Categoria: Cinema e Televisão

Inside Job

Acabei de ver o documentário “Inside Job” de Charles Ferguson, sobre a crise financeira iniciada nos EUA pelas escandalosas actividades especulativas de alguns dos maiores bancos mundiais e que resultou no resgate financeiro, por parte do Estado (portanto dos contribuintes…) de algumas dessas instituições. No final de tudo aquilo, os quadros dirigentes daqueles Bancos e as próprias instituições financeiras onde se fizeram todo o tipo de práticas desonestas ainda conseguiram enriquecer mais e reforçar o seu poder.

O documentário é absolutamente imperdível mostrando com clareza a promiscuidade existente entre os Bancos e os tais governos democráticos. É impressionante a lista de antigos e actuais quadros superiores e administradores dos maiores Bancos que são nomeados para os principais cargos de política económica, nacional e internacional. Que interesses servem eles? Os dos Bancos que lhes pagam ou os do cidadão comum?

Mas se todo o documentário é brilhante há um capítulo que considero fulcral. Para além do lobbying que as instituições financeiras fazem directamente sobre os governos, há um outro tipo de relação que é exposta e que me parece até mais importante. Falo da relação entre as instituições financeiras e alguns dos principais académicos de Economia. Ficamos ali a saber que vários professores de Harvard, da London Business School (o reputadíssimo Richard Portes), da Universidade de Columbia e de tantas outras reputadas faculdades de Economia foram pagos, por instituições financeiras e comerciais, para escreverem relatórios e análises “académicas” em defesa da desregulação dos mercados e dos produtos financeiros.

Essa gente usa as universidades para difundir ideias e doutrinas que beneficiam os grandes interesses financeiros, formatando a mente dos alunos, falando nas televisões disfarçados com a respeitabilidade e suposta isenção que a população, ingenuamente, atribui aos títulos académicos dos Srs. Professores, e são conselheiros do poder político em matéria de políticas económicas.

Muito do que hoje é dominante em matéria de pensamento económico não tem qualquer comprovação na realidade, é resultado de modelos simplistas e dogmáticos, e muitos trabalhos de suposta investigação académica são manietados pelos “especialistas” de acordo com o que pretendem demonstrar no final.

A dada altura o realizador entrevista o presidente do Departamento de Economia de Harvard, John Campbell, e pergunta-lhe se ele não vê qualquer inconveniente em ter professores cujo rendimento advém, em grande parte, de trabalhos para, ou pagos por, instituições financeiras e empresariais, ao que Campbell responde: “não”…então o realizador faz-lhe a seguinte comparação, sob a forma de pergunta: “Um médico escreve um artigo a dizer que para tratar uma determinada doença deve receitar-se uma determinada droga, mas descobre-se que 80% dos rendimentos desse médico advêm do laboratório que fabrica a tal droga…isso não o incomoda?”…a reacção de Cambpell é impagável, começa a gaguejar sem saber o que dizer, porque a comparação é exacta e mortífera: temos vários académicos de Economia a defenderem em salas de aulas ou em trabalhos de investigação determinado tipo de politicas económicas que são as que interessam às grandes instituições financeiras para as quais também trabalham e de onde provem larga parte do seu rendimento.

Dos bancos mais influente o caso mais conhecido será talvez o Goldman Sachs. Veja-se uma pequena lista dos nomes que passaram pelo Banco e que exercem ou exerceram cargos de influencia política:

Hank Paulson, antigo secretário de Estado do Tesouro dos EUA
Saiu da liderança do Goldman Sachs para ser secretário de Estado do Tesouro durante a administração Bush. Paulson delineou o programa de ajuda à banca durante a crise financeira de 2008, que também resgatou o Goldman.

Mario Draghi, futuro presidente do BCE
O futuro presidente do BCE, Mario Draghi, foi director-geral da Goldman Sachs International entre 2002 e 2005. A ligação levou-o a enfrentar perguntas dos eurodeputados sobre se esteve envolvido na ocultação do défice grego.

