Categoria: História

That was not sparta!

A perspectiva cinematográfica de Hollywood

Com extensa campanha publicitária (para isso capital não falta) o filme norte-americano “300” pretende retratar a luta heróica dos gregos nas Termópilas mas, fiel à tradição, não consegue mais que uma farsa, não só porque confundem o local do combate com um matadouro municipal, como pela sinopse que diz :
“(…) a sua coragem e o seu sacrifício encorajaram o povo grego a unir-se contra os exércitos persas e a fundar a democracia.”
Ora bem, a batalha do desfiladeiro das “Termópilas” tornou-se célebre pela heróica defesa proporcionada pelos espartanos e pelo seu rei Leónidas, massacrados pelos persas que não permitiram sobreviventes, mas (pergunta pertinente) … que tinham a ver os espartanos com a “democracia”?
Na verdade… absolutamente nada, ou seja, eram adversários resolutos da democracia, regime politico existente em Atenas (desde as reformas de Clistenes em 508 EP) e que aí vigorou até à sua abolição em 322 EP…
Como se pode afirmar que o comportamento heróico dos espartanos, em 480 EP, “encorajou o povo grego … a fundar a democracia”, se esta já existia em Atenas há cerca de 28 anos, para desaparecer no século seguinte?
A manipulação demagógica da História é já um dado adquirido pela cinematografia “made in USA” e é sabido que a demagogia é uma das principais características do regime democrático. Aliás, foi uma das principais causas da sua dissolução em Atenas, onde durou 186 anos! Quanto durará entre nós?
A batalha do desfiladeiro das Termópilas, um emblema da resistência do povo grego, traduz antes de mais o espírito de sacrifício dos espartanos, um exemplo para os democratas de Atenas. No ponto mais alto do desfiladeiro, no cume de Kolonós, onde se desenrolou o derradeiro episódio da resistência espartana, foi erigido um mausoléu onde se pode ler uma inscrição do poeta Simonide de Céos (556-467 EP):
“Vai, viajante, dizer a Esparta que aqui jazemos, fiéis às suas leis”!
Fiéis às leis de Esparta… não às de Atenas!
Afirmar que os espartanos morreram em defesa da democracia é um despropósito, um desatino e um disparate!
Aliás, o facto de se produzir um filme “histórico” (não, este não é do Spielberg) em que os iranianos (persas) atacam a Europa… nas actuais circunstâncias terá sido mera coincidência?
Felizmente, a mediocridade da realização, a indigência dos diálogos e o ridículo dos acessórios, retira credibilidade a semelhante manipulação da História!
O público, que corre entusiasmado a ver semelhante vacuidade, produz dois tipos de reacção: uns sentem-se burlados e recordam a mãezinha dos produtores da “coisa”, outros, mais intelectualizados, “até gostam” e interrogam-se sobre se a Grécia já existiria antes de que os “yankees” inventassem o “chewing gum”?

António Lugano

Duas medidas

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«Ao ouvi-los o Ocidente será o mal absoluto (colonialismo, imperialismo, etc.) e os outros seriam claramente melhores (bode expiatório invertido?). Para isso clamam-se pelas diferenças culturais que o Ocidente supostamente negaria. Mais, temos a impressão que como o Ocidente as negou (a dada época e ainda agora), tomamos geralmente o argumento relativista da “outra cultura” (acusação de etnocentrismo) como um critério para não julgar moralmente uma morte, um sacrifício ritual, ou massacres colectivos noutros países.

Ora, o colonialismo não saiu somente da nossa cultura, outras culturas fizeram-no também. É antes de tudo um facto humano, universal e não próprio a um país ou uma cultura. O nacionalismo, de um país ou outro, é ainda o nacionalismo, e o homem de todos os tempos quis conquistar outros países. A colonização dos países árabes pelo Ocidente, por exemplo, durou cerca de cento e trinta anos enquanto esses mesmos árabes foram reduzidos à escravatura e colonizados pelos turcos durante cinco séculos. Outra Cultura? Portanto toleramos? O mesmo a propósito do tráfico de negros. Apenas o Ocidente? Esquecemos que o tráfico e a escravatura dos negros foram introduzidas em África por mercadores árabes a partir dos séculos XI e XII com a cumplicidade dos reis e dos chefes tribais negros. Então, é uma outra cultura, portanto toleramos? Ao denunciarmos a nossa própria barbárie vemos bem um problema, mas porquê ser cego em relação à barbárie dos outros? Isso é fazer etnocentrismo invertido, tolerar os crimes de outras culturas sob o pretexto do costume local e fustigar somente os nossos. (…)

