Categoria: Ética e Estética

Três conselhos apenas…

Mas Ega entendia que o Sr. Afonso da Maia devia descer à arena, lançar também a palavra do seu saber e da sua experiência. Então o velho riu. O quê! Compor prosa, ele, que hesitava para traçar uma carta ao feitor? De resto, o que teria a dizer ao seu país, como fruto da sua experiência, reduzia-se pobremente a três conselhos, em três frases — aos políticos: «menos liberalismo e mais carácter»; aos homens de letras: «menos eloquência e mais ideia»; aos cidadãos em geral: — «menos progresso e mais moral».

Eça de Queiroz, Os Maias

Mentalidade de esquerda

A forma como a esquerda acusa constantemente a Alemanha de ser culpada pela crise que afectou uma parte da Europa do sul, ou de não ser solidária com o resto da Europa, querendo que os alemães assumam, para saldar essa suposta culpa, as dívidas dos outros, é própria da natureza ideológica da esquerda.

A esquerda vive, tradicionalmente, do culto da vitimização do “fraco” e da culpabilização do “forte”. Os princípios de responsabilização própria são estranhos à esquerda. O fraco nunca o é por culpa das suas próprias limitações ou falhas mas sim porque é oprimido, enganado ou explorado pelo forte. A culpa nunca é do indivíduo, mas sim da sociedade, que não assume o seu dever de o tornar igual.

Se os governantes alemães pensaram a U.E. como uma forma de beneficiar a Alemanha e o seu povo fizeram muito bem. Quem, no sul da Europa, andou anos a aceitar subsídios para deixar de produzir e proceder à desindustrialização do próprio país, fez muito mal. Enquanto uns pensaram na sua pátria a médio-longo prazo, outros pensaram no seu bolso a curto prazo. A estupidez e a incompetência não têm nem devem de ser indemnizadas.

A mentalidade que sobressai nos constantes pedidos de solidariedade e ajuda, nas tentativas de obrigar o norte mais rico a partilhar os custos da falta de rigor, seriedade política e competência do sul, é equivalente à do inútil que não quis trabalhar ou não conseguiu produzir nada com excelência mas que se acha no direito de exigir subsídios aos que trabalharam mais e melhor.

Mas o que não é de esquerda vê o mundo de outra forma. Tem orgulho e não mendiga. Sente vergonha da sua própria ingenuidade quando compreende que foi iludido e sente vergonha das suas próprias incapacidades quando comparado com os que lhe foram superiores. Ele não esmola, armado em vítima, culpabilizando pela sua situação os que foram melhores ou mais inteligentes, nem sequer os que o enganaram. Põe as mãos no solo, levanta os joelhos do chão, aguenta em silêncio as dores, e diz: “muito bem, assumo as minhas próprias falhas, vou superar isto com o meu próprio esforço e sacrifício, sem ajudas, mas, nem que seja a última coisa que faça, prometo-vos que voltarei para vos olhar de cima!”

Descubra as diferenças

Presunção e água benta…

Cristiano Ronaldo, o gajo à direita na fotografia, diz que é hostilizado e assobiado nos campos de futebol por ser rico, bonito e um grande jogador.

É por isso que o gajo que está à esquerda na fotografia é admirado e aplaudido: é pobre, feio e fraco jogador.

No nosso mundo chamamos a isso…ética

«No nosso mundo, e não naquele da burguesia consumista, os actos essenciais da vida estão sujeitos a uma regra. Convém por princípio não a abandonar e ser sempre fiel à palavra dada. Chamamos a isso a ética…viver segundo a regra durante meros quinze dias para recair depois na doce frouxidão secular é uma farsa e uma mentira a si próprio…Que aqueles que vencem através da baixeza e que cantam a sua perfídia baptizando-a de vitória regressem ao seu mundo de ilusões. Não fazem parte da nossa “raça”. Ela está ligada à nossa identidade cultural, às nossas mitologias, às nossas crenças mais antigas de antes do cristianismo.»

Robert Dun

O Homem que permanece de pé entre as ruínas

Mourinhistas e isaltinistas

O episódio em que, aproveitando a confusão entre jogadores e técnicos do Real e do Barcelona, Mourinho, aproximando-se por trás de forma traiçoeira, agride o adjunto do clube rival, é a imagem sublimada do que ele sempre revelou ser: um mau carácter!

Infelizmente, a idolatria que em Portugal sempre se prestou àquele indivíduo revela também que uma boa parte do nosso povo não tem, igualmente, ética e verticalidade.

Em Portugal mostrou-se sempre um homem arrogante e desrespeitador dos adversários. Um hipócrita, sempre disposto a recorrer a jogos sujos quando necessário, mas muito célere em retirar todo o mérito a quem quer que lhe ganhasse (sim, porque na mente do “special one” ninguém o poderia superar por simples capacidade).

