Categoria: Arte

A arte(?) ideológica contemporânea

A arte tradicional, na maior parte dos países, representa geralmente os quatro temas que constituem, segundo Heidegger, o “mundo” dos homens.

A divindade, os homens, a natureza, o ideal

Quando a arte representa a divindade: é o caso da arte grega clássica que tanto marcou a nossa. É o caso da arte da Idade Média, principalmente religiosa. A arte religiosa constitui a maioria das obras-primas apresentadas nos nossos museus de arte antiga. A arte que representa o Buda pertence também a essa categoria. O Islão recusa-se a representar deus mas os versos do Corão são representados de maneira decorativa.

Quando a arte representa os homens: é nomeadamente o caso da arte do retrato. O rosto humano é representado não somente nas telas mas também nos monumentos e sob a forma de esculturas. No cristianismo a representação de Deus e a representação dos homens convergem frequentemente, porque Deus encarna num homem, o Cristo. Mas o retrato pode também representar um rei, um guerreiro, um simples camponês, mulheres ou crianças.

A arte pode também representar a natureza, a terra que conduz os homens. É a arte paisagista. No século XIX a arte paisagista ganhou uma conotação patriótica. Mas a arte patriótica é mais antiga do que isso.

A arte representa, por fim, o ideal, os ideais da sociedade. Representamos nos nossos monumentos nacionais uma mulher que simboliza a justiça, a bravura ou a caridade. Algumas cenas podem representar batalhas, a caridade aos pobres, cenas realistas mas onde se encarna um ideal na acção.

Estas artes não são ideológicas, no sentido das ideologias modernas. Dizer que a arte cristã é ideológica seria abusivo.

Ideologias modernas e destruição das formas de arte da tradição

Mas as ideologias modernas destruíram, a pouco e pouco, as formas de arte saídas da tradição e que representavam o mundo dos homens, sobre a terra, sob o céu e perante a divindade. A arte do Gestell (sistema utilitarista que controla os homens ao seu serviço), para utilizar este conceito de Heidegger, destrói tudo aquilo que não se enquadra na sua lógica utilitária.

Deus deixa de ser representado porque passa a ser associado à superstição. A arte ideológica oficial elimina toda a forma de herança religiosa e de transcendência. Ela será por vezes blasfema (veja-se o “Piss Christ”, por exemplo), para chocar, porque o escândalo é mediático e isso vende.

O ideal passa a ser considerado como um utensílio da repressão, em conformidade com as ideias dos falsos profetas Marx e Freud. É por isso evacuado sem cerimónias.O homem deixa de ser representado porque são as massas que passam a ser louvadas, e as particularidades do indivíduo, da sua classe, da sua profissão, da sua raça, passam a ser coisas irritantes que é preciso fazer esquecer para que os homens se tornem perfeitamente permutáveis no processo económico e social. A paisagem, a natureza, desaparecem porque representam elementos de enraizamento do homem na sua terra.

A arte contemporânea: inumana, abstracta e desencarnada

A arte contemporânea, que se tornou a arte oficial obrigatória (vejam-se as paredes dos ministérios, das câmaras e dos edifícios oficiais) obedece a estes imperativos ideológicos. Já não deve representar o mundo tradicional.

Rompe deliberadamente com a herança religiosa e humanista da nossa civilização. É uma arte de ruptura revolucionária.

É abstracta e desencarnada porque rejeita toda a forma de enraizamento. Não encarna nenhum ideal, em nome de um subjectivismo total. A sua tendência dominante é representar, se é que ainda representa alguma coisa, o mundo quotidiano naquilo que tem de mais insignificante, utilitário ou prosaico. Frequentemente, quer-se chocante, porque ao chocar, atrai a atenção dos Media e dos financiamentos oligárquicos.

Esta arte é inumana no sentido próprio do termo, já que nunca representa a figura humana, e se a representa, é para a desfigurar o mais possível: como escreveu Salvador Dali, “um homem normal não tem vontade de sair com as meninas de Avinhão de Picasso”(ver o seu livro “Les cocus du vieil art moderne”).

A arte moderna: uma arte autoritária que interdita toda a forma de crítica

Por fim, esta arte inumana ou desumana é de natureza profundamente autoritária, como é, na essência, toda a ideologia. Esta arte estende-se para todo o lado. Interdita toda a forma de crítica, que é menosprezada, senão mesmo diabolizada com violência. O bom conformista não ousará nunca assumir que não gosta de uma celebrada obra dita contemporânea. Esta arte autoritária é irresponsável porque não responde ao pedido de um rei, de um burguês ou de um príncipe da Igreja, como antigamente. Ela pode responde à procura de uma burocracia anónima: Façam um fresco para as entradas dos nossos escritórios. Ademais, esta arte contemporânea é tão sustentada pelos poderes públicos como pelas pessoas privadas. É frequentemente financiada pelo imposto, isto é, pela força, o que acentua ainda mais o seu carácter autoritário.

