Month: Agosto, 2011

“Os jovens brancos converteram-se em negros…”

O famoso historiador britânico David Starkey declarou, no decurso de uma entrevista efectuada na BBC, que o problema é que os brancos se transformaram em negros, no decorrer dos recentes motins e revoltas.

No programa da BBC2 Newsnight, Starkey referiu-se à existência de uma profunda mudança cultural no Reino Unido. Também lembrou, nesse contexto, que o famoso discurso pronunciado em 1968 pelo político Enoch Powell, Rivers of Blood (Rios de Sangue), havia sido premonitório, de maneira parecida, poder-se-ia dizer, à novela “Le Camp des Saints” de Jean Raspail.

A profecia de Enoch Powell “foi totalmente correcta num sentido. Ainda que o Tamisa não se tenha manchado de sangue, as chamas envolveram os bairros de Tottenham e Clapham”, declarou o autor dos recentes documentários do Channel 4 sobre os Tudor .“Mas não era violência intercomunitária. Nisso equivocou-se por completo. O que ocorreu neste motins foi que muitos dos jovens brancos converteram-se em negros”.“Trata-se de um tipo particular de violência, destrutiva, pertencente a uma cultura niilista. O “gangster” dos guetos americanos tornou-se numa moda. E brancos e pretos, rapazes e raparigas, agora agem juntos, dentro dessa linguagem”, acrescentou.

Como era de prever semelhantes declarações incendiaram de imediato as reacções dos bem-pensantes, à espera que outros se lhes juntem.

Starkey, um dos mais famosos colaboradores da BBC, produziu as conhecidas séries “As seis esposas de HenriqueVIII” e “Isabel I de Inglaterra”. Além disso, e como advertência aos bem-pensantes, cabe precisar que sempre defendeu publicamente a sua homossexualidade em vários programas de televisão.

El Manifiesto, 16 de Agosto de 2011

Manifesto pessoal e pessoano

Chegou a hora de pagar a factura…

Foi o crescimento permanente do volume de dívidas privadas e de dívidas públicas que permitiu o desenvolvimento do sistema mundialista. Mas a hora de pagar a factura chegou.

1-O liberalismo comercial e a desregulação financeira conduziram a uma concorrência fiscal entre os Estados. A deslocalização dos lucros e dos patrimónios desembocou na evaporação de uma parte das receitas fiscais dos Estados: Assim, o imposto sobre os benefícios ascende a 3% do volume de negócios das PME’s mas a apenas 0,3% para as multinacionais do CAC 40 ( ndT: é o índice bolsista das principais empresa em França). A mesma lógica aplica-se aos particulares: os gregos ricos passaram os seus activos para a Suíça e muitos franceses abastados tornaram-se exilados fiscais na Bélgica ou na Grã-Bretanha.

2-O liberalismo comercial global colocou em concorrência a mão-de-obra dos países desenvolvidos com aquela dos países do terceiro mundo: o que provocou a baixa dos salários e a subida do desemprego ligado às deslocalizações, nos EUA e na Europa. Com três consequências financeiras:

a)A diminuição da base das receitas fiscais ( ou das contribuições sociais);
b)A subida das despesas de assistência necessárias para tornar aceitáveis as consequências sociais das deslocalizações: o Estado-providendecia foi aqui mobilizado ao serviço da mundialização e dos interesses do grande capital (privatizar os benefícios, socializar as perdas);
c)A subida do endividamento privado (em particular nos EUA e na Grã-Bretanha) para manter de forma artificial o nível de vida dos assalariados e dos desempregados.

3- A Imigração – espécie de deslocalização ao domicílio – teve as mesmas consequências para os sectores da construção, da hotelaria e dos serviços que as deslocalizações tiveram no sector industrial. Quando Nafissatou Diallo, falso refugiado guineense, ocupa um emprego precário no Sofitel de Nova Iorque, significa mais um afro-americano que vai para o desemprego.

A imigração em massa acarreta portanto as mesmas consequências financeiras que as deslocalizações mas também uma consequência suplementar – sobretudo na Europa: assumir a cobertura social de uma pessoa e frequentemente de uma família suplementar. Porque em vez de assumir a assistência social do trabalhador e da sua família, assumimos a assistência social do desempregado e da sua família mais o imigrante (e a sua família) que o substitui no emprego.