Mark Carney, governador do Banco Central do Canadá
O actual governador do banco central do Canadá passou 30 anos no Goldman.Foi responsável pelas áreas relacionadas com risco soberana e foi o homem com a tarefa de delinear a estratégia do banco durante a crise russa de 1998.

Romano Prodi, antigo presidente da comissão europeia
O antigo presidente da Comissão e ex-primeiro-ministro italiano esteve no Goldman nos anos 90. A ligação valeu-lhe críticas da Oposição quando rebentou um escândalo a envolver o Goldman e uma empresa italiana.

Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial
O actual presidente do Banco Mundial foi director-geral do Goldman.Antes de se juntar ao banco tinha trabalhado no Departamento do Tesouro norte-americano. Lidera o Banco Mundial desde Julho de 2007.

Robert Rubin, antigo Secretário de Estado do Tesouro dos EUA
Robert Rubin teve cargos de topo na administração do Goldman. Após 26 anos no banco foi escolhido por Bill Clinton como secretário de Estado do Tesouro. Após passar pelo Governo, trabalhou no Citigroup.

Ducan Niederauer, presidente da NYSE Euronext
O presidente da NYSE Euronext, Duncan Niederauer, que detém as bolsas de Nova Iorque e de Paris, Bruxelas, Amesterdão e Lisboa, foi responsável do Goldman pela área da execução de ordens dadas sobre títulos financeiros.

Mark Patterson, Chefe de Staff do Tesouro dos EUA
Mark Patterson é o chefe de gabinete do actual secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner. Antes de se juntar ao governo estava registado como lóbista, intercedendo para defender os interesses do Goldman.

António Borges, director do Departamento Europeu do FMI
O economista foi vice-presidente e director-geral do Goldman entre 2000 e 2008. Após sair do banco foi da associação que delineia a regulação dos ‘hedge funds’. Em Outubro de 2010, foi nomeado director do FMI para a Europa.

Carlos Moedas, Secretário de Estado adjunto do Primeiro Ministro
Após acabar o MBA em Harvard, no ano 2000, o actual responsável pelo acompanhamento do programa da ‘troika’ foi trabalhar para a divisão europeia de fusões e aquisições do Goldman Sachs. Saiu do banco em 2004.

William C. Dudley, presidente da Fed de Nova Iorque
O actual presidente da Fed de Nova Iorque é a segunda figura mais importante na condução da política monetária dos EUA. Foi durante mais de uma década economista-chefe do Goldman e director-geral.

E isto são apenas os nomes ligados ao Goldman Sachs, agora imagine-se à escala global…

Aliás, basta olhar muito sucintamente para Portugal, Miguel Frasquilho, por exemplo, é um dos principais pensadores da política económica do PSD, que actualmente é governo, foi professor universitário de Economia e é deputado no parlamento, ao mesmo tempo que lidera o Departamento de Research do Banco Espírito Santo. António Nogueira Leite, professor universitário de Economia da Universidade Nova e membro do Conselho Nacional do PSD, exerce vários cargos de administração em diversos grandes grupos económicos nacionais e é vice-presidente do BANIF Investment Bank. Alguém acha que Frasquilho defenderá dentro do PSD ou no parlamento ideias que possam chocar com os interesses do BES? Ou que Nogueira Leite apresente aos seus alunos ideias que sejam contrárias às políticas económicas do Banco de que é vice-presidente ou dos grandes grupos de que é administrador? E quantas vezes vimos estes dois indivíduos serem convidados para aqueles grandes debates televisivos, que se pretendem muito sérios, ao estilo “Prós e Contras”, onde as grandes mentes desta nação explicam ao povo humilde, ávido de conhecimento, os problemas e soluções para o país?

E se Tyler Durden fosse a Inglaterra?