Arte desenraizada, ideológica, inumana e autoritária, é objecto de uma propaganda mediática constante. Reflecte o inchamento do ego do artista, que pensa substituir-se ao Deus criador, favorece as especulações financeiras e é o dinheiro, frequentemente, o seu único imperativo categórico; é desenraizada, como a ideologia, porque quer ter uma vocação universal. Esta arte ideológica dificilmente tem a preferência do povo, supostamente inculto, mas é venerada pela oligarquia dominante.

A arte contemporânea versus a arte tradicional humanista e enraizada

A ideologia da arte oficial emprega o seu dinamismo em torno a quatro pólos:

O dinheiro
O ego
Os Media
Abstracção (negação das raízes)

A arte tradicional, que sobrevive nomeadamente na Rússia (São Petersburgo tem hoje em dia a maior escola de arte figurativa) e nalguns meios dissidentes no Ocidente, pode ser representada pelo esquema seguinte:

Ideal (o Bem, o Belo)
Divindade
Os homens
Natureza

A arte tradicional é humanista e enraizada, tem na maior parte do tempo uma dimensão espiritual ou idealista afim de direccionar o homem para o alto. A arte ideológica, dita contemporânea, e que parece ter o seu centro em Nova Iorque, despreza Deus e os homens para estabelecer o ego e o dinheiro, os seus fetiches, como motores do seu dispositivo autoritário. Esta arte ideológica, frequentemente financiada pela força (o imposto) não é nem humanista nem democrática, contrariamente ao discurso dos seus promotores: estamos, sim, perante uma arte ideológica oficial.

Yvan Blot, Polémia

Coisas incorrectas!

Sê boa, diz-me coisas incorrectas
do ponto de vista político.

Um exemplo: que és loira e que fumas.
Que não crês que o Ocidente
seja um monstro de barbárie
dedicado à sórdida tarefa
de oprimir o planeta.

Outro exemplo: que o multiculturalismo
é um novo fascismo
Só que mais tacanho
ou que te divertes a desancar um pedagogo
ou um psicólogo
e que o mediterrâneo te horroriza.

Diz-me coisas que me levem à fogueira…
directamente. Diz-me, diz-me, diz-me atrocidades
Que questionem verdades absolutas
como: “eu não creio na igualdade”
ou diz-me, diz-me coisas terríveis
como: que tu me queres
ainda que eu não seja do teu sexo.
Que me queres
com loucura e para sempre
como queriam antes
as mulheres da terra.
(…)

Não vim aqui para fazer amigos
mas sabes que podes sempre contar comigo.
Dizem que sou um tanto animal,
mas no fundo sou um sentimental.
A minha família não é gente normal
são de outra época e corte moral.
Resolvem os seus problemas de forma natural.
Para quê discutir, se podes lutar.
Dá-me um sorriso de cumplicidade
E toda a tua vida se deterá.
Nada será o mesmo, nada será igual,
já sabes…
Feio, forte e formal.
No calor da noite, em plena luz do dia,
sempre disposto a alegrar-te o dia.
Homem de bem
de carta cabal
e como o DUQUE:
Feio, forte e formal.
A minha fama me precederá
até ao infinito e mais para lá.
E por Deus, que escrito está:
«Se te dou a minha palavra,
nunca se romperá»

Desenvolvimento?

Também suspeito o mesmo…

“Suspeito que muitas das grandes mudanças culturais que abrem caminho para a mudança política são largamente fenómenos estéticos” – J.G.Ballard

Amor em tempos de cólera

No meio do caos dos motins ela caiu…ele correu e beijou-a.

(Fotografia de Richard Lam encontrada no Café da Insónia)

Sobre o neo-realismo: ou a visão marxista do mundo

(Imagem retirada do filme Ladrões de Bicicletas de Vittorio de Sica)

