Categoria: Cinema e Televisão

Sacanas sem lei…

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Li algures que o filme “Sacanas sem Lei” foi considerado um dos melhores de 2009. Vi esse filme não há muito tempo e o tédio foi tal que nem consegui chegar ao fim. Não sei exactamente o que é que Tarantino pretendia com aquilo, mas não é melhor do que os seus trabalhos habituais ( e não é um elogio), isto sem deixar de ter todas as suas marcas recorrentes. Basicamente trata-se de um encadeamento de cenas visuais sem a solidez de um argumento que as transforme em algo mais do que isso e do desfile de um conjunto de personagens que, para além de desprovidos da mínima profundidade psicológica, conseguem ser uns mais imorais e grotescos que os outros: sádicos, mentirosos, ignorantes, bufos… Espeta-se na misturadora as habituais referências culturais e “cinéfilas” de Tarantino, com as suas estafadas homenagens a cenas e actores do cinema menos comercial (que se sucedem a um ritmo tal que chega a ser enjoativo…) e está pronto a servir.

O pseudo-argumento é sobre um grupo de soldados americanos (judeus), comandados pelo Tenente Aldo Raine – Brad Pitt – (ena, a homenagem cinematográfica do Tarantino a Aldo Ray! Fantástico, pá!) conhecidos por chacinarem nazis e que acabarão por embarcar numa missão para matar as altas patentes do regime Nazi quando esses homens decidem ir todos a uma estreia de um pequeno filme num cinemazinho da França ocupada sem quaisquer medidas de segurança e onde toda a gente circulava mais ou menos à vontade.

O filme pretende situar-se “do lado certo da História” e espera que o espectador entre na sala de cinema com um dogma à priori omnipresente: os nazis são desumanos, são a imagem do mal, e, portanto, matar nazis, sejam quais forem as circunstâncias, é bom, e ponto final. Se o público tiver a maturidade intelectual de um “adolescente inconsciente” a coisa até pode resultar, mas para um público mais inteligente e com maior sentido crítico das coisas, o filme acaba por passar, ainda que inadvertidamente, uma mensagem inversa e esse é o seu grande feito não desejado. Esse tiro que acerta no alvo errado, é cómico pela sua dimensão irónica e involuntária.

Os soldados aliados têm, sem excepção, um comportamento grosseiro e são autênticos tarados sanguinários (por exemplo, tiram escalpes aos homens que matam) e a eles juntam-se alguns traidores e desertores alemães, cuja conduta não inspira propriamente simpatia.

Para além da judia Shosanna, cuja família fora morta pelos nazis e que decide, dada a oportunidade, vingá-la com o custo da sua vida, os únicos exemplos de elevação, heroísmo e honra que se encontram no filme são protagonizados por soldados alemães.

Sobretudo através do exemplo daquele militar cujo grupo fora emboscado e morto pelos “sacanas”. Capturado é levado e ajoelhado perante Aldo Raine que lhe coloca um mapa à frente e lhe dá a escolher entre indicar onde se localizam as tropas alemãs ou a morte. O alemão responde-lhe que “se recusa respeitosamente” a fazê-lo. Aldo chama então um dos seus homens dizendo-lhe que faça a vontade ao “alemão que quer morrer pela pátria”. Um judeu americano dirige-se para o soldado alemão com um bastão de baseball e aponta para a “cruz de ferro” que aquele tem na lapela:” Foi ganha por matar judeus?” ao que o alemão, que mantém durante toda a cena uma incrível calma e dignidade, responde as suas últimas palavras, segundos antes do seu selvático assassinato: “por bravura!”.

This is Engl…the same old shit!

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(Recensão ao filme “This is England” de Shane Meadows)

Shaun é um miúdo pobre de 12 anos que perdeu o pai na guerra das Malvinas. A viver com a mãe e sem amigos, numa Inglaterra de Tatcher onde as sub-culturas urbanas alastravam a grande velocidade, Shaun acaba por ser acolhido por um grupo de skinheads (e em particular Woody,o líder) que o fazem, pela primeira vez, sentir-se parte de algo.

