Categoria: Tradição e Espiritualidade

Nocturne

Sejamos pagãos!

Definição

Muitos crêem que viver de forma pagã consiste em dar liberdade aos seus instintos, desfazer-se de toda a ideia de pecado ou exame de consciência, comer bem, beber bem e copular melhor, ou melhor dito, um paganismo de “boulevard” no qual se alude aos actos antigos do culto a Dionísio – bacanais, embriaguez – sem advertir que aquela era a época de decadência do império grego, como também a orgiástica oriental que já foge à norma.

O paganismo é todo o contrário e põe entre o homem e o universo uma relação fundamentalmente religiosa. O paganismo é uma fé que repousa sobre a ideia do sagrado, e sagrado quer dizer respeito incondicional por alguma coisa. O paganismo não é o retorno ao passado, à origem pura, pois o antiquado cai por si mesmo; trata-se de voltar a unir a história com o hoje, unir-nos ao eterno, fazê-lo refluir, voltar à escola do mythos e da vida (Hölderlin).

O paganismo está em conformidade com as leis gerais do que é vivo.

Concepção Pagã

São pagãos todos os que dizem “sim à vida”, por isso Deus é a palavra que expressa o grande sim a todas as coisas (F. Nietzsche, o Anticristo, p.102).

Não se pode discutir que o homem é um animal, um ser físico, porém há dentro dele uma parte metafísica.

No paganismo o mundo, não sendo outro que Deus, é também perfeito e vice-versa, Deus é também imperfeito tal como é o mundo; ademais disso há uma importante visão da criação, para o pagão ao começo foi a Acção (Goethe), enquanto que em outras religiões ao começo foi o Verbo.

Não há necessidade de acreditar em Júpiter ou em Wotan para ser pagão, não há que erigir altares a Apolo ou ressuscitar o culto a Thor; implica buscar por trás da religião a maquinaria mental onde se produz o universo interior que reflecte a forma de conceber o mundo que denota considerar o seguinte:

Deuses: Centros de Valores
Crenças: Sistemas de Valores

Os Deuses e as crenças passam, porém, os valores permanecem.

Valores

Pode-se citar uma lista enorme que justifica o papel decisivo dessa fé dentro dos grandes impérios que existiram na antiguidade, entre eles:

– Ética fundamentada sobre a Honra.
– Atitude heróica diante de inconvenientes da existência.
– Exaltação e sacralização do mundo.
– A Beleza.
– O Corpo.
– A Força e a Saúde.
– Recusa dos paraísos e infernos.
– Inseparabilidade entre estética e moral.

O paganismo não poderia separar o bom do belo e isto é bastante normal, posto que o bom é acima de tudo o conjunto de formas mais excelentes deste mundo. Para os gregos a arte era a forma mais elevada sob a qual o povo representava os Deuses.

O valor de um povo ou de um homem mede-se por seu poder de colocar sobre sua experiência o selo da eternidade (Nietzsche).

Quando Paulo entra em Atenas para tratar de retirar ao povo as suas convicções ancestrais, descreve a cidade como cheia de ídolos (Actos 17), no meio desses ídolos há estátuas de divindades (17-29), porém também de filósofos, epicuristas e estóicos. O que não impede Paulo de declarar: “Atenienses, em todos os conceitos, vós sois os mais religiosos dos homens.”

Paganismo – Religião

O paganismo tem familiaridade com as religiões indo-europeias antigas (história, teologia, simbolismo, mitos, etc.). Não se trata de acumular conhecimentos das diferentes províncias da Europa pré-cristã, trata-se de identificar estas crenças, suas projecções e transposições aos valores que nos concernem enquanto herdeiros de uma cultura.

A religiosidade cósmica “pagã” está vinculada à ideia de que a vida não nunca morre, que se renova sem cessar, que a história pode regenerar-se a si mesma, que há uma eterna solidariedade dialéctica entre a vida e a morte, entre o começo e o fim, entre o homem e os Deuses, daí os sacrifícios oferecidos pelos pagãos.

A religião é indissociável do costume pagão.

