Categoria: Entrevistas

Entrevista a Gustavo Zerbino

Aproveitando a deslocação da selecção nacional de rugby do Uruguai o jornal “A Bola” entrevistou o presidente da federação daquele país, Gustavo Zerbino, um dos sobreviventes do tragicamente célebre desastre aéreo dos Andes, que obrigou, inclusive, os sobreviventes a alimentarem-se do cadáver dos companheiros mortos para poderem sobreviver. Uma entrevista deveras interessante, e sem os clichés habituais, talvez porque nada na vida daquele homem tenha sido vulgar, e da qual destacamos estes excertos:

«Hoje, com a crise económica, acha que as pessoas choram demais?

– A crise não é económica. É mentira. Há crise de valores e princípios. A sociedade de consumo busca a gratificação instantânea e consome coisas, inventa coisas de que não precisa, coisas que as pessoas não só não têm tempo para viver como não têm dinheiro para pagar. É angustiante. A felicidade não é um destino, não é ter as coisas, a felicidade é a viagem. Primeiro é preciso ser, depois fazer, e depois, sim, virá um resultado feliz. Na sociedade em que vivemos, vivemos em mentiras. Pensamos demais em sortes e azares.

Não crê no acaso, na sorte?

– Não. É tudo trabalho a 99% e sorte no 1% que falta. Quanto mais trabalhas, mais sorte tens. Se cais, levanta-te. Na sociedade actual, o hábito é cair e ficar quieto, à espera que se resolva, que alguém resolva, que alguém ajude. Em Montevideu, em Lisboa, em Madrid, o desporto nacional é a queixa. Vivemos a chorar pelo chefe, pelo vizinho, pelo que seja, é um auto-boicote.

Com certeza que alguém se queixou na cordilheira dos Andes durante o acidente. Não?

– Sim, mas quem se queixava era ignorado, porque era um terrorista das acções em marcha, perturbava o esforço dos outros. A gente que se queixa é porque ainda está bem. A gente que está realmente a sofrer aperta os punhos, ferra os dentes e age. Temos de transformar os problemas em oportunidades, mas para isso temos de lutar contra a mente que te diz que és feio, não prestas, não te ajudam, és um burro…Desculpas!»

com M grande!

Maud de Belleroche foi a mulher que inspirou a personagem de “Mademoiselle de Chamarande”, do romance “Norte”, um dos três escritos por Céline quando estava no exílio, após o fim da segunda guerra mundial. Com 86 anos, a Baronesa Maud de Belleroche foi entrevistada pela France Info e falou de fidelidade, de convicções e dos tempos que passou exilada em Baden-Baden com alguns dos escritores proibidos da França, como Céline ou Rebatet.

Maud não renega nada e não lamenta nada!

«Censuraram-me de ter continuado a escrever e a dizer que tinha sido fascista, que havia amado a vontade de potência nietzschiana, que me sentia nietzschiana e que não renegaria nunca os meus 20 anos…»

«Mantenho o mesmo estado de espírito… e essas pessoas que foram minhas amigas não tiveram sempre um destino formidável, muitas foram fuziladas…não sou de todo alguém que atraiçoe, nem os amigos, nem as ideias.»

A metamorfose da esquerda depois da queda do muro de Berlim

(Entrevista ao conhecido escritor espanhol Juan Manuel de Prada sobre a queda do muro de Berlim, via La Maldición de Spengler)

Juan Pablo Colmenarejo: Acredita que esse dia (há 20 anos) determina o fim do século XX?

Juan Manuel de Prada: Bom, há quem associe essa data ao dia da queda do muro de Berlim, também há os que a situam no dia dos atentados do 11 de Setembro. Creio que a data de que falas é, de qualquer forma, digna de constituir um marco na evolução interna do Ocidente; uma evolução que, ao contrário das teses optimistas que proliferam nestes dias, é muito mais sombria do que geralmente se pensa.

JPC: Mas… não foi esse o dia do triunfo da liberdade?

Juan Manuel de Prada: Sim, sem dúvida que foi o triunfo da “liberdade”…o que sucede é que a “liberdade” é, em si mesma, um movimento, e o que conta num movimento é o “para onde”. Pode ser que o movimento tenha um norte ou que esteja desnorteado, pode ser que seja um movimento pequeno ou gigantesco, pode ser que a direcção que tome seja para “a frente” ou para “trás”…na liberdade não é tão relevante a questão de “ser livre” como a de “ser livre para quê”. Eu acredito que a “liberdade” que veio depois da queda do muro de Berlim, a destes últimos 20 anos, foi uma liberdade destrutiva. A minha opinião é que “os logros” dela podem ver-se hoje: liberdade para retirar crucifixos, liberdade para destruir todo o tipo de vínculos humanos (começando pela família), liberdade para abortar sem restrições, liberdade para acabar com a transmissão harmoniosa baseada na Tradição, liberdade para experimentar em embriões…, definitivamente liberdade para nos destruirmos. Creio que a obsessão pela liberdade que exteriorizam alguns não é mais do que a marca distintiva dos fracos.

JPC: Caiu o muro, mas caiu junto com ele o fascínio da esquerda ocidental pelos regimes do “socialismo real”?