Sem nunca o declarar explicitamente, o filme pretende ao mesmo tempo fazer uma espécie de retrospectiva histórica da evolução do movimento skinhead. Quando Shaun primeiramente encontra aquele grupo, os rapazes são apolíticos e estão completamente desligados do tipo de ideias que mais tarde viriam a ficar associadas aos skinheads no imaginário popular. São um mero produto das classes trabalhadoras e pouco educadas de uma Inglaterra marcada pelas desigualdades sociais.

É com a chegada de Combo que começa a sucessão de clichés e a manipulação fácil do espectador. Combo é um antigo companheiro de Woody que regressa da prisão (sim, adivinharam, para variar o “skinhead fascista” é um criminoso) com um discurso revoltado, patriótico e por vezes racista que vai politizar e dividir o grupo.

Ao contrário de outros, Shaun não rejeita o discurso de Combo, pois são aquelas ideias que lhe parecem resgatar e elevar a memória do pai, caído em combate “pela pátria”. Á medida que Shaun entra no mundo de Combo (que acaba por ser para ele a figura paternal que estava ausente) assistimos à sua transformação e, no auge dessa relação, simbolicamente, é a cruz de São Jorge, a Bandeira Inglesa, que se ergue no seu quarto.

Combo, o “skinhead racista”, é a chave de todo o filme e um lugar-comum ambulante. Ao assistir ao filme ocorreu-me que deve haver alguma espécie de guião pré-formatado de produção em série para estes personagens…

O modo como o cinema se serve destes filmes e destes personagens para fazer propaganda política é tão ostensivo que seria insultuoso para uma população menos ignara e mais imune à publicidade.

A fórmula é sempre a mesma: coloca-se o personagem a dizer meia dúzia de frases que são comummente usadas pelo discurso das organizações nacionalistas e que, por serem verdade e de apreensão intuitiva, fazem todo o sentido para as pessoas. Misturam-se depois, no discurso do personagem, essas frases com outras obviamente desacertadas e por fim vai-se revelando o mau carácter do personagem, mergulhado num mal-estar interior, movido pela revolta contra sabe-se lá o quê, sem ideais verdadeiros, traiçoeiro, propenso à violência injustificada e ao álcool e incapaz de agir de acordo com o que apregoa.

O objectivo desta fórmula, que é sempre a mesma neste tipo de filmes, é inculcar uma determinada imagem no cérebro dos espectadores que crie uma reacção condicionada automática a determinado discurso.

O propósito é que as pessoas, quando confrontadas no seu quotidiano com ideias de preferência nacional e salvaguarda da identidade racial, se intimamente as considerarem certas e justas as associem à imagem daqueles personagens retratados naqueles filmes que, por detrás de algumas dessas ideias, escondiam os mais aberrantes comportamentos, gerando no imaginário colectivo uma relação entre uma coisa e outra.

Bom, regressemos…a partir das primeiras cenas de Combo no filme pressente-se que ele é uma bomba-relógio à espera de explodir. É essa explosão anunciada, que redunda num homicídio (ena, que surpresa, não estávamos nada à espera disto: o “skinhead racista” mata um homem) que vai chocar e resgatar o pequeno Shaun.

No “final feliz” Shaun pega na bandeira inglesa que estava no seu quarto, que aliás lhe havia sido dada por Combo, a mesma bandeira em nome da qual o seu pai havia lutado e morrido, desloca-se à costa e… joga-a ao mar. Shaun atinge assim a redenção pela dessacralização da pátria e sentimos que, por fim, a sua alma pode ser salva!

Excalibur (1981) – Mais que um filme

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“… As idades obscuras… A terra estava dividida e sem Rei. No meio deste tempo perdido começou a lenda do Mago Merlin e a chegada de um Rei, de uma espada poderosa: Excalibur”

“Entrámos na garganta do Dragão…”. Achamo-nos, sem dúvida, ante um mito que foi plasticamente modelado para chegar a um público desejoso de novidades e originalidades. E ainda assim, queira-se ou não, constata-se um facto muito importante: Este filme inspira e desperta os mais nobres anseios de muitos jovens. Como algo que acorda desde os tempos mais remotos e imemoriais, surge como um impacto no nosso interior adormecido, na Lembrança Espiritual do nosso Sangue.

