Categoria: Revolução Conservadora

Conceito/Imagem

«A noção de Weltanschauung

A Revolução Conservadora, não sendo uma filosofia rigorosa de tipo universitário é uma vaga de Weltanschauungen (NdT: cosmovisão; visões do mundo). Enquanto a filosofia faz parte integrante do pensamento do velho Ocidente, a Weltanschauung surge no momento em que o edifício ocidental se afunda. Anteriormente as categorias estavam bem compartimentadas: o pensamento, os sentimentos, a vontade, não se misturavam em fluxos desordenados. Mas no nosso “interregno”, que sucede ao re-afundamento do cristianismo, as Weltanschauungen mesclam pensamentos, sentimentos e vontades no seio de uma tensão perpétua e dinamizadora. O pensamento, sustentado pelas Weltanschauungen, possui desde logo um carácter instrumental: solicitamos uma multitude de disciplinas para ilustrar ideias já previamente concebidas, aceites, escolhidas. E essas ideias servem para atingir objectivos na própria realidade. A natureza particular (e não universal) de todo o pensamento revela-nos um mundo multicolor, um caos dinâmico, em mutação perpétua. Segundo Armin Mohler, as Weltanschauungen já não são veiculadas por filósofos puros, ou poetas puros, mas por seres híbridos, meio-pensadores, meio-poetas, que sabem conjugar habilmente – e com uma dada coerência – conceitos e imagens. Os gestos da existência concreta jogam um papel primordial nestes pensadores-poetas: pensemos em T.E. Lawrence (da Arábia), Mlraux e Ernst Jünger. As suas existências comprometidas fizeram-nos tocar com os dedos os nervos da vida, transmitiram-lhes uma experiência das coisas bem mais viva e forte do que a dos filósofos e dos teólogos, mesmo os mais audaciosos.

A oposição conceito/imagem

Os vocábulos e os conceitos são portanto insuficientes para abarcar a realidade em toda a sua multiplicidade. A palavra do poeta, a imagem, são-lhe de longe superiores. A nova era reflecte-se desde logo nos trabalhos dos “intelectuais anti-intelectuais”, daqueles que podem, com génio, moldar as imagens. Uma passagem do jornal de Gerhard Nebel, datada de 19 de Novembro de 1943, ilustra perfeitamente as posições de Mohler quando este sublinha a importância da Weltanschauung em relação à filosofia clássica e sobretudo quando ele entoa o seu apelo à intensidade da existência contra o monocronismo das teorias, apelo que ele sintetizou no conceito de “nominalismo” e que teve a ressonância que bem sabemos na maturação intelectual da “Nouvelle Droite” francesa.

Escutemos portanto as palavras de Gerhard Nebel:

“A ligação entre os dois instrumentos metafísicos do homem, o conceito e a imagem, deixa àqueles que se querem exercitar na comparação uma matéria inesgotável. Podemos assim dizer que o conceito é improdutivo, na medida que não faz mais que ordenador aquilo que nos é evidente, o que já descobrimos, o que está à nossa disposição, enquanto a imagem gera a realidade espiritual e traz à superfície os elementos até então escondidos do Ser. O conceito opera prudentemente distinções e reagrupamentos no quadro estrito dos factos seguros, a imagem colhe as coisas, com a impetuosidade do aventureiro e a sua ausência de todo os escrúpulo, e lança-as em direcção ao vasto e infinito. O conceito vive de medos, a imagem vive do fausto triunfante da descoberta. O conceito deve matar a sua presa (se é que não a tomou já apenas um cadáver) enquanto a imagem faz aparecer uma vida fulgurante. O conceito, enquanto conceito, exclui todo o mistério, a imagem é uma unidade paradoxal de contrários, que nos esclarece ao mesmo tempo que honra o obscuro. O conceito é envelhecido, a imagem é sempre fresca e jovem. O conceito é a vítima do tempo e envelhece rápido, a imagem está sempre para além do tempo. O conceito está subordinado ao progresso, como as ciências, que elas também, pertencem à categoria do progresso, enquanto a imagem provém do instante. O conceito é economia, a imagem é prodigalidade. O conceito é o que é, a imagem é sempre mais do que parece ser. O conceito solicita o cérebro mas a imagem solicita o coração. O conceito não move mais do que uma periferia da existência, a imagem, essa, actua sobre a totalidade da existência, sobre o seu núcleo. O conceito é finito, a imagem é infinita. O conceito simplifica; a imagem honra a diversidade. O conceito toma partido, a imagem abstém-se de julgar. O conceito é geral, a imagem é antes de tudo individual e, mesmo onde podemos fazer da imagem uma imagem geral e onde lhe podemos subordinar fenómenos, esta acção de subordinação relembra as caçadas apaixonantes; o aborrecimento que suscita a inclusão, o encerramento de factos do mundo em conceitos, é estrangeiro à imagem…”

As ideias veiculadas pelas Weltanschauungen encarnam-se arbitrariamente no real, de modo imprevisível, intermitente. Com efeito, estas ideias já não são ideias puras, elas já não têm um lugar fixo e imutável num qualquer Empíreo, para lá da realidade. Elas estão, pelo contrário, imbricadas, prisioneiras das aleatoriedades do real, subordinadas às suas mutações, aos conflitos que formam a sua trama. Estudar o impacto das Weltanschauungen, entre as quais as da Revolução Conservadora, é apresentar uma topografia de correntes subterrâneas que não saltam directamente à vista do observador.»