Se estas pessoas podem criticar o Ocidente e os seus inumeráveis erros é preciso não esquecer que foi também a nossa própria cultura que denunciou o colonialismo. Foi o próprio Ocidente que desenvolveu um projecto de liberdade, de autonomia individual e colectiva, de crítica e autocrítica. Porque se o Ocidente cometeu crimes (quem os nega agora para lá dos fanáticos?) o Ocidente também os denunciou. Raramente vejo o mesmo tipo de autocrítica noutros, nos hindus, nos chineses, etc., antes desta autocrítica ocidental. Quem primeiro denunciou a escravatura? Então denunciamos a nossa escravatura mas não a dos outros porque é uma “outra cultura”? Um olho aberto, outro fechado? Temos a impressão que mergulham estupidamente numa autoflagelação, num sadomasoquismo e numa vitimização muito mal vindas esquecendo que é a sua própria civilização ocidental que desenvolveu este espírito crítico do qual se servem para a voltarem contra si própria e esquecendo adicionalmente que os outros países ou civilizações não desenvolveram o mesmo pensamento crítico e não se penitenciam por explorar e oprimir o seu próximo.»

Yannick Rolandeau, René Girard ou Le mécanisme victimaire

A identidade Europeia

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A identidade europeia não nasce na Grécia. A identidade europeia não deve ser entendida como o resultado final de vários e heterogéneos elementos que lhe vão dando forma ao longo do processo histórico. A identidade europeia não é a soma do passado greco-latino por um lado, céltico-germânico por outro e o cristão, que na Europa medieval poderíamos chamar euro-catolicismo… A identidade europeia é anterior e preexistente a todas estas realidades, sendo à sua vez a que dá forma ao mundo greco-latino, ao passado céltico-germânico-eslavo, – meras adaptações históricas num espaço geográfico concreto e sobre condições determinadas do espírito de Europa -, e a que converte o judeo-cristianismo numa elevada forma religiosa como foi a Cristandade medieval, mistura de elementos cristãos e pagãos que durante muitos séculos foi a referência espiritual dos europeus, e que agora pode deixar de sê-lo uma vez que as instituições das diferentes confissões cristãs estão claramente decididas a eliminar os elementos propriamente europeus e a converter o cristianismo numa religião igualitária e universalista fiel somente à mentalidade dos povos do deserto nos quais teve a sua primeira origem.

A identidade europeia não se “forma”. A identidade europeia “nasce” na alvorada da pré-história, quase ao mesmo tempo do que o homem, tal como hoje o conhecemos, aparece na superfície do nosso planeta. Nós europeus somos já reconhecíveis como algo diferenciado desde há vários milénios. As culturas nordicas-europeias de Ertebolle e Ellerbeck assinalam o nascimento do que os historiadores chamam mundo indo-europeu, que se reconhece por uma linguagem comum, um tipo humano comum, a existência de um lugar primogénito concreto e sobretudo e desde um primeiro momento, um determinado sistema de valores e uma específica visão do mundo: língua, povo e Cosmovisão que se expandem por toda Europa moldando e dando origem a tudo o que hoje englobamos no conceito de Europa. “Para além da importância da emigração indo-europeia, reforça-se pelo facto de constituir a nova raça um povo com grandes dotes físicos e espirituais, bem espelhados nos impérios e culturas que alcançaram na Antiguidade e que lograram o seu ponto álgido nas civilizações grega, romana e medo-persa”.

A Cosmovisão dos nossos antepassados indo-europeus compreendia todos os aspectos da realidade: desde o social até ao metafísico, desde a política até à filosofia, determinando toda a actuação do “homem europeu” ao longo da aventura da Historia. Também o nosso actual sistema de pensamento, em grande parte regido pelo que C.G.Jung definiu como arquétipos colectivos.

Para os indo-europeus, antigos e actuais, a célula básica da sociedade é a família patrilinear , tanto no sentido descendente como ascendente; estando antigamente por cima dela uma gentilidade mais ampla que indicava um antepassado comum (as gens latinas ou os clans célticos). O seu sistema de governo é o de uma assembleia de guerreiros com poder de decisão, muito longe de sistemas tirânicos e despóticos de raiz oriental, exemplos claros temo-los no senado romano ou nas cortes medievais. No terreno religioso está-se nas antípodas de qualquer concepção universalista e igualitária, e consideram-se as diferenças entre os homens algo mais que um acidente conjuntural, um reflexo da ordem do Cosmos, dividindo a sociedade em três categorias a que cada individuo pertence segundo a sua natureza interna; repetindo-se este esquema religioso e social em toda a época pagã e também na Idade Meia católica, que mantêm ainda a mesma divisão social entre: oratores, pugnatores y laboratores.