Juan Manuel de Prada: Na realidade parece que a esquerda havia iniciado um processo de metamorfose 20 anos antes, especialmente visível no Maio de 68. Evidentemente há então um momento em que a esquerda se dá conta de que os regimes comunistas eram eminentemente repressores da natureza humana, pelo que provocava nas suas vítimas uma reacção que se traduzia num “apetite” de liberdade. Mas essa liberdade adquire em Maio de 1968 umas conotações muito concretas: rebelião contra o Sistema, “apoteose sexual”, em suma, um intento de romper e transvalorar as normas. É nesse clima que a esquerda realiza esse processo de mutação, por um lado inteligentíssimo, no qual toma consciência de que se quer levar a cabo o seu processo de “engenharia social” (pois a esquerda teve desde as suas origens um claro propósito de “transformar” a sociedade), o que deveria fazer não era reprimir a liberdade mas exaltá-la ao máximo até deificá-la. Assim, a liberdade converte-se num ídolo ao qual todos devemos adoração. E é nesse processo de “regeneração” que está a chave para compreender que, depois da queda do muro de Berlim, a esquerda está perfeitamente apetrechada e disposta a lançar a sua nova ofensiva, que é precisamente a de que estamos a padecer hoje em dia e à qual a direita não tardou em aderir. Dessa maneira, essa exaltação destrutiva da liberdade está a conduzir-nos a um novo modelo de tirania muito pior que as tiranias comunistas, e tudo por uma simples razão: debaixo dos regimes repressores, o homem está consciente de que lhe estão a retirar algo que lhe pertence por natureza, que é a sua liberdade. Em troca, nas novas tiranias essa bulimia de “liberdade” faz com que o homem fique “anestesiado” perante os abusos do poder.

JPC: Uns meses antes da queda do muro, o então presidente da RDA. Erich Honecker, foi tornado Doutor Honoris Causa pela Universidade Complutense de Madrid e foi quando declarou que “o muro permanecerá de pé cem anos mais”, sendo que caiu seis meses depois…é como se os “progressistas” espanhóis tivessem estado sempre muito atentos a este tipo de “homenagens”, não lhe parece?

Juan Manuel de Prada: Não devemos esquecer que há pouco tempo também se ofereceu esse galardão a Santiago Carrillo, que ainda simboliza a sobrevivência deste tipo de ideologias. Por outro lado, actualmente o “Matrix progressista” compraz-se em abraçar com alvoroço Hugo Chavez, outro personagem que representa o “pôr em dia” do socialismo real. Ao fim e ao cabo, toda a ideologia necessita de construir a sua própria mitologia. É certo que hoje a esquerda europeia renega estes regimes porque os considera obsoletos e anacrónicos, mas isso é assim porque, por sua vez, descobriu que a “, ordem liberal”, isto é, o sistema político baseado na economia capitalista, é infinitamente mais eficaz para realizar o seu projecto de “engenharia social”. Neste sentido, resulta muito fácil compatibilizar a veneração a essa mitologia passada com a construção de uma “sociedade nova” sustentada pelos regimes social-democratas actuais. Por isso creio que não devemos enganar-nos, a frase pronunciada pelo presidente da RDA cumpriu-se: ele sabia que “o muro” iria sobreviver cem anos mais, precisamente porque também sabia que a esquerda havia preparado esta metamorfose.

A esquerda das liberdades

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«“Nova Esquerda” é uma expressão informal. A par de um revolucionarismo essencialmente anedótico, que permitiu a um certo número de jovens solidarizar-se com uma “revolta da juventude” de dimensão internacional e de romper com o tédio dos anos cinquenta, um dos seus méritos foi ter feito emergir um novo tipo de reivindicações, que já não eram somente de natureza quantitativa, mas que assentavam sobre a qualidade da vida. Parece-me que o movimento de Maio de 68 viu exprimir-se simultaneamente duas tendências muito diferentes: de um lado um protesto, na minha opinião perfeitamente justificado, contra a sociedade de consumo e a sociedade do espectáculo (Guy Debord), do outro, uma aspiração de tipo mais hedonista e permissiva, muito bem resumida pelo slogan “jouir sans entraves” (gozar sem limites). Estas duas tendências eram totalmente contraditórias, como vimos nos anos que se seguiram, quando os representantes da segunda tendência começaram a perceber que era precisamente na sociedade de consumo que as suas aspirações individualistas melhor se podiam realizar.»

Alain de Benoist, em entrevista à revista Zinnober

Entrevista sobre uma das divisões infantis do nacionalismo europeu

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Já não deposita esperança, como antes ou como alguns “nacional-revolucionários”, no mundo árabe-muçulmano?

Todas as tentativas anteriores de criar um eixo ou uma concertação entre os dissidentes construtivos da Europa manipulada e os parceiros do mundo árabe considerados “Estados-Pária” saldaram-se por falhanços. Os colóquios líbios da “Terceira Teoria Universal” deixaram de existir aquando da aproximação entre Khadaffi e os Estados Unidos e desde que o líder líbio adoptou políticas anti-europeias, nomeadamente participando recentemente no mobbing (mobilização mediática para fazer pressão política) contra a Suíça, um mobbing em curso desde há uns bons 10 anos e que encontrou novo pretexto para continuar depois da famosa votação sobre os minaretes.

O líder nacionalista Nasser desapareceu para ser substituído por Sadat e depois por Moubarak, que são aliados muito preciosos dos EUA. A Síria participou na perseguição ao Iraque, última potencia nacional árabe, eliminada em 2003, apesar do efémero e frágil eixo entre Paris, Berlim e Moscovo. As crispações fundamentalistas declaram guerra ao Ocidente sem fazer distinção entre a Europa manipulada e o Hegemon americano, com o seu apêndice israelita. Os fundamentalistas opõem-se aos nossos modos de vida tradicionais e isso é inaceitável, como são inaceitáveis todos os proselitismos do mesmo tipo: a noção de jahiliyah (idolatria a destruir) é para todos perigosa, subversiva e inaceitável; é ela que veicula esses fundamentalismos, logo à partida instrumentalizando contra os estados nacionais árabes, contra os resíduos de sincretismo otomano ou persa e depois por parte das diásporas muçulmanas na Europa contra todas as formas de politicas não fundamentalistas, nomeadamente contra as instituições dos Estados de acolhimento e contra os costumes tradicionais dos povos autóctones.

