Categoria: Geopolítica

Guerras contra a Europa…

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O escândalo rebentou na Eslovénia há cerca de duas semanas, quando o jornal Dnevnik revelou um documento interno do governo norte-americano enunciando directivas para a actuação do governo esloveno na presidência da U.E. (*)

O documento diz respeito a uma reunião ocorrida a 24 de Dezembro de 2007, entre o Secretário de Estado Adjunto norte-americano para os Assuntos Europeus, Daniel Fried, e o director político do Ministério dos Negócios Estrangeiros esloveno, Mitja Drobnic.

De entre essas directivas políticas destacam-se a importância da Eslovénia, na condição de país presidente da U.E., ser dos primeiros Estados a apoiar a independência do Kosovo e o apoio americano ao envio de polícias e juristas da U.E. para «ajudar» o novo país, contra a posição da Rússia.

(*) Ver, por exemplo, em Radio France Internacionale ou La Libre

O lobby judaico e a política americana

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À medida que os candidatos presidenciais norte-americanos se enfrentam para a liderança da única superpotência mundial há um assunto no qual todos, pelo menos em público, concordam – a relação dos EUA com Israel.

Para políticos proeminentes dos dois lados da divisão partidária essa relação especial é sacrossanta, largamente devido, dizem os críticos, ao poder dos grupos de lobbying pró-israelita.

Esses críticos também dizem que os grupos pró-Israel estão destinados a desempenhar um grande papel na vindoura batalha eleitoral, tanto em termos de financiamento dos candidatos como criticando publicamente qualquer candidato crítico de Israel ou da relação dos EUA com esse Estado.

John Mearsheimer, que, com Stephen Walt, é autor de uma controversa série de artigos e de um livro recente sobre o lobby israelita disse à Al Jazera: «Quase todos os principais candidatos fazem tudo para demonstrar o quão profundamente empenhados estão na relação especial dos EUA com Israel.

Dificilmente uma palavra crítica é dirigida a qualquer coisa que Israel faça, e isso deve-se à actividade do seu lobby.»

O que é o lobby pró-Israel?

O lobby é constituído por dúzias de comités de acção política pró-Israel que baseiam uma grande parte do seu apoio na comunidade judaica americana e financiam os candidatos presidenciais.

Mas os cristãos sionistas, que estão entre os mais vocais apoiantes de Israel nos EUA, também desempenham um papel de relevo.Acreditam que ao fortalecerem e apoiarem o Estado de Israel, estão mais próximos de apressarem a segunda vinda de Cristo como profetizado na Bíblia.

Na vanguarda do lobby está o American-Israel Public Affairs Committee (AIPAC) que trabalha sobretudo no congresso americano.Entre as suas recentes «vitórias» estão a decisão dos EUA de definirem a Guarda Revolucionária do Irão como uma organização terrorista, o assegurar da ajuda financeira dos EUA a Israel e o congelamento em 2006 da ajuda à Autoridade Palestiniana dirigida pelo Hamas.

Dinheiro e Poder

Os defensores do lobby israelita dizem que as opiniões dos candidatos presidenciais são na realidade um reflexo natural das opiniões da maioria dos americanos e que a questão tem pouca influência nas eleições.

Mas na política o dinheiro fala mais alto e os números contam uma versão diferente.

O Centre for Responsive Politics (CRP), que monitoriza o papel do dinheiro na política norte-americana, diz que os grupos e indivíduos pró-Israelitas já doaram mais de USD 845 000 a candidatos presidenciais na campanha de 2008 – 70% do qual para os Democratas.

Em toda a campanha presidencial de 2004 os interesses pró-Israel contribuíram com pelo menos USD 6,1 Milhões para candidatos federais e partidos.

«O dinheiro traduz-se em influência em Washington, por isso, geralmente, os interesses que gastam mais dinheiro terão mais influência e melhores resultados», diz Massie Ritch, director de comunicação no CRP.

E é fora da corrida presidencial e no congresso, que detém os cordões da bolsa da ajuda a Israel, que o lobby deixa a sua marca financeira.

O AIPAC e outros grupos gastaram mais de USD 1,5 Milhões em lobbying a nível federal em 2006 e mais de USD 1,25 Milhões na primeira metade de 2007, o que significa que este ano pode estabelecer um recorde para o lobby.

O lobby pró-Israel contabiliza cerca de ¼ de todo o dinheiro gasto pelos lobbies de política externa no Capitol Hill, diz o CRP.

Fluxo de Informação

Os esforços árabes para defender os seus interesses são, em contraste, mínimos.

A National Association of Arab-Americans e o American Arab Anti-Discrimination Committee divulgaram que gastaram apenas USD 80 000 em lobbying em 2006 e USD 40 000 no primeiro semestre de 2007.

O poder financeiro do lobby israelita também lhe permite providenciar informação unilateral aos políticos americanos, nem sempre familiarizados com as complexidades do conflito no Médio Oriente.

O AIPAC paga viagens educativas aos congressistas e seu pessoal – mais viagens do que qualquer outro patrocinador, segundo o CRP.

«Membros do congresso e respectivo pessoal foram mais vezes a Telavive nos anos recentes do que a Chicago», diz Ritch.

Acusações de anti-semitismo

Os defensores do AIPAC dizem que é aqui que a organização desempenha um papel importante, como fonte de informação para os políticos – incluindo os candidatos presidenciais americanos.

