Categoria: Geopolítica

Declaração de posição

“Esgotados pela guerra, repelidos pelo destino, os chefes dos gregos, após tantos anos já passados, constroem, com a divina ajuda de Palas, um cavalo semelhante a uma montanha, e ajustam pranchas de abeto em seus flancos; fingem ser um voto pelo seu regresso; e a notícia de tal facto correu. Colocam em seu tenebroso flanco homens de escol, escolhidos pela sorte, e enchem-lhe as cavidades profundas e o ventre enorme de soldados armados.

(…) Vários contemplam com estupor a oferenda funesta feita à virgem Minerva e admiram a grandeza do cavalo; e, em primeiro lugar, Timoetes nos exorta a levá-la para dentro das muralhas e a colocá-la na cidadela, seja por dolo, seja porque já os fados de Tróia assim decretassem. Cápis, porém, e os que tinham o espírito melhor avisado queriam atirar ao mar ou entregar às chamas o presente insidioso e suspeito dos gregos ou furar as cavidades e sondar os esconderijos.”

Virgílio in Eneida, II

Nós, como os nossos companheiros de resistência no Brasil, como qualquer homem orgulhoso da sua linhagem europeia em qualquer parte do mundo, somos filhos da Europa. Não temos nada que ver com a cultura lusófona que se distancia da superior civilização europeia, com o seu mito do “bom selvagem”, a sua celebração da mestiçagem e dos ritmos tropicais. Que fique claro: A nossa pátria não é a língua portuguesa. Perante o Cavalo de Tróia, estaremos ao lado de Cápis enfrentando os discípulos de Timoetes!

As boas causas da nova ordem mundial

Estão a começar a ver o que se pretende aqui? Os governos deixarão, agora, de exercer qualquer controlo sobre algo significativo, para além do direito que a ONU lhes concede de partilharem a «governação». Estados – antes, se alguém vos invadisse, poderíeis esperar que a comunidade internacional viesse socorrer-vos; mas, agora, se tentardes sair do nosso sistema globalista ou vos desviardes, será a própria comunidade mundial que levará a cabo a invasão. É esse o significado de soberania exercida colectivamente! Porquê? Porque fareis parte de um Estado mundial que responde perante um poder único, isto é, as Nações Unidas. E para que sejas progressivamente enfraquecido até atingires o ponto de não resistência, nós estaremos diligentemente a dizer aos teus cidadãos, que as pessoas são mais importante que os Estados e a referir-nos a vós como «meras nações». Oh, e bem-vindos à nossa comunidade. Conjugadas com as suas recomendações de um desarmamento mundial – excepto no que se refere à ONU, é claro, que conservará uma impressionante, leal e fortemente armada «Força de Reacção Rápida» (conhecida também como «o exército do novo mundo») que deixará os Estados impotentes militarmente perante a agressão internacional sob a forma de «policiamento» (…)

Daniel Estulin, Clube Bilderberg – Os Senhores do Mundo, Temas e Debates, p.117

Evolucionismo israelo-palestiniano

Há um “Brasil” que não é de cultura africana

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«Nos últimos 50 anos, tornámo-nos muito mais brasileiros, graças à televisão e às ditaduras nacionalistas, que tentaram impor uma “identidade brasileira” a todos, mas ainda somos gaúchos. E gaúcho não é brasileiro, é gaúcho. Por isso nenhum estrangeiro consegue entender a absurda e contraditória frase dita por muitos gaúchos: primeiro gaúcho, depois brasileiro.

Quando vejo algo brasileiro aqui na Europa, observo-o com distância. Conheço, mas não é meu.(…) Quando vejo apresentações de Carnaval ou capoeira, é algo que conheço e até faz parte da minha realidade, mas não sou eu. No entanto, quando encontro alguém tomando chimarrão no meio da rua em Berlim, posso apontar e dizer: sou eu!
Pois esse “eu” chamado gaúcho ainda é o mesmo do mate, das pilchas, do vocabulário e do temperamento. É um povo à parte, com uma história à parte, que ainda vive nos três lados da Pampa (Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai) e que, mesmo separado e falando línguas diferentes, não aprendeu seus costumes na televisão. Ele é.»

Felipe Simões Pires, Professor de Filologia Alemã da Universidade de Berlim

A geopolítica por detrás da falsa guerra norte-americana no Afeganistão

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Um dos mais notáveis aspectos na agenda presidencial de Obama é quão pouco foi questionado nos media o motivo pelo qual o Pentágono está empenhado na ocupação militar do Afeganistão. Há dois motivos básicos, nenhum dos quais pode ser admitido abertamente em público.

Por trás do enganador debate oficial sobre quantos soldados são necessários para “vencer” a guerra no Afeganistão, se mais 30 mil são suficientes ou se pelo menos 200 mil são necessárias, o objectivo real da presença militar estado-unidense naquele país da Ásia Central é obscurecido.

