Categoria: masculino/feminino

A liberdade é o limite

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O casamento civil homossexual foi aprovado no parlamento. A essência do argumento em defesa da possibilidade de duas pessoas do mesmo sexo casarem assentou na ideia de que o Estado não pode discriminar os seus cidadãos em função da sua orientação sexual e que as pessoas têm o direito de exercer a sua liberdade individual como entenderem.

Os parlamentares, servindo-se da sua “legitimidade democrática”, decidiram o assunto antes que a plataforma cívica Cidadania e Casamento Homossexual pudesse apresentar a sua petição para um referendo sobre o assunto. Isso não coibirá, pelo que percebi, a dita plataforma de continuar a sua luta e apresentar a petição. Saudamos os envolvidos por isso e desejamos-lhes persistência.

Mas a sua causa é pensada a partir da moralidade cristã…pela nossa parte auguramos encontrar entre os que vão entrar nesse combate um espírito nietzschiano, dos mais ousados, daqueles que sabem que o niilismo só poderá ser superado quando atingir o seu auge. Sim, ocorre-me que o que precisamos é de uma petição a exigir ao Estado a celebração de casamentos polígamos.

Afinal, que direito tem o Estado de negar a felicidade aos que querem viver nesse tipo de relacionamento e que acham, como os gays, que a sua felicidade depende de poderem casar? Se essa prática é escolhida no exercício da liberdade individual de adultos conscientes, sem obrigar partes externas ao que quer que seja, que legitimidade ética assiste ao Estado para a proibir e discriminar essas pessoas?

Da crescente falta de classe nas mulheres…

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Um grupo de estudo da American Psychological Association analisou os efeitos nocivos para as jovens raparigas da imagem degradante da mulher veiculada pela maioria dos media. O relatório denuncia a sexualização sistemática das mulheres, quer seja nas revistas para adolescentes, nas emissões de televisão, nos jogos de vídeo, nos filmes e nos clips musicais. As campanhas de publicidade e os produtos destinados às crianças e às jovens foram igualmente analisados.

O relatório define a sexualização como a apresentação da mulher enquanto objecto sexual que não tem outro valor para além da atracção que exerce através do seu comportamento. Os efeitos nocivos que a sexualização implica vão desde distúrbios alimentares à depressão. O estudo debruça-se apenas sobre os efeitos nocivos físicos, não entrando no domínio moral que é preciso aqui lembrar: a imagem degradante da mulher transmitida pelos media é uma fortíssima incitação a uma conduta sexual desordenada e imoral.

Exemplos de sexualização, denunciados no relatório:

– As jovens «pop stars» apresentadas como objectos sexuais
– As bonecas vestidas de forma ordinária e as mesmas roupas disponibilizadas para meninas de sete anos: espartilhos, meias de renda, etc.
– Modelos adultas vestidas provocatoriamente como crianças

(…) As pesquisas sistematizadas por este grupo de estudo demonstram que certas imagens e a promoção das raparigas como objectos sexuais acarretam numerosas consequências nocivas para a saúde psicológica e o desenvolvimento das jovens.

Andrew Hill, professor de psicologia médica na Universidade de Leeds, declarou que era difícil estar em desacordo com as conclusões do estudo: «se olharmos as revistas para adolescente, só se fala de sexo» (…)

«Apenas 18% do que as crianças vêem na televisão corresponde ao horário e aos programas que lhes são destinados e a legislação não pode ser a única solução para tudo. Uma das respostas é a responsabilidade social, a dos anunciantes e a dos media. Devem estar conscientes de que os seus produtos e as imagens associadas a esses produtos têm um impacto e que esse não é sempre positivo». (NdT. como se eles não tivessem essa consciência…passe a ingenuidade.)

Fonte: Avenir de la culture, via Euro Synergies

Esta era não é para homens

«E as mulheres, uma das suas especialidades? Vão sobreviver aos homens?