A mulher, ainda que dentro de uma sociedade patriarcal, era levada na mais alta consideração. Em oposição ao conceito da condição feminina que tinham e têm as civilizações do deserto, nas quais é assimilada à concepção de objecto sexual e pecado, obrigada a prostituir-se pelo menos uma vez na sua vida, ou em que se lhe oculta o rosto com um véu, desde a Antiguidade indo-europeia que a mulher é considerada e honrada e ao pai correspondem as funções cívicas e militares, à mulher corresponde a administração do lar. Consequência disto é a diferença da realidade em que ainda vivem hoje as mulheres europeias e as do resto do mundo.

No terreno pessoal o reconhecimento do valor e do espírito heróico ficavam acima de qualquer outra consideração, assim como a fidelidade aos que estavam acima deles e aos que livremente a haviam prometido, o que no mundo latino e medieval dá lugar ao conceito de FIDES. Em geral um gosto pelo sóbrio, o directo e o cumprimento do dever como forma de auto-realização caracterizou todo o mundo indo-europeu. “Nada em excesso”, “Conhece-te a ti próprio”, “Converte-te no que és”, eram as frases que apareciam na entrada de alguns templos gregos, e que, no seu significado completo, encerram em si uma elevadíssima concepção do mundo. A nossa concepção do mundo.

Esta origem comum e a sua consequente identidade e cosmovisão compartilhada não devem converter-se num simples objecto de procuras intelectuais sobre o passado, nem em matéria de uma erudição e de um conhecimento a meio caminho entre o académico e o romântico. Pelo contrário, terá de ser o pilar básico e o mito mobilizador para construir a grande Europa do futuro imediato. O século XXI é o do combate identitário, superada a fase dos Estados-nação e dos blocos nascidos da segunda pós-guerra, contemplamos como o planeta se organiza em torno a grandes espaços determinados por uma identidade comum. O destino põe os europeus ante uma encruzilhada: ou sabemos interpretar o nosso momento histórico e somos capazes de criar uma Europa que por um lado desenrole as capacidades prometeicas da nossa civilização e por outro seja capaz de ler a sua mais longa memória para edificar-se sobre a sua herança milenar; ou então a vindoura será a última geração de europeus antes de ser devorada pelos dois inimigos que ameaçam a liberdade do nosso Continente – Nação: o mundialismo uniformizador e igualitarista com a capital em Nova Iorque e o islamismo que tal como faz com as suas mulheres, cobrirá o nosso passado com um véu de intolerância e obscuridade profundamente alheias à alma europeia.

Em nós está a decisão.

Enrique Ravello

A ordem de cavalaria

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«A raça da alma…tudo o que é forma do carácter, sensibilidade, inclinação natural, “estilo” de acção e reacção, atitude em face das suas próprias experiências» (Julius Evola, Elementos para uma educação racial)

Para a cavalaria, as bases desta raça são um conjunto de normas especificas que actuam como outras tantas forças psíquicas e psicológicas que “obrigam”, criam uma tensão interna e dão forma, por vezes sob o plano somático, a um tipo humano particular, o cavaleiro, o qual, pela sua inserção no seio de uma “via”, deixa de ser um individuo indiferenciado para se tornar uma pessoa diferenciada pelas suas qualidades, a sua natureza própria e uma série de atributos que se articulam em função da natureza da “via” e das suas escolhas pessoais. Essas forças são a honra, a fidelidades – a fides –, a coragem, a abnegação, o amor pelo combate, valores dependentes de um ethos heróico-viril pagão, aos quais a Igreja acrescentou a piedade, o desejo de paz, o amor ao próximo, a protecção de outros, a caridade, etc.…ideias em relação às quais o cavaleiro não oferecia frequentemente mais do que uma obediência meramente formal. Juntamente com um modo de vida profano comum a todos os cavaleiros tudo isso criou um “estilo” caracterizado por relações claras e abertas de homem para homem, a afirmação de uma impessoalidade activa que ia mesmo até ao sacrifício dos próprios interesses e da própria vida de maneira anónima, o gosto pela hierarquização e pelas relação de comando/ obediência, o “todo” organizando-se numa ordem orgânica tecida por múltiplos vínculos recíprocos que se articulavam verticalmente. Estas especificidades, admiravelmente colocadas em prática na Idade Média, são de resto as de toda a “sociedade de homens” a que se resume, in fine, a cavalaria (…)