«Nunca tinha vivido tão perto do perigo e contudo nunca me tinha sentido mais seguro. Nunca me tinha sentido mais confiante, e isso notava-se a milhas de distância. E quanto a isto, a violência? Tenho de ser honesto – tomei-lhe o gosto. Depois de levares uns murros e perceberes que não és feito de vidro, não te sentes vivo a não ser quando testas os teus limites.»

Matt Buckner, Green Street Hooligans (2005)

Bullit

Steve Mcqueen, “a man’s man”, um polícia numa cruzada solitária; Jacqueline Bisset tão bela quanto alguma mulher alguma vez foi, um Ford Mustang mítico, as ruas e a boémia de São Francisco…um clássico iconográfico a provar que o estilo é que conta.




Estado de Guerra

Vi Estado de Guerra (The Hurt Locker) há umas, poucas, semanas. Gostei francamente. Estado de Guerra é um filme “jungeriano”: a guerra é retratada como uma experiência interior, quase mística, onde os homens se descobrem no pior e no melhor. Não é um filme moralista, não impinge ao espectador uma moralidade a preto e branco sobre aquele conflito em particular ou a guerra em geral.

A história acompanha uma comissão no Iraque do Sargento William James, um especialista em desarmamento de bombas viciado na adrenalina daqueles momentos em que, sozinho perante engenhos explosivos que tem de anular, se vê confrontado, ao mais pequeno erro, com a iminência da sua própria morte. Esse gosto pelo perigo, pela vida no arame, contrasta com a existência pacata que deixou para trás nos EUA, juntamente com a sua jovem e bela mulher e filho bebé.

E é nesse contraste que reside a força e a originalidade deste filme, porque, ao contrário do que é costume, neste caso não é para a existência pacífica e tranquila de uma vida familiar que o herói ambiciona regressar. Pelo contrário, ele deseja, isso sim, fugir dessa existência serena para regressar a esse desafio quotidiano contra a morte. Porquê?

Uma das cenas memoráveis do filme ajuda a perceber a razão. Depois de ter regressado a casa, James está com a família num hipermercado a fazer compras e, a dada altura, chega a uma infindável prateleira com dezenas e dezenas de marcas de cereais. Ele pára em silêncio a olhar para aquela diversidade de oferta, indeciso quanto ao que comprar, e percebemos a irrelevância de tudo aquilo, percebemos que havia mais vida na guerra do que na tranquilidade anestesiante e alienante que a sociedade de consumo oferece, com as suas inúmeras marcas e necessidades artificialmente criadas, existência mais própria de animais domésticos do que de homens…é ali, naquele hipermercado, que ele está verdadeiramente morto, sem centelha de vida. No mundo moderno, perante existências serenas, repetitivas e desinteressantes, a guerra pode constituir para alguns um refúgio onde viver aventurosamente e intensamente, apenas com virtudes de carácter, sem hierarquias de dinheiro ou necessidade de aptidões comerciais. Afinal, um homem pode morrer aos 100 anos e, bem vistas as coisas, apenas ter vivido 365 dias de uma qualquer comissão de guerra…