Em poucas décadas, o neo-realismo tomou conta da vida cultural. Primeiro pelas chamadas artes plásticas, com os troca-tintas inspirados no muralismo mexicano e nas obras de Orozco, Rivera e Siqueiros. Depois, pelo cinema italiano do pós-guerra, dito progressista e de vanguarda, com Visconti, Rossellini, Zavattini, Vittorio De Seca — e a cara da Anna Magnani, séria e grave, o rosto vincado por padecimentos e lágrimas. E, finalmente, pela literatura. Sobretudo em Portugal, com a estética marxista vertida da «Vértice» em vertigem vertical. Plêiade de autores numerosa: Alves Redol e Mário Dionísio, José Gomes Ferreira e Fernando Namora, entre outros tansos das letras. (Ao Namora, zurziu-o de alto a baixo o Luiz Pacheco, que lhe catou do «Domingo à Tarde» os passos plagiados da «Aparição», de Vergílio Ferreira — e que, ao depois, publicou o resultado da pesquisa, com grande escândalo do PCP, no folheto «O Caso do Sonâmbulo Chupista».) O estilo é seco, despojado, jornalístico. Rompe com os temas do passado: o cinema neo-realista filma os bairros sociais, as vilas de pescadores, os meninos esfarrapados, as ruas buliçosas do centro das cidades; os escritores, esses, chafurdam na «luta de classes» — e pintam um painel engagé dos conflitos que opõem operários e patrões, camponeses e agrários.

E assim passaram décadas. No inferno, com o coiro a arder, o Münzenberg batia as palmas estrepitosamente. E por cá, ao fresco, a trupe do neo-realismo — ou neo-realejo, segundo o grande Tomás de Figueiredo — seguia minuciosamente as recomendações de Álvaro Cunhal, plasmadas nas páginas de «O Diabo» (o dos anos 30, não o actual): a ideia de que a Arte deve “exprimir actualmente uma tendência histórica progressista” e “exprimir a realidade viva e humana de uma época”.

O exame atento às últimas eleições autárquicas permite concluir que — depois da pintura, do cinema e da literatura — o neo-realismo abancou na política. É um neo-realismo mitigado e serôdio, mas ainda marxista nos fundamentos e no discurso. Está presente nos programas de todas as candidaturas, do CDS-PP ao PCP. Nuns e noutros, o “cidadão” ou “munícipe”, como eles lhe chamam, é considerado unicamente como um “ser social”. O Alves Redol não faria melhor. E depois a mesma lábia larga e impostora no raciocínio sobre os “desfavorecidos” e os “humildes”. Ao redigir o programa, cada candidato semelha um cozinheiro simpático e barrigudo que, usando de pouco sal (por causa do colesterol político), leva ao lume uma espécie de sopa dos pobres para todas as “classes”.

Estorce-se nos vários parágrafos o realismo socialista. Disfarçado embora, dá de si em todos os domínios: o demasiado planeamento urbano, o ardil da “habitação social”, a questão benquista das minorias étnicas, as “zonas verdes” ao quilo, a cultura de subúrbio, a influência distorcida do «new urbanism» norte-americano. A própria mania das ruas pedonais e o Dia Europeu sem Carros, a que adere ano após ano um número crescente de municípios, relevam menos da protecção ao ambiente que do neo-realismo político. O automobilista é o novo “explorador”. Há trinta anos, na lonjura da planície, impôs-se «a terra a quem a trabalha»; hoje, na agitação febril da cidade, reclama-se «a rua a quem a caminha».

Desquitada do proletariado periférico e dos campónios do interior, a nova esquerda «cultural» montou locanda de secos e molhados na grande cidade. Com águas correntes e luz eléctrica, abraça a causa dos homossexuais, imigrantes e outras minorias. Marcuse e a Escola de Frankfurt estabeleceram os princípios desta “neo”-realpolitik.

Bruno Oliveira Santos

A CIA financiou a divulgação da arte abstracta

(o quadro sobre o qual escrevemos a pertinente pergunta é do “artista” Robert Motherwell, intitulado “two figures”, de 1958)

Durante anos o expressionismo abstracto foi exclusivamente visto como uma emanação do esquerdismo burguês, a arte da “nova esquerda”, com a sua promoção do disforme, do relativismo estético, contrapondo-se à tensão superadora e transcendente da arte clássica. Muitas vezes, aliás, denunciada como uma das vanguardas culturais de demolição do gosto e dos valores tradicionais das sociedades europeias.

A CIA vem agora admitir que foi a grande promotora da divulgação no Ocidente desse tipo de “arte”. Nelson Rockefeller, que foi um dos grandes financiadores dessa divulgação, considerou mesmo a arte moderna abstracta a expressão cultural da sociedade capitalista livre.

Cada um que retire as suas conclusões, sobre os Estados Unidos, os seus serviços secretos, o seu modelo social capitalista e a pretensa defesa do ocidente que levaram (e levam) a cabo durante as suas guerras…

Reflexão sobre a arte

(cena de Fritz Lang, Die Nibelungen,1924)

«(…) A questão da arte merece uma menção especial. Aqui não é suficiente a clareza das orientações mas é necessário integrar as teses “justas” com aquela infalibilidade do gosto que confere a um “sentimento do mundo” nobreza artística.