A religião pagã regula situações de interesse colectivo, dedica especial atenção à pessoa tendo em conta as suas raízes, logo, no paganismo a pessoa é inseparável de sua raça e de sua família.

Politeísmo vs. Monoteísmo

O politeísmo é a visão política do “mais além”, já que nele se recorre ao pluralismo, procurando a verdadeira identidade do homem com a natureza. Há continuidade entre os seres mais humildes da natureza e os Deuses mais elevados; isto não implica igualdade, ao contrário, formam-se grupos separados e hierarquizados.

No monoteísmo todos os homens são iguais na medida em que foram criados por um único deus e não por vários.

Para o monoteísta é fundamental o perdão das ofensas e o apelo da face esquerda que se estende depois de ter sido golpeada a direita.

O politeísta apela ao “adversário fraterno”, e ambos criam o “duelo”, no qual a guerra religiosa e a luta de classes fica excluída. Prova: David mata Golias à traição.

Para o monoteísta não crer no seu deus é servir o diabo, é o ápice da blasfémia.

Para o politeísta não existe definição objectiva do mal.

No monoteísmo Deus é o único criador e criou os homens.

No politeísmo o homem cria os seus Deuses à sua imagem, dos quais oferece uma representação sublimada. Os homens superando-se a si mesmos.

O deus cristão afirma “meu reino não é deste mundo” (João 18 – 36).

O pagão acredita que um Deus que não pertence a este mundo não é um Deus, já que Deus é o elemento único e distinto deste mundo.

No monoteísmo tem-se a ideia de um deus déspota, ciumento, soberbo, o qual se considera perfeito.

O judaico-cristianismo é uma religião sem mitos.

O odinismo, o celtismo, o hinduísmo, entre outras religiões, são ricas em mitos e são os mitos que reflectem o mundo e o sacralizam.

No politeísmo os Deuses combatem com os homens e também entre eles – a Ilíada. Zeus e Odin são soberanos, não déspotas. Cria-se também a figura do herói, que é um intermediário entre os dois níveis, quer dizer, um semideus.

Os Deuses são homens imortais e os homens são Deuses mortais. Nossa vida é a sua morte e a nossa morte é a sua vida.

Para os cristãos o mundo é “um vale de lágrimas”; para os judeus entre deus e a criação há um vazio.

Para os pagãos a consciência humana pertence ao mundo, pelo que não se encontra dissociada da substância de Deus.

Para o cristão não há curiosidade por nada após ter encontrado a Jesus Cristo.

O pagão não põe limites na sua espiritualidade.

Em resumo, o mártir monoteísta é o extremo oposto do herói pagão. O monoteísta não pode ser orgulhoso, deve ser humilde e rogar por um espaço no céu, enquanto que o pagão é orgulhoso e irrompe no mais além reclamando o seu pedaço de “céu”.

A ideia de que um ser humano possa converter-se após a morte em alguém semelhante a um Deus era corrente na antiguidade e assim demonstram-no grande número de inscrições sobre pedras sepulcrais das épocas helenística e romana. O paganismo de hoje propõe ao homem, no curso de sua vida, a superação sobre si mesmo e participar assim da substância divina. O homem, se foi criado, deverá ultrapassar seu criador da maneira que os filhos ultrapassam seus pais.

Caim foi um homem da revolução neolítica, agricultor enraizado à terra que Jeová amaldiçoou por causa de Adão. Como seu pai Adão, Caim faz prova de orgulho e é por essa razão que é condenado. A morte de Abel não é senão a recusa de Caim em humilhar-se e arrepender-se. Caim foi pois homem civilizador por excelência; dizer-se filho de Caim é dizer-se homem de cultura e civilização.

O paganismo não pode menos que reagir contra o tema cristão da depravação do homem pelo pecado original. Pelo contrário, o homem pode conferir um sentido à sua vida, que não tem que ser lavado de um pecado original hereditário pela mediação de um redentor. O homem, segundo o pensamento pagão, deve assim conhecer a possibilidade de uma união consubstancial com o divino.