Somos um exército de zombies…

«Chego a casa do trabalho, esgotado e vazio. Demasiado cansado para a interacção humana, carrego nos botões do controlo remoto e fixo o olhar sem vida no grande ecrã de televisão. Não demora muito até que os comerciais e a infindável parada de “product placements” invadam as minhas defesas e penetrem a minha mente. Cada detalhe de cada mensagem é meticulosamente calculado, pensado para ser repetitivo e hipnótico, uma e outra vez, até que a manipulação mental finalmente faz efeito. A minha mente está agora cheia de desejo ilusório. Fast-Forward. Como um drogado a ressacar, dou por mim a percorrer os corredores estéreis do centro comercial como se estivesse nalgum tipo de transe. O grupo diverso de consumidores que me rodeiam…todos iguais: olhos vidrados, olhares sem vida, caras transformadas em horríveis máscaras de querer. Somos um exército de zombies. Em vez de cérebro e carne humana, devoramos “merchandise” estrategicamente colocado e produtos de preço acessível manufacturados na China. Esgoto rapidamente os meus cartões de crédito e a minha alma, regressando a casa com a minha recompensa de sacos de compras. Todos cheios de lixo produzido em massa, rapidamente jogado para a pilha do restante lixo que tenho acumulado. Amanhã vou acordar, tomarei o café e deixarei o conforto e segurança da minha casa para ir trabalhar. Passarei mais um longo e entediante dia na cativa monotonia que se mascara de emprego. Quando terminar, voltarei outra vez para casa e descansarei em frente do grande ecrã de televisão enquanto esperarei pelos radiantes comerciais, como pequenas partículas penetrando o que resta do meu cérebro. E todas as noites digo a mim mesmo: ‘talvez um destes dias eu tire a ficha.’»

Malcolm Klimowicz, Adbusters

Irmãos e Irmãs

Irmãos e Irmãs

Irmãos e Irmãs faz parte da nova vaga de séries norte-americanas exportadas para o mundo inteiro com a chancela de série premiada nos Emmy e Globos de Ouro e aclamada pela crítica.

Acompanha os dramas quotidianos de uma família de classe média-alta norte americana depois da morte do marido de Nora, a matriarca. E, para não variar, episódio atrás de episódio, a audiência é submetida durante cerca de uma hora à “politiquice correcta” costumeira, sobretudo através destes três temas do seu enredo:

1ª Tema: O elemento feminino acima do masculino

A morte do patriarca (já de si um homem de ética duvidosa), que dá início à trama, tem um valor simbólico: o do apagamento do elemento masculino daí para a frente. Essa menorização é depois reforçada pelo facto dos personagens femininos serem psicologicamente mais fortes e complexos do que os personagens masculinos. Na maior parte dos episódios são elas que acabam por ter a capacidade de resolução dos problemas que vão afectando a harmonia familiar, sendo os homens relegados para um plano secundário.

2º Tema: Os gueis

Como se todas as famílias tivessem o seu guei, em Irmãos e Irmãs o tema é omnipresente. Há gueis por todo o lado…Temos o irmão de Nora, que é guei, e temos um dos filhos que também o é, e depois temos os namorados deles… Em quase todos os episódios a audiência é confrontada com a vivência quotidiana dos casais gueis…a normalização sociológica da homossexualidade é um dos temas recorrentes da narrativa.

3º Tema: conservadores politicamente correctos

Na vida da família a política é um assunto recorrente. Uma das filhas de Nora foi comentadora política, de “direita”, e acaba por se casar com um senador conservador. Na impossibilidade de ter filhos o casal decide adoptar, e opta por um pretinho. Adoptar criancinhas negras ou de “proveniências exóticas” é uma daquelas provas de “moralidade, abertura e modernidade” próprias da burguesia cosmopolita e endinheirada. Até porque não há crianças brancas pobres e abandonadas e querer um filho com um fenotipo parecido ao dos pais é “retrógrado e intolerante”… Desta forma a família torna-se também um retrato exemplar da diversidade, sexualmente e racialmente plural. Mais tarde o marido afasta-se do cargo e passa a apoiar a carreira partidária da mulher, que entretanto se torna candidata, invertendo assim a lógica de relevância sóciopolítica no seio do casal.

Primeiro… romper a apatia.