Mesmo durante a campanha presidencial de 2008 o candidato Obama argumentou que era no Afeganistão e não no Iraque que os EUA deviam travar guerra. Por que razão? Ele argumentava que era onde a organização Al Qaeda estava escondida e que essa era a ameaça “real” à segurança nacional dos EUA. Mas as razões por detrás do envolvimento estado-unidense no Afeganistão são muito diferentes.

Os militares dos EUA estão no Afeganistão por duas razões. Primeiro para restaurar e controlar o maior fornecedor de ópio do mundo para os mercados da heroína e para utilizar as drogas como uma arma geopolítica contra oponentes, especialmente a Rússia. Aquele controlo do mercado da droga afegão é essencial para a liquidez da corrupta e falida máfia financeira de Wall Street.

Até mesmo de acordo com um relatório oficial da ONU, a produção de ópio no Afeganistão aumentou dramaticamente desde a queda do regime Taliban em 2001. Os dados da UNODC [United Nations Office on Drugs and Crime] mostram mais cultivo de papoila de ópio em cada uma das últimas quatro estações de plantio (2004-2007) do que em qualquer ano durante o domínio Talibã. Agora é utilizada mais terra para o ópio no Afeganistão do que para o cultivo de coca na América Latina. Em 2007, 93% dos opiáceos no mercado mundial tinham origem no Afeganistão. Isto não é acidental.

Foi documentado que Washington escolheu a dedo o controverso Hamid Karzai, um senhor da guerra pashtun da tribo Popalzai, há muito ao serviço da CIA, trouxe-o de volta do exílio nos EUA e criou uma mitologia hollywoodiana em torno da “corajosa liderança do seu povo”. Segundo fontes afegãs, Karzai é o “Padrinho” do Ópio no Afeganistão de hoje. Aparentemente não é por acaso que ele foi, e hoje ainda é, o homem preferido de Washington em Cabul. Mas mesmo com compra maciça de votos, fraudes e intimidações, os dias de Karzai como presidente podem estar a acabar.

A segunda razão para os militares dos EUA permanecerem no Afeganistão muito depois de o mundo ter até esquecido quem é o misterioso Osama bin Laden e a sua alegada organização terrorista Al Qaeda, ou mesmo se eles existem, é para construírem uma força de ataque com uma série de bases permanentes por todo o Afeganistão. O objectivo destas bases não é erradicar quaisquer células da Al Qaeda que possam ter sobrevivido nas cavernas de Tora Bora, ou erradicar míticos “Talibã”, os quais, nesta altura, segundo relatos de testemunhas oculares, são esmagadoramente comuns afegãos locais a combaterem, mais uma vez, para livrar a sua terra de exércitos de ocupação, como o fizeram na década de 1980 contra os russos.

O objectivo das bases dos EUA no Afeganistão é visar e ser capaz de atacar os dois países que hoje representam a única ameaça combinada no mundo a um império global americano, ou à Dominação de Espectro Amplo (Full Spectrum Dominance), como a chama o Pentágono.

O problema para as elites do poder em torno da Wall Street e em Washington é o facto de que agora estão na mais profunda crise financeira da sua história. Esta crise é clara para o mundo todo e o mundo está a actuar em busca da auto-sobrevivência. As elites dos EUA perderam o que na história imperial chinesa é conhecido como o “Mandato do Céu”. Tal mandato é dado ao governante ou à elite dirigente desde que governem o seu povo com justiça e de modo razoável. Quando governam tiranicamente e como déspotas, oprimindo e abusando do seu povo, eles perdem esse Mandato do Céu.

Se as poderosas elites privadas e ricas que têm controlado o essencial da política financeira e externa dos EUA durante a maior parte do século passado ou mais tinham um “mandato do céu”, elas perderam-no claramente. Os desenvolvimentos internos rumo à criação de um estado policial abusivo com privação de direitos constitucionais dos seus cidadãos, exercício arbitrário do poder por responsáveis não eleitos tais como os secretários do Tesouro Henry Paulson e agora Tim Geithner, a roubarem somas de biliões de dólares dos contribuintes sem o seu consentimento a fim de salvar da bancarrota os maiores bancos da Wall Street, bancos considerados “Demasiado grandes para falirem”, demonstram ao mundo que eles perderam o “mandato”.

Nesta situação, as elites do poder estado-unidense estão cada vez mais desesperadas por manter o controle de um império global parasita, chamado enganosamente pela máquina dos seus media, como “globalização”. Para manter o domínio é essencial que eles sejam capazes de romper qualquer cooperação que venha a emergir entre as duas maiores potências da Eurásia no âmbito económico, energético ou militar, a qual poderia apresentar um desafio aos EUA como super-potência única — a China em combinação com a Rússia.

