Month: Novembro, 2011

Quem se esconde por detrás da “ajuda”?

Mario Draghi é o novo patrão do Banco Central Europeu (BCE). Loukas Papadimos acaba de ser designado primeiro-ministro grego. Mario Monti foi indigitado primeiro-ministro italiano. São três financeiros formados nos Estados Unidos, dois deles antigos responsáveis do tenebroso Goldman Sachs. Um deles é membro da Comissão Trilateral e do grupo Bilderberg. (Retirado do editorial do site Polémia: “Draghi, Papadimos, Monti : le putsch de Goldman Sachs sur l’Europe”)

Por que razão as doutrinas e os responsáveis pela enfermidade económica que atinge o ocidente estão a ser nomeados para os lugares de chefia dos países que precisam de ser resgatados? A resposta é simples: é preciso salvar o sistema. Desde o momento em que esta crise financeira começou a despontar que ouvimos falar da necessidade de reformas do sistema financeiro mundial, para o sanear. Até ao momento nem uma que interessasse foi feita. As únicas “reformas” que estão a ser conduzidas são no sentido de transferir ainda mais poder dos Estados para os mercados. A continuar assim, no final de tudo isto o povo acabará simplesmente empobrecido, e convencido de que o seu empobrecimento é necessário para ultrapassar a “crise”, e uma pequena elite, a superclasse global, formada pelos banqueiros e as grandes multinacionais acabará ainda mais rica – com a ajuda dos políticos dos grandes partidos democráticos, autênticos serviçais que em troca de favores e fortuna protegem, nos governos, os interesses da superclasse global. A narrativa que está a ser montada, servida pelos melhores argumentistas deste género de filmes, explicará que essa era a única alternativa e que o povo, cada vez mais miserável, se deverá sentir agradecido e orgulhoso dos sacrifícios que o salvaram (sabe-se lá de quê…).

Inside Job

Acabei de ver o documentário “Inside Job” de Charles Ferguson, sobre a crise financeira iniciada nos EUA pelas escandalosas actividades especulativas de alguns dos maiores bancos mundiais e que resultou no resgate financeiro, por parte do Estado (portanto dos contribuintes…) de algumas dessas instituições. No final de tudo aquilo, os quadros dirigentes daqueles Bancos e as próprias instituições financeiras onde se fizeram todo o tipo de práticas desonestas ainda conseguiram enriquecer mais e reforçar o seu poder.

O documentário é absolutamente imperdível mostrando com clareza a promiscuidade existente entre os Bancos e os tais governos democráticos. É impressionante a lista de antigos e actuais quadros superiores e administradores dos maiores Bancos que são nomeados para os principais cargos de política económica, nacional e internacional. Que interesses servem eles? Os dos Bancos que lhes pagam ou os do cidadão comum?

Mas se todo o documentário é brilhante há um capítulo que considero fulcral. Para além do lobbying que as instituições financeiras fazem directamente sobre os governos, há um outro tipo de relação que é exposta e que me parece até mais importante. Falo da relação entre as instituições financeiras e alguns dos principais académicos de Economia. Ficamos ali a saber que vários professores de Harvard, da London Business School (o reputadíssimo Richard Portes), da Universidade de Columbia e de tantas outras reputadas faculdades de Economia foram pagos, por instituições financeiras e comerciais, para escreverem relatórios e análises “académicas” em defesa da desregulação dos mercados e dos produtos financeiros.

Essa gente usa as universidades para difundir ideias e doutrinas que beneficiam os grandes interesses financeiros, formatando a mente dos alunos, falando nas televisões disfarçados com a respeitabilidade e suposta isenção que a população, ingenuamente, atribui aos títulos académicos dos Srs. Professores, e são conselheiros do poder político em matéria de políticas económicas.

Muito do que hoje é dominante em matéria de pensamento económico não tem qualquer comprovação na realidade, é resultado de modelos simplistas e dogmáticos, e muitos trabalhos de suposta investigação académica são manietados pelos “especialistas” de acordo com o que pretendem demonstrar no final.

A dada altura o realizador entrevista o presidente do Departamento de Economia de Harvard, John Campbell, e pergunta-lhe se ele não vê qualquer inconveniente em ter professores cujo rendimento advém, em grande parte, de trabalhos para, ou pagos por, instituições financeiras e empresariais, ao que Campbell responde: “não”…então o realizador faz-lhe a seguinte comparação, sob a forma de pergunta: “Um médico escreve um artigo a dizer que para tratar uma determinada doença deve receitar-se uma determinada droga, mas descobre-se que 80% dos rendimentos desse médico advêm do laboratório que fabrica a tal droga…isso não o incomoda?”…a reacção de Cambpell é impagável, começa a gaguejar sem saber o que dizer, porque a comparação é exacta e mortífera: temos vários académicos de Economia a defenderem em salas de aulas ou em trabalhos de investigação determinado tipo de politicas económicas que são as que interessam às grandes instituições financeiras para as quais também trabalham e de onde provem larga parte do seu rendimento.

