Análise filosófico-política ao Real Madrid – Barcelona

by RNPD

Os jogos entre o Barcelona e o Real Madrid, para além de serem grandes espectáculos futebolísticos, extravasam essa dimensão meramente desportiva. O que se joga é um confronto entre duas concepções totalmente diferentes do mundo, entre éticas e estéticas diametralmente opostas. E mais uma vez, para nosso deleite, o Barcelona saiu vencedor, dentro e fora do jogo.

Antes de chegarmos a esse embate de mundivisões, mas igualmente interessante, é o confronto entre certas individualidades que representam um e outro lado, no caso concreto, a comparação entre Mourinho e Guardiola e Ronaldo e Messi.

Comecemos pelos treinadores…mais uma vez Guardiola não só saiu vencedor dentro de campo como fora dele. Aquilo que em Portugal nos habituaram a celebrar como “grandes jogadas psicológicas de Mourinho”, o “maior do mundo”, não passam frequentemente de provocações sujas, achincalhamento dos adversários, fruto de má formação, que aliás sobressai em todos os momentos importantes da carreira do indivíduo. Nas vésperas do jogo, enquanto Guardiola compareceu na conferência de imprensa para falar das equipas, Mourinho, esse génio dos “jogos mentais”, mandou um dos adjuntos falar aos jornalistas, como que dizendo que ele era demasiado importante para ir ali perder o seu tempo, e, ao mesmo tempo, procurando desvalorizar o jogo e o adversário. Se fora de campo deu uma lição de arrogância, dentro de campo foi o que se viu, levou uma lição de futebol. Infelizmente, e como era esperado, Mourinho, no final, não teve a hombridade e a humildade de reconhecer a superioridade do adversário ou do treinador rival, não! Segundo o “mestre dos jogos mentais” o Barcelona teve sorte! Pasme-se, o Real Madrid fez um golo nos primeiros segundos, num lance totalmente fortuito e que resultou de um azar do guarda-redes do Barcelona, que falhou um pontapé, e basicamente, desde aí, nunca mais tocou na bola… levou três golos como podia ter levado 5… e o outro é que teve sorte. Como não podia deixar de ser, e apesar da sua equipa ter dado porrada em tudo o que mexia ainda teve o desplante de vir dizer que o Messi deveria ter sido expulso. Nem sequer teve a capacidade de não falar numa arbitragem que não o prejudicou de forma alguma. Enfim, a habitual falta de classe a contrastar com a classe habitual de Pepe Guardiola.

E Ronaldo? Foi totalmente anulado pela equipa do Barcelona. A tal ponto que começou a ouvir assobios dos próprios adeptos do Madrid, no único estádio do mundo onde não era apupado. Do outro lado, Messi, esse sim o melhor jogador do mundo, deu novamente um show, foi decisivo e desequilibrou (juntamente com outros companheiros seus) a partida. Ronaldo é um bom jogador mas um insuportável fenómeno mediático, Messi é um jogador brilhante e um inacreditável fenómeno futebolístico. Não há comparação possível.

Mas deixemos então esses pequenos detalhes e cinjamo-nos ao que interessa: a dimensão colectiva daquela batalha encerra um confronto de ideias e de filosofias que vão muito para lá de um mero jogo de futebol.

Uma concepção enraizada e identitária contra uma concepção mercantilista e cosmopolita

O Barcelona é um clube que representa uma ética enraizada e identitária enquanto o Madrid representa uma concepção mercantilista e cosmopolita. A maior parte dos jogadores do Barcelona são formados nas escolas do clube e desde pequenos identificados com a cultura do Barça. São muito bem pagos, ou não fossem os melhores do mundo, mas sentem a cultura do Barça porque aquela é desde sempre a sua comunidade. O Madrid, pelo contrário, gasta fortunas a comprar os melhores jogadores que encontra em todas as partes do mundo, jogadores que não têm qualquer ligação ao clube mas sim aos salários astronómicos que os atraem para ali. O Madrid funciona como qualquer outra multinacional em qualquer outro negócio.

Note-se por exemplo que o Barcelona não teve publicidade paga nas suas camisolas durante 111 anos, e só em 2011 quebrou, para nosso desgosto, esse princípio. Ainda que preferíssemos que o Barça se tivesse mantido fiel a essa lógica não comercial, a verdade é que a mercantilização crescente do futebol e a necessidade do clube competir com equipas que recebiam valores astronómicas de publicidade acabou por levar a essa ruptura com a sua tradição. Mesmo assim, o patrocinador que foi aceite para as camisolas foi uma ONG, e, sendo uma boa proposta comercial, certamente não seria a melhor oferta em cima da mesa.

Servir o colectivo ou servir-se do colectivo

A outra diferença de monta na filosofia que os dois clubes representam, diz respeito à forma como as individualidades se relacionam com o colectivo.

O Barcelona poderá até ter o melhor jogador do mundo (Messi) e talvez aqueles que mais perto estarão dele (com destaque para Xavi e Iniesta), mas são os jogadores do Real Madrid que parecem ter mais “nome”. Isto resulta das diferenças de identidade entre as duas equipas. Enquanto que no Madrid, o colectivo conta com as suas vedetas para resolverem os jogos naqueles desequilíbrios e rasgos individuais que só os predestinados conseguem fazer, no Barça são as individualidades que contam com o colectivo para ganhar os jogos. Os grandes jogadores do Barca, jogam para o colectivo, sacrificam-se pela equipa, são menos individualistas e menos egoístas, jogam mais em conjunto, é a força do colectivo que sobressai. No Real é o contrário, há mais individualismo, todos aspiram a ser a vedeta da noite, o colectivo está ali para fazê-los sobressair a elas, as grandes individualidades. No Barça, os melhores servem o colectivo e é o colectivo que mais ganha, no Real, os melhores servem-se do colectivo e é o seu vedetismo que mais ganha.

A Fidelidade a princípios contra a lógica dos meios que justificam os fins

O que também se observou ontem, uma vez mais, é que o Barça é um clube fiel a princípios, mesmo se esses princípios parecem vencidos. O Barça nunca renega o seu estilo. Isto é patente no facto do Barcelona jogar sempre, em todos os campos e sejam quais forem as circunstâncias, com os mesmos princípios e valores, aqueles em que acredita e que defende. O Barcelona não mudou a sua estratégia por ir jogar ao estádio mais difícil do planeta, e não mudou a sua forma de actuar quando, com poucos segundos de jogo e nesse mesmo estádio adverso, se encontrou a perder. No Barça não se trata apenas de ganhar, mas sim de ganhar a jogar de uma determinada maneira, ou então de sair derrotado mas a jogar assim!

O Real, pelo contrário, adapta a sua estratégia e os seus princípios às circunstâncias. Jogam da forma que acham que lhes permitirá vencer, seja ela qual for e implique o que implicar, mesmo a negação dos seus princípios de jogo mais habituais. No Real os fins justificam os meios, o que interessa é ganhar, seja a jogar como for. O Madrid adapta o seu jogo ao adversário e às situações. Foi o que tentou fazer ontem, alterando, uma vez mais, o seu desenho táctico e a sua estratégia.

No final, o Barcelona poderá até perder o campeonato, mas uma coisa é certa, permanecerá fiel aos seus princípios, mesmo se derrotados. A honra do Barcelona chama-se fidelidade.