Robert Steuckers, La “Révolution Conservatrice” en Allemagne

O socialismo nacional de Gregor Strasser

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Somos socialistas. Somos inimigos, inimigos mortais, do sistema capitalista de hoje com a sua exploração dos que são economicamente fracos, a sua política salarial injusta, a sua forma imoral de julgar o valor dos seres humanos em termos da sua riqueza e do seu dinheiro, em vez da sua responsabilidade e desempenho, e estamos determinados a destruir este sistema aconteça o que acontecer!

E contudo não é suficiente mudar apenas o sistema, substituir um modelo económico por outro; o que é necessário, acima de tudo, é mudar o espírito! O espírito que tem de ser ultrapassado é o espírito do materialismo!

Temos de aprender que o trabalho significa mais do que possessões. O desempenho é mais do que dividendos. A mais desprezível herança deste sistema capitalista é que o dinheiro, a riqueza, as possessões, sejam o critério para julgar o valor de tudo e todos! O declínio de um povo é a consequência inevitável da utilização deste critério, porque a selecção com base na propriedade é a arqui-inimiga da raça, do sangue, da vida! Nunca deixámos qualquer dúvida de que o nosso socialismo nacional põe um ponto final nos privilégios da riqueza e que a emancipação do trabalhador envolve a sua participação nos lucros, propriedade e gestão.

Tem havido muita conversa no movimento Volkisch sobre a emergência de uma nova liderança política, e o apelo a essa liderança é compatível com o que tenho vindo a dizer. Mas as formas que recomenda para resolver o problema: analisando o sangue das pessoas, pela re-nordificação, etc., etc., parecem-me dúbias no que concerne à sua viabilidade, ao seu valor e até à sua eficácia. Há outra forma, contudo, que é tipicamente germânica,direi prussiana, que é mais apropriada do que qualquer outra: a selecção através do serviço militar!

Para um homem, o serviço militar é a mais profunda e valiosa forma de participação no Estado, para a mulher é a maternidade. Há muitas tribos africanas onde as mulheres que morrem no parto são enterradas com as mesmas honras dos guerreiros que caíram em combate!

Podem chamar-me utópico, mas para mim é uma certeza. Com vinte a trinta anos deste tipo de selecção, a Alemanha terá uma liderança e uma classe executiva que mudará toda a face da sociedade e do Estado, e constituirá a coluna vertebral do Estado e da sua economia!

Gregor Strasser

O dinheiro, a imprensa e a democracia

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«O que é a verdade? Para a multidão é aquilo que continuadamente lê e ouve. Uma pequena gota perdida pode cair algures e reunir terreno para determinar “a verdade”, mas o que obtém é apenas a sua verdade. A outra, a verdade pública do momento, que é a única que interessa para resultados e sucessos no mundo dos factos, é, hoje em dia, um produto da imprensa. O que a imprensa quer torna-se verdade. Os seus dirigentes evocam, transformam, permutam verdades. Três semanas de trabalho da imprensa, e a verdade passa a ser reconhecida por toda a gente.

As suas bases são irrefutáveis enquanto o dinheiro esteja disponível para as manter intactas. Também a retórica Clássica foi concebida para o resultado e não o conteúdo – como Shakespeare brilhantemente demonstra na oração do funeral de António – mas essa estava limitada à audiência presente e ao momento. O que o dinamismo da nossa imprensa pretende é a eficiência permanente, manter a mente dos homens continuamente sob a sua influência. Cada argumento é derrubado assim que a vantagem do poder financeiro passa para o contra-argumento e passa a levar este último ainda com mais frequência aos olhos e ouvidos dos homens. Nesse momento a agulha da opinião pública inclina-se para o pólo mais forte. Todos se convencem imediatamente da nova verdade e passam a olhar para si próprios como tendo sido acordados do erro.

Com a imprensa política existe a necessidade de uma educação escolar universal, que no mundo clássico estava completamente ausente. Nesta exigência existe um elemento algo inconsciente de desejar conduzir o rebanho das massas, como objecto da política partidária, ao encontro do poder dos jornais. O idealista da democracia nascente olhava a educação popular, sem reservas, como esclarecimento (“iluminismo”) puro e simples, e ainda hoje encontramos aqui e ali cabeças fracas que se entusiasmam com a Liberdade da Imprensa, mas é precisamente isto que abre caminho para os vindouros Césares da imprensa mundial. Os que aprenderam a ler sucumbem ao seu poder, e a auto-determinação visionária da democracia tardia resulta numa determinação total do povo pelos poderes a quem a imprensa obedece.