Uma aliança com estes fundamentalismos obrigar-nos-ia a renunciarmos ao que somos, do mesmo modo como exige o Hegemon americano, a exemplo do Grande Irmão do romance 1984 de Georges Orwell, exigem que rompamos com os recursos íntimos da nossa historia. O prémio Nobel da literatura Naipaul descreveu e denunciou perfeitamente este desvio na sua obra, evocando principalmente as situações que prevalecem na índia e na Indonésia. Neste arquipélago, o exemplo mais patente, aos seus olhos, é a vontade dos integristas de se vestirem segundo a moda saudita e imitar os costumes da península arábica, quando estas vestimentas e estes costumes eram diametralmente diferentes dos do arquipélago, onde há muito tempo reinava uma síntese feita de religiosidades autóctones e de hinduísmo, como atestam, por exemplo, as danças de Bali.

A ideologia inicial do Hegemon americano é também um puritanismo iconoclasta que rejeita as sínteses e os sincretismos da “Merry Old England” (1), do humanismo de Erasmo, do Renascimento Europeu e das políticas tradicionais da Europa. Neste sentido partilha bom número de denominadores comuns com os fundamentalismos islâmicos actuais. Os Estados Unidos, com o apoio financeiro dos Wahabitas sauditas, manipularam estes fundamentalismos contra Nasser no Egipto, contra o Xá do Irão (culpado de querer desenvolver a energia nuclear), contra o poder laico no Afeganistão ou contra Saddam Hussein, puxando provavelmente ao mesmo tempo alguns cordelinhos no assassinato do rei Faycol, “culpado” de querer aumentar o preço do petróleo e de se ter aliado, nesta óptica, ao Xá do Irão, como brilhantemente mostrou o geopolitólogo sueco, William Engdahl, especialista de geopolítica do petróleo. Acrescentemos de passagem que a actualidade mais recente confirma esta hipótese: o atentado contra a guarda republicana islâmica iraniana, os problemas ocorridos nas províncias iranianas com o fim de destabilizar o país, são obra de integrismos sunitas, manipulados pelos Estados Unidos e a Arábia Saudita contra o Irão de Ahmadinedjad, acusado de recuperar a política nuclear do Xá! O Irão respondeu apoiando os rebeldes zaiditas/xiitas do Yemen, retomando assim uma velha estratégia persa, anterior ao surgimento do Islão!

Os pequenos fantoches que se gabam de ser autênticos nacional-revolucionários e que se deleitam em todo o tipo de farsas pró-fundamentalistas são, na verdade, bufões alinhados por Washington por dois motivos estratégicos evidentes:

1- Criar a confusão no seio dos movimentos europeístas e fazê-los aderir aos esquemas binários disseminados pelas grandes agencias mediáticas americanas que orquestram por todo o mundo o formidável “soft power” de Washington;
2- Provar urbi et orbi que a aliança euro-islâmica (euro-fundamentalista) é a opção preconizada por “perigosos marginais”, por “terroristas potenciais”, pelos “inimigos da liberdade”, por “populistas fascizantes ou cripto-comunistas”.

Neste contexto encontramos também as redes ditas “anti-fascistas”, agitando-se contra fenómenos assimilados, mal ou bem, a uma ideologia política desaparecida desde há 65 anos. No teatro mediático, colocado em prática pelo “soft power” do Hegemon, temos, de uma parte, os idiotas nacional-revolucionários ou neo-fascistas europeus zombificados, mais ou menos convertidos a uma ou outra expressão do wahabismo e, de outra parte, os anti-fascistas caricaturais, largamente financiados com o propósito de mediatizar os primeiros (…).Todos têm o seu papel a desempenhar, mas o encenador é o mesmo e conduz a comédia com mestria. Tudo isto resulta num espectáculo delirante, apresentado pela grande imprensa, igualmente descerebrada.(…)

(…) Efectivamente, é forçoso constatar que o fundamentalismo judaico-sionista é igualmente nefasto ao espírito e ao politico quanto as suas contra-partes islamistas ou americano-puritanas. Todos, uns como outros, estão afastados do espírito antigo e renascentista da Europa, de Aristóteles, de Tito Lívio, de Pico della Mirandola, de Erasmo ou Justo Lipsio. Perante todas estas derivas, nós afirmamos, em alto e bom som, um “non possumus”!Europeus somos e europeus permaneceremos, sem nos disfarçarmos de beduínos, de founding fathers ou de sectários de Guch Emunim.

Não podemos classificar como anti-semita a rejeição desse pseudo-sionismo ultra-conservador que recapitula de maneira caricatural aquilo em que pensam políticos de aparência mais refinada, quer sejam likudistas ou trabalhistas, constrangidos a rejeitar os judaísmos mais fecundos para melhor desempenharem o seu papel no cenário do Próximo e Médio Oriente imaginado pelo Hegemon. O sionismo, ideologia inicialmente de facetas múltiplas, decaiu para não ser mais que o discurso de marionetas tão sinistras quanto os wahabitas. Todo o verdadeiro filo-semitismo humanista europeu mergulha, pelo contrário, em obras bem mais fascinantes: as de Raymond Aron, Henri Bergson, Ernst Kantorowicz, Hannah Arendt, Simone Weil, Walter Rathenau, para não citar mais que um pequeno punhado de pensadores e filósofos fecundos. Rejeitar os esquemas de perigosos simplificadores não é anti-semitismo, anti-americanismo primário ou islamofobia. Diga-se de uma vez por todas!