Mas os críticos dizem que os grupos de lobby pró-Israel vão muito mais longe – como afirma John Mearsheimer: «O lobby monitoriza atentamente o que os candidatos dizem.»

Em Março, o candidato democrata Barack Obama fez um discurso no Estado decisivo do Iowa em que disse: «Ninguém está a sofrer mais que o povo palestiniano.»

Um membro local do AIPAC contactou imediatamente os media para denunciar o comentário, descrevendo-o como «profundamente perturbador».

Em Julho, Jim Moran, um congressista democrata que havia criticado o AIPAC no passado, acusou a organização de instigar a guerra no Iraque.

Dezassete membros do congresso escreveram imediatamente uma carta a Moran condenando-o e afirmando que as suas declarações «encaixavam nos estereótipos anti-semitas que alguns usaram historicamente contra os judeus».

Eric Cantor, um dos líderes dos republicanos na Câmara dos Representantes, terá supostamente ido mais longe e é citado como tendo afirmado: « Infelizmente Jim Moran adquiriu agora o hábito de agredir a comunidade judaica americana. Julgo que os seus comentários são reprováveis, julgo que são anacrónicos, e remontam aos tempos de Adolf Hitler.»

Num semelhante clima político é fácil de ver por que é que os que procuram um lugar na Sala Oval se coíbem de falar em qualquer alteração na política externa americana face a Israel ou contra o AIPAC.

A acusação de anti-semitismo é usada regularmente pelo lobby israelita e foi uma das acusações enfrentadas por John Mearsheimer.

«Não somos anti-semitas e o livro não é anti-semita», diz. «Chamar anti-semitas aos críticos da política israelita ou da relação dos EUA com o Estado judaico é procedimento operacional normal para o lobby. É a estratégia normal que usam para silenciar o criticismo face a Israel e para marginalizar os seus críticos.»

Intervenção Militar

Para além da política eleitoral , os críticos do lobby dizem que os grupos de pressão pró-israelitas, depois de instigarem a guerra no Iraque, estão agora a advogar uma acção militar contra o Irão.

«Se se olhar para quem está a incitar os EUA a intervir militarmente contra o Irão, as duas forças motrizes são Israel e o lobby israelita», diz Mearsheimer.

Jim Moran, numa entrevista à Tikkun, uma revista judaica pacifista, disse que a intervenção americana contra o Irão é proposta apenas porque aquele Estado é uma ameaça para Israel.

«Ninguém sugere que o Irão é uma potencial ameaça para os EUA», disse, «como o Iraque nunca poderia ter sido.Com efeito, os mesmos indivíduos e grupos que pressionaram para a guerra com o Iraque estão a fazê-lo no sentido de uma guerra com o Irão.»

O AIPAC, contudo, nega veementemente, que esteja a pedir algo mais que sansões.
«O AIPAC apenas advoga sanções como a melhor forma de impedir o Irão de adquirir armas nucleares ou a capacidade de as produzir, disse à Al Jazeera Josh Block, um porta-voz do AIPAC.

Verdadeira Amizade

Mearsheimer argumenta que os EUA têm de normalizar a sua relação com Israel, tratando-o como tratam o Reino Unido, a Alemanha ou a Índia.

Ele e outros críticos, tanto de dentro como de fora da comunidade judaica americana, argumentam que Israel também sofre com a sua posição privilegiada em termos de ajuda americana.

Acreditam que o apoio do lobby israelita nos EUA encoraja Israel a agir sem receio de sanções internacionais.

Isto encorajou os lideres israelitas a aprovar a ocupação ilegal de terras palestinianas, a construção de colonatos e a prossecução de inúmeras violações de direitos humanos por parte do exército israelita.

«Se estes candidatos presidenciais fossem amigos verdadeiros de Israel, como afirmam ser, não só o criticariam pelas suas políticas nos territórios ocupados…mas estariam também a defender que os EUA pusessem significativa pressão sobre Israel e os palestinianos para alcançarem um acordo para a criação de dois Estados», afirmou Mearsheimer.

«Isso é o que um verdadeiro amigo faria».

Rob Winder

Rússia: A restauração com Putin e novas perspectivas geopolíticas

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Se se evoca a restauração putiniana na Rússia, depois da terrível deterioração sofrida pela antiga superpotência comunista sob o reino, bem vistas as coisas bastante breve de Ieltsin (1), convém fazê-lo correctamente: não simplesmente para enunciar factos diferentes que concernem a um mundo diferente do nosso, mas na perspectiva de construir uma alternativa geopolítica sólida face aos projectos de subjugação da Europa e do resto do mundo, cultivados pela única superpotência ainda em vigor, a saber: os Estados Unidos.