Nas disputas do presente a táctica consiste em retirar ao adversário esta arma. Na infância pouco sofisticada do seu poder, o jornal sofreu com a censura oficial que os campeões da tradição lhe impuseram em auto-defesa, e então a burguesia chorou porque a liberdade do espírito estava em perigo. Agora a multidão segue placidamente o seu caminho, conquistou definitivamente para si esta liberdade. Mas nos bastidores, longe da vista, as novas forças combatem-se comprando a imprensa. Sem que se observe, o jornal, e com ele o leitor, muda de mestre. Também aqui o dinheiro triunfa e obriga os espíritos livres ao seu serviço. Não há domador que tenha os seus animais sob maior controlo. Soltem o povo, como leitor-massa, e explodirá pelas ruas jogando-se contra o alvo indicado, aterrorizando e partindo montras; basta uma indicação ao staff da imprensa e o povo acalmar-se-á e irá para casa. A imprensa é hoje um exército com armas e ramos cuidadosamente organizados, com os jornalistas como oficiais e os leitores como soldados. Mas aqui, como em qualquer exército, o soldado obedece cegamente e os objectivos de guerra e planos de operações mudam sem o seu conhecimento.

O leitor não sabe, nem é autorizado a saber, os propósitos para os quais é usado, nem sequer o papel que irá desempenhar. Uma mais aterradora caricatura da liberdade de pensamento não poderia ser imaginada. Antigamente um homem não se atreveria a pensar livremente. Agora ele atreve-se, mas não consegue; a sua vontade de pensamento é apenas uma vontade de pensar dentro da ordem, e é isto que ele sente como sendo a sua liberdade.

E o outro lado desta liberdade tardia é permitir a todos dizer o que lhes apraz, mas a imprensa é livre de tomar nota do que é dito ou não. Pode condenar qualquer “verdade” à morte simplesmente não a comunicando ao mundo, uma terrível censura de silêncio, que é ainda mais potente porque as massas de leitores desconhecem em absoluto que existe. (…)

A ditadura dos partidos é suportada pela da imprensa. Os competidores esforçam-se através do dinheiro para afastar os leitores das alianças hostis e para os colocar sob o seu treino. E tudo o que aprendem nesse treino, é o que foi considerado que deveriam saber, porque uma força mais alta define a imagem do seu mundo por eles. Não há agora necessidade, como havia com os príncipes barrocos, de impor a responsabilidade do serviço militar uma vez que se açoitam as almas com artigos, telegramas e imagens até que o clamor por armas obrigue os líderes a um conflito para o qual queriam ser obrigados.(…)

O pensamento, e consequentemente a acção, das massas é mantido sob um controlo férreo, razão pela qual, e apenas por essa razão, aos homens é permitido serem leitores e votantes, isto é, numa escravidão dupla enquanto os partidos se tornam os séquitos obedientes de uns poucos, e a sombra do cesarismo vindouro já os toca.

Como sucedeu à monarquia inglesa no século XIX, também os parlamentos se tornarão, no século XX, um espectáculo pomposo e vazio. Como antes com o ceptro e a coroa, são agora os direitos do povo que são exibidos em parada para a multidão, e quanto mais escrupulosamente menor o seu verdadeiro significado. Foi por esta razão que o cauteloso Augusto nunca deixou passar uma oportunidade para realçar os antigos e venerados costumes da liberdade romana. Mas o poder está a migrar ainda hoje, e consequentemente as eleições estão a degenerar para nós na farsa que eram em Roma. O dinheiro organiza o processo no interesse daqueles que o possuem, e as eleições tornam-se um jogo pré-concertado que é encenado como auto-determinação popular. Se a eleição foi originariamente revolução em formas legítimas, esgotou essas formas, e o que acontece é que a humanidade volta a “eleger” o seu destino pelo método primitivo da violência quando as políticas do dinheiro se tornam intoleráveis.

Através do dinheiro, a democracia transforma-se na sua própria ruína, depois do dinheiro ter destruído o intelecto. Mas, porque a ilusão de que a actualidade pode permitir-se ser melhorada pelas ideias de um qualquer Zeno ou Marx desvaneceu, porque os homens aprenderam que no reino da realidade uma vontade-de-poder pode apenas ser derrubada por outra [ pois esse é o grande ensinamento humano dos períodos dos “Estados em Guerra” (NdT: da História da China)], desperta finalmente um profundo desejo por toda a antiga e valorosa tradição que ainda permanece viva. Os homens estão cansados e enjoados da economia-dinheiro. Anseiam por salvação de um lado qualquer, por algum sentido real de honra e cavalheirismo, de nobreza interior, de abnegação e dever. E agora amanhece o tempo em que os poderes do sangue, que o racionalismo da Megapolis havia suprimido, despertam nas profundidades. Tudo na ordem da tradição dinástica e da velha nobreza que se salvou para o futuro, tudo cuja ética desdenha o dinheiro, tudo o que é intrinsecamente firme para, nas palavras de Frederico o Grande, servir, trabalhar duramente ,sacrificar-se, cuidar do Estado, tudo o que descrevi noutra parte e numa palavra como Socialismo em contraste com Capitalismo (NdT: cf. “Prussianismo e Socialismo”. O socialismo de Spengler era tradicionalista e hierárquico, sem relação com marxismos ou socialismos liberais), tudo isto se torna, subitamente, o centro de imensas forças vitais. O Cesarismo cresce no solo da democracia mas as suas raízes penetram a fundo no subsolo da tradição do sangue.