Dos bancos mais influente o caso mais conhecido será talvez o Goldman Sachs. Veja-se uma pequena lista dos nomes que passaram pelo Banco e que exercem ou exerceram cargos de influencia política:

Hank Paulson, antigo secretário de Estado do Tesouro dos EUA
Saiu da liderança do Goldman Sachs para ser secretário de Estado do Tesouro durante a administração Bush. Paulson delineou o programa de ajuda à banca durante a crise financeira de 2008, que também resgatou o Goldman.

Mario Draghi, futuro presidente do BCE
O futuro presidente do BCE, Mario Draghi, foi director-geral da Goldman Sachs International entre 2002 e 2005. A ligação levou-o a enfrentar perguntas dos eurodeputados sobre se esteve envolvido na ocultação do défice grego.

Mark Carney, governador do Banco Central do Canadá
O actual governador do banco central do Canadá passou 30 anos no Goldman.Foi responsável pelas áreas relacionadas com risco soberana e foi o homem com a tarefa de delinear a estratégia do banco durante a crise russa de 1998.

Romano Prodi, antigo presidente da comissão europeia
O antigo presidente da Comissão e ex-primeiro-ministro italiano esteve no Goldman nos anos 90. A ligação valeu-lhe críticas da Oposição quando rebentou um escândalo a envolver o Goldman e uma empresa italiana.

Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial
O actual presidente do Banco Mundial foi director-geral do Goldman.Antes de se juntar ao banco tinha trabalhado no Departamento do Tesouro norte-americano. Lidera o Banco Mundial desde Julho de 2007.

Robert Rubin, antigo Secretário de Estado do Tesouro dos EUA
Robert Rubin teve cargos de topo na administração do Goldman. Após 26 anos no banco foi escolhido por Bill Clinton como secretário de Estado do Tesouro. Após passar pelo Governo, trabalhou no Citigroup.

Ducan Niederauer, presidente da NYSE Euronext
O presidente da NYSE Euronext, Duncan Niederauer, que detém as bolsas de Nova Iorque e de Paris, Bruxelas, Amesterdão e Lisboa, foi responsável do Goldman pela área da execução de ordens dadas sobre títulos financeiros.

Mark Patterson, Chefe de Staff do Tesouro dos EUA
Mark Patterson é o chefe de gabinete do actual secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner. Antes de se juntar ao governo estava registado como lóbista, intercedendo para defender os interesses do Goldman.

António Borges, director do Departamento Europeu do FMI
O economista foi vice-presidente e director-geral do Goldman entre 2000 e 2008. Após sair do banco foi da associação que delineia a regulação dos ‘hedge funds’. Em Outubro de 2010, foi nomeado director do FMI para a Europa.

Carlos Moedas, Secretário de Estado adjunto do Primeiro Ministro
Após acabar o MBA em Harvard, no ano 2000, o actual responsável pelo acompanhamento do programa da ‘troika’ foi trabalhar para a divisão europeia de fusões e aquisições do Goldman Sachs. Saiu do banco em 2004.

William C. Dudley, presidente da Fed de Nova Iorque
O actual presidente da Fed de Nova Iorque é a segunda figura mais importante na condução da política monetária dos EUA. Foi durante mais de uma década economista-chefe do Goldman e director-geral.

E isto são apenas os nomes ligados ao Goldman Sachs, agora imagine-se à escala global…

Aliás, basta olhar muito sucintamente para Portugal, Miguel Frasquilho, por exemplo, é um dos principais pensadores da política económica do PSD, que actualmente é governo, foi professor universitário de Economia e é deputado no parlamento, ao mesmo tempo que lidera o Departamento de Research do Banco Espírito Santo. António Nogueira Leite, professor universitário de Economia da Universidade Nova e membro do Conselho Nacional do PSD, exerce vários cargos de administração em diversos grandes grupos económicos nacionais e é vice-presidente do BANIF Investment Bank. Alguém acha que Frasquilho defenderá dentro do PSD ou no parlamento ideias que possam chocar com os interesses do BES? Ou que Nogueira Leite apresente aos seus alunos ideias que sejam contrárias às políticas económicas do Banco de que é vice-presidente ou dos grandes grupos de que é administrador? E quantas vezes vimos estes dois indivíduos serem convidados para aqueles grandes debates televisivos, que se pretendem muito sérios, ao estilo “Prós e Contras”, onde as grandes mentes desta nação explicam ao povo humilde, ávido de conhecimento, os problemas e soluções para o país?