As personagens desta maravilha de arte cinematográfica, encarnam de forma inultrapassável o papel que lhes foi atribuído. Muitos somos os que ficamos absorvidos por essa figura cheia de Sabedoria e simpatia que é Merlin, essa Nobreza, símbolo da Amizade, que é Lancelote, esse constante afã por manter a Paz e a Justiça, que é Artur, ou essa Juventude inocente com ânsia de aventura e auto-superação que é Percival.

Cada personagem conquista-nos profundamente, harmonizando o seu aspecto exterior com o espírito que irradia desde o seu coração em cada gesto, em cada olhar, em cada palavra. Curiosamente, todos são actores quase desconhecidos, como se viessem expressamente do mundo da lenda, do além dos tempos, para despertar uma lembrança que permaneceu adormecida durante séculos.

Qual foi a intenção do director? É muito difícil sabê-lo. É possível que seja totalmente inconsciente da sua obra. É possível que no seu afã de alcançar uma novidade radical, tenha obtido este resultado. Não podemos negar que no filme não existe rigorosidade quanto ao seguimento da lenda, o que não é nem mais nem menos do que o que fazem todos os directores quando querem fazer algo demasiado grande.

Existe uma concessão à morbosidade do grande público? É possível… porém, esse “enorme dispêndio” de sangue que tanto se lhe aponta, ou a famosa cena do corvo comendo um olho, não fazem mais que dar um acento mais cru que nos aproxima minimamente às dramáticas circunstâncias que as personagens estão a viver. A partir destes toques de crueza e exagero, o espectador faz-se participante desse mundo em luta. Indubitavelmente, não tem nada que ver com os clássicos filmes de índios nos quais o espectador passa o tempo ou pouco mais, e onde o imperante é a carência de toda a Transcendência.

O “leitmotiv” deste filme reside no valor do Sangue e tudo o que isto significa: Nobreza, Honra, Amizade, Amor… e também a aceitação das debilidades, como a traição que, apesar de tudo, são superadas e redimidas através da Fidelidade e da Nobreza, ou seja, também pela força superadora que habita no Sangue. O “valor do Sangue” apresenta-se nesta obra por cima de toda a crença ou religião. Por um lado aparece a religião, sem credos, sem dogmas, que só é acessível através da comunhão com a Natureza e, sobretudo, com o grande Céu que cada herói porta nas suas veias e que deve conquistar. Esta sabedoria é representada por Merlim, que instrui ao homem para que, afinal, quando o momento chegar, fique só e saiba ser um verdadeiro Rei. “Uma Terra, um Rei…”, este é o Segredo do Graal. O esquecimento destas palavras provocou a decadência, a pobreza da terra, as enfermidades e a fome das gentes. Que grande similitude com a actualidade! A Magia reside, precisamente, na recordação de umas palavras, nem mais nem menos, porque “a perdição do homem é o Esquecimento…”. A terra, o povo, o Rei, devem ser uma mesma coisa. Mais uma vez, a união do Homem com a Natureza, a união do Sangue e do Solo: “Uma Terra, um Rei…”.Por outro lado, uma magia negativa, a do ódio, a do rancor e da vingança, a que hoje impera no mundo; a magia que foi roubada por aqueles que não a mereceram, o Mundo de Morgana e de Sião.

Merlin é a estrela do filme. As suas frases vivem por si: “quando um homem mente, mata uma parte da Humanidade…”; “Lembra: há sempre alguém mais esperto do que tu….”; “O mal e o Bem; dificilmente existe um sem o outro…”; e sobretudo “Chegou a hora dos homens e dos seus costumes…”. O homem, hoje, nestes blocos de cimento, vive de costumes novos ou velhos, pouco importa, mas em definitivo ninguém sabe ver o que há para além do seu nariz. Hoje, o mais “nobre” dos homens é um ser retorcido, rancoroso, intolerante, que se crê possuidor da única verdade. É um fruto deste mundo de costumes mecanizados. Os “bons” contentam-se em ter um bom pensamento cada dia, para capitalizar essa segurança social do “Além” que chamam céu.