– É evidente que as mulheres estão no centro da instrumentalização liberal. Teorizo isso enquanto pensador, mas os liberais constatam-nos enquanto comerciantes: as mulheres são o melhor agente do liberalismo, menos polarizadas pela solidariedade de classe, mais “psicologisantes”…sentem-se mais à vontade neste mundo da mercantilização integral, do desejo, das pulsões…o sistema que lhes garantiu a paridade compreendeu-o muito bem…o meu livro “Vers la féminisation” (rumo à efeminização) é uma das chaves de compreensão do nosso mundo. O mundo liberal assegura a sua sobrevivência, apesar das suas contradições suicidárias, liquidando o homem no sentido clássico e grego do termo, o homem consciente, apoiando-se no adolescente, na jovem mulher, que é sem dúvida a figura mais conseguida da decrepitude liberal. É a jovem mulher burguesa de esquerda que reina hoje nos Media, da manequim à entrevistadora política. Que ironia! É a ela, que pelo seu ser é a mais inapta a compreender o mundo, que entregamos a tarefa da análise e do comentário jornalístico. Esta estratégia perversa, fomentada por homens, é também o cume da misoginia sobre o qual todas as feministas se perdem.»

Alain Soral em entrevista ao “Le Choc du Mois” de junho de 2009

In memoriam – Hugo Pratt

balada

«Pandora: Bom dia, Corto Maltese!
Corto: Ena! Estás muito bonita! Fazes-me lembrar um tango de Arola que eu ouvia no cabaré ‘Parda Flora’, em Buenos Aires.
Pandora: Talvez houvesse por lá alguém parecido comigo?
Corto: Não. É precisamente por não te pareceres com ninguém que gostaria de te encontrar sempre… em toda a parte…»

Hugo Pratt, A Balada do Mar Salgado

Luxo e Capitalismo

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A supremacia do feminino é manifestamente o objectivo final das oligarquias que controlam e governam o Ocidente moderno. Para explicar o motivo de tanta solicitude face às instâncias feministas é muito útil a leitura de um clássico do pensamento económico: Amor, Luxo e Capitalismo (Liebe, Luxus und Kapitalismus) de Werner Sombart. Nesta obra de 1913 o grande economista alemão analisa os processos que transformaram uma economia baseada nas exigências reais à moderna sociedade de consumo fundada sobre os bens de luxo e coloca em destaque a transformação na relação entre os sexos que determinou o nascimento de novas estruturas sociais.

No final da Idade Média assiste-se a um extraordinário desenvolvimento da vida de corte. A primeira corte moderna que fez gala de luxo supérfluo foi a corte papal de Avignon. Os príncipes italianos do renascimento ampliaram estas tendências e nas suas cortes as senhoras tinham grande influência. Naturalmente, desde a Antiguidade que haviam existido figuras femininas com papéis reais ou de notável poder, mas a novidade era que nas cortes do renascimento havia cada vez mais espaço para as damas de companhia, amantes e prostitutas de alto nível.

Enquanto na Idade Média a riqueza era eminentemente representada pela propriedade térrea, no Renascimento começa a circular uma grande quantidade de dinheiro, também por causa do ouro e da prata provenientes das Américas. Multiplicam-se as aquisições de títulos nobiliárquicos e assiste-se ao ingresso na alta sociedade de elementos vindos da burguesia totalmente alheios ao estilo de vida da nobreza guerreira: a concepção mercantilista do mundo estende-se cada vez mais e contamina todos os estratos sociais. As cidades engrandecem desmesuradamente e começa a formar-se uma espécie de “proletariado” urbano do qual as forças da subversão se servirão habilidosamente nos séculos que virão. Por outro lado, a reforma protestante, como é sabido, dará um impulso decisivo ao capitalismo, removendo a desconfiança em relação à riqueza que havia caracterizado toda a reflexão económica medieval. O capitalismo nascente encontrava assim os seus aliados naturais em todas aquelas figuras que a Idade Média havia olhado com suspeição: os judeus, os heréticos, os infiéis, os estrangeiros…

O dinheiro, que para a Igreja medieval era o “esterco do demónio”, torna-se para os protestantes numa bênção de Deus.

