A lição de Engels

by RNPD

Na sua introdução ao texto “Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico”, Friedrich Engels, co-autor juntamente com Marx, embora algo ignorado, do manifesto comunista, faz uma breve, mas muito bem conseguida resenha histórica das condições que levaram à antecâmara da ascensão comunista. Diz ele que essas condições começaram a surgir com o advento das teorias materialistas em Inglaterra que, depois, adquiriram contornos próprios no continente. Enquanto na Inglaterra a burguesia soube partilhar com a velha aristocracia o poder servindo-se da moralidade veiculada pelo cristianismo para manter controlado o proletariado, no continente a destruição, muito mais profunda, das amarras religiosas, libertou os desejos mais revolucionários das classes populares e, quando a burguesia quis servir-se da religião para proteger os seus interesses, já não foi a tempo.

E é na conclusão dessa resenha histórica que Engels expõe, com sumária clareza, uma ideia que deveria ser uma lição para uma certa direita. Uma ideia que apenas os fascismos souberam entender e interpretar, uma ideia que explica a hegemonia do pensamento social de esquerda no Ocidente que saiu do pós segunda guerra mundial.

Diz ele (Pag.38, Editorial Estampa, 1974):

«A burguesia francesa negava-se a comer carne à sexta-feira e a alemã suportava religiosamente ao domingo intermináveis homilias protestantes. Chegavam com o seu materialismo a uma situação deveras embaraçosa. Die religion muss dem Volk erhalten werden – é preciso conservar-se a religião para o povo – é o único recurso que pode salvar a sociedade da ruína total. Para desgraça deles só compreenderam isso após terem feito o máximo para destruírem definitivamente a religião. E, agora, chegava a vez do burguês britânico rir-se deles e gritar-lhes:”Ah, imbecis, há dois séculos que vos poderia ter dito isso!”. Entretanto, receio muito que nem a estupidez religiosa da burguesia britânica, nem a conversão post festum do burguês continental conseguirão opor um dique à maré crescente do proletariado» E porquê? A explicação surge, cortante, logo a seguir: «A Tradição é uma grande força freadora, é a vis inertiae da História, mas como é uma força meramente passiva, necessariamente sucumbirá.»

E de facto sucumbiu! A direita do pós guerra agarrou-se à Igreja, por vezes ao Trono, à moral e bons costumes, e com isso não conseguiu mais do que ser uma força “freadora”, mas passiva. Foi conseguindo “frear” ou adiar algumas mudanças, mas, pouco a pouco, as forças activas da esquerda foram conseguindo fracturar e penetrar cada vez mais esse muro até ao ponto em que hoje nos encontramos, com uma “direita” que cumpriu os presságios de Engels e Marx e já não é nada mais do que um magote vergonhoso de defesa do capitalismo e de interesses individuais.

Essa “direita” tem de morrer, juntamente com os efeitos nocivos do marxismo, para que a Europa se possa reerguer, a alternativa não pode ser conservadora ou liberal, mas sim radical, dura e indiferente à moral moderna, capaz de despertar consciências e de não pedir desculpas, politicamente incorrecta e com uma estética arrojada… revolucionária e populista, se quisermos.