Na procura do Graal morrem todos os guerreiros, só sobrevive um, e ele vence por todos. E como vence Percival? No filme isso reflecte-se bastante bem: Vinte anos de luta, vagabundeando, buscando, para dar-se conta de que nada exterior tinha importância, no fundo tudo é um sonho pelo que não nos devemos deixar arrastar. Afinal, despoja-se de todo o atributo, de toda a vestimenta e, mais uma vez, praticamente nu e com a única coisa que lhe restava, a Esperança, a Fé, responde ante o grande Segredo para descobrir o que foi na origem: “Uma terra, um Rei…”. Nada era mais importante do que estas palavras. Ele, sozinho, nu, com o seu corpo, com a sua Esperança, com a sua Fé, e com o seu Rei, tudo era uma mesma Unidade, e nenhuma outra coisa tinha importância. É a Suprema Singeleza, revelada em palavras tão grandes como Fidelidade, Honra, Amizade… e revelada também num caminho cruel marcado pela luta e o Desapego.

Surpreende que, quem isto escreve, possa ver, num filme como este, todo o contrário do que alguma outra pessoa pudesse interpretar. E não deixa de ser surpreendente que alguns até realizaram uma autêntica perseguição intelectual totalmente obsessiva contra este filme. Cumpre saber que quem possua a Verdade não deveria ter medo de perdê-la.

Qualquer aspecto do filme poderia ter uma interpretação na Luta Eterna da nossa Raça, girando tudo em torno à tão mítica Sabedoria Perdida, representada pelo mundo de Merlin, como parte humanizada do Grande Dragão, símbolo de tal Sabedoria. Muito significativo é o facto de que, depois de ter desaparecido materialmente e depois do triunfo na Procura do Graal, o Mago volta, e, por que volta? Primeiro, foi derrotado pelo Inimigo, que lhe rouba a magia, falseando a Sabedoria, e depois, quando os guerreiros emendam a involução, reconquistando o Segredo Perdido, renasce dentro deles: Merlím passa a fazer parte deles, vive o que ele chama “O Mundo dos Sonhos”, “Sonho para uns, pesadelo para outros”. Sendo esta a grande consequência do triunfo: o Conhecimento volta ao homem, o homem converte-se por sua vez em Mago, ou seja, é Sacerdote-Guerreiro, no sentido mais elevado da palavra. Merlin e Artur são um mesmo e, a partir desta Reconquista, o Inimigo acha o seu fim, a Obscuridade começa a dissipar-se.

E veja-se o grande paralelismo, mais uma vez, com a nossa luta: o derradeiro encontro de Morgana com Merlin. O Inimigo, na sua obsessão e no seu ódio, converteu-o num sonho, trágico para Ele, ainda que esperançoso para o Novo Mundo que nascerá regenerado. Merlin foi derrotado e agora não tem nada a perder, e por isso aparece a Morgana de forma invulnerável, porque os Cavaleiros do Graal fizeram-no Eterno.

O Derradeiro Batalhão, que tanto tempo esteve aguardando, derrota por fim o Inimigo. Desta forma fecha-se um ciclo na Humanidade: a Espada volta ao lago, e Artur viaja à Ilha da Imortalidade, acompanhado da wagneriana “Marcha Fúnebre de Siegfried”; pouco tem de morto e muito de Eternidade. Estas foram as suas derradeiras palavras: “Um dia chegará um Rei e a Espada ressurgirá das Águas”.

Eternamente repete-se o Mito, eternamente volta o Rei Artur e o Mago Merlin, porque vivem no interior dessas Águas que são o nosso Sangue, que é o Mundo da nossa Raça.