Paralelamente à ascensão do protestantismo surge uma concepção descomprometida e puramente hedonista das relações entre os sexos, em que as uniões estáveis dão lugar a casais de amantes ocasionais em que o princípio de legitimidade se torna cada vez mais degradado. Na corte francesa do século XVIII assistir-se-á à institucionalização de uniões de facto como aquela célebre formada por Luís XV e Madame Pompadour. A própria Maria Antonieta, de resto, mostrar-se-á sempre pronta a ostentar o luxo mais desbragado, e o comportamento digno que terá nos momentos dramáticos da Revolução Francesa não justificará a vida indecorosa de uma nobreza que já estava completamente corrompida.

Os intelectuais do iluminismo exaltavam o estilo de vida dispendioso pela sua capacidade de movimentar os mercados, mesmo se estes iluministas filantropos fechavam os olhos ao comércio de escravos africanos que assumia naqueles anos proporções gigantescas (entre os negreiros tinham também um papel não secundário os capitalistas judeus e maçons…)

No curso do século XVIII assiste-se a uma produção anormal de bens de consumo que não têm justificação no seu uso efectivo: espelhos, porcelanas, flores artificiais…

Sombart pensa que as formas económicas variaram sobretudo em virtude destas grandes mutações psicológicas ocorridas no período examinado, enquanto os historiadores marxistas ou liberais, marcados por um rígido determinismo, pensam que tais mudanças foram o resultado inevitável de novas descobertas geográficas e da relativa expansão dos mercados. O resultado final destes processos está hoje, contudo, à vista de todos: o turbo-capitalismo globalizado que encontra nas reivindicações feministas o mais fiel aliado. A aniquilação da família natural, na realidade, produziu uma posterior expansão do consumo, que atinge agora níveis inverosímeis.

Amor, Luxo e Capitalismo, para além de ser um estudo histórico que sugere perspectivas originais de pesquisa, é um eficaz antídoto contra o pensamento único liberal e é particularmente recomendada a leitura deste clássico do anti-capitalismo militante na época que levou a consequências extremas a lógica da especulação financeira.

Michele Fabbri

Eterno Feminino

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Não quer nada comigo, uma vez que aceita sem pesar ver-me sair da sua vida, mas deseja perder-me com as honras de guerra. Não convém que a mulher deixe de ver em si um herói. Receia ser despoetizado, pobre anjinho! Pois bem, fique sabendo que o verdadeiro herói é aquele que dá felicidade. E se alguma coisa me poderia causar repugnância não seria o «acto carnal» consigo, seria a sua cobardia em esquivar-se a ele. A sua miserável confissão fez, pela primeira vez, vacilar a admiração que lhe dedico. Sim, a sua ridícula amizade só me merece compaixão e desprezo, visto ser tão frouxa que não assimila a carne e lhe receia os fermentos. E é você o deus fecundador! Invejam-no e, no entanto, leva uma existência vergonhosa. Sim, não sabia? Oh, todos esses homens «superiores»! Esses impotentes! Esses parasitas! Mereciam que os homens vulgares, os rapazes valentes, de mãos calosas, lhes cortassem a cabeça – é outra coisa de que se não sabem servir para fazer felizes aquelas que precisam mais da felicidade do que da vida. Ah! Por que não me possuiu, ainda que fosse só para me humilhar? Podia curar-me de um amor que me mata e não o fez! Deve-se sofrer nobremente, hem? Deve-se ser sublime. O cavalheiro é forte no sacrifício – no sacrifício dos outros, evidentemente.«Seja como for, conserva-me a sua amizade, não é verdade?» Por outras palavras: «Poderia, com um simples gesto sem consequências para mim, dar-lhe a felicidade. Mas não quero. No entanto, desejo que permaneça na minha vida, mas apenas o necessário para me ser agradável, sem me aborrecer nem complicar a existência. Não gosto da sua cara, nem do seu corpo, nem da sua presença; pode dar essa parte grosseira de si mesma a quem quiser. Mas reserve-me sempre, peço-lhe, querida Menina, a sua parte etérea. Sem falar (por memória) do direito de a fazer sofrer.» Pois bem, estou farta do heroísmo. Você curou-me do heroísmo. Para sempre.