Não se trata pois de pôr o homem no lugar de Deus. O homem não é Deus. O homem não deve ambicionar converter-se em Deus, senão, imitando os Deuses, tornar-se como os Deuses.

A intolerância dos povos semíticos é a consequência necessária de seu monoteísmo. Os povos indo-europeus, antes de sua conversão às ideias semíticas, não haviam tomado jamais sua religião como a verdade absoluta, senão como uma espécie de herança de família ou de casta, estranha ao proselitismo.

O paganismo, ao contrário do monoteísmo, é tolerante por natureza e sempre induz à comparação. Enquanto que na época antiga a luta do monoteísmo contra a idolatria autoriza o assassinato (Deut. 13, 7-10).

Conclusão

Na medida em que tudo que é grande e forte era concebido como sobre-humano, como estranho ao homem, o homem reduzia-se e repartia entre duas esferas seus aspectos: um detestável e débil, outro forte e surpreendente. À primeira esfera chama-se homem, e à segunda chama-se Deus (Nietzsche).

Sejamos livres!
Sejamos selvagens!
Sejamos pagãos!

Alain de Benoist (traduzido para português em Legio Victrix e com ligeiras adaptações minhas)

A lição de Sarpédon

(O Sono e a Morte levando o corpo de Sarpédon da Lícia, Johann Heinrich Füssli, 1803)

“Glauco, por que razão nós dois somos os mais honrados
com lugar de honra, carnes e taças repletas até cima
na Lícia, e todos nos miram como se fossemos deuses?
Somos proprietários de um grande terreno nas margens do Xanto,
belo terreno de pomares e de searas dadoras de trigo.
Por isso é nossa obrigação colocarmo-nos entre os dianteiros
dos Lícios para enfrentarmos a batalha flamejante,
para que assim diga algum dos Lícios de robustas couraças:
‘Ignominiosos não são os nossos reis que governam
a Lícia, eles que comem as gordas ovelhas e bebem
vinho selecto, doce como mel; pois sua força é também
excelente, visto que combatem entre os dianteiros dos Lícios’.
Meu amigo, se tendo fugido desta guerra pudéssemos
viver para sempre isentos de velhice e imortais,
nem eu próprio combateria entre os dianteiros
nem te mandaria a ti para a refrega glorificadora de homens.
Mas agora, dado que presidem os incontáveis destinos
da morte de que nenhum homem pode fugir ou escapar,
avancemos, quer outorguemos glória a outro, ou ele a nós.”

Ilíada, XII, 310-325, Edições Cotovia, tradução de Frederico Lourenço

A Íliada e a Odisseia, os verdadeiros livros sagrados ou religiosos dos europeus, como os definiu Dominique Venner, estão permeadas, em todos os momentos, por uma metafísica aristocrática e trágica, anti-igualitária, com homens superiores que lideram as massas pelo exemplo da sua coragem nos momentos mais difíceis, que vivem pela palavra dada e pela lealdade aos camaradas, rejeitando concepções absolutistas do bem e do mal, e rejeitando uma salvação de tipo bíblico, apocalíptica, a ocorrer no final dos tempos para os humildes e fracos… antes pelo contrário, ali os homens “salvam-se”, ou melhor, imortalizam-se, pela grandeza na batalha, na das armas e nas da vida.

O trecho que citámos, que é o discurso de Sarpédon a Glauco, é um exemplo claro dessa ética que atravessa a poesia épica europeia, e nomeadamente a homérica.

“Glauco, filho de Hipóloco, era um dos melhores guerreiros dentre os lícios, e lutava sempre ao lado de Sarpédon, rei dos lícios e filho de Zeus. Depois da morte deste, passou a comandar as hostes lícias, até à derrota final de Tróia.” (Wikipedia)

O discurso de Sarpédon, que era rei, lembrará a Glauco que um verdadeiro espírito aristocrático não é questão de berço nem de título, mas de provas dadas nas frentes de combate que o destino impõe. E Glauco, depois da morte do seu rei e camarada, demonstrará estar à altura daquela lição.

Da elite não é o general ou o líder que está “estrategicamente” na retaguarda, é o que avança à frente dos demais e não recua quando os outros pensam fugir.