Vai este artigo para aqueles que viram neste filme algo verdadeiramente superior, sem rancor para os que tenham rancor, sem ódio para os que tenham ódio, porque apreendemos algo mais: Artur, Merlin, Lancelote, Percival, somos nós próprios, a maior verdade que possuímos é o valor do Sangue que corre pelas nossas veias, o nosso escudo é a nossa Fé, e tudo isto é o que além de todos os tempos forja a nossa espada: EXCALIBUR!

Anál natchrach, orth´ bháis bethad, do chél denmha.

Adaptado de Francesc Sánchez-Bas, na Terra e Povo – Galiza

Metropolis

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«Já terminei a minha obra. Criei uma máquina à imagem do homem que nunca se cansa nem comete erros. A partir de agora já não precisaremos de trabalhadores humanos. Não valeu a pena perder uma mão para poder criar os trabalhadores do futuro? A máquina humana! Dê-me outras 24 horas e entregar-lhe-ei uma máquina que ninguém será capaz de diferenciar de um ser humano» Rotwang a Fredersen

O argumento

No ano 2026, debaixo das opulências e aparências da cidade de Metropolis, os trabalhadores mecanizados, escravizados, sofrem os ritmos de desumanas decadências. Estes desafortunados desenvolvem o seu trabalho no interior da terra, a partir do décimo nível subterrâneo. Ali não chega nem o sol nem o ar puro, mas o seu esforço esgotante, obscuro e anónimo, garante o elevado nível de vida dos habitantes da superfície. Nas profundezas a máquina destruiu o humano. As máquinas dominam tudo e ocupam um lugar preponderante na sociedade. Não há humanidade nas profundezas, só escravidão e submetimento à tirania da máquina. Não existem emoções, nem tensão, nem criatividade, somente uma rotina esgotante, sem matizes, cinzenta, triste. O ser humano das profundezas é um ser abatido e esgotado. Pelo contrário, na superfície reina o luxo, o bem-estar e a opulência. Em edifícios altos e praças espaçosas vivem os privilegiados. A casta dos poderosos pode manter o seu nível de vida graças ao sacrifício dos escravos.

Esta cidade tem um dono todo-poderoso, Fredersen. Um homem duro, implacável. Frio e calculista. A sua tirania induz os trabalhadores a sublevar-se mas uma jovem, Maria, tenta tranquilizá-los e promete-lhes que um dia, não longínquo, reinará o amor. Mas não há nada a fazer, a capacidade de sacrifício dos trabalhadores chegou ao limite e só a revolta pode assegurar a libertação, ou a morte.

Freder, o filho de Fredersen, um dia, como o Buda ao sair do seu retiro ideal, desce aos subterrâneos, cuja existência ignorava, acompanhado por Maria, que havia encontrado. Maria desperta-lhe uma extraordinária paixão. A partir desse encontro Freder tentará libertar os escravos mas o seu pai não pode tolerar esta relação e por isso contrata Rotwang, um cientista enlouquecido que construirá um robô com os mesmos traços de Maria, para terminar a revolta e recuperar o seu filho.

O robô causará uma crise na cidade subterrânea, destruirá os ensinamentos de Maria e substitui-los-á por ideias de vingança, luta de classes, revolta e saque. O robô consegue propagar o ódio entre os trabalhadores, mas, por fim, Freder e Maria conseguem denunciar a fraude e o robô, que acabará destruído pelos trabalhadores. A revolta provoca a inundação da cidade e a catástrofe. Em face dos factos alguns trabalhadores escravos compreendem a situação: foram enganados pela falsa Maria, a “bruxa”, perseguem-na e detêm-na, queimam-na, e é justamente nesse momento que entendem o que ocorreu: o revestimento do robô arde e deixa em evidencia o aspecto interior, metálico e frio, da falsa Maria. Nesse momento Rotwang sente-se perdido, sabe que quando os trabalhadores lhe atribuírem a ele a autoria do robô o perseguirão. A sua única possibilidade de sobreviver é guardar um ás na manga. Assim, decide sequestrar a verdadeira Maria, mas esta acaba libertada por Freder.