O que é a arte de “direita”? Não se trata simplesmente de escrever bons romances ou poesias diferentes pelo seu conteúdo mas sim de exprimir uma diferente tensão estilística. Existem livros de autores comprometidos com a “direita” nos quais dificilmente se encontra esta nova dimensão. Contudo, ela pode surgir em autores menos comprometidos. Veja-se, por exemplo, “Sobre as Falésias de Mármore” de Ernst Junger. Este autor, se num determinado momento esteve muito próximo do nacional-socialismo, afastou-se em seguida assumindo posições críticas. Mas dificilmente podemos encontrar algo que seja mais propriamente de “direita” do que essa novela: a impessoalidade aristocrática da narração, o estilo impecável e cintilante, a ausência do mínimo resquício de psicologismo burguês tornam-no num modelo dificilmente olvidável. Em geral estas características encontram-se em todas as melhores obras de Junger. O conteúdo literário de Junger é algo precioso.

Mas um sentimento artístico de “direita” pode alimentar também uma matéria seca, pobre, “naturalística”. É assim com os romances do norueguês Hamsun, em grande parte histórias das gentes rurais do Norte: pescadores, marinheiros, camponeses. Também aqui, ainda que em tom menor, uma dignidade firme e comedida e, ao mesmo tempo, um elemento mítico presente nas vicissitudes destas almas simples que lutam contra o destino na atmosfera magnética da paisagem boreal.

Aqui devemos limitar-nos a um par de exemplos, os primeiros que nos vêm à mente. Mas qualquer um pode compreender aquilo que quisemos dizer e integrar estas indicações com a sua sensibilidade e conhecimentos.

Estas reflexões valem para toda a arte: O conteúdo passa em segunda linha sob a forma. Veja-se por exemplo a desenvoltura com que o Fascismo se apropriou da arquitectura moderna para exprimir um sentimento do mundo que não é “moderno”. Veja-se a arquitectura clássico-moderna da Universidade de Roma ou aquela do Foro Mussolini. Tratam-se de obras menores, mas de obras bem conseguidas, e o espírito que emana daquela cintilante geometria não é a aridez dos arranha-céus, mas a substância dura e luzente da alma antiga: ordem, medida, força, disciplina, clareza.

E venhamos a uma arte menor, o cinema. Também aqui faremos algumas reflexões dispersas que podem servir para enquadrar o problema. Qualquer um pode ver que l’Assedio dell’Alcazar (1940) é um bom filme de propaganda fascista. Mas, em rigor, com a mesma linguagem poder-se-ia ter feito também uma epopeia antifascista. Ao invés, algumas das cenas filmadas pelo judeu comunista Eisenstein (lembramo-nos de alguns fotogramas de Ivan, o Terrível) pelo seu misticismo nacionalista e autoritário não podem deixar de ser definidas de “direita”. Assim, é sabido que Fritz Lang, o director de Os Nibelungos, era um comunista convicto que abandonou a Alemanha com a chegada de Hitler. Mas poucos outros filmes para além da sua obra-prima conseguem exprimir a stimmung heróica, mítica e pagã da Alemanha nacional-socialista. E Goebbels demonstrou uma notável inteligência quando pensou nele para a direcção do filme sobre o congresso de Nuremberga.

Mais um exemplo: Ingmar Bergman. Este autor não pode certamente ser considerado “fascista” (ainda que alguns comunistas o tenham tentado fazer). Mas em algumas das suas obras está presente uma tal potência simbólica que – transportada da arte para o domínio social – não pode deixar de exercitar algumas sugestões precisas que os adversários definiriam de bom grado “irracionalistas e fascistas”. Temos presentes algumas cenas de O Sétimo Selo. Recordem-se as paisagens míticas e solenes, a presença do invisível no coração do visível, o drama do herói. Aqui não se pretende brandir nenhuma mensagem política mas a impressão que o espectador retira não tem nada de “democrático”, “social” e “humanístico”.

Naturalmente, também aqui é o instinto que decide. Quem é verdadeiramente de “direita”, quem interiormente está marcado por certos valores, por um ethos particular, saberá imediatamente distinguir as expressões artísticas que pertencem ao seu mundo. Estética provém de aisthänoma, um conhecimento por sensação imediata.

As considerações aqui expostas não têm um carácter sistemático. Pretendem apenas afrontar um problema, não defini-lo. Por outro lado, neste campo bastam orientações genéricas. Para além destas, cada um deverá proceder com os seus conhecimentos e capacidades. Bastam poucos traços para delinear as linhas de desenvolvimento de uma cultura de direita. Mas esta orientação abstracta começará a tomar forma concreta quando os homens começarem a escrever e a fazer.»

Retirado de Adriano Romualdi, Perchè non esiste una cultura di Destra

Mulheres de Esparta

“Regressa com o teu escudo ou sobre ele” – uma mãe espartana, pintura de Howard David Johnson

Aproveita o momento!