Na segunda parte deste excerto da Ilíada podemos verificar que ao contrário da moral bíblica, que determina as acções em função de uma lógica privada e pessoal de culpa, pecado, perdão e redenção, a ética homérica (ou europeia clássica) desconhece esses conceitos: é uma ética de vergonha e glória. O herói homérico age impulsionado, não pela culpa ou pela necessidade de perdão, mas pela vontade de manter a face, de andar de cabeça erguida e orgulhoso perante os seus, de não sentir vergonha dos seus actos, de não ser apontado como um cobarde, e a sua imortalidade, por essa mesma razão, é conquistada pela glória que alcança quando chamado a enfrentar o destino mais árduo. Interessa-lhe deixar como herança aos seus descendentes uma memória de bravura, um nome de que se orgulhem.

Enquanto a moral bíblica espera um deus que vem oferecer a salvação aos dóceis e humildes, que para tal devem viver a pedir perdão pelos seus supostos pecados, para aliviarem as suas culpas e mostrarem arrependimento, na ética clássica europeia são os duros e orgulhosos que se elevam eles próprios, pela grandeza das suas acções, à altura dos deuses.

Atenas ou Jerusalém?

« (…) No seu famoso ensaio: “Jerusalém e Atenas: algumas reflexões preliminares”, Leo Strauss refere-se à civilização ocidental como oscilando entre dois pólos de sabedoria: Atenas, a polis, o berço da democracia, onde, sob o reino da razão, a filosofia, a arte e a ciência foram veneradas; e Jerusalém – a cidade de Deus, onde é a Lei de Deus que fornece as verdades acima da razão. O homem ocidental, segundo Leo Strauss, é construído de forma complementar tanto pela fé bíblica como pelo pensamento grego. Eu defendo que estão condenadas ao fracasso todas as tentativas de reconciliar o imperativo judaico de “primeiro age e depois ouve” com o desejo grego de, acima de tudo, “compreender”. Não é Atenas e Jerusalém, mas, pelo contrário, ou Atenas ou Jerusalém. Para refutar a visão comum que traça o choque entre Atenas e Jerusalém à guerra macabeana, onde o monoteísmo judaico venceu a batalha contra o paganismo helénico, argumento que a disparidade entre Atenas e Jerusalém está gravada na divisão primordial entre o que cultiva o solo e o pastor que deambula. É a rivalidade bíblica entre Caim, o habitante, significando o desejo de enraizamento, contra Abel o deambulante.

O mito da autoctonia associa Atenas com o enraizamento (Bodenstandigkeit) oposta de Jerusalém, marcada pelo deambular e desenraizamento. O Velho Testamento (a voz de Jerusalém) diz-nos que Deus prefere o sacrifício de Abel à oferta de Caim. “Aconteceu que no fim de uns tempos trouxe Caim do fruto da terra uma oferta ao SENHOR. Abel, por sua vez, trouxe das primícias do seu rebanho e da gordura deste. Agradou-se o SENHOR de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou”. É evidente que a bíblia se inclina constantemente para o lado do deambulante. Por isso, até certo ponto, a bíblia deve ser vista como um subtexto para entender a história judaica, onde a narrativa de deambulação e exílio já está presente. Estranhamente, esta convergência implícita entre a repetitiva história judaica de deambulação e exílio tal como antecipada pela narração bíblica é enturvada e desconsiderada. Quando se pergunta aos estudiosos bíblicos: Por que é que não há um único indício que possa dar uma pista sobre a preferência arbitrária que Deus tem por Abel sobre Caim, insistem em apresentar esta história como um exemplo da conduta inexplicável de Deus. Não é preciso ser-se um estudioso da bíblia para descobrir que a história de Caim e Abel é meramente um sinistro prólogo para outras histórias bíblicas que se seguirão.