Junknet

O facebook é a coisa mais estúpida que apareceu na internet. Bom, pelo menos é a coisa mais estúpida que apareceu na internet e que é usada por algumas pessoas que não serão estúpidas. Registei-me naquilo, sob pseudónimo, há uns anos, porque na altura me convenceram que seria um óptimo sítio para se estabelecerem estratégias políticas e debater temas de interesse com gente nova, mas rapidamente me apercebi que o nível do que lá se escrevia e pensava deixava muito a desejar, para não dizer que é totalmente abjecto. Ainda acalentei a esperança de usar aquilo como um fórum tradicional, mas ao fim de muitos anos não escrevi no facebook mais de uma vintena de banalidades, a maioria sobre futebol, e sempre em postais de terceiros…julgo que apenas escrevi um “post” e confesso que nem sei utilizar boa parte das funcionalidades (nem quero saber…). Nestes anos todos nunca fiz um pedido de amizade (pelo menos que me lembre), e contudo tenho centenas de pessoas na minha lista de amigos, 99% delas que não conheço nem pretendo fazer por conhecer. O endereço de e-mail que usei no registo rebentou com tantas notificações e convites que nunca quis receber, nunca irei ler e me aborrecem solenemente. Confesso que neste momento uso aquilo para dar vazão a uma certa curiosidade sórdida, calculo que a mesma que leva algumas pessoas a verem reality shows. Olho com envergonhada (ou vergonhosa) sobranceria e altivez para aquela gente, a partilhar com o mundo os seus “gostos” banais e as suas preferências labregas, convencida da sua própria importância. Por que razão alguém anuncia num mural do facebook os seus gostos ou preferências? Ou expressa pensamentos íntimos a uma namorada que são lidos por todos os que estão na sua lista de conhecimentos? Porque essa gente é o patético produto acabado da sociedade do ruído, onde todos têm de ter voz e palco, mesmo que nada tenham para dizer, do pequeno narcisismo, dos pequenos púlpitos.

Os “likes”, aqueles cartazes a dizerem que “esta pessoas gosta disto…”, ou “não gosta daquilo”, a procura de protagonismo e exposição, as listas de amigos, as fotos de actividades pessoais partilhadas com estranhos (vejam-me, estive aqui, fiz isto…), a forma como alguns apresentam em poucas linhas as soluções mais estapafúrdias para temas complexos da actualidade, coloca o facebook ao nível de um bar onde os broncos, por vezes embriagados, apresentam, entre tremoços e amendoins, as suas conclusões brilhantes para a reforma da segurança social ou para pôr o país na linha, com os amigos a discordarem ou a concordarem (o “like”, percebem?)…tal como num desses bares até temos as gajas que por lá se passeiam, não com uma mini-saia, mas com uma série de fotos sugestivas no perfil. De facto, o facebook está para a internet como os reality shows estão para a televisão ou a fast-food para a gastronomia, ou a cultura de rua “made in USA”, com os seus teenagers, rappers e vedetas postiças de cinema, está para o verdadeiro conceito de “Cultura”: é o espaço do reconhecimento fugaz e efémero, onde nada dura ou perdura; escreve-se algo agora e daí a 5 segundos já 10 tipos partilharam mais 20 confidências de merda que relegaram para o fim da página o que o primeiro idiota tinha escrito há 5 segundos atrás. É uma plataforma de rebaixamento de gostos, comportamentos e é um veículo para dar visibilidade aos imbecis e aos medíocres, que, rodeados dos mesmos espécimes, por mais patéticas que sejam as suas ideias ou façanhas, arranjam sempre uma audiência.

Não me surpreende que o Presidente desta república use o facebook para comunicar as suas “opiniões” e “gostos” ou que o mesmo seja feito por outros com responsabilidades políticas…a falência deste país não é uma casualidade independente do rebaixamento intelectual dos seus lideres, e a regressão civilizacional do Ocidente não é uma invenção dos reaccionários.

Deus no coração e uma arma na mão

A ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) é uma força policial do Estado de São Paulo, no Brasil, conhecida pela sua intervenção em situações de alto risco e muito criticada, pela “Intelligentsia” progressista local, pela sua elevada taxa de mortes. É vulgarmente referido que no seio daquela força especial vinga a ideia de que um criminoso bom é um criminoso morto, e o actual comandante, Paulo Telhada, tem por lema “Deus no coração e uma arma na mão”. Como se não bastasse, são conhecidos por boinas negras! Brilhante.