O César Clássico derivava o seu poder do Tribunato, e a sua dignidade, e portanto a sua permanência, do facto se ser o Princeps. Também aqui a alma do antigo Gótico desperta de novo. O espírito das Ordens de Cavalaria supera a pilharia viking. Os poderosos do futuro podem possuir a terra como sua propriedade privada pois a grande forma política da Cultura está irremediavelmente em ruínas, mas não interessa, porque, por informe e ilimitado que o seu poder possa ser, tem uma tarefa. E essa tarefa é a incansável preocupação por este mundo tal como é, que é o exacto oposto do oportunismo vigente na era do poder do dinheiro, e requer elevada honra e consciência. Mas por esta mesma razão instala-se agora a batalha final entre a Democracia e o Cesarismo, entre as forças que lideram a ditadura da economia-dinheiro e a vontade-de-ordem puramente política dos Césares.(…)»

Oswald Spengler, The Decline of the West, Vol. II, London Allen & Unwin, 1918, pp 461-465

No fim da Europa

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«Confrontados com este destino, há apenas uma visão do mundo digna de nós, a que já foi mencionada como escolha de Aquiles – é melhor uma vida curta, cheia de feitos e glória, do que uma vida longa sem conteúdo. O perigo é já tão grande, para cada indivíduo, cada classe, cada nação, que acalentar qualquer ilusão é deplorável. A marcha do tempo não pode ser travada; não há retirada prudente ou renúncia inteligente. Apenas os sonhadores acreditam numa saída. O optimismo é cobardia.

Nascemos neste tempo e devemos percorrer corajosamente o caminho para o fim destinado. Não há outra maneira. O nosso dever é defender a posição perdida, sem esperança, sem salvação, como aquele soldado romano cujos restos foram encontrados junto a uma porta em Pompeia, que morreu no seu posto durante a erupção do Vesúvio porque alguém se esqueceu de o desmobilizar. Isso é grandeza. É isso que significa ter sangue nobre. O fim honroso é o que não pode ser retirado a um homem.»

Oswald Spengler, Der Mensch und die Technik, 1931, p.89

Revolução Conservadora, forma católica e “ordo aeternus” romano

A Revolução Conservadora não é somente uma continuação da «Deutsche Ideologie» romântica ou uma reactualização das tomadas de posição anti-cristãs e helenistas de Hegel (anos 1790-99) ou uma extensão do prussianismo laico e militar, mas tem também o seu lado católico romano. Nos círculos católicos, num Carl Schmitt por exemplo, como nos seus discípulos flamengos, liderados pela personalidade de Victor Leemans, uma variante da Revolução Conservadora incrusta-se no pensamento católico, como sublinha justamente um católico de esquerda, original e verdadeiramente inconformista, o Prof. Richard Faber de Berlim. Para Faber, as variantes católicas da RC renovam não com um Hegel helenista ou um prussianismo militar, mas com o ideal de Novalis, exprimido em Europa oder die Christenheit: este ideal é aquele do organon medieval, onde, pensam os católicos, se estabeleceu uma verdadeira ecúmena europeia, formando uma comunidade orgânica, solidificada pela religião.

Depois do retrocesso e da desaparição progressiva deste organon vivemos um apocalipse, que se vai acelerando, depois da Reforma, a Revolução francesa e a catástrofe europeia de 1914. Desde a revolução bolchevique de 1917, a Europa, dizem estes católicos conservadores alemães, austríacos e flamengos, vive uma Dauerkatastrophe. A vitória francesa é uma vitória da franco-maçonaria, repetem. 1917 significa a destruição do último reduto conservador eslavo, no qual haviam apostado todos os conservadores europeus desde Donoso Cortés( que era por vezes muito pessimista, sobretudo quando lia Bakunine). Os prussianos haviam sempre confiado na aliança russa. Os católicos alemães e austríacos também, mas com a esperança de converter os russos à fé romana. Enfim, o abatimento definitivo dos “estados” sociais, inspirados na época medieval e na idade barroca (instalados ou reinstalados pela Contra-Reforma) mergulha os conservadores católicos no desespero. Helena von Nostitz, amiga de Hugo von Hoffmannstahl, escreve «Wir sind am Ende, Österreich ist tot. Der Glanz, die Macht ist dahin» [« Estamos no fim, a Áustria está morta. O Esplendor e o Poder desapareceram»].

Num tal contexto, o fascismo italiano, contudo saído da extrema-esquerda intervencionista italiana, dos meios socialistas hostis à Áustria conservadora e católica, figura como uma reacção musculada da romanidade católica contra o desafio que lança o comunismo a leste. O fascismo de Mussolini, sobretudo depois dos acordos de Latran, recapitula, aos olhos destes católicos austríacos, os valores latinos, virgilianos, católicos e romanos, mas adaptando-os aos imperativos da modernidade.