O mito da autoctonia (onde auto se refere ao que é nosso) e ctonia (denota a raiz da Terra) deve ser empregue como uma “Pedra de Roseta” para uma leitura alternativa da história de antagonismo entre o hebraísmo e o helenismo. O mito que edificou o povo de Atenas como os filhos da terra, opõe-se à narrativa principal da bíblia, onde, sob o comando de Deus, Abraão foi compelido a abandonar “a sua terra, as sua parentela, a casa de seu pai, para ir para Canaã”. O lamento de Abraão:” Estrangeiro e peregrino sou entre vós” carimba 3000 anos de história judaica. Com o reavivar do legado grego, as ideologias volkisch (mais tarde ofuscadas pelo nacionalismo) restauraram o conceito de autoctonia. Portanto, a batalha entre o judaísmo e o helenismo vai para além do paganismo contra o monoteísmo, até à percepção dos deuses da terra e do céu, que estão perto de nós, em nós e connosco – em contraste com o deus ausente transcendente judaico. (…)

É o deus judaico que diz a Adão: “maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida”. É assim que começa a odisseia da deambulação, do cosmopolitismo, do internacionalismo, do livre-mercado e da economia globalizada. As questões que devem ser colocadas são: Como é que aconteceu que o mundo intelectual seja totalmente dominado pelos filósofos de Jerusalém enquanto a voz de Atenas é silenciada? É o medo do fascismo que causa um esquecimento do “ser”? A cegueira do politicamente correcto está a conduzir-nos por um traiçoeiro caminho de escuridão? (…)»

Excerto de um brilhante ensaio da Dr.ª Ariella Atzmon, ela própria judia, sobre o verdadeiro espírito europeu, a oposição entre duas concepções do mundo, representadas por Atenas e Jerusalém respectivamente, a filosofia de Heidegger e a crítica dos desvios do nazismo em relação ao que poderia ter representado.

Uma concepção estética da vida

Os povos europeus enganam-se de cada vez que querem fazer tábua rasa do passado. O seu drama foi terem sido cristianizados… e contudo o cristianismo que eles modelaram, melhor ou pior, para o adaptar ao seu génio próprio, faz parte integrante da sua herança. Mas sabemos que esta religião estrangeira contribuiu para desencantar o nosso mundo. Ela continha em si todos os germes da decadência e eis que, há cerca de meio século, a Igreja decidiu regressar aos miasmas originais do Evangelho: o igualitarismo e o universalismo. Esta ideia de igualdade universal acabou por se laicizar na ideologia dos direitos do homem. Depois de ter contribuído para a queda do Império romano, o cristianismo está em vias de nos minar a partir do interior. E pouco importa que já não haja muita gente na missa, já que a mensagem, recuperada por gentes que se enchem de laicidade, é-nos infligida todos os dias na televisão, nos outros Media e nos bancos de escola.

Como sair deste impasse? A nossa missão não é criar uma nova religião que, nestes tempos de confusão mental, arriscar-se-ia a não ser mais do que uma seita entre tantas outras. Se os europeus conseguirem não desaparecer, reencontrarão um dia as vias do sagrado. Enquanto esperamos é o combate pela sobrevivência que deve mobilizar todas as nossas energias, combate que deve ser travado com as ideias claras, sem nos enganarmos no inimigo.

Ora, dizer-se pagão é, hoje em dia, a única maneira de recusar o igualitarismo cristão e a sua moral do pecado, de substituir as funestas noções de Bem e Mal pelas de Belo e Feio. O Belo e o Feio são noções relativas, que podem variar de uma cultura para outra, mas na Europa, cada um sabe – ou sabia – o que é um belo gesto, uma bela acção, uma bela alma ou uma bela obra. A sabedoria popular diz que não é bonito mentir. Aos jogadores violentos preferimos os que jogam bonito. Diremos de um velho que tem o olhar belo. De uma pessoa fisicamente feia que tem nela uma beleza interior. O que é belo não pode ser mau. Toda a história europeia está impregnada desta concepção estética da vida, indissociável do sentido de honra. E aquilo que mais reprovo na nossa sociedade actual é de nos querer impor o feio: o Centro Beaubourg, a Ópera da Bastilha, a pintura de Picasso e a arte moderna em geral, a música rap, techno, uma certa moda, etc. Ora, tudo o que é feio é pernicioso, porque todos os horrores que somos hoje chamados a admirar têm por função corroer os valores e destruir as referências sem as quais a civilização europeia não teria nunca atingido os cumes que lhe reconhecemos.