Cada potência euro-asiática traz à mesa contribuições essenciais. A China tem a economia mais robusta do mundo, uma enforme força de trabalho jovem e dinâmica, uma classe média educada. A Rússia, cuja economia não está recuperada do fim destrutivo da era soviética e do saqueio primitivo durante a era Yeltsin, ainda possui activos essenciais para a combinação. A força de ataque nuclear russa e o seu poder militar representam a única ameaça no mundo de hoje à dominação militar dos EUA, ainda que em grande medida seja um resíduo da Guerra Fria. As elites militares russas nunca abandonaram aquele potencial.

A Rússia também possui o maior tesouro do mundo em gás natural e vastas reservas de petróleo de que a China necessita urgentemente. As duas potências estão a convergir cada vez mais através de uma nova organização que criaram em 2001, conhecida como a Organização de Cooperação de (SCO). Esta inclui também os maiores estados da Ásia Central: Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão.

O objectivo da alegada guerra estado-unidense contra os Talibã e a Al Qaeda é na realidade colocar a sua força militar de ataque directamente no meio do espaço geográfico desta emergente SCO na Ásia Central. O Irão é um desvio de atenção. O objectivo ou alvo principal é a Rússia e a China.

Oficialmente, é claro, Washington afirma que construiu a sua presença militar no interior do Afeganistão a partir de 2002 a fim de proteger uma “frágil” democracia afegã. É um argumento curioso dada a realidade da presença militar estado-unidense ali.

Em Dezembro de 2004, durante uma visita a Cabul, o secretário da Defesa Donald Rumsfeld finalizou planos para construir nove bases no Afeganistão nas províncias de Helmand, Herat, Nimrouz, Balkh, Khost e Paktia. As novas somam-se às três principais bases militares dos EUA já instaladas na sequência da sua ocupação do Afeganistão no Inverno de 2001-2002, ostensivamente para isolar e eliminar a ameaça de terror de Osama bin Laden.

O Pentágono construiu as suas primeiras três bases no Aeródromo de Bagram a Norte de Cabul, o principal centro logístico dos EUA; no Aeródromo de Kandahar, no Sul do Afeganistão; e no Aeródromo de Shindand na província ocidental de Herat. Shindand, a maior base dos EUA no Afeganistão, foi construído a meros 100 quilómetros da fronteira do Irão e a uma distância de ataque à Rússia e também à China.

Historicamente o Afeganistão tem sido o coração do Grande Jogo russo-britânico, a luta pelo controle da Ásia Central durante os séculos XIX e princípio do XX. A estratégia britânica era então impedir a todo o custo que a Rússia controlasse o Afeganistão e ameaçasse assim a jóia da coroa imperial britânica, a Índia.

Da mesma forma, o Afeganistão é encarado pelos planeadores do Pentágono, como sendo fundamental no plano estratégico. É uma plataforma a partir da qual o poder militar estado-unidense poderia ameaçar directamente a Rússia e a China, bem como o Irão e outras terras ricas em petróleo do Médio Oriente. Pouco mudou geopoliticamente ao longo de mais de um século de guerras.

O Afeganistão está situado num local extremamente vital, abarcando a Ásia do Sul, a Ásia Central e o Médio Oriente. O país também está situado ao longo de um proposto traçado de oleoduto dos campos petrolíferos do Mar Cáspio para o Oceano Índico, onde a companhia de petróleo americana Unocal, juntamente com a Enron e a Halliburton de Cheney, têm estado em negociações para obter o direito exclusivo de trazer gás natural do Turquemenistão através do Afeganistão e do Paquistão para a enorme central termoeléctrica a gás natural da Enron em Dabhol, próximo de Mumbai. Karzai, antes de se tornar o presidente fantoche dos EUA, foi um lobbista da Unocal.

A verdade sobre todo o logro quanto aos reais propósitos no Afeganistão torna-se clara com um olhar mais atento à alegada ameaça “Al Qaeda” no Afeganistão. Segundo o escritor Erik Margolis, antes dos ataques do 11 de Setembro de 2001, a inteligência dos EUA estava a dar ajuda e apoio tanto aos Talibã como à Al Qaeda. Margolis afirma que “A CIA estava a planear utilizar a Al Qaeda de Osama bin Laden para incitar uighurs muçulmanos contra a governação chinesa, e os Talibã contra aliados da Rússia na Ásia Central.

Os EUA evidentemente encontraram outros meios de jogar uighurs muçulmanos contra Pequim em Julho último através do seu apoio ao Congresso Mundial Uighur. Mas a “ameaça” Al Qaeda permanece a base da justificação de Obama para a sua escalada bélica no Afeganistão.