É aqui que as referências católicas ao discurso de Donoso Cortés aparecem em toda a sua ambiguidade: para o polemista espanhol a Rússia arriscava converter-se ao socialismo para varrer pela violência o liberalismo decadente, como teria conseguido se tivesse mantido a sua opção conservadora. Esta evocação da socialização da Rússia por Donoso Cortés permite a certos conservadores prussianos, como Moeller van den Bruck, simpatizar com o exército vermelho, para parar a Oeste os exércitos ao serviço do liberalismo maçónico ou da finança anglo-saxónica, ainda mais porque depois do tratado de Rapallo(1922), a Reichswehr e o novo exército vermelho cooperam. O reduto russo permanece intacto, mesmo se mudou de etiqueta ideológica.

Hugo von Hoffmannstahl, em Das Schriftum als geistiger Raum der Nation [As cartas como espaço espiritual da Nação] utiliza pela primeira vez na Alemanha o termo “Revolução Conservadora”, tomando assim o legado dos russos que o haviam precedido, Dostoievski e Yuri Samarine. Para ele a RC é um contra-movimento que se opõe a todas as convulsões espirituais desde o século XVI. Para Othmar Spann, a RC é uma Contra-Renascença. Quanto a Eugen Rosenstock( que é protestante), escreve: «Um vorwärts zu leben, müssen wir hinter die Glaubensspaltung zurückgreifen» [Para continuar a viver, seguindo em frente, devemos recorrer ao que havia antes da ruptura religiosa]. Para Leopold Ziegler (igualmente protestante) e Edgard Julius Jung (protestante), era preciso uma restitutio in integrum, um regresso à integralidade ecuménica europeia, Julius Evola teria dito: à Tradição. Eles queriam dizer por aquilo que os Estados não deviam mais opor-se uns aos outros mas ser reconduzidos num “conjunto potencializador”.

Se Moeller van den Bruck e Eugen Rosenstock actuam em clubes, como o Juni-Klub, o Herren-Klub ou em círculos que gravitam em torno da revista de sociologia, economia e politologia Die Tat, os que desejam manter uma ética católica e cuja fé religiosa subjuga todo o comportamento, reagrupam-se em “círculos” mais meditativos ou em ordens de conotação monástica. Richard Feber calcula que estas criações católicas, neo-católicas ou para-católicas, de “ordens”, se efectuaram a 4 níveis:

1)No círculo literário e poético agrupado em torno da personalidade de Stefan George, aspirando a um “novo Reich”, isto é, um “novo reino” ou um “novo éon”, mais do que a uma estrutura política comparável ao império dos Habsbourg ou ao dos Hohenzollern.

2)No “Eranos-Kreis”( Círculo Eranos) do filósofo místico Derleth, cujo pensamento se inscreve na tradição de Virgílio ou Hölderlin, colocando-se sob a insígnia de uma “Ordem do Christus- Imperator”.

3)Nos círculos de reflexão instalados em Maria Laach, na Renânia-Palatinado, onde se elaborava uma espécie de neo-catolicismo alemão sob a direcção do teólogo Peter Wust, comparável, em muitos aspectos, ao “Renouveau Catholique” de Maritain na França (que foi próximo, a dado momento, da Acção Francesa) e onde a fé se transmitia aos aprendizes particularmente por uma poesia derivada dos cânones e das temáticas estabelecidas pelo “Circulo” de Stefan George em Munique-Schwabing desde os anos 20.

4)Nos movimentos de juventude, mais ou menos confessionais ou religiosos, particularmente nas suas variantes “Bündisch”, bom número de responsáveis desejavam introduzir, por via das suas ligas ou das suas tropas, uma “teologia dos mistérios”.

As variantes católicas ou catolizantes, ou pós-católicas, preconizaram então um regresso à metafísica política, no sentido em que queriam uma restauração do “Ordo romanus”, “Ordem romana”, definida por Virgílio como “Ordo aeternus”, “ordem eterna”. Este catolicismo apelava à renovação com esse “Ordo aeternus” romano que, na sua essência, não era cristão mas a expressão duma paganização do catolicismo, explica-nos o cristão católico de esquerda Richard Faber, no sentido em que, neste apelo à restauração do “Ordo romanus/aeternus”, a continuidade católica não é já fundamentalmente uma continuidade cristã mas uma continuidade arcaica. Assim, a “forma católica” veicula, cristianizando-a (na superfície?), a forma imperial antiga de Roma, como assinalou igualmente Carl Schmitt em Römischer Katholizismus und politische Form (1923). Nessa obra, o politólogo e jurista alemão lança de alguma maneira um duplo apelo: à forma (que é essencialmente, na Europa, romana e católica, ou seja, universal enquanto imperial e não imediatamente enquanto cristã) e à Terra (esteio incontornável de toda a acção política), contra o economicismo volúvel e hiper-móvel, contra a ideologia sem esteio que é o bolchevismo, aliado objectivo do economicismo anglo-saxónico.