Jean-Claude Valla (via Le chemin sous les buis)

Solstício de Junho

Apolo rei,
Tu que reges e governas todas as coisas na sua identidade,
Tu que unes todos os seres,
Tu que harmonizas este vasto universo tão variado e múltiplo,
Ó Sol, senhor do nosso céu,
Que nos sejas propício.

Gemistos Pleto

A religiosidade arcangélica

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«Para Hans Werner Schroeder, os arcanjos, legado da tradição persa na Europa medieval, insuflam as forças cósmicas originais nas acções dos homens justos e rectos e protegem os povos contra o declínio das suas forças vivas. O arcanjo de vastas asas estendidas e protectoras, que encontramos nas mitologias avésticas e medievais-cristãs, indica o caminho, sinaliza, convida a segui-lo na sua marcha ou no seu voo sempre ascendente em direcção à luz das luzes: a força arcangélica e miguelina, afirma Emil Bock, induz uma dinâmica permanente, uma tensão perpétua em direcção à luz, ao sublime, à superação. Não se contenta nunca com o que já existe, com o que está conseguido, com o que foi acabado e encerrado; ela incita a mergulhar no porvir, a inovar, a avançar em todos os domínios, a forjar formas novas, a combater sem descanso por causas que devem ainda ser ganhas. No culto de São Miguel, o arcanjo não oferece nada aos homens que o seguem, nem vantagens materiais nem recompensas morais. O arcanjo não é consolador. Ele não está lá para evitar problemas e dificuldades. Ele não ama o conforto dos homens, porque ele sabe que com aqueles que estão mergulhados na opulência não podemos fazer nada de grande nem de luminoso.

A religião mais antiga dos povos europeus é pois esta religião de luz, de glória, de dinâmica e de esforço sobre si próprio. Ela nasceu no seio dos clãs europeus que tinham penetrado mais profundamente no coração do continente asiático (…)»

Robert Steuckers, “sur l’identité européenne”

O orgulho é virtude capital e nós não damos a outra face

«Caminhava pelo bosque, o bosque tão remoto e vasto,
A solidão sussurrava-me palavras pesadas.
Murmurava de tempos idos, quando por aqui ainda erravam os bisontes.
Sobre o pântano a águia voava alto nos ceús;
Lá o feroz lobo deixava runas de morte,
Lá o possante alce caía ainda pelas mãos do caçador.
Lá a doutrina estrangeira não tinha ainda transformado o bem no mal,
E os nobres Wotan e Freia eram ainda solenemente venerados;
Lá contava ainda a coragem do homem e não apenas o seu dinheiro,
Lá o herói defendia o seu direito com a espada reluzente;
Nem com vil palavra, nem com juramentos baratos;
Isto ensinava-me secretamente a fatal solidão.
Os nossos deuses eram ainda chamados amor e potência,
Potência gerava a vida, amor trazia o prazer.
A nossa lei era breve, a nossa lei era esta:
Amor ao amor, mas também ódio para o ódio.
A mão leal a todo o homem que se mostrava amigo,
A mão sangrenta para o canalha que se aproximava como inimigo.
(…)»

Hermann Löns, Das Osterfeuer

A verdadeira religião da Europa

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“Há uma religião do Ocidente. Essa religião é o antigo paganismo grego ou latino, celta ou germânico…esse paganismo valia os outros. Ele não está assim tão longe de nós. Nunca somos mais do que pagãos convertidos…o pagão é aquele que reconhece o divino através das suas manifestações no mundo visível”. Foi assim que em 1965 o Cardeal Jean Danielou respondeu à questão. A Europa é um continente pagão. Simplesmente ela esqueceu-o durante séculos por múltiplas razões.