Excerto de uma entrevista a Robert Steuckers conduzida por Philippe Devos-Clairfontaine (Bruxelas, 7 de Dezembro de 2009)

Esta era não é para homens

«E as mulheres, uma das suas especialidades? Vão sobreviver aos homens?

– É evidente que as mulheres estão no centro da instrumentalização liberal. Teorizo isso enquanto pensador, mas os liberais constatam-nos enquanto comerciantes: as mulheres são o melhor agente do liberalismo, menos polarizadas pela solidariedade de classe, mais “psicologisantes”…sentem-se mais à vontade neste mundo da mercantilização integral, do desejo, das pulsões…o sistema que lhes garantiu a paridade compreendeu-o muito bem…o meu livro “Vers la féminisation” (rumo à efeminização) é uma das chaves de compreensão do nosso mundo. O mundo liberal assegura a sua sobrevivência, apesar das suas contradições suicidárias, liquidando o homem no sentido clássico e grego do termo, o homem consciente, apoiando-se no adolescente, na jovem mulher, que é sem dúvida a figura mais conseguida da decrepitude liberal. É a jovem mulher burguesa de esquerda que reina hoje nos Media, da manequim à entrevistadora política. Que ironia! É a ela, que pelo seu ser é a mais inapta a compreender o mundo, que entregamos a tarefa da análise e do comentário jornalístico. Esta estratégia perversa, fomentada por homens, é também o cume da misoginia sobre o qual todas as feministas se perdem.»

Alain Soral em entrevista ao “Le Choc du Mois” de junho de 2009

Sobre o Fahrenheit 451 de Ray Bradbury

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«(…)Bradbury ainda tem muito para dizer, especialmente sobre a forma como as pessoas não entendem o seu trabalho mais literário, Fahrenheit 451, publicado em 1953. Muito ensinado nas escolas é também para muitos estudantes a primeira vez que conhecem os nomes de Aristóteles, Dickens e Tolstoi.

Agora Bradbury decidiu falar sobre a sua iconográfica obra e o seu real significado. Fahrenheit 451 não é, diz com firmeza, uma história sobre censura governamental. Nem era uma resposta ao Senador Joseph McCarthy, cujas investigações haviam instigado o medo e paralisado a criatividade de milhares.

Isto apesar do que foi escrito em sentido contrário, ao longo das décadas, em recensões, críticas e ensaios. Até o biógrafo autorizado de Bradbury, Sam Weller, em The Bradbury Chronicles, se refere a Fahrenheit 451 como um livro sobre a censura.

Bradbury, um homem a viver numa cidade que é o centro criativo e industrial dos “reality shows” e das “telenovelas”, diz que é, na realidade, uma história sobre a forma como a televisão destrói o interesse na literatura.

“A televisão dá-nos as datas sobre Napoleão, mas não nos diz quem ele era”, diz Bradbury, resumindo os conteúdos televisivos com uma única palavra que cospe como um epíteto: “factóides”. Diz isto sentado numa sala dominada por uma gigantesca televisão de ecrã plano que transmite a Fox News, sem som, com os factóides a passarem em rodapé.

O seu medo, em 1953, de que a televisão matasse os livros foi, diz-nos, parcialmente confirmado pelo efeito da televisão sobre a substância das notícias. A capa do L.A. Times do dia parece dar-lhe razão e fala sobre as receitas de fim-de-semana do terceiro filme da série do homem-aranha.

“Inútil”, diz Bradbury, “alimentam-nos com tanta informação inútil, que nos sentimos cheios”. Fica eriçado quando outros lhe dizem o que as suas histórias significam, e uma vez abandonou uma aula na Universidade da Califórnia onde os estudantes insistiram que o seu livro era sobre censura governamental. (…)

Desde 1951 que Bradbury pressagiava os seus receios, numa carta sobre os perigos da rádio, dirigida ao autor de fantasia e ficção-científica, Richard Matheson, escrevia:” A rádio contribuiu para a nossa crescente falta de concentração. Esta espécie de existência ao pé-coxinho torna quase impossível que as pessoas, incluindo eu, se voltem a sentar e a entrar num livro. Tornámo-nos um povo de leituras rápidas, ou, pior que isso, tornámo-nos leitores rápidos.”

Diz que o acusado em Fahrenheit 451 não é o Estado – é o povo. Ao contrário do 1984 de Orwell, no qual o governo usa os ecrãs de televisão para doutrinar os cidadãos, Bradbury anteviu a televisão como um ópio. No livro, as televisões ocupam paredes inteiras e os seus actores são chamados “família”, uma verdade evidente para qualquer um que tenha lido um fórum sobre séries televisivas onde os fãs se referem às personagens pelo primeiro nome, como se fossem familiares ou amigos.

A história do livro centra-se sobre Guy Montag, um bombeiro da Califórnia que começa a questionar a razão pela qual queima livros como forma de vida. Montag acaba por rejeitar a sua cultura autoritária e junta-se a uma comunidade de indivíduos que memorizam livros inteiros para que não caiam no esquecimento, até que a sociedade esteja, novamente, disposta a ler.