Se é verdade que a totalidade dos cavaleiros se pretende cristã, frequentemente, de modo não ortodoxo, não é menos verdade que os ideais de base da sua ética são saídos de valores pagãos. Assim, avançando com as noções de fidelidade, de honra, de sacrifício, de respeito pela palavra dada, são as noções de cobardia e vergonha (mais do que o pecado) que mancham a honra do homem e da sua linhagem, ao lavar a injustiça com sangue (mais do que o perdão cristão), ao querer a paz pela vitória nas armas (noção romana), etc., o cavaleiro afirma claramente uma ética heróico-pagã no seio de um universo apenas superficialmente cristão.»

Bernard Marillier, B.A.-BA Chevalerie (via le chemin sous les buis).

O “Dia D” como Hollywood nunca há-de mostrar

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Graças ao impagável e pedagógico trabalho de Hollywood sabemos hoje que os soldados norte-americanos intervieram na segunda guerra mundial armados com sorrisos, torrões de açúcar, chicletes e bíblias. Em Madrid, por estes dias, aproximando-se o aniversário do famoso “Dia D” – 6 Junho – expõe-se inclusive uma colecção de fotografias de “soldados de cor” que tombaram nas costas da Normandia e que, portanto, jamais regressariam a casa. Foram, sem dúvida, vítimas daqueles esbirros de Mefistófeles, as «bestas negras» e seus aliados que, estes sim, combatiam com armas mortíferas e, por demais, pretendiam – muito perversos, eles – tirar-nos os domingos de futebol e as férias pagas.

O problema deste conto de fadas é que logo surgem os historiadores – aos quais há agora que somar alguns soldados “irresponsáveis” que não têm outra alternativa do que levar com câmaras digitais em cima – e nos estragam a festa.

Por que digo isto? As Edições Payot, de França, publicaram o ano passado um livro do professor J. Robert Lillly intitulado “La face cachée des GI’s. Les viols commis par les soldats américains en France, en Anglaterre et en Allemagne pendant la Seconde Guerre mondiale” que, a meu ver, deveria ser de leitura obrigatória para os nossos académicos e para algum leigo que ainda continue debaixo do seu jugo.

Segundo este historiador norte-americano, especializado em questões de criminologia, entre 1942 e 1945 cerca de 17.000 mulheres e crianças foram violadas em território europeu por soldados das “listas e estrelas”. Lilly estabelece em 2.420 as violações em Inglaterra, em 3.620 as violações em França e 11.040 as violações na Alemanha e acrescenta um dado mais: 84% dos violadores eram militares negros. Apenas metade dos violadores foram, em maior ou menor grau, sancionados. Em França, país “aliado” – como a Inglaterra, não nos esqueçamos deste facto -, unicamente 21 militares, 18 negros e 3 brancos, foram fuzilados sumariamente por estas práticas aberrantes. Na Alemanha, pelo contrário, a situação foi infinitamente mais permissiva: só 1/3 dos violadores foram sancionados e não houve uma única condenação à pena capital. “À época das vilações na Alemanha- escreve J. Robert Lilly – , os soldados negros beneficiaram, por outro lado, de uma espécie de reabilitação em razão da sua contribuição ao esforço de guerra”.

O livro contém uma minuciosa tipologia sobre os autores das agressões e suas vítimas, assim como interessantes precisões sobre um grande número de actos de vandalismo cometidos pelos norte-americanos. Desgraçadamente, o texto não aborda a “libertação” de Itália onde as violações a mulheres e crianças – com a inestimável ajuda humanitária dos “partigiani” comunistas e das organizações mafiosas, que colaboraram amplamente com os invasores a troco de imunidade para as suas actividades criminosas – , alcançaram dimensões verdadeiramente dantescas e números ainda mais horrendos.