Definição do paganismo

Mas o que significa então “pagão”? Cultos demoníacos e magia negra? Nostalgia estéril de esteta? Ideologia totalitária sobre fundo de exaltação da força brutal? Nada disso corresponde à realidade dos diversos paganismos da Europa tradicional. Se uma ínfima minoria de neo-pagãos pode perder-se nesse género de impasse, é lamentável, mas isso não permite caricaturar a mais antiga religião do continente, que podemos definir como a religião dos ciclos da natureza e do cosmos.

O paganismo é, por definição, cósmico e portanto eterno. Ao contrário, as religiões abraâmicas, e sobretudo o cristianismo e o islão, apesar dos seus múltiplos empréstimos dos cultos anteriores, fundam-se sobre a revelação dada pelo seu Deus ciumento num dado momento e lugar: são religiões históricas, que conhecem um começo e um final. O paganismo, quer seja celta, hindu ou shintoista (japonês), ignora essa visão segmentada do tempo e prefere uma visão cíclica. Da mesma forma, aceita a pluralidade das vias religiosas, reflexo da multiplicidade de figuras divinas: Apolo e Dionísio simbolizam polaridades aparentemente contraditórias mas bem complementares. O primeiro não é jamais imaginável sem o segundo, como o Uno não é imaginável sem o Múltiplo.

Mas, dir-me-ão, esse paganismo desapareceu há 2000 anos, vencido na Europa pela fé cristã., noutros sítios por outras revelações (o islão no norte de África e na Turquia, outrora cristãs). Os estudos históricos, cada vez mais folheados – e libertados dos preconceitos cristãos – mostram que aquilo que podemos chamar, para simplificar, paganismo europeu, nunca desapareceu e que a conversão do nosso continente fez-se muito lentamente…e sem doçura (excepto na Irlanda e na Islândia)

Conversão pela força da Europa pagã ao cristianismo

A conversão foi imposta, pelo ferro e pelo fogo. Ela estendeu-se por séculos: os lituanos, por exemplo, não foram convertidos – pela força – senão nos séculos XVI e XVII. Nas nossas regiões, os antigos cultos politeístas foram cobertos com um verniz cristão, frequentemente muito superficial.

Veja-se o culto dos santos, das fontes, das procissões, as fogueiras dos santos populares (e todo o calendário de festas), e mesmo a Trindade, muito pouco monoteísta. É apenas na Contra-Reforma, em reacção ao protestantismo, que a Igreja católica ergue uma grelha eficaz. Mas as mentalidades, o que Jung chamava o Inconsciente Colectivo, conservaram as estruturas mentais do paganismo; apenas os vocábulos mudaram. Da mesma forma, o estudo da nossa cultura mostra que na Europa todos os renascimentos foram feitos por um recurso à memória pagã: O Renascimento italiano ou francês, o Romantismo alemão, etc. Mas hoje, neste início de século XXI, face ao triunfo aparente do materialismo mais aviltante, face também à ofensiva de religiões selvagens e frequentemente exóticas (as “seitas”), face sobretudo ao islão cada vez mais massivamente presente sobre o nosso solo (com as consequências que este tipo de colonização implicam, vide a Índia ou a Macedónia), como dizer-se pagão sem passar por um excêntrico? Comecemos por criticar diversos preconceitos.

Os deuses contra o materialismo

Desde logo, paganismo não combina de todo com materialismo. Honrar os deuses, que são potências e não pessoas, não significa adorar o bezerro de ouro. Neste sentido, um pagão consequente está mais próximo de um cristão repugnado pela mercantilização do mundo do que de um consumidor satisfeito. Depois, o pagão não pode ser membro de uma qualquer “seita”, que fecha sempre os seus membros numa visão paranóica do mundo, com a sua espera do Apocalipse, o seu culto do livro único que contém todas as verdades e dos eleitos, únicos que serão salvos. O pagão vive numa relação de co-pertença com o cosmos, do qual não é nunca o centro.

O seu livro é a natureza, mesmo se admite que Homero, por exemplo, é um autor “inspirado”. O pagão não se refugia em paraísos artificiais nem em miseráveis consolações d’além-mundo (…)

O Shinto japonês é uma religião pagã. O elemento feminino ocupa aí, portanto, um lugar importante.