Sonhara que um homem me dominava, me arrebatava numa tempestade. Escolhera um conquistador, um príncipe radioso, um homem dez vezes mais másculo, mais inteligente, mais senhor de si, mais prestigioso do que os outros; o homem que fora capza de responder a certo jornalista católico que lhe censurava ter abusado do prazer: «Que mal há nisso? Fiz gozar a criação!» Queria dar-lhe o meu espírito, a minha juventude, o meu corpo virgem, a minha boca que nunca foi beijada. Seria feliz em lhe obedecer. Estava pronta a imolar-lhe fosse o que fosse, a minha vida, até mesmo a minha honra. Pois ofereci-lhe tudo isto e ele não o quis! Previra e aceitara tudo: durante, a perda da minha paz íntima, depois, o abandono súbito, a sua infidelidade, o seu esquecimento, o meu desespero e a minha reputação perdida. Previra tudo, excepto que a minha oferenda fosse repelida. Previra tudo para depois, só não previra que não haveria depois. Queria o seu abraço e encontrei apenas a sua «gentileza» e a sua piedade. Ou um velhote protector e paternal, ou um rapazola caprichoso e turbulento. Perfilhava a psicologia dos simples, talvez dos humildes, que julgam ser inevitável o desejo entre um homem e uma mulher jovens e normais, que se amam com prazer. Esquecera-me dos requintes da «alta burguesia» e do «escol intelectual». Sabe que mais? Tornou-me comunista.

Henri de Montherlant, Noivas de Ninguém, Publicações Europa-América, 1974, pp.126-128

Os duros não dançam

boxer

Dougy Madden, personagem criado por Norman Mailer, representa o arquétipo de um certo universo masculino perdido algures nas passagens de testemunho entre gerações…a sua filosofia de vida, expressa nalgumas frases simples que repete ao filho, é a de um tipo de homem que pode quebrar mas não cede.

«Uma vez quando estava numa luta, o meu adversário disse-me: “ok, desisto”. Parámos e apertámos as mãos. A minha mãe não ficou descontente porque (1) venci, uma vez que ela havia aprendido ao longo dos anos que isso faria o meu pai feliz e (2) agi como um cavalheiro. Apertei as mãos como devia de ser. O meu pai ficou intrigado. Eu era realmente dos subúrbios. Podíamos entrar numa luta e dizer “desisto” e o vencedor não celebraria batendo a nossa cabeça contra o pavimento. “Rapaz, onde eu cresci” (que foi na Rua 48 a oeste da décima avenida), disse-me ele, “nunca desistimos”. Mais vale dizer “morri!”»

É um homem de poucas palavras e de sentimentos contidos. Exposto à análise, ou melhor, à psicanálise, dos novos tempos que viriam, os do triunfo dos valores femininos, com a sua celebração da verbalização das emoções e da exteriorização, até pública, dos afectos, Dougy seria sempre um personagem disfuncional. Não é que isso, provavelmente, lhe importasse…Ele vem de um tempo que já não é deste mundo, onde os homens não pretendiam compreender as mulheres, receavam amolecer os filhos e os actos substituíam as palavras.