Para os proponentes deste catolicismo mais romano que cristão, para um jurista e constitucionalista como Schmitt, o anti-catolicismo saído da filosofia das Luzes e do positivismo cienticista( referências do liberalismo) rejeita de facto esta matriz imperial e romana, este primitivismo antigo e fecundo, e não o eudemonismo implícito do cristianismo. O objectivo desta romanidade e desta “imperialidade” virgiliana consiste no fundo, queixa-se Faber, que é um anti-fascista por vezes demasiado militante, em meter o catolicismo cristão entre parênteses para mergulhar directamente, sem mais nenhum derivativo, sem mais nenhuma pseudo-morfose (para utilizar um vocábulo spengleriano), no “Ordo aeternus”.

Na nossa óptica este discurso acaba ambíguo, porque há confusão permanente entre Europa e Ocidente. Com efeito, depois de 1945, o Ocidente, vasto receptáculo territorial oceânico-centrado, onde é sensato recompor o “Ordo romanus” para estes pensadores conservadores e católicos, torna-se a Euroamérica, o Atlantis: paradoxo difícil de resolver, porque como ligar os princípios “térreos” (Schmitt) e os da fluidez liberal, hiper-moderna e economicista da civilização “estado-unidense”?

Para outros, entre o Oriente bolchevizado e pós-ortodoxo e o Hiper-Ocidente fluido e ultra-materialista, deve erguer-se uma potência “térrea”, justamente instalada sobre o território matricial da “imperialidade” virgiliana e carolíngia, e esta potência é a Europa em gestação. Mas com a Alemanha vencida, impedida de exercer as suas funções imperiais pós-romanas uma translatio imperii (translação do império) deve operar-se em beneficio da França de De Gaulle, uma translação imperii ad Gallos, temática em voga no momento da reaproximação entre De Gaulle e Adenauer e mais pertinente ainda no momento em que Charles De Gaulle tenta, no curso dos anos 60, posicionar a França “contra os impérios”, ou seja, contra os “imperialismos”, veículos da fluidez mórbida da modernidade anti-política e antídotos para toda a forma de fixação estabilizante (NdT. Daqui presume-se uma distinção entre imperialismo e imperialidade, daí o uso dos dois conceitos).

Se Eric Voegelin tinha teorizado um conservantismo em que a ideologia derivava da noção de “Ordo romanus”, ele colocava o seu discurso filosófico-político ao serviço da NATO, esperando deste modo uma fusão entre os princípios “fluidos” e “térreos” (NdT. naturalmente esta dicotomia que o autor usa recorrentemente no texto é uma referência à tradicional oposição entre ordenamentos marítimos e terrestres) , o que é uma impossibilidade metafísica e prática. Se o tandem De Gaulle-Adenauer se referia também, sem dúvida, no topo, a um projecto derivado da noção de “Ordo aeternus”, colocava o seu discurso e as suas práticas, num primeiro momento (antes da viagem de De gaulle a Moscovo, à América Latina e antes da venda dos Mirage à Índia e do famosos discursos de Pnom-Penh e do Quebeque), ao serviço de uma Europa mutilada, hemiplégica, reduzida a um “rimland” atlântico vagamente alargado e sem profundidade estratégica. Com os últimos escritos de Thomas Molnar e de Franco Cardini, com a reconstituição geopolítica da Europa, este discurso sobre o “Ordo romanus et aeternus” pode por fim ser posto ao serviço de um grande espaço europeu, viável, capaz de se impor sob a cena internacional. E com as proposições de um russo como Vladimir Wiedemann-Guzman, que percepciona a reorganização do conjunto euro-asiático numa “imperialidade” bicéfala, germânica e russa, a expansão grande-continental está em curso, pelo menos no plano teórico. E para terminar, parafraseando De Gaulle: A estrutura administrativa acompanhá-la-á?

Robert Steuckers

Armin Mohler – Discípulo de Sorel e teórico da vida concreta

O “mito” surge espontaneamente e exerce um efeito mobilizador sobre as massas, incute-lhes uma “fé” e torna-as capazes de actos heróicos, funda uma nova ética: essas são as pedras angulares do pensamento de Georges Sorel( 1847- 1922). Este teórico político, pelos seus artigos e pelos seus livros, publicados antes da primeira guerra mundial, exerceu uma influência perturbante tanto sobre os socialistas como sobre os nacionalistas.

Contudo, o seu interesse pelo mito e a sua fé numa moral ascética foram sempre – e continuam a sê-lo apesar do tempo que passa – um embaraço para a esquerda, da qual ele se declarava. Podemos ainda observar esta reticência nas obras publicadas sobre Sorel no fim dos anos 60. Enquanto algumas correntes da nova esquerda assumiram expressamente Sorel e consideravam que a sua apologia da acção directa e as suas concepções anarquizantes, que reclamavam o surgimento de pequenas comunidades de “produtores livres”, eram antecipações das suas próprias visões, a maioria dos grupos de esquerda não via em Sorel mais que um louco que se afirmava influenciado por Marx inconscientemente e que trazia à esquerda, no seu conjunto, mais dissabores que vantagens. Jean-Paul Sartre contava-se assim, evidentemente, entre os adversários de Sorel, trazendo-lhes a caução da sua notoriedade e dando, ipso facto, peso aos seus argumentos.