Convém desmistificar, no calor daquela data, as “ânsias libertadoras” dos europeus durante a segunda guerra mundial. Basta recordar, escassos dias depois do desembarque norte-americano na costa da Normandia, os relatos do periodista Rex North, censurados pela “Psychological Warfare Division”, a estrutura de guerra psicológica do exército norte-americano,e que, em 2001, no nº 73 do “The Journal of Modern History”, foram amplamente reproduzidas. Num dos seus parágrafos podemos ler:” 60% da população local detesta-nos. O pior é que inclusive um em cada dois franceses prefere os alemães e assim é impossível ter confiança com os autóctones. Como todos, eu esperava que as tropas aliadas fossem acolhidas como libertadoras, mas uma semana depois sinto-me rejeitado pelos franceses. Acreditava vir encontrar uma população esfomeada e oprimida que aguardava os nossos soldados com impaciência, e o caso é que metade dos franceses que encontrei na Normandia não têm nenhuma vontade de ser libertados”

Juan C. García,«Mi amigo Pic», 5-5-2004

A esquerda das liberdades

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«“Nova Esquerda” é uma expressão informal. A par de um revolucionarismo essencialmente anedótico, que permitiu a um certo número de jovens solidarizar-se com uma “revolta da juventude” de dimensão internacional e de romper com o tédio dos anos cinquenta, um dos seus méritos foi ter feito emergir um novo tipo de reivindicações, que já não eram somente de natureza quantitativa, mas que assentavam sobre a qualidade da vida. Parece-me que o movimento de Maio de 68 viu exprimir-se simultaneamente duas tendências muito diferentes: de um lado um protesto, na minha opinião perfeitamente justificado, contra a sociedade de consumo e a sociedade do espectáculo (Guy Debord), do outro, uma aspiração de tipo mais hedonista e permissiva, muito bem resumida pelo slogan “jouir sans entraves” (gozar sem limites). Estas duas tendências eram totalmente contraditórias, como vimos nos anos que se seguiram, quando os representantes da segunda tendência começaram a perceber que era precisamente na sociedade de consumo que as suas aspirações individualistas melhor se podiam realizar.»

Alain de Benoist, em entrevista à revista Zinnober

What is left of the right right please take the right step…

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«Depois do colapso da União Soviética a revista Time perguntou “Poderá a Direita sobreviver ao sucesso?” A Time citava um intelectual conservador que dizia: ”é sinal de um enorme triunfo que não existam hoje em dia quaisquer assuntos galvanizadores para os conservadores”.

“Nada pode estar mais longe da verdade”, respondeu James Cooper, editor da American Arts Quarterly. “ Um tema maior de galvanização para os conservadores, na realidade, para todos os americanos…a grande tarefa inacabada a que o presidente Reagan aludiu no seu discurso de despedida…é reconquistar a cultura à esquerda…”.

Enquanto a maior parte dos conservadores tinham estado a combater a guerra-fria, um pequeno grupo tinha ficado a segurar a frente abandonada, a guerra da cultura. Cooper pedia aos conservadores que tomassem a guerra cultural como sua nova causa e falava do terreno já perdido:

“Há setenta anos o marxista italiano António Gramsci (1891-1937) escreveu que a missão mais importante do socialismo era “capturar a cultura”. No final da segunda grande guerra, a esquerda liberal tinha conseguido capturar não apenas as artes, o teatro, a literatura, a musica, o ballet, mas também o cinema, a fotografia, a educação e a comunicação social.Através do seu controlo sobre a cultura, a esquerda dita não apenas as respostas, mas também as perguntas que são feitas. Em resumo, controla a cosmologia pela qual a maioria das pessoas compreende o significado dos acontecimentos. Esta cosmologia é baseada em dois axiomas: o primeiro é que não existem valores absolutos no universo, não existem padrões de beleza e fealdade, bem e mal. O segundo axioma é – num universo sem Deus – que a esquerda detém superioridade moral na qualidade do árbitro final das actividades dos homens.”

Os conservadores ignoraram o grito de Cooper. Ao invés, lutaram contra a universalização do sistema de saúde, em favor do tratado norte-americano de comércio livre, pela organização mundial de comércio. (…) Será que a subida do PIB em 2,3 ou 4 pontos é tão importante quanto a sobrevivência da civilização ocidental (…)? Com as baixas taxas de natalidade, a abertura de fronteiras e o triunfo de um multiculturalismo anti-ocidental, é isso que está hoje em causa (…) e demasiados conservadores desertaram na última grande batalha das nossas vidas.»

Patrick Buchanan, in The Death of the West, St. Martin’s Press, pp.57-58

No coração dos homens generosos…

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«Na alvorada do 12 de Abril de 1861 rebenta a primeira granada da guerra de Secessão. De uma parte e de outra acredita-se numa guerra curta, fresca e alegre. Este conflito durará quatro anos. Será o mais sangrento de toda a história americana. As perdas serão superiores em um terço àquelas dos americanos durante a segunda guerra mundial, 618.000 contra 407.000 para uma população sete vezes menos numerosa.