«A minha pobre mãe. Ela era tão carinhosa que me beijava a todo tempo. (Às escondidas). Ela nunca queria que ele pensasse que “os meus hábitos eram pouco másculos”. Nem uma vez Douglas, “repetia ela agora”, “dizes que me amas”. Ele não respondeu por um minuto, mas depois respondeu-lhe num irlandês de rua – era a sua declaração de amor – “Estou aqui, não estou?”»

É num regresso da memória ao passado que Tim Madden, o filho de Dougy, nos transporta para o dia da sua juventude em que, pela primeira vez, e depois de ter perdido um combate de boxe, o pai lhe contou aquela história que pretendia definir um estilo de homem.

«O meu erro foi que não dancei. Devia ter saído rápido a seguir à campainha para o atingir. Devia ter feito: “bate!bate! esquiva”, disse enquanto movia as mãos “e afastava-me. Depois voltava com o jab, dançava para fora de alcance, rondava e dançava, e batia e batia!” Congratulei-me com este grande plano de guerra. “Quando ele estivesse pronto, podia tê-lo derrubado.”

A cara do meu pai estava sem expressão.”Lembras-te de Frank Costello?” perguntou. “O maior dos gangsters”, respondi com admiração.”Uma noite Frank Costello estava num clube nocturno com a sua loira, uma boa rapariga, e à sua mesa tinha também Rocky Marciano, Tony Canzoneri e Two-Ton Tony Galento (NdT. campeões de boxe). A orquestra está a tocar e Frank diz a Galento: “Hei, Two-ton, quero que dances com a Gloria”. Galento fica nervoso. Quem é que quer dançar com a rapariga do “big man”? E se ela simpatiza connosco? “Mr. Costello, diz Two-ton Tony, “sabe que não sou grande dançarino”. Pousa a cerveja, responde Frank, “e vai para ali e mexe-te. Vais sair-te bem”. Então Two-ton Tony levanta-se e vai dançar com Gloria. Quando regressa Frank diz a mesma coisa a Canzoneri e ele tem de ir com Gloria. Depois é a vez de Rocky. Marciano acha que ganhou por mérito próprio o direito a tratar Costello pelo primeiro nome, e diz: “Mr. Frank, nós os pesos-pesados não somos grande coisa num salão de dança”. “Vai fazer algum trabalho de pés” responde Costello. Enquanto dança com Rocky, gloria aproveita para lhe sussurrar: “Campeão, faz-me um favor, vê se consegues que o tio Frank dê uns passos comigo”. Quando a música acaba Rocky trá-la de volta. Sente-se melhor e os outros também recuperaram o nervo. Começam a brincar com o “big man”, com muito cuidado, percebes, apenas uma brincadeira de bom gosto. “Hei, Mr.Costello”, dizem,” Mr. C., vá lá, por que não dá uma dança à sua senhora?” “Sim?” pergunta Gloria “por favor!”.”É a sua vez Mr.Frank”, dizem. Então, contou-me o meu pai, Costello abana a cabeça e diz:” Os duros não dançam”.»

É sintomático que Dougy esteja a morrer (de cancro) mas mantenha o seu estado de saúde para si: é um homem orgulhoso que despreza a piedade e a compaixão alheia, resolve sozinho os seus problemas…quando têm resolução. O sofrimento, naquele tipo de homem, é descoberto, não é revelado.

«Deve estar a fazer quimioterapia. Calculo que se tenha acostumado ao olhar das pessoas depois da aversão inicial, pois disse-me: “Sim, tenho-o”. “Onde é que está situado?” Fez um gesto a indicar que não estava nem aqui nem ali. “Obrigado por teres enviado um telegrama”, disse-lhe.”Miúdo, quando não há nada que ninguém possa fazer, guarda a tua história para ti”.»