Quando Armin Mohler, inteiramente fora dos debates que agitavam as esquerdas, afirmou o seu grande interesse pela obra de Sorel, não foi porque via nele o “profeta dos bombistas”( Ernst Wilhelm Eschmann) nem porque acreditava, como Sorel esperara no contexto da sua época, que o proletariado detivesse uma força de regeneração, nem porque estimava que esta visão messiânica do proletariado tivesse ainda qualquer função. Para Mohler, Sorel era um exemplo sobre o qual meditar na luta contra os efeitos e os vectores da decadência. Mohler queria utilizar o “pessimismo potente” de Sorel contra um “pessimismo debilitante” disseminado nas fileiras da burguesia.

Rapidamente Mohler criticou a “concepção idílica do conservantismo”. Ao reler Sorel percebeu que é perfeitamente absurdo querer tudo “conservar” quando as situações mudaram por todo o lado. A direita intelectual não deve contentar-se em pregar simplesmente o bom-senso contra os excessos de uma certa esquerda, nem em pregar a luz aos partidários da ideologia das Luzes; não, ela deve mostrar-se capaz de forjar a sua própria ideologia, de compreender os processos de decadência que se desenvolvem no seu seio e de se desembaraçar deles, antes de abrir verdadeiramente a via a uma tradução concreta das suas posições.

Uma aversão comum aos excessos da ética da convicção

Quando Mohler esboça o seu primeiro retrato de Sorel, nas colunas da revista Criticón, em 1973, escreve sem ambiguidades que os conservadores alemães deveriam tomar esse francês fora do comum como modelo para organizar a resistência contra a “desorganização pelo idealismo”.Mohler partilhava a aversão de Sorel contra os excessos da ética da convicção. Vimo-la exercer a sua devastação na França de 1890 a 1910, com o triunfo dos dreyfusards e a incompreensão dos Radicais pelos verdadeiros fundamentos da Cidade e do Bem Comum, vimo-la também no final dos anos 60 na República Federal, depois da grande febre “emancipadora”, combinada com a vontade de jogar abaixo todo o continuum histórico, criminalizando sistematicamente o passado alemão, tudo taras que tocaram igualmente o “centro” do tabuleiro político.

Para além destas necessidades do momento, Mohler tinha outras razões, mais essenciais, para redescobrir Sorel. O anti-liberalismo e o decisionismo de Sorel haviam impressionado Mohler, mais ainda do que a ausência de clareza que recriminamos no pensamento soreliano. Mohler pensava, ao contrário, que esta ausência de clareza era o reflexo exacto das próprias coisas, reflexo que nunca é conseguido quando usamos uma linguagem demasiado descritiva e demasiado analítica. Sobretudo “quando se trata de entender elementos ou acontecimentos muito divergentes uns dos outros ou de captar correntes contrárias, subterrâneas e depositárias”. Sorel formulou pela primeira vez uma ideia que muito dificilmente se deixa conceptualizar: as pulsões do homem, sobretudo as mais nobres, dificilmente se explicam, porque as soluções conceptuais, todas feitas e todas apropriadas, que propomos geralmente, falham na sua aplicação, os modelos explicativos do mundo, que têm a pretensão de ser absolutamente completos, não impulsionam os homens em frente mas, pelo contrário, têm um efeito paralisante.

Ernst Jünger, discípulo alemão de Georges Sorel

Mohler sentiu-se igualmente atraído pelo estilo do pensamento de Sorel devido à potencialidade associativa das suas explicações. Também estava convencido que este estilo era inseparável da “coisa” mencionada. Tentou definir este pensamento soreliano com mais precisão com a ajuda de conceitos como “construção orgânica” ou “realismo heróico”. Estes dois novos conceitos revelam a influência de Ernst Jünger, que Mohler conta entre os discípulos alemães de Sorel. Em Sorel, Mohler reencontra o que havia anteriormente descoberto no Jünger dos manifestos nacionalistas e da primeira versão do Coração Aventureiro (1929): a determinação em superar as perdas sofridas e, ao mesmo tempo, a ousar qualquer coisa de novo, a confiar na força da decisão criadora e da vontade de dar forma ao informal, contrariamente às utopias das esquerdas. Num tal estado de espírito, apesar do entusiasmo transbordante dos actores, estes permanecem conscientes das condições espacio-temporais concretas e opõem ao informal aquilo que a sua criatividade formou.

O “afecto nominalista”

O que actuava em filigrana, tanto em Sorel como em Jünger, Mohler denominou “afecto nominalista”, isto é, a hostilidade a todas as “generalidades”, a todo esse universalismo bacoco que quer sempre ser recompensado pelas suas boas intenções, a hostilidade a todas as retóricas enfáticas e burlescas que nada têm a ver com a realidade concreta. É portanto o “afecto nominalista” que despertou o interesse de Mohler por Sorel. Mohler não mais parou de se interessar pelas teorias e ideias de Sorel.