Bradbury imaginou uma sociedade democrática cuja população diversa se volta contra os livros: os brancos e os negros rejeitando os livros que lhes causam desconforto. Ele não anteviu apenas o politicamente correcto, mas uma sociedade com tanta diversidade que todos os grupos passariam a ser “minorias”. Escreveu que ao início condensariam as obras, extirpando mais e mais passagens ofensivas até que, por fim, tudo o que restaria seriam notas de rodapé, que dificilmente alguém lia. Apenas depois das pessoas terem deixado de ler é que o Estado empregaria os bombeiros para queimarem os livros. (…)»

Ray Bradbury: Fahrenheit 451 Misinterpreted

Entrevista a Dominique Venner sobre a figura do Rebelde

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Ninguém está mais apto do que Dominique Venner para abrir este tema. Porque ninguém poderia melhor definir o espírito de rebelião…afinal, não é o autor do admirável «Le Coeur Rebelle» que se dizia «rebelde por fidelidade»? E no seu «Dictionnaire amoureux de la chasse», que é preciso ler página a página, Venner celebra ainda uma espantosa figura de rebelde, o caçador furtivo de Maurice Genevoix em «Raboliot»

O que é um rebelde? Nascemos rebeldes ou tornamo-nos assim por causa das circunstâncias históricas? Há vários tipos de rebelde?

Podemos ser intelectualmente insubmissos, à parte do rebanho, sem ser, contudo, um rebelde. Paul Morand é um bom exemplo. Na sua juventude foi um espírito livre, sem mais, e um favorecido pela fortuna, nos dois sentidos do termo. Os seus romances, um pouco desnudados, favoreceram o seu sucesso. Nada de rebelde nem mesmo de insolente nessa época. Ter escolhido involuntariamente o lado dos futuros perdedores entre 1940 e 1944, ter persistido depois nas suas aversões, ter-se sentido um estrangeiro, foi isso que fez dele o insubmisso revelado no seu «Diário».

Outro exemplo muito diferente, o de Ernst Jünger,. Ainda que autor de um «Tratado do Rebelde» muito influenciado pelas inquietudes da guerra-fria, Jünger nunca foi um rebelde. Nacionalista na época do nacionalismo, indiferente ao nacional-socialismo como uma boa parte da “boa sociedade”, ligado durante a guerra aos futuros conspiradores do 20 de Julho de 1944, ainda que nunca aprovando a ideia do atentado contra Hitler, por razões de ordem ética. O seu itinerário, mais ou menos à margem das modas, é precisamente o do anarca, figura da qual foi o inventor e a incarnação a partir de 1932. O anarca não é um rebelde. É um espectador colocado a uma tal altitude que a lama não lhe pode tocar.

Ao contrário de Morand ou Jünger, no seio da geração precedente, o poeta irlandês Pádraig Pearse foi um autentico rebelde. Podemos dizer que o foi de nascença. Em criança havia aprendido a gesta dos combatentes de todas as revoltas da «Erin» (nome épico da Irlanda). Mais tarde prepara o despertar da língua gaélica associando-o à preparação da insurreição armada. Membro fundador do primeiro IRA, foi o verdadeiro líder da sublevação da Páscoa de 1916 em Dublin. Por essa razão será fuzilado. Morreu sem saber que o seu sacrifício seria o fermento que faria triunfar a sua causa.

Quatro exemplo diferente, o de Alexandre Soljenitsyne. Até à sua prisão em 1945, tinha sido um excelente soviético, pouco se questionando sobre um sistema no seio do qual havia nascido, cumprindo durante a guerra o seu dever de oficial reservista do exército vermelho sem dramas de consciência. A sua prisão e a descoberta do Gulag, do horror acumulado desde 1917, provocam um completo questionamento, tanto de si mesmo como do mundo que até aí ignorava. É então que se torna um rebelde, incluindo contra as sociedades capitalistas, destruidoras de toda a tradição e via superior.

As razões de um Pádraig Pearse não são as de um Soljenitsyne. Foi preciso o choque de um determinado acontecimento, seguido de um esforço interior heróico, para fazer do segundo um rebelde. O que têm em comum é haverem descoberto, por vias diferentes, uma incompatibilidade absoluta entre o seu ser e o mundo no qual lhes cabia viver. Esse é o primeiro traço que define o rebelde. O segundo é a recusa da fatalidade.

Que diferença há entre a rebelião, a revolta, a dissidência, a resistência?

A revolta é um movimento espontâneo, provocado por uma violência injusta, uma ignomínia, um escândalo. Filha da indignação, raramente é durável. A dissidência, como a heresia, é o facto de se separar de uma comunidade, seja política, social, religiosa ou filosófica. Os seus motivos podem ser circunstanciais e não implica o envolvimento na luta. Quanto à resistência, para lá do sentido mítico adquirido durante a guerra, significa apenas oposição, sem mais, a uma força ou a um sistema, mesmo de forma passiva. O rebelde é outra coisa…

Qual é então a essência do rebelde?

Ele rebela-se contra o que lhe parece ilegítimo, a impostura ou o sacrilégio. O rebelde é a sua própria lei. É o que funda a sua especificidade. O seu segundo traço é a vontade de se envolver na luta, mesmo quando não há esperança de triunfar. Se combate uma potência, é porque lhe recusa a legitimidade, aspirando ele próprio a uma outra legitimidade, se necessário, a da alma ou do espírito.

Que modelos de rebeldes ofereceria, escolhendo-os da história e da literatura?

A Antígona de Sófocles é o primeiro que me ocorre. Com ela entramos no espaço da legitimidade sagrada. Antígona é rebelde por fidelidade. Desafia o decreto de Creonte por respeito à tradição e ao mandamento divino – o enterro dos mortos – transgredido pelo rei. Pouco importa que Creonte tenha as suas razões, o seu preço era um sacrilégio.
Antígona crê-se, portanto, legitimada na sua rebelião.