Freder luta contra Rotwang, que morre ao cair do campanário da catedral. O amor triunfa sobre a mecânica, o coração impõe-se ao artificioso. O filho do proprietário e a pobre trabalhadora fazem triunfar o seu amor por cima da sua origem social. Inclusive, à vista dos factos consumados, o próprio Fredersen aceita a nova situação, resignado. Maria pode predicar de novo a mensagem de paz e diz: «Não pode haver entendimento entre as mãos e o cérebro se o coração não actua como mediador».

Enquanto isso, à superfície, Fredersen é informado do que está a ocorrer nas profundezas e decide descer e visitá-las. Quando encontra o seu filho aceita a mão que este lhe estende. As classes antagónicas reconciliam-se com este gesto simples.

Metropolis e o expressionismo

Metropolis é uma obra tardia em relação às grandes obras expressionistas. É expressionista mas também é algo mais. Contém elementos novos, desconhecidos até esse momento. O ambiente arquitectónico da cidade não é tão angustiante e torturante como o de “Das Cabinet des Dr. Caligari” e muito menos, desde logo, do que em “Der Golem”. Mas, em qualquer caso, a película foi rodada segundo critérios expressionistas aos quais se somou o particular empenho de Lang e a predisposição da sua equipa para a realização de efeitos especiais que foram empregados, pela primeira vez, de forma sistemática no cinema. De entre todos os personagens Rotwang, o cientista enlouquecido, é, sem dúvida, o personagem mais expressionista do filme.

Trata-se de uma película maniqueísta, como todo o cinema expressionista. A dualidade entre o mundo das profundezas e o mundo da superfície, entre amos e escravos, entre bem e mal, é perfeitamente reflectida no seu conteúdo ético pelos claros-escuros, os contrastes e a gama de cinzentos utilizados.
Eugen Schweffton, artífice da maioria destes truques, enamorado da art déco, chegou a modificar espelhos, retirando-lhes a camada de mercúrio, a situá-los frente ao cenário e filmar alguma cena com personagens reais e o cenário, formado por maquetas reduzidas, reflectido no que restava do mercúrio. Tratavam-se de truques simples mas não por isso menos imaginativos, especialmente naquela época. Metropolis, não o esqueçamos, foi filmado nos primórdios do cinema quando ainda estava muito longe de alcançar a sua plenitude.

Os cenários são espectaculares. Os edifícios altos, as fábricas sombrias, o imenso relógio que marca obsessivamente as horas, as grutas subterrâneas que transmitem directamente o desespero dos escravos do subsolo.
De qualquer forma, Metropolis é expressionista especialmente por 3 conteúdos: a situação angustiante que se percebe desde os primeiros fotogramas e que, longe de diminuir, vai aumentando em cada cena, a sobreactuação dos actores, própria do cinema mudo mas ressaltada pelo ambiente gerado pelo expressionismo, e, finalmente, pela essência do guião, onde o fantástico se une ao terrifico.

É possível, ademais, apreciar em boa parte do cinema expressionista uma crítica social, reflexo do afundamento moral da Alemanha weimariana. Esta crítica torna-se exasperada em Metropolis. Neste sentido a mensagem moral da película é muito mais directa do que a de “Das Cabinet des Dr. Caligari”, “Der Golem” ou “Nosferatu”. Trata-se de um filme em que fica clara a crítica aos mecanismos de produção, ao empobrecimento dos trabalhadores e ao enriquecimento sem limite dos privilegiados.

Metropolis e a mensagem da época

Trata-se de uma película pré-fascista? A Lang não lhe interessava a política. A sua amante e guionista, Thea von Harbou, foi militante nacional-socialista desde as primeiras horas. Assim há que considerar que Lang estava em certa medida influenciado pelas ideias da sua esposa. Sendo Thea militante do partido nacional-socialista há um fundo em Metropolis que está em sintonia com a ideologia hitleriana.