4- Tudo isto agrava os défices, enquanto o ajustamento financeiro é difícil porque cada campanha eleitoral se lhe opõe:

a)Os candidatos têm necessidade de dinheiro para financiar as suas dispendiosas campanhas de comunicação: devem por isso cuidar dos grandes lóbis, as grandes empresas e os super-ricos, não sendo por isso viável aumentar as receitas fiscais
b)Os candidatos têm também necessidade de cuidar das suas clientelas eleitorais que vivem de subsídios públicos, não sendo por isso viável nestas circunstâncias baixar as despesas
(…)

5- Nestas condições o único recurso possível é taxar um pouco mais as classes médias fazendo apelo ao seu sentido de responsabilidade. Mas o seu sentido cívico e a sua dedicação não podem deixar de estar profundamente desencorajados pela arrogância da oligarquia financeira que enriqueceu durante os anos de crise.

Polémia ,8/08/2011

Mais uma infantilidade do nacionalismo: o Conspiracionismo e a simplificação da realidade

O caso do norueguês Anders Breivik trouxe ao cimo uma velha característica dos meios políticos nacionalistas, ou pelo menos de boa parte dos seus simpatizantes, que é a tendência para explicar o mundo de uma forma caricatural e simplificada através de teorias de conspirações secretas a que só um pequeno grupo de iniciados consegue aceder.

Os mentores por detrás desses planos secretos variam conforme o ódio de estimação dos que apresentam essas teorias: ora são os judeus, ora são os islâmicos, por vezes é a maçonaria, noutros casos o Bilderberg ou a Comissão Trilateral, os Rothschild, uma cúpula secreta de banqueiros, etc. E a estes poderíamos acrescentar mais.

Estas simplificações da realidade são incorrectas. A situação social, económica e política no Ocidente não é o resultado de uma acção maquiavélica de um grupo, mas o natural resultado do jogo de equilíbrios, de alternâncias, de vontades, que muitos e diferentes grupos influentes levam a cabo para fazerem avançar os seus interesses. O estado político do Ocidente é fruto de um mundo multipolar e não de uma conspiração secreta de um grupo específico que tudo controla e manipula.

Não quer isto dizer que os lóbis que listámos acima não existam, que não conspirem, que não tenham muito poder, ou que não sejam parcialmente responsáveis pelo actual modelo civilizacional. Mas não são, certamente, capazes de definir o futuro do mundo à sua vontade como se não existissem inúmeras variáveis incontroláveis ou antagónicas aos seus desejos. É preciso inclusive perceber que, mesmo dentro desses grupos existem interesses e ideias divergentes. Por exemplo: existem muitas diferenças que afastam a maçonaria regular da maçonaria irregular e muitas lojas distintas dentro de cada uma delas…

O raciocínio simplificador que leva a escolher um determinado grupo como causa de todos os males é prejudicial de várias formas:

1 – Pode conduzir a uma má leitura dos problemas e, consequentemente, dos adversários; que são geralmente mais numerosos, menos poderosos e mais complexos;

2 – Pode descredibilizar aos olhos da sociedade o poder que efectivamente alguns daqueles lóbis possuem e que deve ser exposto e combatido, mas com seriedade.

3- Pode criar nalguns uma sensação de poder excessivo por parte de qualquer daqueles lóbis que paralise a acção de resistência, devido ao medo dos hipotéticos perigos e consequências, reforçando assim, inadvertidamente, o poder efectivo dos mesmos lóbis.

Passou na TV…

Não apanhei a entrevista de início nem sei qual era o contexto da pergunta, mas hoje, no TVI24, ouvi o Alberto João Jardim dar uma resposta de uma lucidez inexistente no deserto intelectual das televisões portuguesas. Não sei o que lhe passou pela cabeça e é bem verdade que é um homem capaz de dizer amanhã o contrário do que diz hoje ou de falar para simplesmente chocar. Mas, descontando tudo isso, permanece este facto: não se limitou a debitar as habituais banalidades “politicamente correctas”, teve um discurso corajoso, descomplexado e certeiro.