Em 1975 Mohler faz aparecer uma pequena obra sucinta, considerada como uma “bio-bibliografia” de Sorel, mas contendo também um curto ensaio sobre o teórico socialista francês. Mohler utilizou a edição de um fino volume numa colecção privada da Fundação Siemens, consagrado a Sorel e devida à pluma de Julien Freund, para fazer aparecer essas trinta páginas (imprimidas de maneira tão cerrada que são difíceis de ler!) apresentando pela primeira vez ao público alemão uma lista quase completa dos escritos de Sorel e da literatura secundária que lhe é consagrada. A esta lista juntava-se um esboço da sua vida e do seu pensamento.

Nesse texto, Mohler quis em primeiro lugar apresentar uma sinopse das fases sucessivas da evolução intelectual e política de Sorel, para poder destacar bem a posição ideológica diversificada deste autor. Esse texto havia sido concebido originalmente para uma monografia de Sorel, onde Mohler poria em ordem a enorme documentação que havia reunido e trabalhado. Infelizmente nunca a pôde terminar. Finalmente, Mohler decidiu formalizar o resultado das suas investigações num trabalho bastante completo que apareceu em três partes nas colunas da Criticón em 1997. Os resultados da análise mohleriana podem resumir-se em 5 pontos:

Uma nova cultura que não é nem de direita nem de esquerda:

1-Quando falamos de Sorel como um dos pais fundadores da Revolução Conservadora reconhecemos o seu papel de primeiro plano na génese deste movimento intelectual que, como indica claramente o seu nome, não é “nem de direita nem de esquerda” mas tenta forjar uma “nova cultura” que tomará o lugar das ideologias usadas e estragadas do século XIX. Pelas suas origens este movimento revolucionário-conservador é essencialmente intelectual: não pode ser compreendido como simples rejeição do liberalismo e da ideologia das Luzes.

2-Em princípio, consideramos que os fascismos românicos ou o nacional-socialismo alemão tentaram realizar este conceito, mas estas ideologias são heresias que se esquecem de levar em consideração um dos aspectos mais fundamentais da Revolução Conservadora: A desconfiança em relação às ideias que evocam a bondade natural do homem ou crêem na “viabilidade” do mundo. Esta desconfiança da RC é uma herança proveniente do velho fundo da direita clássica.

3-A função de Sorel era em primeiro lugar uma função catalítica, mas no seu pensamento encontramos tudo o que foi trabalhado posteriormente nas distintas famílias da Revolução Conservadora: o desprezo pela “pequena ciência” e a extrema valorização das pulsões irracionais do homem, o cepticismo em relação a todas as abstracções e o entusiasmo pelo concreto, a consciência de que não existe nada de idílico, o gosto pela decisão, a concepção de que a vida tranquila nada vale e a necessidade de “monumentalidade”.

Não há “sentido” que exista por si mesmo.

4-Nesta mesma ordem de ideias encontramos também esta convicção de que a existência é desprovida de sentido (sinnlos), ou melhor: a convicção de que é impossível reconhecer com certeza o sentido da existência. Desta convicção deriva a ideia de que nunca fazemos mais que “encontrar” o sentido da existência forjando-o gradualmente nós próprios, sob a pressão das circunstâncias e dos acasos da vida ou da História, e que não o “descobrimos” como se ele sempre tivesse estado ali, escondido por detrás do ecrã dos fenómenos ou epifenómenos. Depois, o sentido não existe por si mesmo porque só algumas raras e fortes personalidades são capazes de o fundar, e somente em raras épocas de transição da História. O “mito”, esse, constitui sempre o núcleo central de uma cultura e compenetra-a inteiramente.

5-Tudo depende, por fim, da concepção que Sorel faz da decadência – e todas as correntes da direita, por diferentes que sejam umas das outras, têm disso unanimemente consciência – concepção que difere dos modelos habituais; nele é a ideia de entropia ou a do tempo cíclico, a doutrina clássica da sucessão constitucional ou a afirmação do declínio orgânico de toda a cultura. Em «Les Illusions du progrès» Sorel afirma:” É charlatanice ou ingenuidade falar de um determinismo histórico”. A decadência equivale sempre à perda da estruturação interior, ao abandono de toda a vontade de regeneração. Sem qualquer dúvida, a apresentação de Sorel que nos deu Mohler foi tornada mais mordaz pelo seu espírito crítico.

Uma teoria da vida concreta imediata

Contudo, algumas partes do pensamento soreliano nunca interessaram Mohler. Nomeadamente as lacunas do pensamento soreliano, todavia patentes, sobretudo quando se tratou de definir os processos que deveriam ter animado a nova sociedade proletária trazida pelo “mito”. Mohler absteve-se igualmente de investigar a ambiguidade de bom número de conceitos utilizados por Sorel. Mas Mohler descobriu em Sorel ideias que o haviam preocupado a ele também: não se pode, pois, negar o paralelo entre os dois autores. As afinidades intelectuais existem entre os dois homens, porque Mohler como Sorel, buscaram uma “teoria da vida concreta imediata” (recuperando as palavras de Carl Schmitt).

Dr. Karlheinz Weissmann,Junge Freiheit, n°15/2000