Esta perspectiva geopolítica não poderia ser uma construção do espírito, totalmente nova, sem raízes. As relações euro-russas têm, pelo contrário, raízes antigas e o eixo Paris-Berlim-Moscovo que preconizava, por exemplo, Henri de Grossouvre é, para além de uma imperiosa necessidade, o prolongamento e a reactualização de um projecto velho de cerca de um quarto de milénio. A perspectiva euro-asiática, na nossa família política infelizmente reduzida em número e estatuto, refere-se muito frequentemente ao sonho do nacional-bolchevista alemão Ernst Niekisch que havia imaginado, nos anos 20 e 30 do século passado, uma aliança germano-eslava, fundada sobre o campesinato e o proletariado, pronta a transformar um Ocidente pútrido, ideologicamente agarrado aos esquematismos do iluminismo do século XVIII. Mais fundamentalmente, percebemos, hoje, depois do inevitável desvio por Niekisch, os prelúdios coerentes do eixo de Henri de Grossouvre na aliança dos três imperadores sob Bismarck, sob os Czares germanófilos do século XIX e na aliança de facto que, no último quarto do século XVIII, unia a França de Louis XVI, a Áustria e a Rússia de Catarina II, permitindo vencer a talassocracia Inglesa em Yorktown em 1783 e correr com os Otomanos do Mar Negro contendo-os nos Balcãs (2). A Revolução Francesa arruinará esta unidade e estas conquistas, que poderiam ter salvo a Europa, permitindo-a manter a sua coerência e finalizar o assalto contra os Otomanos.

1759: Ano Chave

Mas já antes desta aliança geral, nas vésperas de 1789, a França, a Áustria e a Rússia haviam unido as suas forças durante a Guerra dos Sete Anos. Um historiador inglês actual acaba de demonstrar que este conflito interior europeu havia permitido à Inglaterra, potência insular situada à margem do Continente, lançar as bases reais do seu futuro império extra-europeu, a partir do ano chave que foi 1759 (3). A arte dos historiadores anglo-saxónicos de remeter a história inteligentemente em perspectiva traz também à nossa memória viva dois factos geoestratégicos tornados permanentes: 1) Utilizar uma potência europeia para desequilibrar o continente e romper a sua união, o instrumento desta estratégia foi à época a Prússia; 2) Aproveitar as guerras internas europeias para levar a guerra para fora da Europa, aproveitando frentes mais desguarnecidas e daí retirar fortes dividendos territoriais e estratégicos sem grandes perdas e sem grandes gastos, como foi o caso no Canadá e na Índia, de onde foi expulsa a França.

Quando analisamos hoje o despertar russo com Putin, é, então, na perspectiva de reencontrar as alianças estratégicas estabilizadoras de antes de 1789, onde as ideologias modernas, beligerantes ao extremo apesar do seu pacifismo auto-declarado, não desempenhavam ainda nenhum papel destabilizador. Entremos agora no cerne do problema.

De Gorbachev a Ieltsin, a Rússia parecia galopar directamente em direcção ao Caos, em direcção a uma nova «Smuta», um novo «Tempo de Dificuldades»: Perda do glacial leste europeu, perda da periferia báltica e caucasiana, perda das conquistas territoriais na Ásia central, etc., queda da moeda e deterioração social e demográfica a toda a linha. Ieltsin foi uma figura desde o início positivamente mediatizada por haver anunciado o fim do comunismo, empoleirado num carro de assalto; mas apesar desta imagem inaugurará um regime sem qualquer coluna vertebral: os oligarcas aproveitaram para adquirir pessoalmente, por todo o tipo de estratagemas duvidosos, as riquezas do país. Na indústria petrolífera, fizeram aumentar a produção graças a empréstimos do FMI, do Banco Mundial e do Banco de Nova Iorque e cederam a consórcios petrolíferos americanos e britânicos partes importantes na exploração dos hidrocarbonetos russos. Putin, desde a sua ascensão ao poder em Janeiro de 2000, mete rapidamente um travão a estas perversões. Imediatamente, potências anglo-saxónicas, petrolíferas, oligarcas e idiotas de serviço no mundo mediático mobilizam-se contra ele e declaram-lhe guerra, uma guerra que prevalece ainda hoje. Terrorismo checheno de Ahmed Zakaiev (com os seus apoios turcos), revolução das Rosas na Geórgia e revolução laranja na Ucrânia são os frutos amargos de um vasto e sinistro complot destinado a enfraquecer a Rússia e a defenestrar Putin. Só o ex-oligarca Roman Abramovic se retratará (4), devolverá os bens adquiridos no tempo de Ieltsin, tornar-se-á governador de Kamtchatka para dar vida a essa região deserdada mas altamente estratégica. Servirá igualmente como intermediário entre Putin e Olmert nos litígios russo-israelitas.

Rússia: potência ortodoxa

Depois da queda do comunismo e do regresso dos valores religiosos, sobretudo na área muçulmana, no Afeganistão antes de mais, depois na Ásia central ex-soviética, mas em menor dimensão, a Rússia encontra-se enfraquecida por décadas de propaganda anti-religiosa do sistema soviético, que quebrou o vigor da ortodoxia entre as populações eslavas e generalizou uma astenia espiritual delinquescente, mas não afectou tanto o Islão centro-asiático, revigorado pelo dinheiro saudita e pelo apoio americano aos moudjahidin afegãos. Mais, nos primeiros anos do pós-comunismo, a vaga de materialismo ocidentalista sacode por completo uma Rússia desnorteada mas, como o remédio cresce sempre ao mesmo tempo que o perigo, o regresso à ortodoxia de uma parte da população (60% segundo as sondagens) volta a dar parcialmente ao país uma identidade religiosa e política tradicional, da qual a Europa ocidental está desde há muito desprovida. Alexandre Soljénitsyne exortava o povo russo a reencontrar o espírito da Ortodoxia e o Patriarca Alexis II dá o seu apoio a Vladimir Putin, que acaba por definir o seu país como uma «potência ortodoxa» aquando da sua visita ao Monte Athos na Grécia em Setembro de 2005. Este regresso à ortodoxia reaviva um determinado anti-ocidentalismo, bem legível nas declarações de um concílio de Abril de 2006, onde a Igreja ortodoxa russa promulgou a sua própria «declaração de direitos e dignidade do homem», onde são fustigados o individualismo ocidental e a vontade de ingerência estrangeira procurando impor «direitos do homem» de tipo individualista na Rússia e em todas as outras terras ortodoxas. O texto acrescenta: «Há valores que não são inferiores aos direitos dos homens, como a fé, a moral, o sagrado, a pátria», onde o filósofo da história discernirá uma recusa da ruptura calamitosa que representa a ideologia dos direitos do homem de 1789 da vulgata mediática actual, quando a manipulamos com a hipocrisia que tão bem conhecemos. A 17 de Maio de 2007 as igrejas russas em estado de diáspora desde os anos 20 reconciliam-se com o Patriarcado de Moscovo (5), o que torna mais difícil a tarefa de voltar as opções da ortodoxia russa umas contra as outras.