Agora, contudo, o Conselheiro de Segurança Nacional do presidente Obama, o antigo general dos Fuzileiros Navais James Jones, fez uma declaração, a qual foi convenientemente enterrada pelos media amigos dos EUA, acerca da importância estimada do perigo actual da Al Qaeda no Afeganistão. Jones disse ao Congresso que “A presença da al Qaeda está muito diminuída. A estimativa máxima é de menos de 100 operacionais no países, sem bases, sem capacidade para lançar ataques sobre nós ou nossos aliados”.

Isto significa que a Al Qaeda, para todos os propósitos práticos, não existe no Afeganistão. Au…

Mesmo no vizinho Paquistão, os remanescentes da Al Qaeda mal podem ser encontrados. O Wall Street Journal relata: “Caçados por drones [aviões sem piloto] dos EUA, aflitos por problemas de dinheiro e descobrindo ser mais difícil atrair jovens árabes para as negras montanhas do Paquistão, a Al Qaeda está a ver o seu papel reduzir-se ali e no Afeganistão, segundo relatórios de inteligência e responsáveis do Paquistão e dos EUA. Para jovens árabes, que são os recrutas primários da al Qaeda, “não é romântico estar no frio, com fome e escondido”, disse um responsável superior dos EUA no Sul da Ásia.

Se levarmos a declaração à sua consequência lógica devemos concluir então que a razão para soldados alemães estarem a morrer juntamente com outros jovens da NATO nas montanhas do Afeganistão nada tem a ver com “vencer uma guerra contra o terrorismo”. Convenientemente a maior parte dos media prefere esquecer o facto de que a Al Qaeda, na medida em que alguma vez existiu, foi uma criação da CIA na década de 1980, a qual recrutou e treinou radicais muçulmanos como parte de uma estratégia desenvolvida pelo chefe da CIA da administração Reagan, Bill Casey, e outros, a fim de criar “um novo Vietname” para a União Soviética que levaria a uma humilhante derrota do Exército Vermelho e ao colapso final da União Soviética.

Agora, o general Jones do Conselho de Segurança Nacional dos EUA admite que, no essencial, não há mais qualquer Al Qaeda no Afeganistão. Talvez seja tempo para um debate mais honesto dos nossos líderes políticos acerca do verdadeiro propósito de enviar mais jovens para a morte enquanto protegem as colheitas de ópio do Afeganistão.

F. William Engdahl

Entrevista sobre uma das divisões infantis do nacionalismo europeu

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Já não deposita esperança, como antes ou como alguns “nacional-revolucionários”, no mundo árabe-muçulmano?

Todas as tentativas anteriores de criar um eixo ou uma concertação entre os dissidentes construtivos da Europa manipulada e os parceiros do mundo árabe considerados “Estados-Pária” saldaram-se por falhanços. Os colóquios líbios da “Terceira Teoria Universal” deixaram de existir aquando da aproximação entre Khadaffi e os Estados Unidos e desde que o líder líbio adoptou políticas anti-europeias, nomeadamente participando recentemente no mobbing (mobilização mediática para fazer pressão política) contra a Suíça, um mobbing em curso desde há uns bons 10 anos e que encontrou novo pretexto para continuar depois da famosa votação sobre os minaretes.

O líder nacionalista Nasser desapareceu para ser substituído por Sadat e depois por Moubarak, que são aliados muito preciosos dos EUA. A Síria participou na perseguição ao Iraque, última potencia nacional árabe, eliminada em 2003, apesar do efémero e frágil eixo entre Paris, Berlim e Moscovo. As crispações fundamentalistas declaram guerra ao Ocidente sem fazer distinção entre a Europa manipulada e o Hegemon americano, com o seu apêndice israelita. Os fundamentalistas opõem-se aos nossos modos de vida tradicionais e isso é inaceitável, como são inaceitáveis todos os proselitismos do mesmo tipo: a noção de jahiliyah (idolatria a destruir) é para todos perigosa, subversiva e inaceitável; é ela que veicula esses fundamentalismos, logo à partida instrumentalizando contra os estados nacionais árabes, contra os resíduos de sincretismo otomano ou persa e depois por parte das diásporas muçulmanas na Europa contra todas as formas de politicas não fundamentalistas, nomeadamente contra as instituições dos Estados de acolhimento e contra os costumes tradicionais dos povos autóctones.

Uma aliança com estes fundamentalismos obrigar-nos-ia a renunciarmos ao que somos, do mesmo modo como exige o Hegemon americano, a exemplo do Grande Irmão do romance 1984 de Georges Orwell, exigem que rompamos com os recursos íntimos da nossa historia. O prémio Nobel da literatura Naipaul descreveu e denunciou perfeitamente este desvio na sua obra, evocando principalmente as situações que prevalecem na índia e na Indonésia. Neste arquipélago, o exemplo mais patente, aos seus olhos, é a vontade dos integristas de se vestirem segundo a moda saudita e imitar os costumes da península arábica, quando estas vestimentas e estes costumes eram diametralmente diferentes dos do arquipélago, onde há muito tempo reinava uma síntese feita de religiosidades autóctones e de hinduísmo, como atestam, por exemplo, as danças de Bali.

