Junknet

by RNPD

O facebook é a coisa mais estúpida que apareceu na internet. Bom, pelo menos é a coisa mais estúpida que apareceu na internet e que é usada por algumas pessoas que não serão estúpidas. Registei-me naquilo, sob pseudónimo, há uns anos, porque na altura me convenceram que seria um óptimo sítio para se estabelecerem estratégias políticas e debater temas de interesse com gente nova, mas rapidamente me apercebi que o nível do que lá se escrevia e pensava deixava muito a desejar, para não dizer que é totalmente abjecto. Ainda acalentei a esperança de usar aquilo como um fórum tradicional, mas ao fim de muitos anos não escrevi no facebook mais de uma vintena de banalidades, a maioria sobre futebol, e sempre em postais de terceiros…julgo que apenas escrevi um “post” e confesso que nem sei utilizar boa parte das funcionalidades (nem quero saber…). Nestes anos todos nunca fiz um pedido de amizade (pelo menos que me lembre), e contudo tenho centenas de pessoas na minha lista de amigos, 99% delas que não conheço nem pretendo fazer por conhecer. O endereço de e-mail que usei no registo rebentou com tantas notificações e convites que nunca quis receber, nunca irei ler e me aborrecem solenemente. Confesso que neste momento uso aquilo para dar vazão a uma certa curiosidade sórdida, calculo que a mesma que leva algumas pessoas a verem reality shows. Olho com envergonhada (ou vergonhosa) sobranceria e altivez para aquela gente, a partilhar com o mundo os seus “gostos” banais e as suas preferências labregas, convencida da sua própria importância. Por que razão alguém anuncia num mural do facebook os seus gostos ou preferências? Ou expressa pensamentos íntimos a uma namorada que são lidos por todos os que estão na sua lista de conhecimentos? Porque essa gente é o patético produto acabado da sociedade do ruído, onde todos têm de ter voz e palco, mesmo que nada tenham para dizer, do pequeno narcisismo, dos pequenos púlpitos.

Os “likes”, aqueles cartazes a dizerem que “esta pessoas gosta disto…”, ou “não gosta daquilo”, a procura de protagonismo e exposição, as listas de amigos, as fotos de actividades pessoais partilhadas com estranhos (vejam-me, estive aqui, fiz isto…), a forma como alguns apresentam em poucas linhas as soluções mais estapafúrdias para temas complexos da actualidade, coloca o facebook ao nível de um bar onde os broncos, por vezes embriagados, apresentam, entre tremoços e amendoins, as suas conclusões brilhantes para a reforma da segurança social ou para pôr o país na linha, com os amigos a discordarem ou a concordarem (o “like”, percebem?)…tal como num desses bares até temos as gajas que por lá se passeiam, não com uma mini-saia, mas com uma série de fotos sugestivas no perfil. De facto, o facebook está para a internet como os reality shows estão para a televisão ou a fast-food para a gastronomia, ou a cultura de rua “made in USA”, com os seus teenagers, rappers e vedetas postiças de cinema, está para o verdadeiro conceito de “Cultura”: é o espaço do reconhecimento fugaz e efémero, onde nada dura ou perdura; escreve-se algo agora e daí a 5 segundos já 10 tipos partilharam mais 20 confidências de merda que relegaram para o fim da página o que o primeiro idiota tinha escrito há 5 segundos atrás. É uma plataforma de rebaixamento de gostos, comportamentos e é um veículo para dar visibilidade aos imbecis e aos medíocres, que, rodeados dos mesmos espécimes, por mais patéticas que sejam as suas ideias ou façanhas, arranjam sempre uma audiência.

Não me surpreende que o Presidente desta república use o facebook para comunicar as suas “opiniões” e “gostos” ou que o mesmo seja feito por outros com responsabilidades políticas…a falência deste país não é uma casualidade independente do rebaixamento intelectual dos seus lideres, e a regressão civilizacional do Ocidente não é uma invenção dos reaccionários.