Ucrânia: A revolução laranja resvala

A ingerência ocidental efectua-se sobretudo por via das «revoluções das cores» (6) novo modo de praticar a «guerra indirecta» e mutilar as franjas exteriores do antigo império dos Czares e da URSS, como as repúblicas caucasianas e a Ucrânia. Sabemos que a revolução laranja acabou por ser um fiasco para os seus comendatários ocidentais, Victor Iuschenko, o presidente eleito pelo seu programa pró-ocidental, não mudou nada, nem num sentido nem noutro, apesar da sua vontade de fazer entrar a Ucrânia na U.E. e na NATO. O ícone feminino da efervescência laranja de 2005, Iulia Timochenko, afundou-se na corrupção e na demagogia mais baixa, sem qualquer base ideológica clara. Ianukovich, o antigo líder pró-russo da Ucrânia oriental permanece pragmático: A Ucrânia não é matura para a Nato e a U.E. não quer Kiev, diz ele. Em finais de Setembro de 2007, para as eleições, não há manifestações nas ruas. A calma. As agências ocidentais já não pagam. Para o escritor Andrei Kurkov, as personagens da revolução laranja eram marionetas; o poder permanece nas mãos dos gestores da economia ucraniana, ligada à economia russa (7).

Na Geórgia, onde o actual presidente Mikhail Saakashvili tomara o poder em 2003 depois da revolução das rosas, uma contra-revolução acaba de estalar, sem líder bem perfilado (8), que destabiliza a criatura da americanosfera, ícone masculino dos media teleguiados a partir dos EUA. Apesar da sua vitória e da resolução do problema da Adjária secessionista em Maio de 2004, Saakashvili não conseguiu submeter uma outra província separatista, a Ossétia do Sul, encostada à faixa do Cáucaso. Este território de apenas 75 000 habitantes não conta com mais de 20% georgianos étnicos. A sua população é fiel à Rússia. Agindo sobre o descontentamento popular face à política pró-ocidental (e portanto neo-liberal/globalista) de Saakashvili e sobre as especificidades étnicas da Adjária e da Ossétia, Putin encontrou o meio de contrariar os efeitos de uma revolução colorida e de forjar as armas para anular aquelas que, eventualmente, emergiriam amanhã.

Outubro de 2007 – Cimeira de Teerão

Outro sucesso maior de Putin: a vasta estratégia petrolífera implementada, na Europa e na Ásia. Conseguiu quebrar a coesão dos oligarcas (9), apaziguar os perigos de conflito que existiam no Cáspio. A cimeira de Teerão em Outubro de 2007, que reunia os dirigentes da Rússia, do Irão, do Kazaquistão, do Azerbeijão e do Turquemenistão, tinha por objectivo estabilizar a situação nas margens do mar Cáspio e aí organizar um modus vivendi para a exploração dos recursos locais de hidrocarbonetos e de gás. Os acordos que daí saíram estipulam, nomadamente, que os países limítrofes, participantes na conferência, não permitirão que os seus territórios respectivos sirvam de base a potências de fora da zona para agredir um qualquer Estado signatário. Incluindo o Irão, entende-se (10).

No contexto actual, onde o atlantismo apela uma vez mais à matança e em que um dos seus cães de Pavlov, na personagem do sarkozista e ex-socialista Kouchner, junta os seus latidos sinistros ao lúgubre concerto dos belicistas, esta disposição da cimeira de Teerão bloqueia toda a veleidade americana de ingerência na Ásia central e preserva o território iraniano sobre o seu flanco norte, já que o Irão está hoje perigosamente cercado pelas bases americanas do Golfo, Iraque e Afeganistão. O Irão é a peça central, e ainda não controlada, de um território que pertence ao USCENTCOM ( que se estende do Egipto a Oeste ao Paquistão a Este). Este território, na perspectiva dos estrategas americanos, inspirados por Zbigniew Brzezinski, deve servir a prazo, com a sua «Youth Bulge» (a sua vitalidade demográfico e a sua natalidade em alta constante, excepto no Irão) de mercado de substituição em benefício dos EUA, porque a Ásia mantém reflexos autárcicos e a Europa possui um mercado interior menos acessível, e, ainda por cima, uma demografia em retrocesso. O controlo deste espaço implica evidentemente a eliminação do Irão – peça central e área nodal de uma imperialidade regional plurimilenar –, o isolamento estratégico da Rússia e o seu distanciamento de todos os territórios conquistados desde Ivan o Terrível, o controlo da Mesopotâmia e das montanhas afegãs e a desagregação das culturas «masculinistas» e portanto, anti-consumistas, dessa vasta área, certamente islamizada, mas escondendo ainda muitas virtudes e energias pré-islâmicas, permanecendo renitente ao fanatismo wahabita.