Não tenho de vos dizer que as coisas estão más. Toda a gente sabe que as coisas estão más. É uma depressão. Todos estão sem trabalho ou com medo de perder o emprego. O dólar vale um níquel, os bancos estoiram, os comerciantes guardam uma arma debaixo do balcão. Marginais andam à solta nas ruas e não há ninguém que pareça saber o que fazer, e não há fim para isto. Sabemos que o ar está irrespirável e a nossa comida contaminada, e sentamo-nos a ver televisão enquanto um jornalista qualquer nos diz que hoje tivemos quinze homicídios e sessenta e três crimes violentos, como se isso fosse o que é suposto acontecer. Sabemos que as coisas estão más – pior que más. Estão loucas. É como se tudo em todo o lado estivesse a enlouquecer, por isso já não saímos à rua. Sentamo-nos em casa, e lentamente o mundo em que vivemos vai-se tornando mais pequeno, e tudo o que dizemos é” Por favor, ao menos deixem-nos em paz nas nossas casas. Deixem-me ter a minha torradeira, a minha televisão e as minhas jantes de metal e não direi nada. Deixem-nos só em paz”. Bem, eu não vos vou deixar em paz. Quero que fiquem furiosos! Não quero que protestem. Não quero que se amotinem – não quero que escrevam ao vosso deputado porque não sei o que vos diria para escreverem. Não sei o que fazer sobre a depressão e a inflação e os russos e o crime nas ruas. Tudo o que sei é que primeiro têm de ficar furiosos. Têm de dizer “Eu sou um ser humano, porra! A minha vida tem valor!”. Por isso quero que se levantem agora. Quero que todos se levantem das cadeiras. Quero que se levantem agora mesmo e vão à janela. Abram-na, ponham a cabeça de fora, e gritem “ Estou farto desta merda e não vou aturar mais isto!”. Quero que se levantem agora mesmo, vão até à janela, abram-na, ponham a cabeça de fora e gritem” Estou farto desta merda e não vou aturar mais isto!”. As coisas têm de mudar. Mas, primeiro vocês têm de ficar furiosos!… Têm de dizer” Estou farto desta merda e não vou aturar mais isto!”. Depois logo vemos o que fazer com a depressão, e a inflação e a crise do petróleo. Mas primeiro levantem o rabo da cadeira, abram a janela, ponham a cabeça de fora e gritem, digam-no:” Estou farto desta merda e não vou aturar mais isto!”

Network (1976)

As mensagens políticas de Avatar

Só há pouco tempo vi o filme Avatar. Antes disso tinha lido algumas críticas políticas à obra que se dividiam entre uma corrente que considerava o filme mais um capítulo na propaganda da culpa ocidental e outra que o via como um manifesto identitário.

Avatar é ambos. Do ponto de vista da sua mensagem, nada há de novo ou surpreendente. Essencialmente, Avatar é um manifesto de exaltação da identidade de um povo autóctone ameaçado de genocídio pela voragem gananciosa e destruidora de um invasor. O invasor é, na linguagem e aparência, o homem branco, enquanto os nativos (designados Navi) são inspirados numa mistura das tribos africanas e índias, facto bastante evidente nas feições, sotaque, vestes e até religiosidade desse povo. Trata-se portanto de transportar para o ecrã o mito do genocídio colonial dos povos primitivos por parte do “demónio branco”. Não falta sequer o lugar comum do branco que se apaixona por uma das nativas e ganha, progressivamente, consciência da maldade dos “seus” e da pureza generosa dos “outros”, juntando-se à luta de libertação dos autóctones.

A culpabilização do homem europeu salta das salas de aula, para os debates políticos, para a historiografia oficial e para o entretenimento, assumindo todas as formas e ocupando todos os espaços do nosso pensamento (mesmo quando o “pensamento sério” pretende dar lugar à “distracção”) gerando um leviatã de propaganda permanente ao qual só uma ínfima minoria mais preparada e inteligente consegue escapar.