Contrariamente ao que se tem tendência a pensar, o hitlerismo realizou uma crítica implacável ao modo de produção capitalista, que conseguiu penetrar nas classes trabalhadoras alemãs. Sabe-se que as Secções de Assalto hitlerianas, eram chamadas “secções bistec”, vermelhas por dentro castanhas por fora. Estes agrupamentos activistas estavam formados por antigos soldados da frente e ex-militantes comunistas passados ao hitlerismo. Não foi raro que Hitler e os demais ideólogos do partido tivessem enfatizado a crítica ao capitalismo, sobretudo quando boa parte dos capitalistas do seu tempo, para cúmulo, eram judeus, a besta negra do nacional-socialismo.

Mas, diferentemente da crítica marxista, o nacional-socialismo, denunciando a exploração capitalista, não questiona a divisão de classes. Isso mesmo ocorre em Metropolis. A mensagem da película é que o “coração”, representado por Maria, deve mediar entre as “mãos dos explorados” e o “cérebro dos exploradores”. O “mediador” entre as classes é o elemento novo introduzido na película e desconsiderado pelo marxismo. Neste sentido Metropolis é um filme que, se não é fascista, é, desde logo, próximo do fascismo, mais do que de qualquer outra ideologia política. E assim o devem ter visto as hierarquias nacional-socialistas, ainda na oposição, quando, na possibilidade de aceder ao poder, ofereceram a Lang a direcção da UFA.

Mas há outro elemento simbólico não menosprezável. “Maria” tem um duplo rosto: por uma parte predica amor e compreensão entre as classes, e por outra parte é uma agitadora social, a “Maria robô”. Esta última é destruída e injuriada como uma amostra da perversão do seu criador, Rotwang. A “Maria robô” é filha dos privilegiados, isto é, dos capitalistas. E isto encaixa de uma maneira absolutamente exacta com a crítica nacional-socialista da produção capitalista. Os sectores mais simplistas do partido nazi defendiam que os agitadores comunistas e os capitalistas tinham uma mesma origem étnica: eram, simplesmente, judeus. Mas outros sectores do partido elaboraram doutrinas muito mais sofisticadas sobre a identidade marxismo-capitalismo. O próprio fundador da Falange Espanhola defendia que os excessos do capitalismo deram lugar ao marxismo, como sucessão dialéctica. Os nazis pensavam exactamente isso. Na parábola de Metropolis toda esta teoria acaba genialmente dramatizada na agitadora “Maria robô”, surgida do malévolo engenho de Rotwang.

Há algo de crítica à tecnologia (e, muito mais) à mecanização mas também um aceso elogio da máquina. A máquina deixa de ser benéfica para o ser humano quando, de um meio para alcançar um fim, o progresso, passa a ser um meio para escravizar. Se nos anos 20 houve um movimento estético-político que defendeu teses parecidas esse foi o futurismo que, pouco tempo depois de lançar o seu manifesto, convergiu com o fascismo.

Metropolis e Fritz Lang

Não foi uma fita fácil de realizar. Foi uma das primeiras superproduções da história do cinema: a filmagem durou quase um ano (entre 22 de Maio de 1925 e 30 de Outubro de 1926), participaram 36 000 extras, dos quais a 7000 rapou-se-lhes a cabeça para uma cena de apenas 7 segundos. O orçamento foi invulgar para a época (cinco milhões de marcos), a projecção prolongou-se durante 3 horas. A película estreou-se a 10 de Janeiro de 1927. O seu êxito foi moderado. Talvez a película fosse demasiado longa e densa para a época.

Não foi, desde logo, a fita que mais benefícios económicos proporcionou a Lang mas sim a fita que, por si mesma, colocou o seu director num lugar de eleição na história do cinema. Dado que Metropolis não foi um êxito económico Lang fundou a sua própria produtora, “Fritz Lang Gesselschaft”, rodando nos dois anos seguintes duas películas menores, “Spione”( Os Espiões) e “Frau mi Mond”( A Mulher na Lua). Ambas são facilmente acessíveis em formato DVD.