Corrente Sul e Corrente Norte

Os acordos do Mar Cáspio terão uma implicação directa sobre o aprovisionamente energético da Europa. O sistema de oleodutos e de gasodutos «Nabucco», favorecido pelos EUA, que pretendiam diminuir a influência russa e iraniana na distribuição de energia, será complementado pelo sistema denominado «Corrente Sul», que partirá de Novorossisk nas margens do Mar Negro para chegar às costas búlgaras ( portanto sobre o território da U.E.), de onde partirá em direcção à Europa central, de uma parte, e em direcção à Albânia, e de lá para o sul de Itália, de outra parte. A ENI italiana é parte envolvida no projecto (11). A realização deste, através da parte pacificada dos Balcãs, arruína automaticamente as manobras dilatórias das forças atlantistas no Báltico, onde os EUA também incitam as pequenas potências da «Nova Europa», cara a Bush, a aniquilar o projecto de encaminhamento do gás russo em direcção à Alemanha a partir de Königsberg/Kaliningrado ou do golfo da Finlândia, impulsionado pelo Chanceler Schröder à época simpatizante – mas tão brevemente – do eixo Paris-Berlim-Moscovo. O sistema de gasodutos do Báltico tem no nome de «Corrente Norte» (12) : a sua conclusão está hoje bloqueada pela oposição de Talim a todos os trabalhos ao longo da costa estoniana. Este bloqueio é ditado em última instância por Washington, que instiga nos gabinetes os países bálticos e a Polónia contra todos os projectos de cooperação euro-russa ou germano-russa, restaurando assim, de facto, o «cordão sanitário» de Lord Curzon e os efeitos mutiladores da Cortina de Ferro sobre as dinâmicas interiores da Europa no seu conjunto. O que foi desde sempre o objectivo das potências talassocráticas.

A vitória eleitoral de Putin em Dezembro de 2007 demonstra, para além da sua real popularidade apesar das campanhas dos oligarcas e dos media, que as estratégias das «revoluções das cores» não surtiram efeito: a essas Putin respondeu com uma mobilização citadina e patriótica criando o movimento «Nachi» ( «Os Nossos) que tomou as ruas em lugar e vez de patifes como Kasparov ou outros descerebrados sem inteligência geopolítica ou geoestratégica.

A Europa não pode querer uma Rússia destabilizada e mergulhada no caos, porque, nesse caso, ela seria automaticamente lançada, senão num caos similar, ao menos numa recessão de que poderia bem prescindir, visto o seu declínio demográfico, a sua relativa estagnação económica e os sinais precursores de um real empobrecimento das suas classes trabalhadoras, fruto de quase trinta anos de neo-liberalismo.

Conclusões:

Em conclusão, o fenómeno Putin deve levar-nos a pensar o nosso destino político nas categorias mentais seguintes:

– Não tolerar a influência de oligarcas de todas as espécies nas nossas esferas políticas, que alienam riquezas, fundos e capitais através de práticas de deslocalização; segundo o bom velho princípio do primado do político sobre o económico, que Putin conseguiu fazer triunfar;

– Compreender por fim a necessidade de uma coesão religiosa visível e com visibilidade (como pretendia Carl Schmitt), mais difícil de restaurar no Ocidente, vistos os danos profundos causados no longo prazo pelo protestantismo, o sectarismo diversificado e caótico que dele saiu e a deliquescência do catolicismo desde o século XIX e do concílio Vaticano II;

– Suscitar uma vigilância permanente contra as manipulações mediáticas que conduziram a França aos acontecimentos de Maio de 68 (para expulsar De Gaulle), às greves de 1995 ( para vergar Chirac na sua política nuclear em Moruroa), às revoluções das cores; é preciso ser capaz de gerar uma contra-cultura ofensiva contra o que as agências do lado de lá do Atlântico tentam vender-nos, afim de provocar, pelos efeitos desse «soft power» terrivelmente bem ensaiado, mutações políticas favoráveis aos EUA;

– É preciso procurar uma independência energética continental, não permitindo aos lóbis petrolíferos americanos controlar os fluxos de hidrocarbonetos na área continental euro-asiática, para benefício dos seus interesses e em detrimento da coesão do Velho Continente;

– É preciso seguir Putin nas suas ofensivas diplomáticas na Ásia, sobretudo em relação à Índia e à China; à Europa interessa estar presente no subcontinente indiano e no Extremo-Oriente, numa perspectiva de harmonização de interesses, como de resto havia já preconizado a China na sua resposta às tentativas ocidentais de ingerência intelectual (o «soft power», que age contra a cultura imperial chinesa).

As cooperações euro-russa, euro-indiana e euro-chinesa, abrem perspectivas mais sedutoras do que o aprisionamento atlantista, do que a nossa triste maceração nos despojos da dependência mediática e política, onde estamos mergulhados, para nossa vergonha. Todos os povos da terra esperam o despertar da Europa. Esse só é viável apoiado sobre a Eurásia, a começar pela Rússia, como no tempo das grandes alianças, começadas à época da Guerra dos Sete Anos.