É a transposição da situação de Dougy, da sua esfera pessoal e portanto interior, para o espaço exterior, o da relação com o filho, que conduz ao momento de maior intimidade entre os dois… e é também aí que percebemos que aquela frase que Dougy havia transmitido ao filho há tantos anos é para ele todo um código de vida, que transporta para o seu derradeiro combate, contra o maior dos adversários, a morte. Mas esse é um adversário que impõe as suas regras…

«”Já não estou seguro de saber o que isso significa”, disse-me. “Há seis meses disseram-me que tinha de deixar de beber ou estava morto. Por isso parei. Agora, quando vou dormir, os espíritos saem das madeiras e fazem um círculo em torno à minha cama. Depois fazem-me dançar a noite inteira”. Tossiu com todas as cavidades dos seus pulmões. Fora uma tentativa de rir. “Os duros não dançam”, respondo-lhes. “Hei, seu preconceituoso”, respondem os espíritos, “continua a dançar.”»

A doença de Dougy é também simbólica, a sua caminhada progressiva para a morte representa igualmente o fim daquele tipo de homem, ultrapassado pelos novos tempos e incompreendido pelas novas gerações que não só não partilham os seus códigos como não os entendem. É significativo a esse respeito o pensamento de Tim:

«Certamente o meu pai quisera transmitir algo mais do que devermos aguentar firme perante os problemas, algo mais que indubitavelmente não conseguia ou não podia expressar, mas ali estava, o seu código. Não podia ser menos que um juramento. Será que me escapou algum princípio elusivo sobre o qual a sua filosofia devesse cristalizar?”

No final, por que é que os duros não dançam? Não é um mero detalhe ou coincidência que essa ideia seja pela primeira vez apresentada no seguimento de um combate de boxe (e envolvendo uma história com pugilistas) e posteriormente seja retomada na descrição de um momento de tormento pessoal, porque o boxe está presente em toda a obra de Mailer e o seu sentido extravasa dos ringues para a vida de todos os dias.

Mailer, nos seus escritos sobre o combate nos ringues, coloca em confronto dois estilos de lutadores, diz-nos a professora Kasia Boddy, de um lado um estilo mais criativo, mais furtivo, mais elegante, dir-se-ia feminino (Kasia Boddy chamou-lhe também “estilo negro”), é o dos que dançam…por outro lado, em oposição, há um estilo mais sóbrio, mais frontal, mais grosseiro, portanto masculino (ou, para utilizar a terminologia de Boddy, o “estilo branco”, mesmo se o lutador é negro), e esse é o dos que não dançam, dos que “permanecem”.

Conta-nos Markku Lehtimäki (The Poetics of Norman Mailer’s Nonfiction, Tampere University, pg. 178) que na descrição que Mailer faz do histórico combate que opôs Muhammad Ali a George Foreman, há uma passagem a todos os títulos exemplificativa destes estilos que se opõem, no ringue como na vida: a dada altura Ali (que venceria o combate) vira-se para Foreman e diz:”sim, vamos dançar” “vamos dançar e dançar” enquanto Foreman olha-o em silêncio, como que dizendo que “os duros não dançam”. No oitavo assalto Foreman vai ao tapete, a contagem descrescente inicia-se e sabemos que, para ele, o combate está perdido, mas mesmo assim, num esforço formidável, levanta-se… já fora de tempo, é certo, mas levanta-se.

Diríamos a Tim Madden que, de facto, não se trata apenas de “resistir” na adversidade mas também da forma “como se resiste”. Os duros não dançam porque não se esquivam, avançam e aguentam os golpes, quando caem levantam-se, se podem perder não podem desistir e quando ganham devem fazê-lo da maneira certa, não mudam, na derrota ou na vitória permanecem sempre fiéis a um determinado código.

Da virilidade

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«Aqui a virilidade é rara: é por isso que as mulheres se tornam viris. Porque só aquele que é suficientemente homem pode salvar a mulher na mulher!»

F.W.Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, 3º Parte – Da Virtude que Diminui

A mulher europeia

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«A liberdade e a plena dignidade da mulher. O europeu quer a mulher livre, não somente por ela, mas também por ele…porque apenas a sente como sua se ela se entregar livremente e puder deixá-lo a qualquer momento.»