Disse que a Europa está em decadência civilizacional e explicou que todos os blocos políticos com uma identidade têm de ter fronteiras, têm de ter um exterior, uma zona de exclusão,uma barreira entre o “nós” e o “eles”. Afirmou que a U.E. cometeu um erro ao pretender ser um espaço de abertura global, sem se proteger, e criticou, a partir de uma perspectiva de direita e não do habitual psitacismo marxista, o capitalismo selvagem em vigor. Reiterou que o continente deveria ter um projecto político e não ser uma mera união económica ao serviço dos interesses capitalistas. Defendeu o proteccionismo, manifestando-se contra a abertura a Estados que concorrem através dos baixos custos de produção ou onde não existem movimentos sindicais ou direitos laborais.

Fica registada para a posteridade esta centelha de luz e originalidade no negrume entediante da opinião “politiqueira” nacional.

Kenny Powers: Jew York!

Afinal, era um vencedor

Há muitos anos atrás passei um período da minha vida a estudar livros e jogar partidas de xadrez. Costumava passar horas num clubezinho da vila a treinar. Por lá passavam regularmente mais uns quantos obcecados – todos nós a levar aquilo muito a sério e convencidos de que, num dia bom e com as peças brancas, poderíamos empatar com qualquer GM – e mais uns entusiastas, menos pretensiosos do que nós, que jogavam por puro prazer.

Um desses entusiastas era um tipo com quem todos, os que estávamos convencidos de sermos bons, detestávamos jogar. Por um lado porque ele era muito amador (lembro-me que, em dezenas de jogos, nunca me conseguiu bater, o que significava que nunca era um desafio que exigisse tanto de mim como eu queria), e depois ele tinha uma característica particularmente irritante: por mais irrecuperável que fosse a sua posição no tabuleiro ele nunca desistia, nunca fazia cair o próprio rei, mesmo se não tivesse mais que um peão a defrontar rainha e cavalo continuava sempre a jogar até sofrer efectivamente o xeque-mate. No xadrez este tipo de atitude era considerada falta de civismo desportivo. Fazia-nos perder tempo que poderia ser empregue numa outra partida, quiçá mais interessante. Mas ele não percebia isso e sucedia-me muitas vez ter de gastar meia hora ou mais até conseguir dar-lhe xeque-mate, com ele sempre a mover o rei para evitar durante o maior número de jogadas o fatídico momento.

Depois, quando sofria então o “mate”, levantava-se, e com um genuíno sorriso apertava-me a mão como se tivesse passado o melhor bocado de tempo, e dizia educadamente: “Parabéns, gostei muito, foste um justo vencedor mas viste o quanto aguentei? Estou a melhorar, hã?”…na realidade nunca melhorou grande coisa e continuou sempre a perder; mas também a obrigar-me a jogar sempre, sempre, até à última jogada possível. “Porque razão não fizeste cair o rei no vigésimo movimento? Tinhas o jogo perdido…é aborrecido forçares-me a fazer todos estes movimentos desnecessários quando a partida estava resolvida” – dizia-lhe. “Não, nunca devemos desistir, devemos lutar sempre até ao fim, se não querem dar xeque-mate mudem de jogo.”- Respondia-me invariavelmente.

Por causa disso tinha uma alcunha (que eu acho que ele desconhecia): o “empata”. Era assim que falávamos dele lá no clube.

Entretanto mudei de terra, de hábitos e interesses, mudaram os amigos, os livros passaram a ser outros, e a memória afastou da minha vida aqueles momentos e os rostos daquele clubezinho.

Os anos passaram e, há pouco tempo, um desgraçado infortúnio numa actividade desportiva mais radical fez-me ficar com um braço ao peito. Estava um dia de baixa em casa, com um tédio tremendo e sem nada que fazer quando tive de passar pela velha terra para resolver um assunto de família. Quando dei por mim estava a passar ao lado do velho prédio onde, no segundo andar, havia o clube de xadrez…Fiquei a olhar para aquela varanda, com a porta entreaberta, e invadiu-me um sentimento de melancolia (mais pelos anos passados e pelo afastar da adolescência do que pelos momentos em si, julgo)