Robert Steuckers

Forest-Flotzenberg, Dezembro 2007.

Notas :
(1) Cf. « L’eredità di Eltsin », in Linea, 15 de Novembro 2007 (artigo tirado da revista sul-africana Impact (Box 2055, Nooserkloof, Jeffreys Bay, 6331, South Africa).

(2) Cf. Victor-L. TAPIE, L’Europe de Marie-Thérèse. Du baroque aux Lumières, Fayard, 1973 ; igualmente, Henri TROYAT, Catherine la Grande, Flammarion, 1977.

(3) Frank McLYNN, 1759. The Year Britain Became Master of the World, Pimlico, London, 2005.

(4) Dr. Albrecht ROTHACHER, « Das Schicksal zweier Oligarchen. Beresowskis Kampf gegen Putin aus dem Exil und der Lagerhäfltling Chodorkowski“, in zur Zeit, Nr. 42/2007; Dr. A. ROTHACHER, „Superreich und willfährig. Oligarch Roman Abramowitsch: Putins Statthalter in Russisch-Fernost“, in zur Zeit, Nr. 46/2007.

(5) Marie JEGO, « La Fédération de Russie », in : La Vie/Le Monde Hors-Série, L’Atlas des Religions, s.d. (surgido nas bancas em Novembro de 2007). Ver igualmente : Alexandre SOLJENITSYNE, La Russie sous l’avalanche, Fayard, 1998, especialmente o capítulo : « L’Eglise orthodoxe par ce Temps des Troubles », p. 301 et ss.

(6) Cf. Le dossier du Temps de Genève, de 10 de Dezembro de 2004, intitulado „L’internationale secrète qui ébranle les dictatures de l’Est“; este dossier é acompanhado por uma entrevista com o estratega e teórico das guerras indirectas, Gene Sharp, intitulada « L’essentiel est de diviser le camp adverse ». Cf. sobretudo Viatcheslav AVIOUTSKII, Les révolutions de velours, Armand Colin, 2006 (ouvrage capital !).

(7) Andrej KURKOW, « Die Last des Siegens », in : Der Spiegel, 39/2007, pp. 138-139.

(8) „Überall Feinde“, in : Der Spiegel, 46/2007, p. 121. Cf. Eugen GEORGIEV, „Angespannte Lage in Südossetien“, in : Aula, Oktober 2007.

(9) http://www.barnesreview.org / Um texto saído deste site foi raduzido em italiano. Trata-se de : «Vladimir Putin : le sue riforme e la sua tribu di nemici / Il sostegno atlantico agli oligarchi russi”, in Linea, 28 de Novembro de 2007.

(10) Fulvia NOVELLINO, “Il vertice di Teheran per il petrolio del Mar Caspio”, in Linea, 19 octobre 2007.

(11) Filippo GHIRA, “South Stream pronto nel 2013”, in Linea, 23 novembre 2007.

(12) Andrea PERRONE, “L’Estonia sfida la Russia sulla condotta North Stream”, in Linea, 18 octobre 2007. Recordamos, entretanto, que o projecto de um oleoduto ( ou gasoduto) em direcção à Alemanha e á Polónia não é uma ideia nova. Em Dezembro de 1959, Soviéticos, polacos e alemães de leste assinaram um acordo em Moscovo para a construção do «ramo norte do oleoduto da amizade». A «Corrente Norte», de que falamos aqui, não é senão a reactualização, num contexto que já não está marcado pela guerra-fria.

De regresso ao Kosovo

O texto que se segue foi escrito pelo Major General Lewis MacKenzie e publicado no jornal canadiano The National Post de 6/4/2004. MacKenzie comandou tropas em Gaza, Chipre, Vietname, Cairo e América Central. Em Sarajevo, durante a guerra civil, comandou os contingentes de 31 nações.

«Há cinco anos as nossas televisões estavam dominadas por imagens de albaneses do Kosovo cruzando as fronteiras para a Macedónia e a Albânia procurando aí refúgio. Relatórios alarmistas diziam que as forças de segurança de Slobodan Milosevic conduziam uma campanha genocida e que pelo menos 100 000 albaneses do Kosovo tinham sido exterminados e enterrados em valas comuns por toda a província.

A NATO entrou em acção e, apesar de nenhum dos Estados membros desta aliança ter sido ameaçado, começou a bombardear não somente o Kosovo mas também as infra-estruturas e a própria população da Sérvia, sem resolução que o autorizasse por parte das Nações Unidas, instância, porém, tão venerada pelos governantes do Canadá, passados e presentes.

Aqueles de entre nós que chamaram a atenção de que o Ocidente estava a colocar-se do lado de um movimento independentista albanês extremista foram acusados de cobardia. Esqueceu-se convenientemente que a organização que combatia pela independência, o exército de libertação do Kosovo (UCK) fora universalmente designado como organização terrorista e conhecido por ser apoiado pela Al-Qaeda de Osama Bin Laden.»

(…)

«Desde a intervenção da NATO e da ONU, em 1999, o Kosovo tornou-se a capital europeia do crime. O comércio de escravos sexuais floresce. A província tornou-se a placa giratória da droga em direcção à Europa e à América do Norte. Para cúmulo a maioria da droga provém de um outro pais “libertado” pelo Ocidente: o Afeganistão. Membros do desmobilizado mas não eliminado UCK estão intimamente envolvidos no crime organizado e no Governo. A polícia da ONU prende alguns dos implicados neste tráfico e leva-os perante uma justiça permeável à corrupção e às pressões.