Destruído pela guerra e pela reconstrução, o velho Sul sobreviverá no seu mito, na imagem de um passado ideal projectado sobre o futuro. Essa mensagem, na sua condenação de uma sociedade dominada pelo lucro e pelos imperativos económicos, tem tonalidades estranhamente actuais. O Sul sobreviverá, igualmente, nos seus filhos perdidos, os grandes fora-da-lei do Oeste, Jesse James, Cole Younger, John W.Hardin, Bill Doolin e mesmo os Dalton. Denunciados no Norte como bandidos cruéis, estes antigos guerrilheiros confederados, obrigados a continuar a guerra por sua conta pessoal, serão cantados no Sul como Robins dos Bosques.

O seu ideal cavalheiresco perpetuar-se-á no Western. O cowboy é um sulista, tem o ardor, o amor da vida livre e dos grandes espaços, o sentido meticuloso da Honra, o desprezo pela hipocrisia puritana e o respeito pela mulher.

É talvez o filme de Griffith, «O nascimento de uma nação» (1914), um dos monumentos do cinema, que dará ao Sul a sua primeira vingança. Pela sua parte toda uma geração de romancistas transmitirá a lenda dourada do velho Sul, seja Thomas Nelson Page ou Joel Chandler Harris. O Sul tornar-se-á o lugar de inspiração da literatura americana. Caldwell, Faulkner, Melville, Adams, Henry James, Pen Warren encontrarão aí o alimento da sua obra.

E depois virá, em 1936, «E tudo o vento levou» de Margaret Mitchell e o seu sucesso cintilante nos EUA e na Europa. Este livro fará renascer as brancas plantações no seu baú de magnólias e madressilvas, as jovens senhoras de crinolina, os fazendeiros galantes e os gentis-homens perseguidos pela angústia de um destino inexorável. Mas para lá da evocação fiel de uma época terrível, e da trama romântica cativante, o que atrai nesse livro é a nostalgia fremente que brota ao longo das páginas. Nostalgia de um mundo que deveria desaparecer, de um mundo irremediavelmente condenado, mas sobre o qual não se deixa de sonhar, como um paraíso perdido. Porque, se o Sul está morto, ele continua a viver no coração dos homens generosos.»

Dominique Venner, in Le Blanc Soleil des vaincus : l’épopée sudiste et la guerre de Sécession, 1607-1865, La Table ronde, 1975

Aristocracia e Virtude (I)

«O sentido do dever é, nos poemas homéricos, uma característica essencial da Nobreza, que se orgulha por lhe ser imposta uma medida exigente. A força educadora da Nobreza reside no facto de despertar o sentimento do dever, estabelecendo-se como o ideal que, deste modo, o indivíduo tem sempre diante dos olhos. Pode-se sempre apelar para este sentimento – aidos – e a sua violação desperta nos outros o sentimento que lhe está estreitamente vinculado, a nemesis. Ambos são em Homero conceitos constitutivos do ideal ético da aristocracia. O orgulho da nobreza, baseado numa longa série de progenitores ilustres, é acompanhado pelo conhecimento de que esta proeminência só se pode conservar através das virtudes pelas quais foi conquistada. O nome de aristoi convém a um grupo numeroso. Mas, neste grupo, que se ergue acima da massa, há uma luta para aspirar ao prémio da arete. A luta e a vitória são, no conceito cavaleiresco, a autêntica prova de fogo da virtude humana. Elas não significam simplesmente a superação física do adversário, mas a comprovação da arete conquistada na rigorosa exercitação das qualidades naturais. A palavra aristeia, empregada mais tarde para os combates singulares dos grandes heróis épicos, corresponde plenamente àquela concepção. O esforço e a vida inteira desses heróis são uma luta incessante pela supremacia entre os seus pares, uma corrida para alcançar o primeiro prémio. Daí o inesgotável gáudio na narração poética dessas aristeiai. Até na paz se mostra a satisfação da rivalidade pela arete viril, ocasião para cada um se manifestar em jogos guerreiros, como a Ilíada os descreve a propósito dos jogos fúnebres realizados, numa curta pausa da guerra, em honra de Pátroclo morto. Foi esta emulação que fixou como lema da cavalaria o verso citado pelos educadores de todos os tempos, e que o igualitarismo da novíssima sabedoria pedagógica abandonou: αἰὲν ἀριστεύειν καὶ ὑπείροχον ἔμμεναι ἄλλων (aspira sempre à excelência e prevalece sobre todos os outros).