A idiolatria nacional a Mourinho revela dois vícios muito presentes no moderníssimo povinho português: um é o disfarçado complexo de inferioridade que se serve de qualquer triunfo individual para o transformar num triunfo de “todos nós”, outro é a avidez de dinheiro e fama sem olhar aos meios, para essa gente apenas importa o “sucesso”, a forma como isso se alcança é um pormenor irrelevante.

O problema é que o tipo de comportamentos que fizeram o sucesso de Mourinho em Portugal, incentivados, aliás, pelo clube que o lançou para o estrelato internacional e cuja filosofia é precisamente a de vencer a qualquer custo e servindo-se de quaisquer meios, por mais porcos que sejam, não são aceites noutros países, nem são considerados “engraçados”, ou traços de “inteligência” e “competência”, mas sim prova de torpeza. Mourinho não percebeu que em qualquer outro país do mundo que não Portugal, actos de corrupção futebolística como os que foram revelados no processo “Apito Dourado” teriam tido consequências judiciais e desportivas muito graves para os envolvidos. Se Mourinho não percebeu, a Itália já lhe tinha dado esse aviso e Espanha está a reforçar a mensagem: ou muda de atitudes ou vai enlamear outras paragens.

Os idólatras de Mourinho fazem-me lembrar os eleitores do Isaltino Morais em Oeiras: reconhecem-lhe a desonestidade e a falta de integridade moral mas isso não lhes interessa porque ele resolveu o problema do trânsito e construiu boas infra-estruturas. Aos do Mourinho não lhes interessa o carácter do homem porque ele vence, ganha muito dinheiro e tem muita fama (e ainda por cima no futebol, esse baluarte de projecção nacional no estrangeiro). É, definitivamente, a era da escória.

Também suspeito o mesmo…

“Suspeito que muitas das grandes mudanças culturais que abrem caminho para a mudança política são largamente fenómenos estéticos” – J.G.Ballard

Afinal, era um vencedor

Há muitos anos atrás passei um período da minha vida a estudar livros e jogar partidas de xadrez. Costumava passar horas num clubezinho da vila a treinar. Por lá passavam regularmente mais uns quantos obcecados – todos nós a levar aquilo muito a sério e convencidos de que, num dia bom e com as peças brancas, poderíamos empatar com qualquer GM – e mais uns entusiastas, menos pretensiosos do que nós, que jogavam por puro prazer.

Um desses entusiastas era um tipo com quem todos, os que estávamos convencidos de sermos bons, detestávamos jogar. Por um lado porque ele era muito amador (lembro-me que, em dezenas de jogos, nunca me conseguiu bater, o que significava que nunca era um desafio que exigisse tanto de mim como eu queria), e depois ele tinha uma característica particularmente irritante: por mais irrecuperável que fosse a sua posição no tabuleiro ele nunca desistia, nunca fazia cair o próprio rei, mesmo se não tivesse mais que um peão a defrontar rainha e cavalo continuava sempre a jogar até sofrer efectivamente o xeque-mate. No xadrez este tipo de atitude era considerada falta de civismo desportivo. Fazia-nos perder tempo que poderia ser empregue numa outra partida, quiçá mais interessante. Mas ele não percebia isso e sucedia-me muitas vez ter de gastar meia hora ou mais até conseguir dar-lhe xeque-mate, com ele sempre a mover o rei para evitar durante o maior número de jogadas o fatídico momento.

Depois, quando sofria então o “mate”, levantava-se, e com um genuíno sorriso apertava-me a mão como se tivesse passado o melhor bocado de tempo, e dizia educadamente: “Parabéns, gostei muito, foste um justo vencedor mas viste o quanto aguentei? Estou a melhorar, hã?”…na realidade nunca melhorou grande coisa e continuou sempre a perder; mas também a obrigar-me a jogar sempre, sempre, até à última jogada possível. “Porque razão não fizeste cair o rei no vigésimo movimento? Tinhas o jogo perdido…é aborrecido forçares-me a fazer todos estes movimentos desnecessários quando a partida estava resolvida” – dizia-lhe. “Não, nunca devemos desistir, devemos lutar sempre até ao fim, se não querem dar xeque-mate mudem de jogo.”- Respondia-me invariavelmente.

Por causa disso tinha uma alcunha (que eu acho que ele desconhecia): o “empata”. Era assim que falávamos dele lá no clube.

Entretanto mudei de terra, de hábitos e interesses, mudaram os amigos, os livros passaram a ser outros, e a memória afastou da minha vida aqueles momentos e os rostos daquele clubezinho.