É difícil escolher entre os outros exemplos. Durante a guerra de secessão americana, os yankees designaram os seus adversários sulistas sob o nome de rebeldes, rebs. Era boa propaganda, mas falsa. A constituição dos Estados Unidos reconhecia de facto o direito de secessão aos estados membros. E as formas constitucionais haviam sido respeitadas pelos Estados do Sul. O general Robert Lee, um homem da Virgínia, futuro comandante-chefe dos exércitos confederados, não se considerava um rebelde. Depois da sua rendição em Abril de 1865, ele esforçar-se-á por reconciliar o Sul e o Norte. É nesse momento que se levantaram os verdadeiros rebeldes, homens e mulheres que, depois da derrota, continuaram a luta contra a ocupação do Sul pelos exércitos do Norte e seus protegidos

Alguns caíram no banditismo, como Jesse James. Outros transmitiram aos seus filhos uma tradição que teve uma grande posteridade literária. Em «Os Invencidos», o mais belo romance de William Faulkner, descobrimos, por exemplo, o retrato fascinante de uma bela rebelde sulista, Drusilla, sempre segura da justiça da sua causa e da ilegitimidade dos vencedores.

Como podemos ser rebeldes hoje em dia?

Pergunto-me sobretudo como poderíamos não o ser! Existir é combater aquilo que nos nega. Ser rebelde não é coleccionar livros ímpios, imaginar conspirações fantasmagóricas ou resistentes nas montanhas. É ser a nossa própria norma. Mantermo-nos fiéis a nós independentemente do que possa custar. Velar para que nunca nos separemos da nossa juventude. Preferir carregar o mundo às costas do que ajoelharmo-nos. Ser como um corsário. Pilhar tudo o que pode ser convertido à nossa norma, sem nos determos nas aparências.

Nos reveses, nunca colocar a questão da inutilidade de um combate perdido. Olhe-se para Pádraig Pearse. Evoquei Soljenitsyne, que encarna a espada mágica de que fala Jünger, «a espada mágica que faz tremer os tiranos». Nisso ele é único e inimitável. Estava, contudo, em dívida para com quem era «menos grande» que ele. E isso incita à reflexão. No «Arquipélago do Gulag», narrou as circunstâncias da sua «revelação».

Em 1945 eram uma dezena de detidos na mesma cela da prisão de Boutyrki em Moscovo, rostos pálidos e corpos abandonados. Apenas um, de entre os detidos, era diferente. Era um antigo coronel da Guarda Branca, Constantin Iassevitch. Queriam fazê-lo pagar pelo seu envolvimento na guerra civil, de 1919. E Soljenitsyne diz que o coronel, sem falar do seu passado, mostrava em todas as suas atitudes que a luta, para si, não havia acabado. Enquanto o caos reinava no espírito dos outros detidos, este tinha visivelmente um ponto de vista claro e distinto sobre o mundo que os rodeava. A nitidez da sua posição dava ao seu corpo solidez, suplesse, energia, apesar da sua idade. Era o único a salpicar-se com água fria todas as manhãs, enquanto os outros detidos estagnavam na sua própria porcaria e lamentavam-se.

Um ano depois, novamente transferido para esta prisão de Moscovo, Soljenitsyne descobre que o antigo coronel da guarda branca acabara de ser executado. «Ele olhara através dos muros da prisão, com os seus olhos que permaneceram jovens…mas o sentimento incoercível de ter permanecido fiel à via que havia traçado para si mesmo haviam-lhe dado uma força incomum». Meditando sobre este episódio, digo para mim mesmo que não podendo vir a ser outro Soljenitsyne, depende de cada um seguir o exemplo do velho coronel «branco».

Via Novopress Bélgica

Mitos Climáticos desmontados no NOVOPRESS

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Vale a pena ler a entrevista do Eng. Rui G. Moura, autor do blog Mitos Climáticos, ao NOVOPRESS

Entrevista nietzschiana

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Uma excelente entrevista a Olivier Mathieu no site da Nietzsche Académie:

Nietzche Académie – Que importância tem Nietzsche para si?
Olivier Mathieu – Na minha biblioteca, ou se preferir, na minha biblioteca ideal, ocupa um espaço importante. Tenho quase vontade, já de seguida, de pedir que me queiram desculpar por preferir um tal lugar comum. Pergunto-me se há um único intelectual, um único escritor, um único artista que possa dizer que Nietzsche não teve importância para si. Houve tanto de Nietzsche. O Nietzsche da juventude, filólogo e músico, e para quem o encontro com Wagner é decisivo. E depois o Nietzsche a associação literário-musical “Germânia”, em 1860, com os seus amigos Gustav Krug e Wilhelm Pinder. Depois o Nietzsche que se debruça sobre a civilização grega. Partilho a visão de Nietzsche contra o racionalismo socrático, prelúdio da dissolução e da decadência. A obra de Nietzsche, em parte fragmentária e inacabada, é riquíssima e, no verdadeiro sentido do termo, genial. Por vezes contraditória, se queremos empregar esse termo. Ora por, ora contra Schopenhauer. Ora por, ora contra Wagner. São apenas exemplos. Mas, ao mesmo tempo, a sua obra não é tão contraditória como alguns pretendem. Vejo em Nietzsche um poeta como um filósofo. É um trágico, e é o poeta, o filósofo e o profeta da crise europeia. Um pensador mais importante, ou mais original, que Darwin e Marx. Sem falar de tudo o que nele influenciou Freud e Bergson.