Nesta frase o poeta condensou, de modo breve e certeiro, a consciência pedagógica da nobreza. Quando Glauco enfrenta Diomedes no campo de batalha, e quer mostrar-se adversário digno dele, enumera, à moda homérica, os seus antepassados ilustres e prossegue: Hipóloco me gerou, a ele devo a minha origem. Quando me enviou a Tróia, advertiu-me insistentemente de que lutasse sem cessar por alcançar o poder da mais alta virtude humana e sempre fosse, entre todos, o primeiro. Não é possível exprimir de modo mais belo como o sentimento de nobre emulação formava a juventude heróica.»

Werner Jaeger, Paideia – A formação do homem grego, tradução de Artur Parreira, Livraria Martins Fontes Ltda., 1986, pp.28-29

A Carta 77

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Em Janeiro de 1977 surgia no interior da Checoslováquia, então sob um regime ditatorial comunista, um manifesto intitulado, em checo e eslovaco, “Charta 77” (Carta 77). Publicado livremente na imprensa estrangeira o documento circularia durante vários anos de forma clandestina no interior do país, muitas vezes passado de mão em mão entre grupos de amigos.

A Carta 77 foi um documento elaborado por um grupo de dissidentes políticos que acusava o governo de violar os direitos humanos e desrespeitar vários documentos nacionais e internacionais com os quais se havia comprometido e cujos princípios faziam parte da sua propaganda política, nomeadamente a constituição da Checoslováquia de 1960 e vários acordos internacionais, inclusive da ONU, sobre os direitos políticos, civis, económicos e culturais das pessoas.

A tentativa (falhada) de escapar à perseguição política do regime

Para tentar escapar à perseguição da ditadura checa, no texto da Carta 77 constava a indicação de que o grupo signatário não formava a base de qualquer oposição política. Em vez disso sempre se definiram como um grupo apolítico e independente de defesa dos direitos humanos que visava ajudar a criar uma “polis paralela”, um espaço social de liberdade fora daquele ocupado pelo Estado.

A reacção do governo foi dura e dirigiu-se não só aos signatários da carta como aos seus cônjuges e filhos, tendo atingido muitos dos que participaram na elaboração do documento.

O modus operandi da Carta 77

O centro da estratégia da Carta 77 foi o evidenciar das incoerências internas do regime, revelando como este agia em contradição com o que apregoava. O que o manifesto fez foi pegar nos princípios políticos que eram usados pela propaganda oficial comunista, com particular destaque para a luta pelos direitos cívicos, e apontar a hipocrisia do incumprimento governativo desses princípios no caso dos seus próprios cidadãos e contra os próprios documentos oficiais que subscrevia.

Os signatários conseguiram desgastar a imagem do sistema vigente sem, ao mesmo tempo, fazerem mais do que assumirem-se como zeladores dos próprios valores do regime. Eles não eram oposição aos valores propagados pela ideologia dominante, não, eles exigiam, precisamente, o cumprimento desses valores.

A lição da Carta 77

A grande lição que se retira da Carta 77 é estratégica. A Carta 77 é uma lição de como desgastar um regime, não em confronto aberto com ele mas a partir do seu interior:

1- Analisar e compreender quais são os valores que determinado regime afirma serem os seus, quais os princípios pelos quais o regime se define e se apresenta para o exterior;
2- Analisar as formas como contraria esses valores e denunciá-las sem ser na condição de alternativa política organizada mas antes como parte independente e interessada no respeito dos mesmos. Fomentar e encorajar, ao mesmo tempo, novas incoerências.
3- Eventualmente levar o regime a reagir a essas denúncias em contradição, uma vez mais, com os valores que apregoa, reforçando assim a sua hipocrisia perante o povo

O Ocidente

A título de exercício, tomemos o caso concreto das sociedades ocidentais. Quais sãos os valores que lhes são atribuídos, aqueles pelos quais os seus regimes gostam de se definir perante o mundo e perante as suas próprias populações?

Bom, salvo pequenas diferenças nacionais, todos esses regimes, gostam de propagandear que a sua diferença assenta no respeito por coisas como a “liberdade”, a “igualdade” e os “direitos humanos”. Contudo, em todos eles, a população está ou legalmente impedida de se expressar sobre alguns assuntos, ou, noutros casos, impedida por uma espécie de coação moral e intelectual imposta pelos próprios regimes e contrária à sua propaganda. Acrescem a isso inúmeras situações onde os governos, em nome da igualdade, violam a…igualdade entre os seus cidadãos, e perde-se a conta às violações humanitárias propagadas pelos exércitos ocidentais nas inúmeras guerras injustas que travam.