O objectivo último dos albaneses do Kosovo é purgar a região de todos os não-albaneses, incluindo os representantes da comunidade internacional, e, por último, fazer a fusão com a mãe Albânia, construindo assim a “Grande Albânia”. A sua campanha começou com os ataques a forças de segurança sérvias no início da década de 90 e conseguiram transformar a resposta musculada de Milosevic em simpatia mundial pela sua causa. O genocídio proclamado pelo Ocidente nunca existiu, os 100 000 mortos pretensamente enterrados nas valas comuns revelaram-se cerca de 2000, de todas as etnias, incluindo os mortos em combate durante a própria guerra.

Os albaneses do Kosovo manipularam-nos a seu bel-prazer. Financiámos e apoiámos indirectamente a sua campanha para um Kosovo etnicamente puro e independente. Não os condenámos nunca por serem responsáveis pela violência do início da década de 90 e continuamos a retratá-los como vítimas hoje, apesar das evidências em contrário. Quando atingirem o seu objectivo de independência, ajudados pelos dólares dos nossos impostos juntamente com os de Bin Laden e da Al-Qaeda, imagine-se a mensagem de encorajamento que isso constituirá para outros movimentos independentistas do mundo apoiados pelo terrorismo!

É engraçado como continuamos a cavar a nossa sepultura!»

Num sucinto comentário final ao texto chama-se a atenção para 3 pontos:

1-A facilidade e a eficiência com que se constroem mitos mediáticos em torno de extermínios selectivos de povos para fins políticos. No caso foram os 100 000, noutros casos os números atingem diferentes proporções, em todos eles, porém, essas realidades produzidas transformam-se nas realidades vividas e servem a legitimação de transformações políticas profundas. Tenho a certeza de que se questionados sobre isto a grande maioria dos “ocidentais” repetirá a versão oficializada, e provavelmente será essa a fazer História.

2-A referência às rotas de circulação de droga entre a Ásia e o “Ocidente” (particularmente ópio, heroína e haxixe). Desde que o Afeganistão foi “libertado”, o tráfico aumentou substancialmente. Trata-se obviamente de um dos negócios mais lucrativos do mundo com três rotas preferenciais que saem do Afeganistão. Uma que passa pelo Tajiquistão e liga à Rússia, outra que liga ao Paquistão e, finalmente, uma terceira que passa…pelo Irão e pela Turquia entrando na Europa pelo sudeste.

3-Apesar da relevância do que é dito na entrevista parece-me que existe um erro fundamental de análise quando, por ingenuidade ou boa-fé, MacKenzie parece insinuar que a intervenção “ocidental” foi enviesada por um erro de avaliação do problema da região. É minha opinião que não existiu qualquer avaliação errada da situação e que quem realizou essa intervenção conhecia, na generalidade, os factos. Não há um equívoco do “Ocidente” mas tão-somente a realização da sua estratégia global. Quanto muito haverá uma incompreensão por parte de alguns do que é de facto esse “Ocidente”. Assim reafirmo que foi uma operação movida por interesses económicos e geopolíticos (entre os quais o cerco à Rússia). De resto note-se simplesmente que são os mesmos que a fizeram que hoje pressionam internacionalmente para a efectiva independência do Kosovo.

Os saques da liberdade

Os EUA invadiram o Iraque alegando duas razões principais: que o regime de Saddam Hussein disporia de armas de destruição maciça e que teria ligações à Al-Qaeda. A utilização desses argumentos serviu para reforçar a superioridade moral americana face ao agredido, estratégia que desde sempre tem sido usada por esse país nas muitas guerras em que se tem visto envolvido e que permite que, em defesa dos seu interesses próprios, os EUA se projectem nessas guerras e perante os outros, na mais enjoativa hipocrisia, como campeões abnegados do «mundo livre».

Quase 4 anos depois da invasão do Iraque sob a capa da «guerra ao terrorismo» é hoje sabido que os argumentos usados para legitimar essa intervenção preventiva eram falsos, mais grave, existe a justificada suspeita de que esses argumentos foram premeditadamente manipulados por forma a fornecer à Administração Bush um móbil para uma invasão do Iraque que estava há muito delineada pelos arquitectos neoconservadores da política externa republicana.

Em 2000, o PNAC, principal instituto neoconservador do país, elaborou um trabalho de 90 páginas intitulado «Rebuilding America’s Defenses: Strategies, Forces, and Resources For A New Century»(1). Na elaboração desse documento participaram várias pessoas que viriam posteriormente a fazer parte da Administração Bush. O que ali se apresenta é uma estratégia para assegurar o controlo completo do planeta sob direcção americana, uma ordem global ditada pelos interesses dos EUA. Para isso aponta-se a necessidade de usar o poder militar em larga escala e em diversos pontos do globo e particularmente sobre regimes considerados hostis às conveniência norte-americanas, instalando nesse caso em sua substituição democracias aliadas (naturalmente que a urgência em democratizar os regimes considerados adversos está relacionada com o facto de a democracia ser particularmente permeável ao dinheiro e a influências externas). Dos países apresentados como hostis aos interesses económicos e políticos americanos surgem nesse documento com particular frequência os nomes do Iraque, do Irão e da Síria.