A ideologia inicial do Hegemon americano é também um puritanismo iconoclasta que rejeita as sínteses e os sincretismos da “Merry Old England” (1), do humanismo de Erasmo, do Renascimento Europeu e das políticas tradicionais da Europa. Neste sentido partilha bom número de denominadores comuns com os fundamentalismos islâmicos actuais. Os Estados Unidos, com o apoio financeiro dos Wahabitas sauditas, manipularam estes fundamentalismos contra Nasser no Egipto, contra o Xá do Irão (culpado de querer desenvolver a energia nuclear), contra o poder laico no Afeganistão ou contra Saddam Hussein, puxando provavelmente ao mesmo tempo alguns cordelinhos no assassinato do rei Faycol, “culpado” de querer aumentar o preço do petróleo e de se ter aliado, nesta óptica, ao Xá do Irão, como brilhantemente mostrou o geopolitólogo sueco, William Engdahl, especialista de geopolítica do petróleo. Acrescentemos de passagem que a actualidade mais recente confirma esta hipótese: o atentado contra a guarda republicana islâmica iraniana, os problemas ocorridos nas províncias iranianas com o fim de destabilizar o país, são obra de integrismos sunitas, manipulados pelos Estados Unidos e a Arábia Saudita contra o Irão de Ahmadinedjad, acusado de recuperar a política nuclear do Xá! O Irão respondeu apoiando os rebeldes zaiditas/xiitas do Yemen, retomando assim uma velha estratégia persa, anterior ao surgimento do Islão!

Os pequenos fantoches que se gabam de ser autênticos nacional-revolucionários e que se deleitam em todo o tipo de farsas pró-fundamentalistas são, na verdade, bufões alinhados por Washington por dois motivos estratégicos evidentes:

1- Criar a confusão no seio dos movimentos europeístas e fazê-los aderir aos esquemas binários disseminados pelas grandes agencias mediáticas americanas que orquestram por todo o mundo o formidável “soft power” de Washington;
2- Provar urbi et orbi que a aliança euro-islâmica (euro-fundamentalista) é a opção preconizada por “perigosos marginais”, por “terroristas potenciais”, pelos “inimigos da liberdade”, por “populistas fascizantes ou cripto-comunistas”.

Neste contexto encontramos também as redes ditas “anti-fascistas”, agitando-se contra fenómenos assimilados, mal ou bem, a uma ideologia política desaparecida desde há 65 anos. No teatro mediático, colocado em prática pelo “soft power” do Hegemon, temos, de uma parte, os idiotas nacional-revolucionários ou neo-fascistas europeus zombificados, mais ou menos convertidos a uma ou outra expressão do wahabismo e, de outra parte, os anti-fascistas caricaturais, largamente financiados com o propósito de mediatizar os primeiros (…).Todos têm o seu papel a desempenhar, mas o encenador é o mesmo e conduz a comédia com mestria. Tudo isto resulta num espectáculo delirante, apresentado pela grande imprensa, igualmente descerebrada.(…)

(…) Efectivamente, é forçoso constatar que o fundamentalismo judaico-sionista é igualmente nefasto ao espírito e ao politico quanto as suas contra-partes islamistas ou americano-puritanas. Todos, uns como outros, estão afastados do espírito antigo e renascentista da Europa, de Aristóteles, de Tito Lívio, de Pico della Mirandola, de Erasmo ou Justo Lipsio. Perante todas estas derivas, nós afirmamos, em alto e bom som, um “non possumus”!Europeus somos e europeus permaneceremos, sem nos disfarçarmos de beduínos, de founding fathers ou de sectários de Guch Emunim.

Não podemos classificar como anti-semita a rejeição desse pseudo-sionismo ultra-conservador que recapitula de maneira caricatural aquilo em que pensam políticos de aparência mais refinada, quer sejam likudistas ou trabalhistas, constrangidos a rejeitar os judaísmos mais fecundos para melhor desempenharem o seu papel no cenário do Próximo e Médio Oriente imaginado pelo Hegemon. O sionismo, ideologia inicialmente de facetas múltiplas, decaiu para não ser mais que o discurso de marionetas tão sinistras quanto os wahabitas. Todo o verdadeiro filo-semitismo humanista europeu mergulha, pelo contrário, em obras bem mais fascinantes: as de Raymond Aron, Henri Bergson, Ernst Kantorowicz, Hannah Arendt, Simone Weil, Walter Rathenau, para não citar mais que um pequeno punhado de pensadores e filósofos fecundos. Rejeitar os esquemas de perigosos simplificadores não é anti-semitismo, anti-americanismo primário ou islamofobia. Diga-se de uma vez por todas!