Vejam-se alguns exemplos claríssimos:

1- A Constituição da república portuguesa consagra uma violação da igualdade e liberdade dos seus cidadãos quando, no seu artigo 46 proíbe, e cito: “organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista”. Isto pouco depois de, no artigo 37, consagrar a todos o direito à livre expressão, logo no seu ponto 1: “Todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações.” Se nos lembrarmos que o artigo 13 (princípio de igualdade) no seu segundo ponto afirma que “ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de”… entre uma série de outras coisas :“convicções políticas ou ideológicas”, percebemos facilmente a salganhada que para ali vai. É claro que aquela legislação é passível de defesa jurídica, não é isso que está em causa porque a lei é um mero exercício de arquitectura e criação ideológica, no fundo, isto significa que tudo (ou quase tudo) é possível de ser desenhado juridicamente. Mas talvez mais do que as incoerências filosóficas da nossa Constituição importa neste caso salientar as incoerências daquilo que é lei e política do Estado em relação à sua própria propaganda de “igualdade e liberdade”.
2- A lei Gayssot em França é um chocante exercício de censura. Aprovada em 1990 por proposta de um deputado comunista (que surpresa!) esta lei foi implementada para proibir o questionamento da existência ou dimensão dos acontecimentos que sejam considerados “crimes contra a humanidade”. O seu propósito foi ilegalizar o revisionismo histórico, nomeadamente sobre o dito “holocausto judaico”. Ou seja, esta lei impede que se discuta e investigue um determinado acontecimento histórico apesar de todas as falsidades que possam eventualmente existir no seu relato. Estabelece uma determinada visão da história e obriga toda a população a aceitá-la como verdade inquestionável em todas as suas vertentes e características. Por causa da aplicação da lei Gayssot várias pessoas viram as suas carreiras e vidas destruídas.
3- Particularmente disseminadas nos EUA são as leis de “discriminação positiva”. As leis de “discriminação positiva” visam supostamente atingir a igualdade social entre todos os grupos étnicos. Para o fazerem criam quotas que têm de ser ocupadas numa qualquer instituição por membros das minorias consideradas. Ao fazê-lo violam, em nome da procura da tal igualdade abstracta, a igualdade efectiva de tratamento dada aos restantes membros da sociedade que não fazem parte dessas minorias. Isto tem gerado casos da maior injustiça, desde estudantes que não conseguem entrar na universidade, apesar de terem demonstrado a sua superioridade intelectual, preteridos que são por pessoas das raças minoritárias, ou casos de pessoas que, apesar da sua maior capacidade e curriculum, perdem um emprego porque os empregadores precisam de preencher as suas quotas de minorias.
4- Os países ocidentais têm iniciado, mantido e fomentado guerras injustas e eticamente insustentáveis um pouco por todo o mundo, destruindo milhões de vidas, nos mais chocantes exercícios de violação de direitos humanos…em defesa dos direitos humanos!

Ou seja, se porventura fosse pretendido usar a estratégia da Carta 77 para combater os regimes ocidentais existentes, os pontos acima indicados constituiriam um repositório de causas prontas a serem trabalhadas.

Como agir?

Provavelmente todos os regimes têm, potencialmente, contradições internas (se não estão evidentes estarão latentes e são passíveis de serem despoletadas), e o militante que procura a mudança de paradigma não só deve saber identificá-las como deve saber denunciá-las. No âmbito da estratégia que aqui estamos a analisar – a da revelação das contradições internas dos regimes para o desgaste da sua imagem – a melhor forma de agir é pela criação de um determinado “órgão”: um site, um fórum, uma associação, um grupo de pressão, enfim, um qualquer espaço colectivo que sirva para vigiar a actuação do sistema e denunciar os deslizes no cumprimento dos valores de que esse “órgão” se diz protector. É também importante que esse espaço não seja uma simples emanação directa de um qualquer partido político, mas antes um grupo que consiga reunir pessoas diferentes na defesa da sua “área de interesse” e abranger a sociedade de forma transversal. Mesmo se a influência de uma determinada ideologia está na base da sua criação é importante que o “órgão” seja visto, tanto pelos seus membros, como pela população, como um espaço de independência e liberdade.