EUA e na Europa. Com três consequências financeiras:

a)A diminuição da base das receitas fiscais ( ou das contribuições sociais);
b)A subida das despesas de assistência necessárias para tornar aceitáveis as consequências sociais das deslocalizações: o Estado-providendecia foi aqui mobilizado ao serviço da mundialização e dos interesses do grande capital (privatizar os benefícios, socializar as perdas);
c)A subida do endividamento privado (em particular nos EUA e na Grã-Bretanha) para manter de forma artificial o nível de vida dos assalariados e dos desempregados.

3- A Imigração – espécie de deslocalização ao domicílio – teve as mesmas consequências para os sectores da construção, da hotelaria e dos serviços que as deslocalizações tiveram no sector industrial. Quando Nafissatou Diallo, falso refugiado guineense, ocupa um emprego precário no Sofitel de Nova Iorque, significa mais um afro-americano que vai para o desemprego.

A imigração em massa acarreta portanto as mesmas consequências financeiras que as deslocalizações mas também uma consequência suplementar – sobretudo na Europa: assumir a cobertura social de uma pessoa e frequentemente de uma família suplementar. Porque em vez de assumir a assistência social do trabalhador e da sua família, assumimos a assistência social do desempregado e da sua família mais o imigrante (e a sua família) que o substitui no emprego.

4- Tudo isto agrava os défices, enquanto o ajustamento financeiro é difícil porque cada campanha eleitoral se lhe opõe:

a)Os candidatos têm necessidade de dinheiro para financiar as suas dispendiosas campanhas de comunicação: devem por isso cuidar dos grandes lóbis, as grandes empresas e os super-ricos, não sendo por isso viável aumentar as receitas fiscais
b)Os candidatos têm também necessidade de cuidar das suas clientelas eleitorais que vivem de subsídios públicos, não sendo por isso viável nestas circunstâncias baixar as despesas
(…)

5- Nestas condições o único recurso possível é taxar um pouco mais as classes médias fazendo apelo ao seu sentido de responsabilidade. Mas o seu sentido cívico e a sua dedicação não podem deixar de estar profundamente desencorajados pela arrogância da oligarquia financeira que enriqueceu durante os anos de crise.

Polémia ,8/08/2011