Os anos passaram e, há pouco tempo, um desgraçado infortúnio numa actividade desportiva mais radical fez-me ficar com um braço ao peito. Estava um dia de baixa em casa, com um tédio tremendo e sem nada que fazer quando tive de passar pela velha terra para resolver um assunto de família. Quando dei por mim estava a passar ao lado do velho prédio onde, no segundo andar, havia o clube de xadrez…Fiquei a olhar para aquela varanda, com a porta entreaberta, e invadiu-me um sentimento de melancolia (mais pelos anos passados e pelo afastar da adolescência do que pelos momentos em si, julgo)

Decidi subir as escadas, que continuavam a ranger muito, e abri a porta. Olhei em volta e não reconheci ninguém…estava lá um par de velhos a jogar damas, e um miúdo novo a jogar xadrez com o pai (pelo menos assumi que fosse). Olharam para mim por breves instantes e os olhos regressaram aos tabuleiros. Eu sentei-me numa mesa vaga que tinha as peças de xadrez já dispostas. Fiquei talvez 15 minutos ali sentado a olhar para as peças mas com a cabeça noutra época. De repente a porta abre-se e vejo entrar um gajo com uma muleta, a andar de forma algo desengonçada. Assim que me pôs a vista em cima grita entusiasmado o meu nome, como se de um velho conhecido se tratasse, enquanto se desloca na minha direcção sem que eu reconhecesse a personagem. “Não acredito, pá! Há tantos anos…nunca mais ninguém te viu.” Disse-me, e prosseguiu com aquele “bláblá” até que, por fim, lá reconheci o velho “empata” (não me recordava do nome dele, confesso, só da alcunha) …

O tipo senta-se na minha mesa e começamos a pôr a conversa de circunstância em dia, “o que tens feito”, “estás casado?”, “como vai a família?”, etc…até que me pergunta o que me aconteceu ao braço. Explico-lhe e retribuo a pergunta: “Então, e a perna, andas com muleta?”

Foi então que me disse que tinha tido um acidente e que ficara com aquele problema permanente na perna. Há coisa de uns três anos que anda com a muleta. Deve ter descortinado a minha expressão de pena e pesar porque logo de seguida disse-me com um tom descontraído e alegre: ” não faz mal, pá, já nem ligo, há coisas mais graves na vida e podia ter sido pior…olha, podia agora não estar cá para ver a minha filhota, queres ver?” E mostra-me na carteira a fotografia de uma bebé.

E eu que tinha passado as últimas semanas a queixar-me por ter de andar com o braço ao peito e ter de vir a fazer uma cirurgia para corrigir definitivamente o problema!

Aproxima-se a hora de jantar, digo-lhe o quanto gostei de o ver e que tenho de ir andando para apanhar o comboio. “Nem pensar, antes temos de jogar uma partidinha, em nome dos velhos tempos, sabes que continuo a vir cá de vez em quando, mas raramente vejo a velha malta, muitos saíram daqui e nunca mais disseram nada” (aquela também era para mim).

Ele esconde duas peças nas mãos, uma branca e uma preta, “Escolhe a mão”. Escolho a direita e tenho sorte, saem-me as brancas (é uma vantagem porque são as brancas que abrem e ganham um tempo). “Deixa, joga tu de brancas”. “Não, não”, responde-me, o que é justo é justo.

Abro com e4 e ele responde com C5, é uma defesa “siciliana”…à 13º jogada, com surpresa, noto que tenho uma posição bastante desvantajosa, tenho o centro do tabuleiro perdido e começo a ficar com sérios problemas de espaço, tenho, para além disso, um peão estupidamente isolado, e um bispo muito mal colocado, quase inutilizado. Lembro-me de, aí, ter pensado que se estivesse a jogar contra outro que não o velho “empata” teria o jogo praticamente perdido…à 20ª jogada tenho de facto a partida perdida e à 25º desisto e faço cair o meu rei. “Porra, não acredito que perdi com este gajo”, foi a primeira coisa que me veio à mente.

Levanto-me e estendo-lhe a mão, e ele fica por momentos a olhar para mim e a abanar a cabeça em sinal de reprovação “Por que desististe?”, “O jogo estava perdido, não havia mais nada a fazer”, respondo-lhe. “Nunca devemos desistir, mesmo se a derrota é inevitável, é preciso lutar sempre até à última”. Foi a única vez em que não se mostrou sorridente e entusiasmado por ter jogado comigo. Nem acreditei naquilo, depois de ter perdido dezenas de jogos contra mim ao longo do tempo foi o único jogo que ganhou que não apreciou. “Bom tenho de ir, vê lá se apareces de vez em quando, pá”, recobrou o sorriso voltou-me costas e lá saiu a arrastar a perna, em esforço com a muleta, em direcção à porta.

Fiquei ali parado alguns segundos, até perceber que o Manuel (é esse o nome do “empata”) tinha uma filosofia que aplicava a tudo na vida, fossem quais fossem as circunstâncias ou as situações, ele nunca, mas nunca, desistia, nem aceitava que outros o fizessem.

Amor em tempos de cólera

No meio do caos dos motins ela caiu…ele correu e beijou-a.

(Fotografia de Richard Lam encontrada no Café da Insónia)