Entrevista a Gustavo Zerbino

by RNPD

Aproveitando a deslocação da selecção nacional de rugby do Uruguai o jornal “A Bola” entrevistou o presidente da federação daquele país, Gustavo Zerbino, um dos sobreviventes do tragicamente célebre desastre aéreo dos Andes, que obrigou, inclusive, os sobreviventes a alimentarem-se do cadáver dos companheiros mortos para poderem sobreviver. Uma entrevista deveras interessante, e sem os clichés habituais, talvez porque nada na vida daquele homem tenha sido vulgar, e da qual destacamos estes excertos:

«Hoje, com a crise económica, acha que as pessoas choram demais?

– A crise não é económica. É mentira. Há crise de valores e princípios. A sociedade de consumo busca a gratificação instantânea e consome coisas, inventa coisas de que não precisa, coisas que as pessoas não só não têm tempo para viver como não têm dinheiro para pagar. É angustiante. A felicidade não é um destino, não é ter as coisas, a felicidade é a viagem. Primeiro é preciso ser, depois fazer, e depois, sim, virá um resultado feliz. Na sociedade em que vivemos, vivemos em mentiras. Pensamos demais em sortes e azares.

Não crê no acaso, na sorte?

– Não. É tudo trabalho a 99% e sorte no 1% que falta. Quanto mais trabalhas, mais sorte tens. Se cais, levanta-te. Na sociedade actual, o hábito é cair e ficar quieto, à espera que se resolva, que alguém resolva, que alguém ajude. Em Montevideu, em Lisboa, em Madrid, o desporto nacional é a queixa. Vivemos a chorar pelo chefe, pelo vizinho, pelo que seja, é um auto-boicote.

Com certeza que alguém se queixou na cordilheira dos Andes durante o acidente. Não?

– Sim, mas quem se queixava era ignorado, porque era um terrorista das acções em marcha, perturbava o esforço dos outros. A gente que se queixa é porque ainda está bem. A gente que está realmente a sofrer aperta os punhos, ferra os dentes e age. Temos de transformar os problemas em oportunidades, mas para isso temos de lutar contra a mente que te diz que és feio, não prestas, não te ajudam, és um burro…Desculpas!»