Já em 1998, numa carta dirigida ao presidente democrata Bill Clinton, 18 membros do PNAC, mais de metade dos quais judeus, apelavam à necessidade de intervir no Iraque, usando a mesmíssima alegação das armas de destruição maciça e reforçando a necessidade de defesa dos interesses geopolíticos dos EUA e de Israel e o controlo do mercado petrolífero:

«(…) Apelamos a que aproveite essa oportunidade [referindo-se ao State of the Union Address] e que apresente uma nova estratégia que assegure os interesses dos Estados Unidos e dos nossos amigos e aliados no mundo. Essa estratégia deve apontar, acima de tudo, para a eliminação do regime de Saddam Hussein. (…) Não é preciso acrescentar que se Saddam adquirir a capacidade de usar armas de destruição maciça, como quase de certeza conseguirá se continuarmos no caminho presente, a segurança das tropas americanas na região, dos nossos amigos e aliados como Israel e os Estados árabes moderados, e uma parte significativa da oferta de petróleo mundial ficará em risco. (…) No curto-prazo isto implica uma disponibilidade para empregar a força militar já que a diplomacia está claramente a falhar. No longo-prazo significa remover Saddam Hussein e o seu regime do poder. Isso precisa ser agora o objectivo da política externa americana.» (2)

É, pois, evidente que a guerra no Iraque estava há muito planeada e fazia parte de uma estratégia de hegemonia mundial.

Se, decorridos estes 4 anos, sabemos, porém, que o móbil das armas de destruição maciça não encontrou comprovação e que não foram igualmente provadas ligações do regime de Saddam à Al-Qaeda, não devemos contudo concluir que esta agressão não teve qualquer impacto na «guerra ao terrorismo» tomada de forma mais abrangente.

As agências de espionagem norte-americanas concluíram há pouco tempo que a guerra no Iraque se tornou um factor de disseminação global do terrorismo islâmico e aumentou o seu risco. (3)

Para além disto, um dos resultados da invasão do país de Saddam foi a ascensão do poderio regional do Irão, com tudo o que isso acarreta para o equilíbrio geoestratégico do mundo.

Curiosamente, essa intervenção militar acabou não só por fazer cumprir um dos principais objectivos dos subscritores do documento de 2000 do PNAC( e da carta de 1998) como criou ainda as conjunturas exactas que esse documento descrevia rumo à criação de um mundo sob hegemonia americana, desde o imperativo das intervenções militares em diversos pontos do globo, à confirmação e reforço dos nomes dos regimes hostis ao Novo Império como inclusive levou ao aumento do orçamento norte-americano para gastos militares, tal e qual como era sugerido necessário pelo PNAC.

Uma achega preciosa para compreender uma parte do que sempre esteve em causa em mais esta cruzada liberal foi muito recentemente divulgada. A 7 de Janeiro deste ano, o jornal britânico The Independent revelava que o novo governo do «Iraque livre» se preparava para entregar a companhias norte-americanas e britânicas a exploração das reservas petrolíferas do país, ao abrigo de acordos danosos dos interesses nacionais do povo iraquiano.(4) Aparentemente a lei que permitirá o saque foi mesmo elaborada pelos próprios EUA e entregará a exploração dos recursos do país às grandes companhias «ocidentais» durante um período de 30 anos, naquela que será a primeira operação de larga escala envolvendo interesses estrangeiros desde a nacionalização da indústria em 1972.

Os acordos permitirão aos invasores arrecadar 75%(!) dos lucros provenientes do sector numa primeira fase e 20% numa segunda fase, muito acima da média da indústria para estes negócios.

O artigo do jornal não deixa igualmente de relembrar as palavras de Dick Cheney( também ele membro do PNAC e que antes de ter ocupado a vice-presidência do governo norte-americano era um alto executivo da companhia petrolífera Halliburton) em 1999, a propósito da necessidade de aumentar a oferta de petróleo até 2010 – já depois, portanto, da carta entregue pelos neoconservadores ao presidente Clinton:

«Então de onde virá o petróleo?…O médio Oriente, com 2/3 das reservas mundiais e o mais baixo custo, é ainda onde está o prémio».

E aqui chegamos, ao Novo Século Americano, envolvidos, todos nós, nas guerras do «Ocidente», o bom «Ocidente», as guerras pela liberdade, pela democracia e pelos direitos humanos. Mas os EUA não se limitam a libertar os povos oprimidos, a levar-lhes a boa nova da liberdade e da democracia, libertam-nos também do peso dos seus recursos e da sua autonomia, mas sempre, a estratégia é essa desde a segunda guerra, apresentando estes saques como guerras da moralidade contra a imoralidade.

Mergulhado no mais completo caos, num clima de guerra civil latente, dezenas de milhares de mortos iraquianos depois – o The Lancet estima mesmo que poderão ser mais de meio milhão (5) – e prestes a perder o controlo dos seus recursos energéticos, o Iraque está hoje a caminho de fazer parte do «mundo livre». O ditador, pelo menos, já foi enforcado… A «liberdade americana» fala hebraico e paga-se em sangue e em petrodólares. Quem se segue? Afinal, o mundo é apenas uma grande aldeia à espera de ser salva.

(1) Rebuilding America’s Defenses

(2)Carta de 1998 do PNAC

(3)Spy Agencies Say Iraq War Worsens Terrorism Threat, The New York Times, 24 de Setembro de 2006

(4) Future of Iraq: The spoils of war, The Independent, 7 de Janeiro de 2007

(5)Estudo do The Lancet