Sim, avatar é um manifesto identitário, mas dos “outros”, é um filme que celebra a defesa da identidade dos povos nativos vítimas do colonialismo branco ao mesmo tempo que desenvolve, pela enésima vez, a narrativa da perfídia ocidental e a sua culpabilização. Só o homem branco não tem direito a representações de defesa da sua identidade…

Igualmente saliente no filme é a sua mensagem ecológica radical e pagã. Mais do que viverem em harmonia com a natureza os Navi deificam-na; e ainda que não haja nada de errado com a consciência ecológica ou o paganismo, no filme ambas as coisas são apresentadas de forma algo caricatural e com o propósito de estabelecer mais um contraste com uma certa civilização moderna ocidental marcada no imaginário popular pelo cristianismo e desrespeitadora da natureza.

Nada de novo em Hollycrapwood, portanto.

That was not sparta!

A perspectiva cinematográfica de Hollywood

Com extensa campanha publicitária (para isso capital não falta) o filme norte-americano “300” pretende retratar a luta heróica dos gregos nas Termópilas mas, fiel à tradição, não consegue mais que uma farsa, não só porque confundem o local do combate com um matadouro municipal, como pela sinopse que diz :
“(…) a sua coragem e o seu sacrifício encorajaram o povo grego a unir-se contra os exércitos persas e a fundar a democracia.”
Ora bem, a batalha do desfiladeiro das “Termópilas” tornou-se célebre pela heróica defesa proporcionada pelos espartanos e pelo seu rei Leónidas, massacrados pelos persas que não permitiram sobreviventes, mas (pergunta pertinente) … que tinham a ver os espartanos com a “democracia”?
Na verdade… absolutamente nada, ou seja, eram adversários resolutos da democracia, regime politico existente em Atenas (desde as reformas de Clistenes em 508 EP) e que aí vigorou até à sua abolição em 322 EP…
Como se pode afirmar que o comportamento heróico dos espartanos, em 480 EP, “encorajou o povo grego … a fundar a democracia”, se esta já existia em Atenas há cerca de 28 anos, para desaparecer no século seguinte?
A manipulação demagógica da História é já um dado adquirido pela cinematografia “made in USA” e é sabido que a demagogia é uma das principais características do regime democrático. Aliás, foi uma das principais causas da sua dissolução em Atenas, onde durou 186 anos! Quanto durará entre nós?
A batalha do desfiladeiro das Termópilas, um emblema da resistência do povo grego, traduz antes de mais o espírito de sacrifício dos espartanos, um exemplo para os democratas de Atenas. No ponto mais alto do desfiladeiro, no cume de Kolonós, onde se desenrolou o derradeiro episódio da resistência espartana, foi erigido um mausoléu onde se pode ler uma inscrição do poeta Simonide de Céos (556-467 EP):
“Vai, viajante, dizer a Esparta que aqui jazemos, fiéis às suas leis”!
Fiéis às leis de Esparta… não às de Atenas!
Afirmar que os espartanos morreram em defesa da democracia é um despropósito, um desatino e um disparate!
Aliás, o facto de se produzir um filme “histórico” (não, este não é do Spielberg) em que os iranianos (persas) atacam a Europa… nas actuais circunstâncias terá sido mera coincidência?
Felizmente, a mediocridade da realização, a indigência dos diálogos e o ridículo dos acessórios, retira credibilidade a semelhante manipulação da História!
O público, que corre entusiasmado a ver semelhante vacuidade, produz dois tipos de reacção: uns sentem-se burlados e recordam a mãezinha dos produtores da “coisa”, outros, mais intelectualizados, “até gostam” e interrogam-se sobre se a Grécia já existiria antes de que os “yankees” inventassem o “chewing gum”?

António Lugano

O Fahrenheit de Truffaut

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“— O que faz nas horas livres, Montag?
— Muita coisa… corto a relva…
— E se fosse proibido?
— Ficaria a vê-la crescer, senhor.
— Você tem futuro.”