Para o pagão a ética é por definição trágica, feita de aceitação do destino, encarado como um desafio para provar a fidelidade à sua visão de Honra, para oferecer um nome sem mácula aos seus descendentes.

Porque o pagão situa-se numa continuidade, a da terra e dos mortos, como dizia Barrès. Ele define-se como herdeiro de um legado ancestral, que lhe cabe enriquecer e transmitir. O pagão, se tem a cabeça nas estrelas, mantém os pés bem firmados sobre a terra que é a sua, sem jamais perder o contacto com essas duas dimensões. Ele é filho da terra negra e do céu estrelado.

Face à pretensão monoteísta de deter a única verdade – e de impedir os outros de escolher o seu caminho para o divino – o pagão faz prova de tolerância, no sentido em que ele sabe, no mais profundo de si, que o caminho para o divino pode fazer-se por uma infinidade de vias.

Um tal mistério não pode nunca resumir-se a um catecismo predeterminado nem a um conjunto de gestos repetidos de maneira mecânica. Mas tolerância não significa laxismo: como tolerar tudo o que restringe a soberania do homem (as drogas, os condicionamentos ideológicos ou mediáticos, os estilos de vida doentios)? Ora, a actual sociedade ocidental, entrada numa fase de “involução” cada vez mais notória, parece comprazer-se na exaltação das modas mais dissolventes, na confusão sistemáticas das referências, na destruição de todos os laços, por exemplo familiares e comunitários.

A religião da Europa

Concluamos esta breve nota evidentemente incompleta. A religião da Europa é de essência cósmica. Ela encara o universo como eterno, sujeito a ciclos. Esse universo não é visto como estando vazio de forças nem como “absurdo” como pretendiam os niilistas. Tudo faz sentido, tudo são forças e potências impessoais regidas por uma ordem inviolável, a que os indianos chamam dharma (conceito mais tarde recuperado pelos budistas), termo que pode parecer um pouco exótico, mas que os Gregos traduzem por Kosmos: Ordem.

Depois de milénios, a nossa religião tradicional, reflexo da tradição primordial, incentiva o homem a inserir-se nessa ordem, a conhecer-lhe as leis implacáveis, a compreender o mundo na sua dupla dimensão, visível e invisível. O pagão de hoje, como há três mil anos, faz suas as divisas do Templo de Apolo em Delfos: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses” e “Nada em Excesso”.

Christopher Gérard, Revue Renaissance – Réflexion et Culture, Abril de 2002, N°5 (via Vouloir)

Armai-vos da vossa tradição primordial e lutai, homens do Ocidente

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«Sobre o ramo mais elevado de Yggdrasil (a árvore do mundo) está uma águia, e entre os olhos dessa águia está o falcão Vedfolnir. Assim, duas aves de rapina olham o mundo, noite e dia, prontas a mergulhar sobre o que ameaçar a ordem natural das coisas.

Sem parar, um esquilo, Ratatosk, corre a árvore para cima e para baixo. Ora sobe aos ramos mais elevados ora desce às raízes mais profundas. De uma bela cor laranja avermelhada, ágil e astucioso, ele procura incessantemente provocar um combate entre a águia e as serpentes.

Dos seus confrontos nasce a luta indispensável a toda a vida. O mundo é guerra. A paz, é a morte. Então, até ao fim dos tempos, incitados por Ratatosk, vão-se enfrentar a águia e a serpente, o predador do céu e o réptil da terra, aquele que plana e aquele que rasteja, a ave de luz e a besta das trevas. Assim, opõem-se a força e a manha, numa luta eterna, que não conhecerá vencedor ou vencido, porque o triunfo e a derrota são igualmente enganadores e apenas conta o combate, indissolúvel enlace da vida e da morte, do bem e do mal, da alegria e da pena.

À sombra de Yggdrasil, a águia e a serpente proclamam sem fim esta verdade primordial do Norte: o que vive, é o que luta!»

Jean Mabire, Les Dieux maudits – récits de mythologie nordique, pp.54-55, 1978.