Excerto de uma entrevista a Robert Steuckers conduzida por Philippe Devos-Clairfontaine (Bruxelas, 7 de Dezembro de 2009)

Dossier Irão (2) – A escolha do povo

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O resultado das eleições no Irão pode reflectir a vontade do povo iraniano. Muitos especialistas alegam que a margem da vitória do presidente incumbente Mahmoud Ahmadinejad é o resultado de fraude ou manipulação, mas a nossa sondagem à escala nacional entre os iranianos, realizada três semanas antes do voto, revelou que Ahmadinejad liderava por uma margem superior a 2 contra 1 – maior portanto do que a sua aparente margem de vitória nas eleições de sexta-feira.

Enquanto as notícias ocidentais de Teerão nos dias que antecederam as eleições retratavam um público iraniano entusiasmado com Mir Hossein Mousavi, o principal opositor de Ahmadinejad, a nossa amostra científica das 30 províncias do Irão revelava que Ahmadinejad estava bastante à frente.

Sondagens do Irão à escala nacional , independentes e sem censura, são raras. Tipicamente as sondagens pré-eleitorais são ali ou monitorizadas ou conduzidas pelo governo e manifestamente pouco confiáveis. Em contraste, a sondagem conduzida pelas nossas organizações sem fins lucrativos, de 11 a 20 de Maio, foi a terceira de uma série durante os últimos dois anos. Conduzida por telefone a partir de um país vizinho, o trabalho de campo foi realizado em farsi por uma empresa de sondagens cujo trabalho na região para a ABC News e a BBC recebeu um prémio Emmy. A nossa sondagem foi financiada pelo Rockefeller Brothers Fund.

A extensão do apoio a Ahmadinejad foi aparente no nosso inquérito pré-eleitoral. Durante a campanha, por exemplo, Mousavi enfatizou a sua identidade azeri, o segundo maior grupo étnico no Irão a seguir aos persas, para atrair os votantes azeri. Contudo, a nossa sondagem indicou que os azeri favoreciam Ahmadinejad contra Mousavi numa proporção de 2 para 1.

Muitos comentários retrataram a juventude iraniana e a internet como sinais da mudança que estava para vir nestas eleições. Mas o nosso inquérito revelou que apenas 1/3 dos iranianos têm sequer acesso à internet, enquanto a faixa etária dos 18 aos 24 anos representava de todas a que maior apoio dava a Ahmadinejad.

Os únicos grupos demográficos onde na nossa sondagem Mousavi liderava ou era competitivo com Ahmadinejad eram estudantes universitários e licenciados juntamente com os iranianos de rendimento mais elevado. Quando a nossa sondagem teve lugar, quase 1/3 dos iranianos estavam também ainda indecisos. Contudo a distribuição de resultados que encontrámos na altura espelha os resultados reportados pelas autoridades iranianas, indicando a possibilidade de que o voto não foi o produto de uma fraude.

Alguns podem argumentar que o apoio professado a Ahmadinejad que encontrámos reflectia simplesmente a relutância receosa dos inquiridos em dar respostas honestas aos investigadores. No entanto, a integridade dos nossos resultados é confirmada pelas respostas politicamente perigosas que os iranianos estiveram dispostos a dar a uma série de perguntas. Por exemplo, quase 4 em cada 5 iranianos – incluindo a maior parte dos apoiantes de Ahmadinejad – disseram que queriam mudanças no sistema político para lhes dar o direito de elegerem o Líder Supremo do Irão, que não é actualmente sujeito a voto popular. Similarmente, os iranianos escolheram eleições livres e uma imprensa livre como as maiores prioridades para o seu governo, virtualmente empatadas com a melhoria da economia nacional. Estas foram respostas que dificilmente podemos considerar “politicamente correctas” para serem proferidas publicamente numa sociedade largamente autoritária.

De facto, e consistentemente em todas as nossas três sondagens durante os últimos dois anos, mais de 70% dos iranianos também expressaram o seu apoio a que fosse concedida plena liberdade aos inspectores de armas no país e uma garantia de que o Irão não desenvolveria ou possuiria armas nucleares, em troca de ajuda e investimento externo. E 77% dos iranianos favoreciam a normalização das relações e comércio com os EUA, outro resultado consistente com as nossas conclusões anteriores.

Os iranianos vêem o seu apoio a um sistema mais democrático e relações normais com os EUA como sendo consonante com o seu apoio a Ahmadinejad. Não querem que ele continue as suas políticas de linha dura. Na realidade, os iranianos aparentemente vêem Ahmadinejad como o seu negociador mais capaz, a pessoa melhor posicionada para conseguir uma decisão favorável – como um Nixon persa que se desloca à China.