NA – Que livro de Nietzsche recomendaria?
OM – Não é fácil recomendar um único livro de Nietzsche. Tanto mais que basta por vezes comparar duas traduções do mesmo livro para perceber que, de um tradutor para outro, não lemos a mesma coisa. Também não acredito que seja suficiente enumerar títulos. É qualquer coisa de muito fácil e muito banal. A obra de Nietzsche foi publicada em vida entre 1872 (“A Origem da Tragédia”) e 1888 (“O caso Wagner”). Se a sua primeira biografia data de 1895, e é obra do marido da sua irmã (Bernhard Förster-Nietzsche, “Das Leben F. Nietzsches”, Leipzig, 1895, em três volumes, segunda edição em 1904, etc.) é preciso dizer que outras obras suas, por vezes as mais importantes, foram publicadas a título póstumo. É difícil aconselhar apenas um dos seus livros. Creio que existem livros de Nietzsche (e poderíamos dizer o mesmo relativamente a outros autores) que deveriam ser lidos numa certa idade, por exemplo a partir da juventude, enquanto outros não deveriam ser apreendidos senão mais tarde. Se é suposto haver uma alquimia, uma alquimia real, entre um leitor e os livros de Nietzsche, então essa alquimia surge. Leituras complementares indispensáveis, as obras de Schopenhauer, mas também as de Heidegger: este último escreveu bastante sobre ele, nomeadamente o seu “Nietzsche”. Teria tendência a dar um conselho aos jovens que vão começar a ler Nietzsche, é evitar, na maioria dos casos, os prefácios dos “especialistas” de Nietzsche, ou de muitos deles. E pessoalmente, uma vez que mo pergunta, a minha preferência vai para as “Considerações inactuais” (1873-1876), em particular aquelas sobre Schopenhauer. Citei daí um extracto significativo no meu romance “La Quarantaine”, surgido em Novembro de 2002 e sobre o qual Michel Marmin falou na revista Élements.

NA – O que significa ser Nietzschiano?
OM – Nietzsche é único. E os nietzschianos são raros. Teria sido preciso talvez perguntar ao próprio Nietzsche o que ele considerava, ou não, como nietzschiano. Teria tendência, contudo, a responder-lhe por esta fórmula: em mil que lerão Nietzsche, cem compreendê-lo-ão muito ou pouco, mas apenas um será verdadeiramente capaz de o assimilar, de viver de modo “nietzschiano”, de o “incarnar”, de o prolongar. Não podemos, evidentemente, ou não deveríamos contentar-nos em “consumir” Nietzsche. E, naturalmente, prolongá-lo sem o trair não é coisa fácil, e isto é o mínimo que podemos dizer. Ser nietzschiano é gostar de Nietzsche, mas é também ter alguma probabilidade razoável de pensar que Nietzsche gostaria de quem o lê. O núcleo central de uma filosofia nietzschiana é, parece-me, a decadência da Europa. Os adversários são claramente definidos por ele, e chamam-se, para simplificar, cristianismo e racionalismo. Mas Nietzsche não é apenas isso. É também um estilo, um lirismo, uma inquietude. Nietzsche não é alguém que interpretou, ou não somente, é alguém que viveu, que profetizou, que anunciou, que elaborou. E quando falo em elaborar, falo também de um ponto de vista estilístico. Foi um mestre do estilo, um “forjador de aforismos”. De uma ponta à outra da sua vida, incluído, bem entendido, aquilo que chamámos a sua “loucura”( quer esta se tenha devido, ou não, à famosa “visita ao bordel” de 1865), foi um trágico. Respondendo numa palavra. Ser nietzschiano é ter o gosto do trágico.

NA – O nietzschianismo é de esquerda ou de direita?
OM – Nos anos que se seguiram à segunda guerra mundial é bem sabido que, em reacção à recuperação de que se acusou o nacional-socialismo de ter feito com Nietzsche, assistimos a uma tendência estritamente inversa. Nietzsche tornava-se assim, segundo muitos, um iluminista, e misturavam-no com Marx e Freud, e por fim foi estudado segundo uma visão que chamaria “intelectualista”, que ele próprio teria rejeitado. A recuperação do nietzschianismo, e o mesmo poderíamos dizer de milhares de outros pensadores (por exemplo Evola) foi apanágio tanto da esquerda como da direita, partindo do princípio que estes termos querem dizer alguma coisa. Na realidade vejo em Nietzsche um poeta, um filósofo trágico, melhor: o filósofo do trágico. E se há alguma coisa que não é de direita ou esquerda é o trágico. Quanto mais nos afastamos do lirismo, do estético, da literatura, da poesia, do trágico, mais nos aproximamos da tradição burguesa, do cristianismo, do monoteísmo, e mais nos afastamos de Nietzsche. Ou pelo menos, da ideia e imagem que dele faço, por o ter lido desde a minha juventude. Não pretendo, certamente, que a minha ideia seja a única possível. Mas reivindico o direito, justamente, de possuir, sobre este assunto como sobre qualquer outro, a minha própria ideia. Existiram centenas de interpretações do pensamento de Nietzsche. Já nos anos trinta, as de Jaspers e de Löwith são célebres. Um pouco mais tarde no tempo tivemos na Alemanha as interpretações nacional-socialistas, ou acusadas de o serem, das quais a mais famosa – mas não a única, de resto – é a de Alfred Baeumler, mesmo se ela surgiu dois anos antes da chegada de Hitler ao poder (Nietzsche, der Philosoph und der Politiker”, Leipzig, 1931). Tivemos a interpretação de Heidegger (surgida em 1961, ainda que fosse referente a cursos universitários dados entre 1936 e 1940). Em França, mais recentemente, lemos as interpretações, ou as exegeses de Georges Bataille (Somme athéologique, in: Sur Nietzsche”, Paris, 1945) mas também de Deleuze, Derrida, Klossowski. Na Alemanha, há vinte anos, Ernst Nolte realizou um ensaio interessante (Nietzsche und der Nietzscheanismus”, Frankfurt, Berlin, 1990). Em Itália, não somente Vattimo (que nunca me convenceu) mas também outros críticos frequentemente mais profundos como Giorgio Penzo, Mario Perniola, Carlo Sini, Vincenzo Vitiello, Giorgio Colli, Sergio Givone. Ora, todas as teses merecem ser lidas, creio, com espírito crítico, sem rejeitar nenhuma de antemão, ou melhor dizendo, sem rejeitar nenhuma completamente. Que as leiam por preocupação de informação e com sentido crítico. E que cada um escolha as hipóteses ou as teorias melhores, ou as mais exactas, ou as mais coerentes. Se é verdade que não há provavelmente ninguém, seja de direita ou esquerda, que tenha o direito de “recuperar” Nietzsche, em troca é verdade que alguns sofistas têm ainda menos esse direito.