Decidi subir as escadas, que continuavam a ranger muito, e abri a porta. Olhei em volta e não reconheci ninguém…estava lá um par de velhos a jogar damas, e um miúdo novo a jogar xadrez com o pai (pelo menos assumi que fosse). Olharam para mim por breves instantes e os olhos regressaram aos tabuleiros. Eu sentei-me numa mesa vaga que tinha as peças de xadrez já dispostas. Fiquei talvez 15 minutos ali sentado a olhar para as peças mas com a cabeça noutra época. De repente a porta abre-se e vejo entrar um gajo com uma muleta, a andar de forma algo desengonçada. Assim que me pôs a vista em cima grita entusiasmado o meu nome, como se de um velho conhecido se tratasse, enquanto se desloca na minha direcção sem que eu reconhecesse a personagem. “Não acredito, pá! Há tantos anos…nunca mais ninguém te viu.” Disse-me, e prosseguiu com aquele “bláblá” até que, por fim, lá reconheci o velho “empata” (não me recordava do nome dele, confesso, só da alcunha) …

O tipo senta-se na minha mesa e começamos a pôr a conversa de circunstância em dia, “o que tens feito”, “estás casado?”, “como vai a família?”, etc…até que me pergunta o que me aconteceu ao braço. Explico-lhe e retribuo a pergunta: “Então, e a perna, andas com muleta?”

Foi então que me disse que tinha tido um acidente e que ficara com aquele problema permanente na perna. Há coisa de uns três anos que anda com a muleta. Deve ter descortinado a minha expressão de pena e pesar porque logo de seguida disse-me com um tom descontraído e alegre: ” não faz mal, pá, já nem ligo, há coisas mais graves na vida e podia ter sido pior…olha, podia agora não estar cá para ver a minha filhota, queres ver?” E mostra-me na carteira a fotografia de uma bebé.

E eu que tinha passado as últimas semanas a queixar-me por ter de andar com o braço ao peito e ter de vir a fazer uma cirurgia para corrigir definitivamente o problema!

Aproxima-se a hora de jantar, digo-lhe o quanto gostei de o ver e que tenho de ir andando para apanhar o comboio. “Nem pensar, antes temos de jogar uma partidinha, em nome dos velhos tempos, sabes que continuo a vir cá de vez em quando, mas raramente vejo a velha malta, muitos saíram daqui e nunca mais disseram nada” (aquela também era para mim).

Ele esconde duas peças nas mãos, uma branca e uma preta, “Escolhe a mão”. Escolho a direita e tenho sorte, saem-me as brancas (é uma vantagem porque são as brancas que abrem e ganham um tempo). “Deixa, joga tu de brancas”. “Não, não”, responde-me, o que é justo é justo.

Abro com e4 e ele responde com C5, é uma defesa “siciliana”…à 13º jogada, com surpresa, noto que tenho uma posição bastante desvantajosa, tenho o centro do tabuleiro perdido e começo a ficar com sérios problemas de espaço, tenho, para além disso, um peão estupidamente isolado, e um bispo muito mal colocado, quase inutilizado. Lembro-me de, aí, ter pensado que se estivesse a jogar contra outro que não o velho “empata” teria o jogo praticamente perdido…à 20ª jogada tenho de facto a partida perdida e à 25º desisto e faço cair o meu rei. “Porra, não acredito que perdi com este gajo”, foi a primeira coisa que me veio à mente.

Levanto-me e estendo-lhe a mão, e ele fica por momentos a olhar para mim e a abanar a cabeça em sinal de reprovação “Por que desististe?”, “O jogo estava perdido, não havia mais nada a fazer”, respondo-lhe. “Nunca devemos desistir, mesmo se a derrota é inevitável, é preciso lutar sempre até à última”. Foi a única vez em que não se mostrou sorridente e entusiasmado por ter jogado comigo. Nem acreditei naquilo, depois de ter perdido dezenas de jogos contra mim ao longo do tempo foi o único jogo que ganhou que não apreciou. “Bom tenho de ir, vê lá se apareces de vez em quando, pá”, recobrou o sorriso voltou-me costas e lá saiu a arrastar a perna, em esforço com a muleta, em direcção à porta.

Fiquei ali parado alguns segundos, até perceber que o Manuel (é esse o nome do “empata”) tinha uma filosofia que aplicava a tudo na vida, fossem quais fossem as circunstâncias ou as situações, ele nunca, mas nunca, desistia, nem aceitava que outros o fizessem.