“Os Espiões” é um filme realizado com ideias já presentes na séries sobre o Doutor Mabuse. A variante é que surge o tema do amor entre o agente enviado para liquidar a organização e uma das suas pertencentes. Na “Mulher na Lua” Lang explora uma fusão entre o género negro e a ficção científica, a que se junta também uma história de amor entre astronautas perdidos na lua. Nesta fita Lang volta aos cenários grandiloquentes mas descuida o guião. O resultado é um filme incoerente e progressivamente aborrecido. No entanto, também passou à história por ter sido a última película muda de Lang.

Nos anos 90 Metropolis foi resgatado das cinematecas e restaurado. Giorgio Moroder realizou uma versão musical, com as imagens originais coloridas, que limitou a duração do filme a apenas 83 minutos. Versões posteriores em DVD regressaram à duração original e à montagem de Lang. Na realidade o intento de Moroder não era absurdo. Há algo em Metropolis que remete para a estética do videoclip tanto como para o estilo expressionista.

Este estilo chegou ao cinema moderno através de Metropolis e é facilmente reconhecível em outras fitas de ficção modernas como “Blade Runner”( de Ridley Scott) ou “2001, Odisseia no Espaço”( de kubrick). A cena da valsa na estação espacial evoca a visão de Metropolis sobrevoada por aviões, o ambiente sinistro das catacumbas onde vivem os subhumanos remete directamente para o ambiente angustiante e opressivo em que os robôs de “Blade Runner” vão sendo liquidados por Harrison Ford. O tema da máquina que toma consciência de si mesma e acaba dominando o seu criador apareceu em muitas fitas de ficção, desde “Matrix” à saga do “Exterminador”. Pela sua parte as três peças de “Mad Max”, especialmente a segunda, remetem directamente para a angústia expressionista. Não é por acaso que esta série foi filmada nos anos 80, quando se experimentava o terror de que a guerra-fria se convertesse em quente.

De facto, Metropolis é um produto de um tempo angustiante e que somente pode ser apreciado por quem experimentou uma angústia existencial absoluta.

Metropolis oitenta anos depois

Quem pretenda ver Metropolis com os olhos do século XXI sentir-se-á decepcionado e aborrecer-se-á tremendamente. Metropolis é uma película que figura por direito próprio na história do cinema mas não é uma película actual. O argumento é antiquado, os truques, inclusive os mais imaginativos, são infantis face aos desenvolvimentos dos modernos efeitos especiais. A linguagem narrativa é completamente diferente da utilizada hoje.

A película, apesar de ser muda, entende-se com facilidade, mas, em alguns momentos, resulta pueril. A mesma crítica ao processo de produção capitalista resulta infantil e hoje está ultrapassada. A mecanização não é o grande problema do mundo moderno; de facto, Metropolis antecipa-se à modernidade: o robô acabou por ser o rei das cadeias de produção e não o trabalhador alienado.

Talvez a estética de Metropolis seja o que melhor suportou o passar do tempo. O robô destila um singular aroma de modernidade e é, sem dúvida, o autómato mais imaginativo jamais realizado no cinema. Os que temos o poster da película num lugar destacado do nosso local de trabalho temos a imagem como uma das mais felizes da história do espectáculo.

Há que considerar esta fita como uma das que fizeram avançar um passo mais a indústria do cinema. Se a ficção científica tem um antes e um depois de “Blade Runner” e “2001” e o cinema bélico um antes e um depois de “O resgate do soldado Ryan”, Metropolis constituiu um passo me frente na experiência expressionista. É, desde logo, uma película de transição entre um cinema que dava os seus primeiros passos balbuciantes e o cinema como arte.

O expressionismo alemão situou-se nesse ponto de inflexão da história cinematográfica. Lang compreendeu-o. No fundo quis sempre fazer do cinema uma arte. Ao contrário de Howard Hawks, bom artesão, que jamais teve outra ambição do que fazer um cinema de entretenimento. Se com Lang o cinema é arte, com Hawks o cinema é indústria.

Ernesto Milà, 5 Directores de cine americano (II) Fritz Lang (2ªparte) Metrópolis