NA – Que autores são nietzschianos?
OM – O primeiro que me vem ao espírito é Georges Sorel, evidentemente. O jovem Sorel foi “alimentado” por Marx e por Nietzsche. Existia nele a mesma convicção quanto à decadência da sociedade burguesa. A mesma glorificação da guerra. O mesmo desprezo, podíamos dizer, pelos erros da democracia liberal. Mas há mais do que Sorel. Nietzsche, como Kierkegaard de resto, influenciou profundamente todo o pensamento (nomeadamente, mas não exclusivamente, claro, o pensamento sobre a religião) das décadas que se seguiram à sua morte na terra, ocorrida em 25 de Agosto de 1900. Os primeiros livros que Abel Bonnard publicou, e que eram obras de poesia (penso, por exemplo, em “Royautés” que surge em 1908 e que já ninguém conhece) oferecem, a meu ver, pontos de vista verdadeiramente nietzschianos… 1908 que, aliás, é também, se não me engano, o ano do surgimento de “Ecce Homo”. Na literatura contemporânea, digamos aquela que surgiu após a segunda guerra mundial, há periodicamente um “regresso a Nietzsche”. Mas na verdade, não vejo um autor autenticamente nietzschiano, mesmo se poderia citar alguns que o desejariam ser, hoje em 2009, ou fazerem-se passar por tal. Mas é a rã que se quer fazer maior que o boi…a posteridade decidirá, provavelmente. Nietzschiano, podemos dizê-lo, é o pensador, o artista, o escritor, que não se limita à constatação e, direi eu, ao diagnóstico da doença que não podemos “não transportar” para a nossa época, mas que propõe – através do seu pensamento ou da sua arte – uma possível (ainda que cada vez mais difícil) cura. Nietzsche, podemos postulá-lo, pensava que uma cura era ainda possível. Hoje que diria ele? Não colocaria as minhas mãos no fogo…É evidente que à inversão de valores sucedeu a desaparição dos valores.

NA – Poderia dar uma definição do “Superhomem”?
OM – O conceito de “Superhomem”, em Nietzsche, evolui – como sabe – com o tempo. Podemos dizer o mesmo dos seus três grandes conceitos principais (Vontade de Poder, Eterno Retorno e Superhomem). Retenho, sobretudo de Zaratustra, que o Superhomem é de certa maneira aquele que conhece a vida na apoteose da alegria como da desventura. A palavra alemã é Übermensch. Enquanto em inglês se diz “Superman” (é claro que o superman da banda desenhada americana é apenas uma caricatura e a antítese do Superhomem nietzschiano). Na língua italiana é “Superuomo”, enquanto Gianni vattimo prefere frequentemente traduzir Übermensch por “Oltreuomo”(“além do homem”, “além-homem”). De qualquer forma, a definição mais imediata do “Superhomem” nietzschiano aplica-se àquele em que se encontraria desenvolvida a vontade de acção, ou mais exactamente a vontade de agir e pensar, expressão da “Vontade de Poder”. Este “Superhomem” nietzschiano situa-se (segundo a fórmula tornada famosa) “para lá do bem e do mal” e, sobretudo, creio, ele defende a sua própria existência contra tudo o que se aparenta à mediocridade. Consequentemente, diria que o Superhomem é o aristocrata. É essa, pelo menos para o próprio Nietzsche, parece-me, a concepção fundamental. O Superhomem nietzschiano é o aristocrata: o aristocrata de espírito. O Superhomem nietzschiano vejo-o como um conceito que se colocaria “muito mais alto que todas as coisas humanas” (Nietzsche, Agosto de 1881, em Sils Maria). Além disso, e para concluir, permito-me indicar um livro de Giorgio Locchi, surgido em 1983 nas edições Akropolis, de Nápoles, e que possuo na versão italiana, cujo título é “Wagner, Nietzsche e il mito sovrumanista”. Um livro com o qual não partilho forçosamente todos os pontos de vista, mas pouco importa, porque é um livro que merece ser lido. Não podemos dizer o mesmo sobre todos esses que balbuciam sobre Nietzsche com, frequentemente, um intelectualismo dos mais entediantes ou ridículos, ou com uma má-fé tal que nos leva às lágrimas de tanto rir. Ora, Nietzsche não é responsável pelo que diz dele uma posteridade que não é capaz de pensá-lo sem escapar a pesadas proibições políticas. Acho todas as cegueiras ideológicas, qualquer que seja o assunto, deploráveis.

NA – A sua citação favorita de Nietzsche?
OM – Haveria tantas. Inclusive na sua correspondência, por exemplo nas cartas que escreve, nas suas últimas semanas, a Burckhardt ou a Cosima Wagner. Penso frequentemente numa passagem em que Nietzsche fala dos que são capazes de “viver a História da forma mais pessoal”.