Alegações de fraude e manipulação eleitoral servirão para isolar ainda mais o Irão e são passíveis de aumentar a sua beligerância e intransigência contra o mundo exterior. Antes de os outros países, incluindo os EUA, se precipitarem na conclusão de que as eleições presidenciais iranianas foram fraudulentas, com as graves consequências que essas acusações poderiam trazer, deveriam levar em consideração toda a informação independente. O facto pode simplesmente ser que a reeleição do presidente Ahmadinejad é o que o povo iraniano queria.

Ken Ballen and Patrick Doherty, The Washington Post,15 de Junho de 2009

Dossier Irão (1) – A orquestração de uma nova “revolução colorida”

Serão os protestos nas eleições iranianas mais uma “revolução das cores” orquestrada pelos EUA?

Um certo número de comentadores expressou a sua crença idealística na pureza de Mousavi, Montazeri e na juventude ocidentalizada de Teerão. O plano de destabilização da CIA, anunciado há dois anos (ler abaixo), não teria, de alguma forma, influenciado os acontecimentos que se desenrolam.

O argumento é que Ahmadinejad falseou as eleições, porque o resultado foi anunciado demasiado cedo depois das urnas fecharem para que todos os votos tivessem sido contados. Contudo, Mousavi declarou a sua vitória várias horas antes das urnas sequer fecharem. Isto são métodos clássicos de destabilização da CIA desenhados para descredibilizar um resultado adverso. Obriga a um anúncio rápido dos votos. Quanto mais longo fosse o intervalo de tempo entre a declaração antecipada de vitória e a divulgação dos resultados da votação, maior seria o tempo que Mousavi teria para criar a impressão de que as autoridades estavam a utilizar o tempo para manipular os votos. É espantoso que as pessoas não percebam este truque.

Quanto à acusação do grande aiatola Montazeri de que a eleição foi fraudulenta, relembremos que ele era a primeira escolha para suceder a Khomeini mas que perdeu para o actual Líder Supremo. Ele vê nos protestos uma oportunidade para ajustar contas com Khamenei. Montazeri tem o incentivo para desafiar o resultado das eleições quer esteja ou não a ser manipulado pela CIA, que tem uma história de sucesso na manipulação de políticos descontentes.

Há uma luta de poder entre os aiatolas. Muitos estão alinhados contra Ahmadinejad porque ele os acusou de corrupção, apelando assim ao Irão profundo, onde muitos iranianos pensam que o estilo de vida dos aiatolas indica um excesso de poder e dinheiro. Na minha opinião, o ataque de Ahmadinejad aos aiatolas é oportunista. Contudo, torna-se complicado para os seus detractores americanos dizerem que ele é um conservador reaccionário alinhado com os aiatolas.

Os comentadores “explicam” as eleições iranianas baseados nas suas próprias ilusões, desilusões, emoções e interesses escondidos. Quer os resultados anunciando a vitória de Ahmadinejad sejam ou não sólidos, não há, até ao momento, nenhuma evidência concludente de que a eleição foi fraudulenta. Há contudo informações credíveis de que a CIA trabalha há dois anos para destabilizar o governo iraniano.

Em 23 de Maio de 2007, Brian Ross e Richard Esposito relataram na ABC News:

“A CIA recebeu aprovação presidencial para montar uma operação secreta para destabilizar o governo Iraniano, disseram à ABC News actuais e antigos agentes dos serviços de informação”

A 27 de Maio de 2007, o The Telegraph londrino escreveu:

“ Bush assinou um documento oficial aprovando planos para uma campanha de propaganda e desinformação com o objectivo de destabilizar, e eventualmente derrubar, o governo teocrático dos mullahs”

Alguns dias antes, a 16 de Maio de 2007, o The Telegraph informava que o neocon John Bolton lhes havia dito que um ataque militar americano ao Irão seria “uma ‘última opção’, para o caso das sanções económicas e das tentativas de fomentar uma revolução popular falharem”.

Em 29 de Junho de 2008 Seymour Hersh escrevia no New Yorker:

“Em finais do ano passado, o Congresso deu o seu acordo a uma proposta do presidente George Bush para financiar uma grande escalada de operações secretas contra o Irão, segundo antigas e actuais fontes militares, dos serviços secretos e do Congresso. Estas operações, para as quais o presidente conseguiu cerca de quatrocentos milhões de dólares, foram descritas numa directiva presidencial assinada por Bush e destinam-se a destabilizar a liderança religiosa do país”

Os protestos em Teerão têm, sem dúvida, muitos participantes sinceros. Mas os protestos têm também a marca dos protestos orquestrados pela CIA na Geórgia e na Ucrânia.

É necessária completa cegueira para não ver isto.

Daniel McAdams levantou sobre isso algumas questões significativas.