Robert Dun, Les Catacombes de la Libre Pensée, Liberté, Vérité, Santé, 1999, pag.6

EU!EU!EU!

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Uma das características mais estranhas, e das mais insuportáveis, da psicologia moderna é talvez a completa confusão entre «ter personalidade» e «exprimir egoísmo e egocentrismo».

Com efeito, hoje, tudo o que possa assemelhar-se a altruísmo, humildade, entrega, abnegação discreta, reconhecimento ou admiração silenciosa é visto como, horresco referens, fraqueza! «submissão». E como todos sabem, toda a «submissão» é indigna e infame, não só quando é imposta mas também quando é escolhida…abjecta pela sua própria natureza, que pretende que o indivíduo reconheça não ser a criatura mais excepcional do universo, semi-deus formidável «que se basta a si mesmo», mas um simples herdeiro de quem serviu, reconhecido ao passado, às suas formas, princípios e valores e, porque não, às personalidades superiores que lhe preenchem os dias.

Doravante, fora de si mesmo, não há salvação! Para existir e brilhar socialmente é conveniente dar nas vistas e fazer barulho afim de se impor no grande carnaval das relações humanas! Qualquer que seja o preço!

É chegado o tempo do homem-sirene!

Para captar um pouco de atenção dessa massa imunda e débil a que chamam «as gentes», é preciso fazer-se notar por todos os meios possíveis, os mais vis, sendo, evidentemente, privilegiados. Torna-se assim vital «distinguir-se», cuspindo na cara do mundo o pequeno escarro da sua «diferença» e «originalidade», evidentemente fictícias, mas que existirão artificialmente durante alguns instantes pelos lamentáveis métodos da «contradição sistemática», do «contra-golpe mecânico» ou da «provocação estéril».

Esta tendência está notoriamente presente no funcionamento quotidiano de uma variedade de pretensos casais em que os membros, em aparente concorrência permanente, não parecem ter outro objectivo do que exibir aos olhos dos outros não o que os aproxima e une mas, pelo contrário, o que os diferencia e separa, cada um querendo provar a todo o custo que a sua formidável (e única!) personalidade não foi minimamente obliterada pela vida em comum. Daí a grotesca e infindável competição a que se entregam estes pares de egoístas, receosos de solidão, que não serão nunca verdadeiros casais. Nada lhes está mais perto do coração do que fazer demonstração da sua suposta «independência» e da sua posição «dominante» no «funcionamento relacional» a que se resume a sua junção mais ou menos efémera.

Assim, as disputas perpétuas, os desacordos públicos e as sempiternas contradições tornaram-se, pouco a pouco, provas de «sanidade», de «vitalidade» e de um «carácter apaixonado», de uma relação conjugal que liga «duas personalidades fortes», quando na verdade não passam de tristes e lastimáveis prolegómenos da derrota inelutável de dois cretinos cheios de egoísmo e pretensão, incapazes de sacrificar a mínima parte dos seus egos hiperatrofiados para criar algo maior e mais digno que a soma das suas duas mediocridades.

Sobretudo não «amar», «servir», «encorajar», «ajudar», «apoiar» ou «seguir» simplesmente o seu cônjuge, mas antes «reajustá-lo», «colocá-lo no seu lugar», «vigiá-lo», «criticá-lo» ou «gozá-lo» (gentilmente, claro! A modernidade está cheia de gente gentil!), para bem demonstrar «que não somos tolos!» e «que não nos deixamos enganar» nem «possuir».

Com as uniões dessacralizadas e tornadas vulgares contratos de tipo liberal, é natural, no fundo, que as relações que daí resultam sejam reduzidas às patéticas gesticulações de um negociador de ocasião que, apavorado pela ideia de passar por ingénuo ou tonto, expõe ele próprio, para se adiantar aos outros, os defeitos e disfuncionalidades do objecto da sua escolha.

Zentropa