Month: Outubro, 2011

Descubra as diferenças

A lição de Engels

Na sua introdução ao texto “Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico”, Friedrich Engels, co-autor juntamente com Marx, embora algo ignorado, do manifesto comunista, faz uma breve, mas muito bem conseguida resenha histórica das condições que levaram à antecâmara da ascensão comunista. Diz ele que essas condições começaram a surgir com o advento das teorias materialistas em Inglaterra que, depois, adquiriram contornos próprios no continente. Enquanto na Inglaterra a burguesia soube partilhar com a velha aristocracia o poder servindo-se da moralidade veiculada pelo cristianismo para manter controlado o proletariado, no continente a destruição, muito mais profunda, das amarras religiosas, libertou os desejos mais revolucionários das classes populares e, quando a burguesia quis servir-se da religião para proteger os seus interesses, já não foi a tempo.

E é na conclusão dessa resenha histórica que Engels expõe, com sumária clareza, uma ideia que deveria ser uma lição para uma certa direita. Uma ideia que apenas os fascismos souberam entender e interpretar, uma ideia que explica a hegemonia do pensamento social de esquerda no Ocidente que saiu do pós segunda guerra mundial.

Diz ele (Pag.38, Editorial Estampa, 1974):

«A burguesia francesa negava-se a comer carne à sexta-feira e a alemã suportava religiosamente ao domingo intermináveis homilias protestantes. Chegavam com o seu materialismo a uma situação deveras embaraçosa. Die religion muss dem Volk erhalten werden – é preciso conservar-se a religião para o povo – é o único recurso que pode salvar a sociedade da ruína total. Para desgraça deles só compreenderam isso após terem feito o máximo para destruírem definitivamente a religião. E, agora, chegava a vez do burguês britânico rir-se deles e gritar-lhes:”Ah, imbecis, há dois séculos que vos poderia ter dito isso!”. Entretanto, receio muito que nem a estupidez religiosa da burguesia britânica, nem a conversão post festum do burguês continental conseguirão opor um dique à maré crescente do proletariado» E porquê? A explicação surge, cortante, logo a seguir: «A Tradição é uma grande força freadora, é a vis inertiae da História, mas como é uma força meramente passiva, necessariamente sucumbirá.»

E de facto sucumbiu! A direita do pós guerra agarrou-se à Igreja, por vezes ao Trono, à moral e bons costumes, e com isso não conseguiu mais do que ser uma força “freadora”, mas passiva. Foi conseguindo “frear” ou adiar algumas mudanças, mas, pouco a pouco, as forças activas da esquerda foram conseguindo fracturar e penetrar cada vez mais esse muro até ao ponto em que hoje nos encontramos, com uma “direita” que cumpriu os presságios de Engels e Marx e já não é nada mais do que um magote vergonhoso de defesa do capitalismo e de interesses individuais.

Essa “direita” tem de morrer, juntamente com os efeitos nocivos do marxismo, para que a Europa se possa reerguer, a alternativa não pode ser conservadora ou liberal, mas sim radical, dura e indiferente à moral moderna, capaz de despertar consciências e de não pedir desculpas, politicamente incorrecta e com uma estética arrojada… revolucionária e populista, se quisermos.

Doutrina para a ressureição anti-burguesa

«Na zona situada entre a cultura e os costumes, é necessário precisar posteriormente uma certa posição. Foi lançada pelo comunismo a palavra de ordem do antiburguesismo, acolhida também no campo da cultura por certos ambientes intelectuais de “vanguarda”. Há aqui um equívoco. Como a burguesia social é qualquer coisa de intermédio, há uma dupla possibilidade de superar a burguesia, de dizer não ao tipo burguês, à civilização burguesa, ao espírito e aos valores burgueses. Uma, corresponde à direcção que conduz ainda mais abaixo de tudo isso, à sub-humanidade colectivizada e materializada com o seu “realismo” marxista: valores sociais e proletários contra a “decadência burguesa” e “imperialista”. Outra é a direcção de quem combate a burguesia e se ergue, efectivamente, acima da mesma. Os homens deste novo posicionamento serão, sim, antiburgueses, mas em função da já referida concepção superior, heróica e aristocrática da existência; serão antiburgueses porque desdenham a vida cómoda, antiburgueses porque seguirão, não os que prometem vantagens materiais mas os que exigem tudo de si mesmos; antiburgueses, finalmente, porque não têm a preocupação da segurança, amam a união essencial entre a vida e o risco em todos os planos, tornando próprias a inexorabilidade da ideia pura e da acção estrita. Outro aspecto pelo qual o homem novo, substância celular do movimento de ressurreição, será antiburguês e se diferenciará das gerações precedentes, é a sua impaciência perante toda a forma retórica e todo o falso idealismo; por todas aquelas grandes palavras escritas com letra maiúscula, por tudo o que é apenas gesto, frase teatral, cenografia. Ao invés, urge essencialidade, novo realismo no enfrentar exactamente os problemas que se impõem, fazer valer não a mera exterioridade, mas antes o ser, não o falar, mas primordialmente realizar de modo silencioso e exacto, em sintonia com as forças afins e aderindo ao imperativo vindo de cima.

Quem, contra as forças da esquerda, só sabe reagir em nome dos ídolos, do estilo de vida, da moralidade medíocre e conformista do mundo burguês, perdeu antecipadamente a batalha. Não é o caso do homem da nossa revolução, que está em pé depois de ter passado pelo fogo purificador das destruições externas e internas. Esse homem, do mesmo modo que politicamente não é o instrumento de uma pseudo-reacção burguesa, também de modo geral retoma forças e ideais anteriores e superiores ao mundo burguês e à era económica, e é com tais forças que cria as linhas de defesa e consolida as posições donde, no momento oportuno, surgirá fulgurante a acção reconstrutora.

Igualmente a tal respeito, julgamos necessário retomar uma palavra de ordem não cumprida: como se sabe, houve no período fascista uma tendência antiburguesa que quis manifestar-se de modo efectivo. No entanto, também aqui a substância humana não esteve à altura da tarefa proposta. E assim, da anti-retórica soube fazer-se retórica.»

Julius Evola, Directrizes em Para a Compreensão do Fascismo, Ed. Nova Arrancada, Pgs.166-167