Diálogo do filme Fahrenheit 451, de François Truffaut

Fahrenheit 451 é um romance escrito por Ray Bradbury sobre uma distopia futura em que os livros são proibidos e queimados e a televisão se torna de tal forma central na vida das pessoas que passa a ser designada por «a família». Para perseguir as pessoas que detêm livros existe uma força de ordem, os “bombeiros”, que além de prender os que lêem está encarregue de queimar os seus livros. Montag é um desses bombeiros…mas, um dia, lê uma das obras que havia confiscado. A partir daí toda a sua vida muda…

Vem esta breve introdução a propósito de ter revisto recentemente a adaptação cinematográfica feita por François Truffaut.

Há nela um momento particularmente notável que vale bem o filme: dá-se quando os bombeiros são chamados de emergência a uma casa cuja proprietária é suspeita de ter livros. Começam a partir a mobília à procura dos livros e, a dada altura, descobrem uma pequena biblioteca escondida por detrás de uma parede falsa. O chefe dos bombeiros chama Montag e toda a cena que se desenrola é memorável:

«Ah, Montag! Eu sabia, eu sabia. Claro que tudo isto…a existência de um segredo…de uma biblioteca, era conhecida nas altas instâncias mas não havia maneira de chegar até ela. Apenas uma vez vi tantos livros reunidos num mesmo lugar.»

De seguida enquanto percorre a pequena biblioteca com Montag vai pegando nos livros que se encontram nas diferentes secções… romances, filosofia, biografias, enquanto tece os seus comentários sobre as obras…

«Ah, Robinson Crusoe. Os negros não gostam por causa do seu homem, o Sexta-Feira. E Nietzsche. Os judeus não gostavam de Nietzsche. Aqui está um livro sobre cancro do pulmão. Todos os fumadores entram em pânico, por isso, para assegurarmos a paz de espírito de todos, nós queimamo-lo. Ah, este deve ser muito profundo. A Ética de Aristóteles. Qualquer um que leia isto deve pensar que está acima dos que não leram. Vê Montag? Não é bom, temos todos de ser iguais. A única forma de atingir a felicidade é se todos forem tornados iguais. Por isso, temos de queimar os livros Montag.» E quando pronuncia esta última frase pega no Mein Kampf de Hitler e remata «Todos os livros!».

Se as referências literárias e políticas da cena juntamente com a corrosiva crítica do igualitarismo já eram merecedoras de elogio, o desenrolar da situação reforça brilhantemente a mensagem latente…

Montag e o seu chefe são então informados que existem ordens para queimar a casa juntamente com a biblioteca. A proprietária recusa-se a abandonar o seu lar e acaba por se imolar no meio dos seus livros. Montag regressa a casa perturbado pelo que acabara de presenciar e encontra a sua mulher reunida com as amigas a olharem para o ecrã de televisão (a omnipresença e importância das mensagens televisivas na vida quotidiana é um dos temas centrais da história, e a cena em que Linda, a mulher de Montag, lhe pergunta por que é que ele não concerta a «família da cozinha», remete-nos para as horas de jantar nas nossas sociedades em que as televisões estão ligadas e as pessoas mal olham ou falam umas com as outras, ou seja, em que a televisão substitui o momento familiar).

Enquanto Linda e as suas amigas fazem alguns comentários sobre a aparência da mulher que aparece no ecrã e falam sobre a irresponsabilidade de ter filhos ou apresentam as razões menos válidas para os ter, podemos ouvir o que é dito pela mulher que aparece na televisão:

«Lembrem-se de tolerar os amigos dos vossos amigos, por mais estranhos (a expressão usada é “alien”) e peculiares que vos possam parecer. Não desprezem as minorias. Sufoquem a violência. Suprimam o preconceito.»

Bravo Truffaut! Aquele encadeamento de cenas é uma denúncia implacável do totalitarismo politicamente correcto, com a sua apologia fanática das “igualdades, humanitarismos e tolerâncias”, de que se serve para cercear a expressão do pensamento dissidente. Uma ficção cinematográfica futurista cada vez mais próxima das realidades actuais.