Por exemplo, o neoconservador Kenneth Timmerman escreveu no dia anterior às eleições :”Há rumores de uma ‘revolução verde’ em Teerão”. Como é que Timmerman saberia isso se não fosse um plano orquestrado? Por que haveria uma ‘revolução verde’ preparada antes dos resultados dos votos, especialmente se Mousavi e os seus apoiantes estavam tão confiantes na vitória como afirmavam? Isto parece uma definitiva evidência de que os EUA estão envolvidos nos protestos eleitorais.

Timmerman prossegue e escreve que “a National Endowment for Democracy gastou milhões de dólares a promover as revoluções das cores”…algum desse dinheiro parece ter chegado às mãos de apoiantes de Mousavi, que têm ligações a organizações não-governamentais fora do Irão financiadas pela National Endowment for Democracy. A organização neocon Foundation for Democracy in Iran do próprio Timmerman é ”uma organização privada, sem fins lucrativos, estabelecida em 1995 e financiada pela National Endowment for Democracy (NED) para promover a democracia e padrões internacionalmente reconhecidos de direitos humanos no Irão”

Paul Craig Roberts

Obama – a mudança na continuidade

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«Num notável esforço de propaganda, o império anglo-saxónico conseguiu restaurar a imagem dos Estados Unidos democráticos e responsáveis que George W. Bush não havia sabido preservar. Suscitando um vasto elã de simpatia por todo o mundo, Barack Obama usa o seu sorriso e elegância para continuar por outros meios a política predatória dos seus antecessores. Concede imunidade completa à Administração Bush, continua a ocupação do Iraque, reforça a do Afeganistão, abre discretos centros de tortura “off shore” ao mesmo tempo que encerra a demasiadamente falada prisão de Guantanamo, substitui as forças da NATO aos capacetes azuis da ONU, utiliza a crise económica para reforçar a exploração do terceiro-mundo pelo FMI e pelo Banco Mundial, utiliza as crises ecológicas para impor normas económicas assimétricas»

Réseau Voltaire

Porquê no Kosovo

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O que é que justifica o que sucedeu no Kosovo (deveríamos, até, dizer na Sérvia)? O longo processo que levou à criação de um Estado que nunca havia existido como tal, que não tinha qualquer tradição enquanto comunidade independente e singular, e em clara violação do chamado «direito internacional»?

O Kosovo está situado na zona geopolítica mais melindrosa da Europa. Os Balcãs são uma zona fulcral para a estabilidade do Continente, ou, dito inversamente, para qualquer eventual acção de destabilização. Prova-o a própria História.

Por outro lado, o Kosovo está bem localizado face às rotas energéticas europeias.

Acresce que é também uma região particularmente bem situada no seio do espaço de acção geopolítica da Rússia, pelo que reúne, assim, uma importância estratégica suplementar para a hegemonia internacional “ocidentalista”.

Para poder maximizar essas potencialidades estratégicas da região era importante dispor de uma base militar que pudesse funcionar como ponto de apoio. A guerra de desmembramento da Jugoslávia permitiu que isso fosse alcançado, com a subsequente construção de «Camp Bondsteel» no Kosovo, a maior base militar americana implantada no estrangeiro desde a guerra do Vietname, e que está apta a ser expandida e reequipada.

Esta base, para além, da capacidade de controlar a região balcânica, consegue ainda ajudar a projectar a capacidade de acção norte-americana para a região do Mar Cáspio e do Mar Negro, por onde passam (ou passarão) gasodutos e oleodutos fundamentais para diversificar rotas e fornecedores que permitam reduzir a importância da Rússia enquanto fornecedor energético.

Isto ajuda também a perceber a convergência da U.E., e dentro dela, talvez mais destacadamente, da Alemanha. A diminuição do raio de influência russa sobre a “Europa”, ou a oposta expansão do raio “europeu” sobre o espaço geopolítico russo, juntamente com a diminuição da dependência face à Rússia nas rotas, infra-estruturas e segurança do aprovisionamento energético, terá sido encarado como positivo por uma maioria de países e interesses conviventes na U.E.

O Kosovo tem ainda duas características que o tornaram apelativo:

– Sendo uma região bastante pobre é, por consequência, muito dependente da “ajuda” dos seus “aliados” internacionais, o que permite o estabelecimento de uma relação de subordinação face às fontes de financiamento.

– Muitos dos seus dirigentes estão, ou estiveram, ligados a redes mafiosas, sobretudo de narcotráfico (incluindo o actual primeiro-ministro Hashim Thaçi). É, pois, uma sociedade marcada por vastas teias de corrupção com fortes ligações aos poderes políticos.

Estas duas condições ajudam a fazer do Kosovo um excelente protectorado: é economicamente subjugável e dispõe de uma importante oligarquia passível de ser comprada.